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Monday, October 22, 2012

Manchester United - Stoke City: dois mundos diferentes


Equipas iniciais

A partida que opunha Manchester United e Stoke City prometia ser uma das batalhas tácticas mais interessantes da jornada, com duas abordagens previsivelmente muito diferentes. Subsistiam inclusivamente algumas dúvidas sobre se o Manchester United seria capaz de contrariar a ameaça aérea do Stoke.

A forma mais óbvia (e já um cliché, nos dias que correm) de distinguir o Stoke City de quase todas as restantes equipas consiste em analisar os passes realizados com destino no último terço do terreno. Com Peter Crouch, Tony Pullis não hesita por um momento em optar por um jogo mais directo, especialmente contra adversários mais fortes. Quanto ao United, o jogo mais baseado no passe e desmarcação acabaria por resultar e por ser determinante para o resultado.

Passes das duas equipas no último terço do campo

A abordagem do Stoke era muito simples - mas eficaz: enviar a bola para Crouch (particularmente no lado de Ferdinand), o qual a remetia para Kightly ou Walters - as competências de Crouch de fazer a equipa jogar são frequentemente menosprezadas. Muito provavelmente cientes das dificuldades de Ferdinand e Evans pelo ar e da falta de ritmo de Scholes e Carrick para recuperar as segundas bolas, os forasteiros insistiam em executar essa jogada uma e outra vez. Os comandados de Pullis permaneciam compactos num 4x1x4x1 - não excessivamente retraído, inesperadamente - e atacavam o Manchester United quando estes tentavam entrar pelo centro, partindo em rápidos contra-ataques.

Desarmes e intercepções do Stoke City, predominantemente no lado esquerdo.

Para além disso, com Valencia e Welbeck a ficarem pelo ataque e com Rooney mais adiantado do que o habitual, os extremos do Stoke flectiam para dentro sem oposição, confundindo ainda mais as marcações do Manchester United. Na verdade, antes de os comandados de Sir Alex Ferguson igualarem a partida, o Stoke City poderia ter duplicado a vantagem sem que isso causasse qualquer surpresa. Embora apenas tenham usufruído de 36% de posse de bola, a equipa de Tony Pulis revelou-se muito mais incisiva durante boa parte da primeira metade.

O Manchester United começou a encontrar o seu ritmo à medida que o seu ataque se foi tornando mais fluido. Van Persie, Rooney e Welbeck podem trocar de posição entre si, algo que não fizeram durante os primeiros 30 minutos. Van Persie deu o exemplo ao deslocar-se cada vez mais para a ala esquerda, deixando o centro para as investidas de Rooney a partir de trás, o que acabaria por resultar no primeiro golo dos visitados.

Gráficos dos passes de Van Persie e Rooney (assistências a amarelo)

Estes três jogadores viriam a marcar e a fornecer as assistências para todos os golos do Manchester United (com excepção da assistência de Valencia para o tento de Van Persie). Dos três, o avançado holandês mostrou ser o mais perigoso e o mais difícil de marcar, uma vez que ocupou diversas zonas do terreno, levando os seus companheiros a procurar outras posições. Welbeck provou mais uma vez que é mais forte em zonas mais interiores e Rooney demonstrou novamente que é um jogador completo, com talento para jogar em qualquer posição.

Resta ainda uma última questão para cada equipa. O segundo golo do Stoke City ofereceu novo exemplo da necessidade do Manchester United de contar com um jogador defensivamente mais competitivo no seu meio-campo e de abordar as suas fragilidades pelo centro - o segundo tento do Stoke foi invulgarmente semelhante à forma como o Tottenham destroçou o Manchester United há algumas semanas. No que diz respeito ao Stoke, embora esta abordagem possa dar frutos contra equipas mais fortes, será necessário um modelo mais elaborado caso pretendam subir na tabela.

Friday, March 16, 2012

O que seria do Barcelona sem Messi? O Atlético de Bilbau, possivelmente


Equipas e movimentações iniciais
O triunfo do Atlético de Bilbau sobre o Manchester United teve contornos de conto de fadas. Sem Messi e com um treinador contratado há menos de um ano, uma equipa habituada a fazer uso de bolas longas em direcção ao seu ponta-de-lança foi capaz de alterar radicalmente o seu estilo de jogo graças à atenção ao detalhe por parte do seu treinador e à respectiva capacidade de convencer os jogadores das suas ideias. A exibição dos bascos contra o Man Utd nas duas mãos mostrou à evidência que é efectivamente possível jogar futebol positivo, mesmo que a equipa não conte com Xavi, Messi e Iniesta nas suas fileiras.

O United tinha em mãos uma missão quase impossível e recorreu à experiência para tentar contrariar as probabilidades - com Giggs, Park, Ferdinand e Rooney a serem chamados ao onze. Com uma tarefa difícil pela frente, os red devils tentaram pagar ao Atlético de Bilbau na mesma moeda e realizar uma pressão em zonas mais avançadas do terreno.

United tenta pressionar alto, de início
Contudo, a equipa inglesa não está habituada a este tipo de estratégia e o Atlético de Bilbau pareceu dominar a melhor forma de a superar. Tratou-se estranhamente de um jogo bastante aberto, com ambas as equipas a parecerem querer oferecer um festival de golos. A equipa de Marcelo Bielsa podia ter adoptado uma postura mais expectante, mas o seu ADN não o permite, aparentemente.

Tal como tinha acontecido na primeira mão, o Atlético de Bilbau procedeu a uma marcação quase individual, confiante na sua coordenação, velocidade e intensidade - a começar pelo fantástico (antigo médio) Javi Martínez, o qual seguia Wayne Rooney para todo o lado. Giggs pareceu perdido durante quase todo o jogo (Sir Alex Ferguson parece não ter noção de quão raramente a sua equipa vence jogos importantes com Giggs no centro do terreno), com o galês na dúvida sobre se deveria recuar no terreno ou permanecer adiantado no sentido de tentar sobrecarregar o seu adversário directo.

O Atlético de Bilbau marcou o seu adversário de forma praticamente individual
Carrick foi heróico no seu papel de pivô defensivo, mas esteve praticamente sozinho. Park e Cleverley trocaram de posição com frequência, mas nenhum ajudou o inglês a parar os energéticos bascos. O meio-campo do Atlético de Bilbau já constituía por si só um enorme desafio, mas as subidas de Javi Martínez foram a gota de água para o United. O primeiro golo surgiu na zona de acção de Patrice Evra - o seu posicionamento defensivo é cada vez mais duvidoso. Tal como no golo de Dirk Kuyt na partida contra o Liverpool, Evra pareceu esquecer-se de fechar o espaço entre si e o defesa-central e Llorente não perdoou. O sonho do United desvanecia-se.

A partir desse momento, pouco mais restava do que ver uma equipa trabalhada à perfeição por Bielsa no seu magnífico pressing - a coordenação e entreajuda são impressionantes - e triangulações, criando oportunidade atrás de oportunidade. Em última análise, o resultado foi lisonjeiro para o United, se tomarmos em consideração as inúmeras situações de perigo que o Atlético de Bilbau criou para obter uma vitória histórica.

O portador da bola tinha sempre pelo menos duas opções de passe

Após sair a jogar com facilidade, a equipa de Bilbau prepara-se para criar nova oportunidade

Outro exemplo de como contornar linhas adversárias

Dois triângulos perfeitos
Numa altura em que o poder dos jogadores nunca foi tão vincado, é quase impossível acreditar que um treinador é capaz de alterar de forma tão radical uma equipa com hábitos tão enraizados. O Atlético de Bilbau está a realizar uma época de sonho e o encontro com o Barcelona para a final da Copa del Rey deverá ser uma bela partida. Em conclusão, é de ressalvar a categoria de Iturraspe e Javi Martínez ao liderarem e darem instruções aos seus companheiros - com absoluta noção do posicionamento ideal e prontos para ajudar sempre que necessário.

Monday, May 2, 2011

Bipolaridade (ou como o contexto altera as decisões)

O último texto deste blogue tinha versado sobre a lição táctica que Sir Alex Ferguson, treinador do Manchester United, tinha ministrado ao seu adversário da Liga dos Campeões. Pois bem, parece haver algo na turfa inglesa que leva os treinadores a não tomarem as opções mais lógicas e racionais em jogos da Premier League, optando ao invés por decisões apenas compreensíveis segundos os cânones ingleses.

Num jogo que opunha Arsenal e Manchester United e que era decisivo para as contas do campeonato, a equipa de Ferguson optou - como costuma fazer contra este adversário - por ceder a posse de bola e explorar o contra-ataque. No entanto, a estratégia não parecia estar a funcionar e a equipa de Wenger não parecia disposta a abdicar da vitória.

Raras são as vezes em que o resultado de uma substituição é tão notório. Num onze que incluía já Ji Sung Park, Nani, Rooney e Hernández como opções atacantes (num 4-4-1-1 bem definido), o treinador escocês optou por desfazer a dupla Anderson-Carrick no meio-campo, substituindo o médio brasileiro por Valencia (outro atacante), trazendo Park para o centro do campo, onde o sul-coreano nunca teve qualquer rotina. Na jogada imediatamente a seguir, Park não fechou o seu espaço, como Anderson, vinha fazendo até então, e o seu opositor directo entrou na área e marcou calmamente o golo da vantagem dos londrinos.

O que se viu no resto do jogo deixou ainda mais perplexos quaisquer amantes do futebol que não tenham passaporte inglês. A perder, o manager do United optou por tirar o único médio que tinha para fazer entrar - pasme-se - Michael Owen. Como resultado, o onze de Manchester perdeu de vez o controlo do jogo e, por seu turno, o Arsenal fez o que melhor sabe: manter a posse de bola sem qualquer objectivo final.

Wednesday, April 27, 2011

O Capuchinho Vermelho

No futebol actual, não sobra muito espaço para os contos de fadas. Com efeito, à medida que as competições vão sendo afinadas, cada vez se vão estreitando as possibilidades de clubes de menores dimensões atingirem fases mais avançadas de provas como a Liga dos Campeões. Ao que parece, o Schalke 04 nunca foi informado desse facto.

Dir-se-ia que o simples facto de ocupar o 10º lugar no respectivo campeonato e de ser uma das defesas mais batidas da Liga dos Campeões - por oposição ao Manchester, com apenas 3 golos sofridos ao longo de toda esta edição - levaria a que os alemães tivessem tomado pelo menos algumas medidas para contrapor ao jogo mais compacto do onze britânico. Ao invés, o que se viu foram 90 minutos de total previsibilidade, não de jogo ou de movimentações, mas sim de resultado.

O Schalke parece não ter entrado sequer no novo milénio. Longe vão os tempos em que equipas apenas dotadas de competências ofensivas logravam atingir altos voos. Hoje em dia, a organização é fundamental e, acima de tudo, o espaço entre as diferentes linhas das equipas. Não é possível pretender discutir uma eliminatória quando os três avançados recuam quase a passo (à la Jardel) e um dos médios-centro tenta seguir-lhes as pisadas. Ao ver o Schalke partir a equipa por iniciativa própria, começaram a subsistir dúvidas sobre se o adversário que tinham pela frente havia sido analisado; Rooney, Giggs e Carrick jogavam a seu bel-prazer, sem qualquer marcação minimamente incisiva, fazendo com que os germânicos pouco mais fizessem do que correr atrás da bola (mas não muito).

Uma última palavra para Manuel Neuer - um guarda-redes de agilidade e reflexos impressionantes que brillhará por certo noutras paragens num futuro não muito distante. Resta saber se a sua capacidade de concentração se mantém tão apurada ao jogar numa equipa que lhe garanta um número consideravelmente menor de intervenções.

Saturday, May 24, 2008

A noite de Ronaldo

A Liga dos Campeões chegou ao fim na noite de quarte-feira, depois de um jogo empolgante e muito bom. Foram quase três horas de incerteza, emoção e oscilações tácticas e não só. As equipas apresentaram-se como se esperava (pessoalmente, fiquei surpreendido com Alex Ferguson, pois não imaginava que se arriscasse a jogar com Rooney e Tévez): o Chelsea no seu habitual 4x3x3, Joe Cole na direita do ataque, Malouda na esquerda e o melhor trio do meio-campo à disposição de Avram Grant - Makelele, Lampard e Ballack. O Manchester United apresentava por seu lado um 4x4x2 (até há pouco tempo, a imagem de marca de Alex Ferguson), com Ronaldo e Hargreaves na esquerda e direita do ataque, respectivamente, e um meio-campo constituído por Scholes e Carrick.

O jogo começou com as coordenadas previsíveis. O Manchester United predispôs-se imediatamente a atacar a baliza do Chelsea, que, por seu turno, se contentava em defender a sua baliza - afinal de contas, uma das suas vocações - e espreitar o contra-ataque de quando em vez. Até marcar o golo, a equipa de Manchester praticou o seu futebol habitual: saídas de bola através dos centrais, com os defesas-laterais a encostarem-se imediatamente à linha do meio-campo, tanto através de passes longos como entregando a bola a Scholes, para que este organizasse o jogo ofensivo da sua equipa. Carrick jogava quase sempre na mesma linha de Scholes (foram várias as vezes em que foi possível ver os dois de perfil, quase), deixando a Ronaldo, na esquerda, as iniciativas ofensivas. Hargreaves cumpria mais uma função neste seu primeiro ano no United, depois de lateral, médio ofensivo e médio de contenção, abrindo espaços na direita tanto para as entradas de Wes Brown, o defesa-direito de serviço, como para as penetrações de Rooney e Tévez. Estes dois atacantes moviam-se na frente do ataque com as características que lhe são conhecidas, deslocando-se tanto para os flancos para servirem de ponto de apoio a Hargreaves ou Ronaldo como recuando no terreno para encararem a baliza de frente. Graças a estas movimentações (e à menor coordenação defensiva de Ballack e Malouda, por exemplo), o Chelsea foi dominado durante 25 minutos, tendo inclusivamente sofrido o primeiro golo de Cristiano Ronaldo, após cruzamento de Wes Brown (de pé esquerdo). Marcado o golo, o Manchester pensou ter o jogo resolvido e deixou de se movimentar conforme o tinha feito até então, passando a apostar mais no trio Ronaldo-Rooney-Tévez, encostando frequentemente Hargreaves ao duo do meio-campo.

Como consequência, o Chelsea foi equilibrando a contenda, com Lampard e Ballack a disporem agora de mais espaço para o seu futebol curto e de variações de flanco. Joe Cole foi continuando a fazer o seu trabalho de sempre, ora progredindo pela ala, ora descaindo para o centro, para que Essien (um mouro de trabalho com uma preparação física impressionante) entrasse em profundidade. Não foi por isso surpreendente que o Chelsea chegasse ao golo, com alguma sorte, diga-se, depois de um remate interceptado de Essien, com Lampard a chegar antes de van der Sar, que havia escorregado. O golo surgiu ao cair do pano da primeira parte, o que alterou radicalmente o que se antevia para a segunda parte.

A segunda parte foi dominada por completo pelo Chelsea, em boa parte graças ao jogo mais próximo do meio-campo do Chelsea e às mais e melhores deambulações de Joe Cole. Drogba, esse, continuava na sua luta incansável no ataque, dando pano para mangas a Ferdinand e Vidic, ao contrário de Malouda, uma absoluta sombra dos seus tempos em Lyon. Assim, e porque Scholes "pedia" a substituição há já algum tempo e porque Carrick se limita a defender, parecendo ter sempre receio de se aventurar em iniciativas ofensivas, o Chelsea foi encostando o Manchester às cordas, criando ocasiões de perigo para a baliza adversária, mas sem conseguir marcar. Drogba conseguiu ainda enviar uma bola ao poste com um remate fantástico, mas insuficiente.

O prolongamento desenrolou-se da mesma forma, mostrando um Chelsea obstinado na sua missão e um Manchester enredado nas suas próprias paredes tácticas, com Rooney e Tévez a perderem fulgor e Hargreaves definitivamente encostado ao meio-campo, dadas as dificuldades em travar Lampard e Ballack. A entrada de Kalou permitiu ao Chelsea ter duas alas durante breves instantes, até à entrada do eternamente inoperante Anelka, um dos maiores bluffs da história do futebol. Lampard teve ainda tempo para enviar nova bola à barra e Drogba conseguiu ser expulso depois de uma escaramuça com Vidic, entre outros, o que teve o condão de despertar a agressividade (a todos os níveis) do Chelsea.

Chegámos assim aos penalties, onde os nervos se revelam e os guarda-redes se podem revelar decisivos. Ronaldo foi o único a falhar, em 9 penalties, e Terry "apenas" tinha de fazer o que lhe competia, o que não conseguiu. Anelka mostrou a sua falta de nervo, ao rematar de forma denunciada e ao vir mostrar-se agastado após o jogo por jogar pouco, fora da sua posição e ainda lhe pedirem para marcar um dos primeiros 5 penalties, o que recusou, por ter entrado há pouco tempo. Com atitudes destas, não admira que alguns marquem e comemorem vitórias, enquanto outros se preocupam com o salário ou minutos de jogo.

Conclusões finais: Avram Grant deverá ter selado em definitivo o seu destino, ao não conseguir ganhar qualquer título, perdendo pelo caminho duas finais que teve na mão (algo impensável até há pouco tempo, para os lados de Stamford Bridge). Abramovich deve estar neste momento arrependido e há algum tempo à procura de um novo timoneiro, depois de ver falhar a sua estratégia (??). Ronaldo conseguiu a sua consagração europeia, apesar de não ter efectuado uma exibição brilhante (não obstante o excelente golo marcado), mostrando todas as suas dificuldades quando marcado por um bom defesa e quando a equipa adversária se mostra inteligente, não lhe oferecendo os espaços de que precisa para se virar para a baliza e embalar. Alex Ferguson ganhou o seu segundo troféu europeu em mais de 20 anos e mostrou que o Manchester esteve este ano uns furos acima do normal, graças também aos muitos milhões de euros dispendidos no defeso.

Creio que, ao fim e ao cabo, este desfecho poderá ser considerado o mais justo, se tivermos em conta as exibições e resultados de ambas as equipas ao longo da época, tendo o Manchester revelado uma maior estabilidade, tanto interna como externa. Veremos dentro de pouco tempo quem será o novo responsável técnico do Chelsea e até que ponto os milhões de Abramovich (que tantos pensavam ser a razão do sucesso de Mourinho) conseguirão fazer novos milagres.

Tuesday, May 20, 2008

Final da Liga dos Campeões: Mourinho continuará ou não a ser o "Special One"?

A Liga dos Campeões tem inúmeros atractivos. É sem dúvida a competição mais apetecível para todos os que têm aspirações a uma conquista gloriosa que deixe o seu nome na história. Pelo lado dos clubes, o prestígio vem acompanhado, em proporção directa, pelo significativo encaixe financeiro, o qual nunca é de todo de desprezar (uma vez que se traduz em maiores receitas directas e indirectas, seja através das bilheteiras com maior afluência no ano seguinte, o aumento das vendas de camisolas com os heróis da final, a possibilidade de contratar estrelas mais cintilantes ou até de conseguir contratos mais vantajosos com os patrocinadores). Por tudo isto, a final da Liga dos Campeões é sempre a quimera que todos pretendem alcançar, especialmente porque a Taça UEFA ficou absolutamente vazia de sentido a partir do momento em que os segundos, terceiros e quartos classificados de muitos países passaram a ter acesso directo ou muito facilitado.

Só assim se explica que esta final vá ser disputada por duas equipas inglesas, uma das quais não venceu o campeonato da época passada, mas isso já pouco importa para este texto. Na minha opinião, parece-me que esta final se divide, mais do que nunca, em várias facções opostas entre si. É certo e sabido que este tipo de jogos atrai muita gente que, regra geral, até nem coloca o futebol na sua lista de prioridades, mas esta partida é diferente.

1) De um lado vão estar todos aqueles que esperam que Cristiano Ronaldo confirme finalmente em plena Liga dos Campeões as diabruras que faz a adversários mais "tenros" e marque um golo à única equipa a quem ainda não o fez. Essas serão as pessoas que, em meados de Junho, estarão a torcer para que nada aconteça ao rapaz-maravilha para que o Europeu possa correr bem a Portugal. No outro lado da barricada, estarão todos aqueles que, apesar dos mais de 60 golos marcados nas duas últimas épocas, ainda acham que Ronaldo é um "bem" algo inflacionado. Por seu turno, estes estarão à espera que Ronaldo falhe rotundamente em mais um momento das grandes decisões para poderem repudiar convenientemente Scolari e o seu séquito.

2) Uma outra batalha prende-se com a eterna questão do futebol espectáculo. O Manchester chegou ao final do campeonato com uma diferença de 19 golos para o Chelsea, o que permite retirar a conclusão lógica que, com o Manchester em campo, há golos pela certa (ainda que nem sempre para o lado que o clube deseja). Ou seja, vai haver quem queira que se faça justiça à equipa que joga sempre para ganhar (e golear, se possível) e haverá quem torça pela antiga equipa de Mourinho, sempre mais "resultadista" - como se diz hoje em dia.

3) Mourinho será sem sombra de dúvida uma das questões centrais deste jogo. Há neste momento meio mundo (essa metade é em grande parte constituída por cidadãos britânicos) ansioso por dizer de sua justiça, caso o Chelsea vença a prova. Se, neste momento, já se ouvem ecos de que foi preciso Mourinho sair para o Chelsea chegar à final da Liga dos Campeões (e para começar a perder finais, já agora), ainda que nas mãos de um treinador sem o grau máximo atribuído pela UEFA, imaginemos o que acontecerá se o Chelsea se sagrar vencedor. Vão chover os habituais chavões de que o dinheiro não é tudo, de que o "português" não passa de um truque publicitário e de que, antes de tratar da imagem, é preciso saber o que se faz como treinador. A outra metade do mundo vai estar certamente a torcer pelo treinador luso, o qual, após sair do FC Porto, passou a estrela nacional, apesar de tanto ter sido criticado enquanto andava por terras nacionais. São essas pessoas que vão torcer, de forma mais ou menos fervorosa, para que o Chelsea perca e Abramovich perceba a frase do mister português quando chegou a Stamford Bridge: "Mr. Abramovich, não precisa de nenhuma estrela para ser campeão. A única estrela sou eu."

Independentemente de todas estas questões, o jogo de amanhã tem tudo para ser um jogo de futebol fantástico, ainda que isso não signifique necessariamente que se trate de um jogo muito vistoso. Ambas as equipas já se conhecem demasiado bem para haver grandes surpresas (ainda que Alex Ferguson padeça de alguma "trenadorite" e tenha uma certa tendência a inovar quando menos se espera) e ambas estarão suficientemente preocupadas em não entregar o ouro ao bandido.

O Chelsea vai provavelmente apostar numa toada de contenção, não só porque é considerado o "patinho feio" da final, mas também porque terá constantemente a preocupação de rodear Ronaldo de homens suficientes que o impeçam tanto de deambular pelo campo como de se virar e ganhar embalo. Além do mais, com homens como Ballack, Lampard, Terry e Drogba, o Chelsea não é famoso pelas suas transições rápidas, mas antes por saber quando desferir o golpe fatal. Não obstante, não tem a mesma estrutura mental que tinha anteriormente e os jogadores parecem efectivamente muito cansados, muito provavelmente pela falta de descanso para tentar chegar ao título no sprint final.

Pelo seu lado, o Manchester já demonstrou estar com "fome de bola". Cristiano Ronaldo vai estar desejoso de provar ao mundo que é o melhor jogador da actualidade e Ferguson não se quer ver a perder. É quanto a mim indiscutível que o Machester ganhou finalmente estatuto de equipa europeia (descolando finalmente do lote do Arsenal, por exemplo, enquanto equipa que promete, mas que não sabe a diferença entre futebol espectáculo e vencer títulos) e que defende bastante melhor hoje do que fazia há um ano atrás, por exemplo. Seja como for, a equipa de Manchester revela sempre algumas dificuldades quando o adversário ataca de forma contínua, mostrando-se frequentemente desorganizada, ao contrário do Chelsea, que, graças aos vários anos com Mourinho, sabe sofrer encostada às cordas e apontar Drogba à baliza adversária em seguida. Foi exactamente o que se viu na meia-final contra o Liverpool.

Para terminar, gostaria apenas de agradecer a vossa participação na mini-sondagem para a final de amanhã e esperar que o jogo seja tão bom como todos esperam. Pela minha parte, posso garantir que estarei colado ao televisor durante pelo menos 90 minutos, ansioso por ver quem cede primeiro.