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Thursday, July 1, 2010

O tamanho da camisola


Declaração de interesses: fiz sempre parte dos críticos de Scolari, independentemente da final (perdida) do Euro 2004 ou das boas prestações da Selecção portuguesa - regra geral, contra equipas de valor inferior. A solução Carlos Queiroz sempre me pareceu apetecível por se tratar não só de um mero treinador, mas também (e mais importante) de um exímio planeador a médio/longo prazo. O ex-seleccionador foi capaz, sem dúvida, de apelar ao sentimento patriótico de um país que há muito não sabia o que tal era. Como vendedor de ilusões, Scolari é insuperável; Queiroz é no máximo sofrível. O seu discurso não inflama paixões, os jogadores parecem sempre distantes do "mister" e a sua liderança pareceu ser posta em causa demasiadas vezes (Deco, Nani, Hugo Almeida, entre outros).

No entanto, creio ser injusta a mais recente onda de críticas. Por muito que não se queira aceitar o facto, os seleccionadores são "forçados" a jogar com os jogadores que existem. Dissociar o trabalho de Scolari do onze formado por Mourinho que havia ganho um mês antes a Liga dos Campeões é tarefa ingénua ou mal-intencionada. Aliás, bastará ver a evolução (negativa) à medida que o tempo foi passando, com a turma das quinas a descer sempre um degrau. Convém também não esquecer o importante facto de Scolari ter disputado (e perdido categoricamente) o seu primeiro jogo oficial dois anos depois de ter assumido o cargo. Relembro também o chorrilho de críticas de que Scolari foi alvo quando, num amigável de Guimarães, Portugal foi batido por esta mesma espanha por uns copiosos 3-0.

Por último, o reinado de Scolari teve a meu ver uma incontornável consequência negativa: dada a sua filosofia de tornar a equipa portuguesa numa espécie de clube dos vinte amigos, em que jogavam os melhores independentemente da sua forma, o treinador brasileiro como que aniquilou a renovação que é necessário realizar em todas as selecções. Como tal, não é de estranhar as dificuldades por que Queiroz passou quando teve de inventar um lateral-esquerdo, um guarda-redes (porque Ricardo nunca foi um titular indiscutível por mérito próprio, com ou sem luvas), um trinco, entre outros. Não é coincidência alguma que o melhor período da selecção A tenha correspondido ao maior degrego das selecções jovens.

Quanto à obrigação ou não de Portugal ultrapassar a Espanha, chegar à final e vencer a outra equipa como se de uma mera formalidade se tratasse, gostaria apenas de deter-me em alguns casos paradigmáticos referentes àquilo que consideramos uma equipa de estrela. Se retirarmos Cristiano Ronaldo da equação, quem são as vedetas que consideramos como capazes de vencer um Campeonato do Mundo? Ricardo Costa por oposição a Sérgio Ramos? Raúl Meireles ou Tiago por oposição a Xavi ou Iniesta? Hugo Almeida por oposição a Torres? Os dois centrais portugueses serão porventura o que de mais perto temos de figuras mundiais (mais Ricardo Carvalho do que Bruno Alves, naturalmente) e há limites para a superção das capacidades individuais. Talvez o principal erro desta selecção tenha sido continuar a assumir que está no lote de Argentina, Brasil, Alemanha ou Espanha. Por fim, gostaria também de não ter ficado com a sensação de que Portugal não tinha um plano de contingência caso se apanhasse a perder com a Espanha.

No que diz respeito ao Mundial, serei o primeiro a concordar que Queiroz parece ter imensas dificuldades de "vender o seu produto", de convencer jogadores, imprensa e adeptos, de capitalizar a emoção. No futebol, como em qualquer outra actividade, a forma como se lideram as pessoas é tão ou mais importante do que os méritos técnicos. Não duvido por um momento das competências técnicas do seleccionador nacional, mas isso nem sempre basta para levar outros a acreditarem na liderança.

E é esta questão que me traz ao meu ponto derradeiro. Independentemente dos jogadores que componham a selecção portuguesa (ou qualquer outra equipa), a atitude é algo que não está relacionada com as capacidades técnico-tácticas dos jogadores. Portugal pareceu voltar aos tempos em que parecia querer perder por poucos, em que a bola queimava e em que sobrava uma ou outra lenda, como o pontapé de Carlos Manuel contra a Alemanha. Portugal pode não estar dotado de Messis, Di Marías, Kakás, Robinhos e muitos outros, mas não pode ter receio seja de que equipa for. O que critiquei no primeiro jogo, contra a Costa do Marfim, continua válido, a meu ver. No reinado de Queiroz, Portugal parece ter mais medo de perder (por muitos, por vezes) do que vontade de ganhar.

Tuesday, February 10, 2009

A história de uma vaca


Carlos Queiroz, seleccionador nacional, abordou ontem a questão da convocatória de alguns jogadores menos conhecidos, mudando desde já o hábito que se vinha instalando de singela colocação da lista de convocados na Internet sem mais adendas. Para além disso, mudou também outros hábitos, como, por exemplo, o de justificar alguns convocados ou até de falar do futuro da selecção a longo prazo, ou ainda de sacrificar algumas "vacas sagradas", como Bosingwa ou Quim. O seleccionador comparou ainda a selecção a uma vaca, que, se não for alimentada e cuidada, deixará de dar leite a médio prazo, deixando implícita a justificação de uma renovação da selecção nacional.

Não querendo de todo crucificar Scolari (para tal, ver texto mais abaixo), creio que Queiroz veio no momento certo. Poderemos discutir noutro lado se o ex-treinador adjunto do Manchester United é a pessoa certa para treinar a selecção nacional, dadas as suas características e perfil pessoais, mas não tenho grandes dúvidas em afirmar que Queiroz veio trazer uma lufada de ar fresco a algumas gavetas que estavam fechadas há demasiado tempo.

Parece que, finalmente, os amigáveis podem ser utilizados para experimentar outros jogadores que não apenas o núcleo duro. Ao que parece, os jogadores que não cumpram os mínimos que Queiroz julga razoáveis deixam de ser chamados. Parece também que não é preciso jogar em determinados clubes ou campeonatos para se ser chamado. Parece ainda que ser jovem e ter potencial não é necessariamente uma condição para não jogar nas equipas de Scolari.

Bem sei que muitos dirão que não é assim que se cria um grupo, uma verdadeira família. Mas quem disse que era essa a forma certa de fazer uma selecção? Não deveria o responsável máximo das selecções ter uma preocupação a longo prazo com o futuro das várias equipas nacionais? Será difícil estabelecer a co-relação entre os feitos de Scolari e o desaparecimento da selecção nacional de todas as competições de formação? Qual foi o contributo do treinador brasileiro para o desenvolvimento da modalidade em Portugal? Sim, trouxe as bandeiras e os cachecóis e um amor à selecção como nunca antes se vira (excepto o Euro '96), mas isso por si só é suficiente? Quem devemos responsabilizar pela asfixia das camadas jovens das nossas selecções que haverão de nos representar daqui a alguns anos? Onde estão os substitutos de Figo, Rui Costa, Baía ou Fernando Couto?

Tuesday, October 28, 2008

Queiroz e a Selecção

A Selecção Nacional está a um pequeno passo de não ser sequer apurada para a fase final do Mundial de 2010, na África do Sul. Creio que estamos perante um facto indiscutível. Queiroz está longe de obter os resultados que se exigiam. Creio que estamos perante um facto indiscutível. A culpa é toda do seleccionador nacional. Pessoalmente, esta última afirmação parece-me menos incontestável.

Não querendo detalhar em demasia a minha opinião, gostaria contudo de enumerar um ou outro ponto. Em primeiro lugar, a já habitual comparação entre Scolari e Queiroz está a ser tudo menos justa, uma vez que se ouve muitas vezes como Scolari quase foi campeão da Europa ou quase foi campeão do Mundo ou quase vencia a Alemanha e passava às meias-finais. Scolari está para mim ao nível dos treinadores como João Vieira Pinto ao nível dos jogadores. Ambos eram bons no que faziam, mas não conseguiram passar de "figuras quase". Sim, sei que tanto um como outro ganharam títulos, mas até Tiago ou Capucho têm o título da Taça UEFA no seu palmarés.

Vencer um título não é fácil, mas consegue-se. Vencer muitos ao longo de uma carreira de forma consistente é significativamente mais difícil. Não querendo de todo pôr o trabalho de Scolari em causa (é indiscustível que o treinador brasileiro conseguiu incutir muito mais alma a uma selecção que, não raramente, sente tanta falta de estímulos positivos), custa-me um pouco ouvir apenas maravilhas do seu trabalho.

Scolari foi o mesmo que quase não conseguia o apuramento para o último Europeu. É o mesmo que toda a gente assobiava (à imagem do que acontece agora com Queiroz) nos jogos de preparação para o Euro 2004 e que toda a gente apupou quando Portugal perdeu o jogo inicial contra a Grécia. Scolari teve cerca de uma dezena de jogos para rotinar a equipa e, mesmo assim, só mudou tudo na segunda jornada de grupos do Euro 2004. Scolari teve a sorte e o condão de aproveitar o núcleo duro do FC Porto campeão europeu. Senão, vejamos como os seus resultados foram caindo sucessivamente à medida que esse núcleo duro se ia desfazendo. Perguntemo-nos por que razão Ronaldo não tinha de longe o aproveitamento na Selecção que demonstrava no seu clube ou por que razão o treinador brasileiro nunca conseguiu vencer uma selecção que estivesse numa posição superior no ranking das equipas europeias.

Queiroz cometeu alguns erros, naturalmente. No entanto, se Portugal tivesse ganho a partida frente à Dinamarca, a Internet estaria neste momento inundada de comentários sobre as maravilhas de Queiroz face a Scolari - do desmantelamento do "clube dos 20 amigos" (Ricardo nunca mais se viu) à chamada de jogadores que mereciam pelo menos uma hipótese (de Danny a Eduardo, de Pedro Mendes a Antunes). Infelizmente para todos nós, perdeu esse encontro e empatou frente à Albânia. Resultados decepcionantes? Sim, sem dúvida, mas isso leva-nos ao segundo ponto.

Scolari veio revolucionar em parte o futebol da Selecção portuguesa. Num repente, toda a gente passou a considerar que o apuramento para as fases finais das competições de selecções era obrigatório (e muito bem, na minha opinião). No entanto, o investimento em Scolari e restante equipa levou a um desinvestimento óbvio no resto do edifício da selecção. De um momento para o outro, a formação - uma das principais características transversais do futebol português - quase deixou de existir. Em simultâneo com as grandes façanhas da selecção principal, as selecções mais jovens foram começando a desaparecer do roteiro dos torneios mais importantes (muitos lembrar-se-ão do fracasso do Euro 2007 de sub-21, organizado em Portugal ou dos sub-20 há dois anos). Com efeito, os jogadores jovens, já com tão pouco espaço no clube, deixaram de ter as condições e os incentivos que iam tendo até então nas selecções mais jovens em detrimento da equipa nacional.

Pessoalmente, creio que Queiroz está a fazer um pouco o contrário, ao tentar conciliar melhor essas duas vertentes - criar uma equipa competitiva sem com isso esmagar o desenvolvimento das camadas jovens. E é isso que lhe estão a cobrar: o adiamento da construção de uma equipa que tem de começar a vencer já (e Queiroz está ainda longe de ter conseguido encontrar uma equipa tipo) de modo a não hipotecar o futuro dos futebolistas portugueses que começam hoje a despontar nos seus clubes. Se Scolari não foi despedido antes do Euro 2004, numa altura em que toda a gente pedia a sua cabeça por não conseguir construir uma equipa fantástica com tantos jogadores de primeira linha, porque não dar algum tempo a Queiroz? E até que ponto seria assim tão prejudicial perder inclusivamente o comboio deste Mundial para conseguirmos ter um desenvolvimento sustentável nos anos vindouros?