Friday, April 6, 2012

Benfica - o que melhorar para a próxima época?


É sempre difícil, arriscado e talvez injusto analisar os pontos a melhorar numa equipa que alinhou sem nenhum dos seus defesas-centrais e que estava com dois golos de desvantagem (no conjunto das duas mãos da eliminatória) quando um dos seus melhores jogadores foi expulso. Ainda assim, embora os encarnados tenham saído de Stamford Bridge de cabeça erguida, é precisamente isso que vamos fazer - porque há pormenores que podem - e devem - ser corrigidos, apesar da atitude guerreira do onze benfiquista.

Chelsea e Benfica ofereceram um espectáculo palpitante na passada quarta-feira, num encontro que apuraria o próximo adversário do Barcelona nas meias-finais da Liga dos Campeões. À imagem do que tinha acontecido na partida contra o Sporting de Braga, as águias não se importaram de partir o jogo ao meio, de modo a tirar proveito da lentidão da defensiva contrária. Como tal, ninguém terá sido surpreendido ao assistir, tal como no jogo contra os bracarenses, a um encontro recheado de oportunidades de golo, grandes defesas dos guarda-redes e um público da casa com os nervos à flor da pele.

No presente texto, iremos debruçar-nos sobre 3 questões particulares: posicionamento defensivo, situações defensivas de bola parada e transições defensivas. É justo dizer que o Benfica não teve a sorte do seu lado nos dois jogos, mas não é menos verdade que as equipas mais fortes da Liga dos Campeões tendem a castigar adversários com menor potencial precisamente nesses "detalhes" de menor importância, à primeira vista. Se as águias têm como objectivo capitalizar a experiência adquirida ao longo desta época, deverão ser suficientemente humildes para reconhecer que existe uma diferença considerável entre o futebol português e a prova mais importante a nível europeu - quanto mais depressa o admitirem, mais rapidamente se tornarão um clube a ter em conta por mérito próprio.

1. Posicionamento defensivo. O Benfica é muitas vezes louvado pelo seu implacável futebol de ataque, uma abordagem que quase teve a sua recompensa na passada quarta-feira. No entanto, uma boa cobertura e posicionamento defensivos constituem uma base em que qualquer clube com aspirações de grandeza deve assentar. Independentemente dos danos que tanto Bruno César como Maxi Pereira possam infligir no campo do seu adversário, é igualmente importante que sejam capazes de dominar as suas tarefas defensivas - algo em que nem sempre têm sido bem sucedidos ao longo desta temporada.

Maxi Pereira sobe para marcar Kalou, acabando por ficar lado a lado com Bruno César.
Note-se o espaço nas costas dos dois jogadores, com uma cobertura reduzida por parte de Javi García.

Kalou desmarca-se com uma simples "tabela". Javi García já vai atrasado para fazer a cobertura.


2. Situações defensivas de bola parada. É do conhecimento público que o Benfica semeia o caos com os seus lances de bola parada na zona ofensiva, mas é menos consesual que os comandados de Jorge Jesus são extremamente vulneráveis quando no outro lado da barricada. Recentemente, os vice-campeões nacionais sofreram golos neste tipo de jogada contra o FC Porto e Sporting de Braga (referindo apenas os jogos de maior dimensão) e, no último encontro, foram felizes ao não verem o Chelsea a marcar a partir de cantos, em particular. Apesar das recentes alterações promovidas por Jesus ao nível da marcação zonal, subsistem ajustes a fazer no sentido de vencer equipas mais fortes.

O Benfica insistiu em concentrar um grande número de jogadores na zona do primeiro poste.
Como resultado, David Luiz acaba por ficar sozinho, sem qualquer marcação. Note-se o espaço no segundo poste.

Após um mau alívio, Luiz recebe a bola sem marcação e quase sem oposição.
Capdevila acabou por evitar males maiores, nesta ocasião.

3. Transições defensivas. Muito provavelmente, o aspectomais importante no futebol moderno. A maioria das equipas sabe que é necessário retirar a bola da zona de pressão a seguir à sua recuperação, uma vez que não é expectável que os adversários tenham o mesmo número de jogadores no lado fraco (longe da bola). Os jogadores estão cada vez mais cientes de que a bola tem de rodar de um lado para o outro - de preferência de forma rápida -, no sentido de encontrar uma brecha. A questão que tende a separar as equipas nos dias que correm é a reacção ao momento em que perdem a bola. É verdade que não se trata de algo que apareça nos resumos, mas veja com os seus próprios olhos e analise com mais atenção. O facto de as melhores equipas serem geralmente as mais eficazes nas transições defensivas não pode ser coincidência - ou acha mesmo que o mérito do Barcelona (por exemplo) se baseia apenas no ataque?

Bruno César e Maxi em zonas avançadas do terreno. Nenhum deles faz falta para parar o contra-ataque.
O Benfica está prestes a ter sete jogadores à frente da linha da bola.
 
Javi García (o pêndulo da equipa, de punho fechado) faz a intercepção segundos mais tarde
e diz aos seus colegas que deveriam ter "matado a jogada" quando tiveram a oportunidade.

Note-se a diferença em situação inversa. Artur acaba de entregar a bola para um rápido contra-ataque.
Apercebendo-se de quantos jogadores do Chelsea estão à frente da bola,
Lampard faz rapidamente falta para parar a jogada.

Conclusão. Tudo isto que aqui foi escrito pode ser encarado como algaraviada táctica, mas, muitas das vezes, estes momentos são decisivos para o resultado de um determinado jogo. Embora o Benfica seja capaz de contornar a sua desatenção defensiva na maioria dos jogos do campeonato português, a Liga dos Campeões é muito mais competitiva - e os "tubarões" não se importam de esperar pelas suas presas.

Monday, April 2, 2012

O estranho caso de Hugo Viana


Ultimamente, inúmeros colunistas e comentadores têm caracterizado como pouco razoável a ausência de Hugo Viana do onze titular da equipa das quinas no próximo Campeonato Europeu (ou, pelo menos, a sua falta no grupo da Selecção).Com efeito, o médio bracarense tem vindo a revelar-se como provavelmente o melhor médio desta edição da Liga Zon Sagres e, como tal, é natural que se questione a sua ausência.

No futebol, como em tantas outras áreas, o contexto é fundamental. Quer se trate do treinador de um clube ou de um seleccionador nacional, é essencial que os jogadores contratados/seleccionados correspondam ao modelo de jogo do treinador, e não apenas em função das suas boas exibições no seu clube (anterior). Caso contrário, o treinador ver-se-á confrontado com um punhado de jogadores com pouco ou nada em comum, criando cenários caóticos que vemos com demasiada frequência no futebol (o caso de Gian Piero Gasperini no Inter vem imediatamente à memória*), nos quais o treinador tem em mãos a ingrata tarefa de tentar congeminar um qualquer modelo capaz de acolher todos os atletas. Se dúvidas houvesse, essa é a forma ideal para arruinar uma equipa e o respectivo treinador - bastando pensar na forma como Real Madrid, Liverpool, Chelsea ou Manchester City acabaram por gastar tanto dinheiro em contratações malogradas (de Wayne Bridge a Shevchenko ou Torres, de Robinho a Sahin, passando por Carroll ou Charlie Adam), clubes esses que tiveram uma enorme dificuldade em livrar-se desses activos. No caso das selecções nacionais, será suficiente pensar nos motivos que levam os próprios adeptos a criticarem os desempenhos de Messi, Ronaldo, Lampard ou Gerrard (entre muitos outros casos).

Por mais decisivo que Viana tenha vindo a ser na fantástica temporada do Sporting de Braga, é importante verificar se as suas características, qualidades e defeitos se adequam às ideias de Paulo Bento. Não é o objectivo do presente artigo concordar ou discordar das perspectivas do seleccionador nacional, uma vez que lhe compete a ele - e só a ele - tomar as decisões nos melhores interesses da equipa.

1. A táctica do Sporting de Braga. O Sporting de Braga de Leonardo Jardim joga habitualmente em 4x2x3x1, com Custódio como pivô defensivo e Viana por perto. Para além disso, Jardim conta com Lima, um avançado rápido e extremamente móvel, com Mossoró a assumir-se como a ligação entre meio-campo e ataque. Os passes teleguiados de Viana constituem uma alternativa a Mossoró, permitindo ao Sporting de Braga lançar rápidos contra-ataques circunscrevendo Mossoró com passes longos para a velocidade de Lima ou Alan. Defensivamente, os minhotos tendem a assumir uma postura conservadora, actuando com um bloco baixo com duas linhas de quatro. Existem diversos jogadores em torno de Viana para lhe fornecer a cobertura defensiva necessária quando se ausenta para um ataque, por exemplo.

2. A táctica de Portugal. Uma vez mais, esta questão não pretende discutir se se trata da melhor opção para Portugal, mas sim se Hugo Viana é uma escolha adequada. O onze português distribui-se num 4x3x3 há já algum tempo a esta parte. Paulo Bento tem mantido João Moutinho e Raúl Meireles no onze, recentemente com Miguel Veloso no lugar de Carlos Martins. Parece evidente que Bento tem em mente uma equipa capaz de pressionar em zonas mais avançadas quando tal for necessário, uma tarefa para a qual Hugo Viana não parece fadado. Ao contrário do Sporting de Braga, Portugal não dispõe de um típico n.º 10, o que significa que ambos os centro-campistas (à frente de Veloso) têm de defender e atacar - se analisarmos mais de perto as mais recentes convocatórias da Selecção, veremos que Paulo Bento tem convocado jogadores capazes de fazerem isso mesmo, tais como Meireles, Moutinho, Ruben Micael ou Ruben Amorim. Os próprios casos de Castro ou André Santos ficam a dever-se precisamente por satisfazerem os requisitos. Com tantos jogadores de características ofensivas na linha mais recuada (João Pereira e Fábio Coentrão, por exemplo) e extremos que raramente contribuem defensivamente (Nani, Ronaldo, Quaresma), compete aos médios fornecerem a cobertura defensiva, e não o contrário.

3. A abordagem de Portugal. Com base no percurso de Paulo Bento até agora, parece lógico assumir que a abordagem do seleccionador divergirá da de Carlos Queiroz. Em vez de esperar pelos seus adversários, a Selecção procurará abafar os adversários e jogar com uma linha defensiva (mais) subida. Uma vez mais, tal não joga necessariamente a favor de Hugo Viana, um jogador particularmente atreito a acusar sinais de cansaço à medida que o jogo se desenrola e que não costuma apreciar jogar em equipas nesse molde. Para além disso, Viana é vulnerável em situações de jogo mais físicas (conforme foi evidente na eliminatória contra o Besiktas), uma ameaça com que se depararia na maioria dos encontros do Campeonato Europeu.

Conclusão. Em resumo, não creio que se trate de um caso em que um treinador teimoso não aceita admitir o erro do seu primeiro julgamento, mas sim de um caso em que o jogador em questão não casa bem com a táctica e abordagem da equipa. Para colocar a questão em perspectiva, por mais importantes que estes jogadores sejam nos seus clubes actuais, seria irrazoável o Barcelona contratar Luisão, o Milan recrutar James Rodríguez ou o Manchester City recorrer aos préstimos de Matías Fernández - os princípios das equipas e as características dos jogadores não combinam, pura e simplesmente. Pessoalmente, considero que Hugo Viana poderia revelar-se um jogador precioso (particularmente em encontros em que Portugal não se assumisse como claro favorito), mas creio que os seus minutos de jogo seriam limitados.

*Gian Piero Gasperini foi contratado pelo Inter no início da presente época, sendo despedido após cinco jogos (sem vitórias). A ironia do despedimento foi o facto de tal se ficar a dever à implementação do modelo de jogo do treinador italiano (muito intenso e sabidamente de pressão alta), um modelo que não se adequava de todo aos jogadores à sua disposição - quase todos eles na casa dos trinta.

Sunday, April 1, 2012

Num jogo surpreendentemente aberto, Benfica vence ao cair do pano


Equipas e movimentações iniciais

No passado sábado, Benfica e Sporting de Braga defrontaram-se no primeiro dos três jogos que se disputarão em pouco mais de uma semana que poderão decidir de uma vez por todas o vencedor do campeonato português. Cientes da vitória do FC Porto conquistada poucos minutos antes do apito inicial, ambas as equipas sabiam que vencer esta partida era absolutamente fundamental. Como tal, não se assistiu a um jogo fechado, mas sim a um encontro inacreditavelmente aberto que qualquer uma das equipas poderia ter ganho.

O confronto da noite passada constituiu o derradeiro exemplo do melhor que ambos os clubes tinham a oferecer. Por um lado, o Benfica manteve o proverbial pé no acelerador (talvez tentando compensar a performance menos exuberante da passada terça-feira contra o Chelsea) e jogou insistentemente ao ataque desde o começo. Por outro lado, o Sporting de Braga mostrou-se igual a si mesmo, defendendo de forma organizada e provando a sua mestria no contra-ataque.

Como habitualmente, a abordagem defensiva do Braga passou por um quase exemplar 4x4x2

Os encarnados tentaram abafar o seu adversário desde os primeiros segundos, com Rodrigo no lugar do suspenso Aimar. Na verdade, o avançado espanhol foi um dos motivos pelos quais as águias desfrutaram de um excelente início de jogo. Com efeito, não só jogou por trás de Cardozo, como insistiu também em descair para a ala esquerda, criando situações de superioridade numérica com a colaboração de Gaitán e Capdevila (o qual, jogando no lugar habitualmente ocupado por Emerson, ofereceu maior fluidez no jogo ofensivo da sua equipa). Por seu turno, o Sporting de Braga tinha claramente a lição bem estudada e, como tal, sabia por onde lançar os seus contra-ataques, particularmente pelo seu lado esquerdo, explorando o espaço que tanto Maxi Pereira como Witsel (o qual actuou em zonas mais avançadas do que o habitual, numa posição semelhante àquela em que actuou no jogo contra o Zenit em casa) deixavam nas suas costas.

Witsel (círculo vermelho) jogou mais à frente do que o habitual

O Benfica mostrou-se muito forte na recuperação da bola em pressão alta, tendo conseguido fazê-lo com frequência, particularmente durante a primeira parte. Contudo, quando os bracarenses conseguiam furtar-se à primeira zona de pressão e fazer chegar a bola a Hugo Viana, criavam situações ameaçadoras, encontrando imenso espaço e poucos defensores à sua frente. Estranhamente, um confronto tão aberto não dispôs de muitas oportunidades de golo durante a primeira parte.

Após sair da primeira zona de pressão do Benfica, os minhotos tinham muito espaço para explorar.
Note-se a quantidade de espaço e o número de adversários à frente de Mossoró.

A segunda parte trouxe consigo mais do mesmo, mas de forma ainda mais acentuada. Nenhuma das equipas podia dar-se ao luxo de perder mais pontos (nomeadamente a equipa da casa) e, como tal, foi sem surpresa que houve mais situações de golo nos primeiros 10 minutos da segunda parte do que em toda a primeira metade. Os encarnados mostravam-se ainda mais afoitos no ataque, abrindo espaços nas suas costas. Com Alan menos preso a amarras defensivas (durante os primeiros 45 minutos, foi apenas e só um médio-direito, em vez de um extremo), era impossível adivinhar quem marcaria o primeiro golo.

Aos 60 minutos, os comandados de Jorge Jesus começaram a acusar o cansaço, incentivando os forasteiros a tentarem a sua sorte e levarem mais do que o empate para o Minho, transformando o jogo num festim de situações de perigo. Ironicamente, o primeiro golo surgiria da marca da grande penalidade, imprudentemente cometida por Elderson ao cabecear Bruno César em vez da bola. Quatro minutos depois, o mesmo Elderson viria a redimir-se ao marcar na recarga a uma defesa de Artur, no seguimento de um livre marcado por Hugo Viana. O último golo apareceria de forma dramática no 92º minuto, numa altura em que o Sporting de Braga estava já defensivamente desequilibrado com as substituições de cariz ofensivo realizadas poucos minutos antes, na procura do empate.

Em resumo, foi algo estranho ver duas equipas com tão bons resultados recentes na Europa (as águias nos quartos de final na actual edição da Liga dos Campeões e os minhotos como finalistas vencidos da Liga Europa da época passada) - geralmente, um bom indicador da capacidade de controlar um jogo - a proporcionarem um jogo tão aberto. Em termos tácticos, foi interessante constatar que a partida de ontem foi um espelho fiel do desempenho das duas equipas ao longo da temporada - tanto nos aspectos positivos como negativos. Na verdade, este encontro não se assemelhou a um típico jogo do título português, mas sim aos jogos loucos entre os 5 primeiros classificados desta temporada na Premier League.

Friday, March 30, 2012

O (improvável) golo da época?

Destaques do próximo fim-de-semana futebolístico


À medida que entramos no momento de todas as decisões na maioria das ligas europeias, o próximo fim-de-semana futebolístico está recheado de jogos interessantes de resultado imprevisível. Lançamos mais abaixo um breve olhar sobre alguns dos confrontos mais interessantes.

Em Portugal, o Sporting de Braga lidera o campeonato, com um ponto de vantagem sobre o FC Porto e dois relativamente ao Benfica. Os encarnados defrontam o Sporting de Braga encontrar-se-ão amanhã, no Estádio da Luz, enquanto os dragões recebem o Olhanense no seu reduto duas horas antes, num encontro que são obrigados a vencer. Conseguirá o Benfica ultrapassar o Sporting de Braga, que já não vence as águias na Luz há várias décadas? Na próxima jornada, o Sporting de Braga recebe o FC Porto e o Benfica vai a Alvalade.

Em Itália, teremos um clássico decisivo para ambas as equipas - Juventus e Nápoles. Os bianconeri estão a quatro pontos do Milan e não se podem dar ao luxo de desperdiçar mais pontos, se ainda pretenderem conquistar o título. Por seu turno, os comandados de Walter Mazzarri, estão em quarto (em igualdade pontual com a Udinese), a três pontos da Lázio, na luta pelo último lugar de acesso à Liga dos Campeões. Tudo isto significa que nenhuma das equipas poderá recorrer ao seu tipo de jogo preferencial - esperar pelo adversário e lançar contra-ataques.

Em Espanha, o encontro mais interessante opõe Barcelona ao Atlético de Bilbau, particularmente porque o encontro dista apenas 48 horas da fantástica vitória da equipa basca (2-3) no terreno do Schalke. Uma vez que nenhuma das equipas pode perder pontos e o seu jogo se baseia numa pressão (quase) constante, que partida teremos? Será que o Marcelo Bielsa mudará metade dos seus jogadores para manter o seu pressing? Pep Guardiola fará o mesmo?

Por fim, em Inglaterra, há alguma expectativa face às opções de Roberto Di Matteo para o encontro em casa do Aston Villa. Descartará metade da equipa que venceu na Luz na passada terça-feira ou manterá o seu onze vencedor intacto? No domingo, Newcastle defrontará o Liverpool, na esperança de que o Chelsea tenha perdido pontos na véspera, de moo a poder continuar a sonhar com a participação na próxima edição da Liga dos Campeões. Por outro lado, o Liverpool, tendo garantido o regresso às noites europeias através da sua vitória na Taça da Liga, parece estar claramente a aguardar calmamente pelo final da época.

Wednesday, March 28, 2012

A Liga dos Campeões em todo o seu esplendor

Equipas e movimentações iniciais


Benfica e Chelsea defrontaram-se ontem no Estádio da Luz para apurar quem seguiria para as meias-finais da Liga dos Campeões. O que se viu foi uma partida típica da prova rainha a nível europeu, com a equipa de menor dimensão a jogar melhor futebol e os favoritos a resistirem a ondas de ataques sucessivos (ficando perto de sofrer um golo), marcando nos últimos minutos num rápido contra-ataque.

Jorge Jesus, treinador dos encarnados, escalou o onze esperado, com Gaitán e Bruno César nas alas e Aimar por trás de Cardozo. Ao invés, o treinador interino do Chelsea, Roberto Di Matteo, promoveu seis alterações e deixou Bosingwa, Cahill, Essien, Lampard, Sturridge e Drogba de fora (com a chamada altamente improvável de Paulo Ferreira à titularidade), assumindo o objectivo para o encontro - e demonstrando que todos os jogadores do plantel do Chelsea terão a sua oportunidade.

O plano de jogo dos londrinos era de fácil compreensão: actuar em bloco baixo, ceder a iniciativa de jogo, tentar controlar a posse de bola (mesmo que tal não significasse progredir com a mesma) e um contra-ataque, se possível. O Benfica mostrava-se receoso de exercer a sua habitual pressão alta e, com isso, os defesas e médios blues puderam desfrutar de inúmeros momentos para abrandar o ritmo de jogo à sua conveniência, incomodando os adeptos encarnados. Di Matteo tinha feito o trabalho de casa e fez alinhar Kalou (mais diligente e consciente em termos tácticos) na ala esquerda, no sentido de tentar estancar a via preferencial do ataque das águias - o flanco direito. Para além disso, Torres tinha ordens para descair para o espaço que Maxi Pereira abria nas suas costas, de modo a tirar proveito do posicionamento mais atrevido do lateral-direito - e arrastando o seu marcador directo consigo.

Torres recebe uma bola longa nas costas de Maxi Pereira, arrastando Luisão consigo.
Kalou ocupa o espaço criado pelo seu companheiro.

Nesta imagem, Luisão tenta recuperar a posição e é o omnipresente Javi García que faz a compensação.

Esta simples movimentação liberta Meireles e oferece-lhe espaço para rematar
(Maxi, já atrasado, ocupa o lugar de Javi García)

Como habitualmente, o Benfica atacou primordialmente pela direita, com Gaitán, Witsel e Aimar a ocuparem alternadamente a ala, tentando desposicionar Meireles e Mikel - tendo sido bem sucedidos em determinados momentos, mas de forma menos frequente do que o esperado. O problema residia no já infame lado esquerdo. Embora Emerson venha a ser alvo de inúmeras críticas ao longo de toda a temporada, a culpa nem sempre é exclusivamente sua, como o encontro de ontem demonstrou. Ramires, jogando sobre a direita, mas em zonas mais centrais do que Kalou, ajudava a criar superioridade numérica no centro do terreno e tentou repetidamente ultrapassar Emerson, uma vez que Bruno César (e Gaitán, depois de se mudar definitivamente para a esquerda) raramente recuava, deixando demasiado espaço para o Queniano Azul explorar (veja-se a área amarela no gráfico no início da página). Como se constataria mais tarde, esse seria o erro fatal do Benfica.

Ramires (n.º 7), presumível médio-direito, ocupou zonas mais centrais
Embora pareça tratar-se de um contra-ataque, é apenas uma normal jogada corrida.
Ramires tem já imenso espaço à sua volta

Com ambas as equipas dispostas de forma semelhante, tudo se resumiria à velocidade e criatividade. O Chelsea, conforme analisado noutro artigo, é actualmente uma equipa mais calma, bem organizada e menos vulnerável a desmarcações e contra-ataques. Paulo Ferreira foi essencial para a recém-descoberta estabilidade no lado direito da equipa londrina, graças à sua maior fiabilidade defensiva e melhor compreensão das tarefas de um defesa-lateral. As águias teriam de ser mais expeditas na segunda parte.

Foi precisamente isso que se verificou. Tal como acontece recorrentemente nas fases mais adiantadas desta competição, os favoritos foram alvo de ataques cerrados durante os primeiros 15 minutos da segunda parte, um período em que o Benfica podia (e deveria) ter marcado. Cech fez grandes defesas, David Luiz salvou corajosamente um potente remate de Cardozo em cima da linha e parecia que a fortaleza do Chelsea estava prestes a ruir. Era evidente que a maior velocidade de Witsel (jogador que demonstrou novamente ser a peça que faltava ao Benfica para encontros desta magnitude), Aimar e Gaitán (o qual rendeu muito mais na esquerda) estava a causar dificuldades a Meireles e - particularmente - Mikel, especialmente porque Torres estava mais uma vez longe do seu melhor, incapaz de segurar uma bola. Com Mata perdido (parece óbvio que não tem características para iniciar os seus movimentos a partir do centro), Ramires oferecia a única saída para os blues.

Jesus queria desesperadamente vencer o jogo e substituiu Aimar e Bruno César por Rodrigo e Matic, o que significava que Witsel iria para a direita, Matic ocuparia o seu lugar ligeiramente à frente de Javi García e Rodrigo jogaria por trás de Cardozo - e foi então que tudo começou a esfumar-se. À imagem do que tem acontecido em algumas ocasiões, a tentativa do Benfica de vencer o jogo desequilibrou toda a equipa. A influência de Witsel diminuiu na direita e a equipa lisboeta começou a perder o controlo da partida. Embora o golo do Chelsea seja a súmula dos seus actuais pontos fortes (experiência, resiliência, meio-campo mais compacto e contra-ataques), é algo que se tem visto com inusitada frequência no Benfica: a sua vontade de vencer a todo o custo significa muitas das vezes que a equipa fica partida.

Início da jogada que culminaria no golo do Chelsea. Note-se quão adiantado Emerson está, sem cobertura ofensiva.

Após a impressionante corrida de Ramires, cabe a Torres prosseguir a jogada.
Matic prova que ainda não está à altura de jogos desta importância.
A seta verde indica o local em que deveria estar para oferecer cobertura defensiva.

Por fim, há algo que vale a pena referir. Os treinadores afirmar repetidamente que há sempre uma estratégia por trás das suas decisões, mas, por vezes, é difícil fazer sentido. Qual será a lógica de deslocar Witsel para a direita e devolvê-lo à posição original uma dezena de minutos depois? Como é evidente, Jesus está longe de ser o único treinador a fazê-lo; resta-nos apenas esperar que, um dia, um treinador nos dê uma resposta honesta a esta questão.

Monday, March 26, 2012

Benfica-Chelsea: antevisão



Benfica e Chelsea defrontam-se amanhã na primeira mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, num embate que poderá revelar-se extremamente interessante e imprevisível. São apresentados mais abaixo alguns motivos que poderão explicar por que motivo uma destas equipas passará à fase seguinte.


3 motivos para a vitória do Chelsea

1) Resiliência. Se a partida contra o Nápoles nos ensinou algo, foi que esta equipa não é tão fraca quanto a maioria de nós parece pensar e que ainda tem algo a mostrar. Os jogadores do núcleo duro do Chelsea são vencedores de outras batalhas, capazes de reunir as suas forças quando necessário – os encontros contra o Valência e o Nápoles deverão ser um aviso às hostes encarnadas.

2) Uma tendência para atacar pelo centro. Apesar da mais recente (e ligeira) mudança de ideias de Roberto Di Matteo, Sturridge ocupa habitualmente o lado direito, com tendência para flectir para dentro (ou na esquerda, onde é claramente menos eficaz). Mata, partindo tradicionalmente da asa esquerda, tem igualmente tendência para procurar zonas mais interiores e Drogba é um monstro competitivo que prospera com bolas longas – a alternativa escolhida pelo Chelsea nos últimos jogos. Dado que as águias tendem a deixar o centro do terreno para Javi García de forma quase exclusiva, esta poderá ser uma boa opção para o onze inglês.

3) Um meio-campo mais compacto. Se é verdade que o Chelsea ataca pelo centro, não é menos verdade que defendem melhor nessa zona. Embora ainda esteja distante do que já foi, Essien está cada vez mais próximo dos seus níveis físicos de outrora. Por seu turno, Lampard tem jogado mais recuado do que costumava fazer, mas ainda é capaz de distribuir longas bolas diagonais por cima da última linha contrária, algo a que o Benfica é por vezes vulnerável.


3 motivos para a vitória do Benfica

1) Movimento ofensivo. A abordagem do Benfica passa sempre por lançar vários homens da frente de ataque, mesmo quando essa opção não é necessariamente a mais aconselhável. Nesse aspecto, Gaitán, Bruno César, Nolito e Maxi Pereira são exímios a criar situações de superioridade numérica nas alas e realizar penetrações em "tabelas". Embora alguns membros do plantel do Chelsea ainda se lembrem de como defender devidamente, a fluidez do Benfica poderá ser uma tarefa demasiado hercúlea para os londrinos.

2) Marcação individual do Chelsea. A opção preferencial dos blues em situações defensivas de bolas paradas passa pela marcação individual, podendo revelar-se um ponto fulcral de ataque para as águias. A obsessão de Jesus com os esquemas tácticos poderá ser decisiva para desfazer o impasse.

3) Rápidas transições ofensivas. Um dos principais atributos do Benfica reside na sua velocidade vertical, ou seja, a rapidez com que consegue transformar uma situação defensiva numa clara oportunidade de golo para a sua equipa. Ao invés, as transições defensivas são um dos pontos mais fracos do Chelsea, dado que Mata e Sturridge desprezam com frequência as suas tarefas defensivas e apenas Ramires recua. Com Maxi, Witsel e Gaitán, entre outros, a intensidade do Benfica poderá ser o ponto de partida para a qualificação para as meias-finais.