Não, o primeiro post deste blog não será para maldizer as equipas que jogam para o resultado nem para afirmar verdades balofas sobre como o futebol deveria ser espectáculo, especialmente em jogos de Taça. Por mais que me agrade a componente dos golos, no futebol, não é ela que me mantém constantemente colado ao ecrã da televisão (para mal dos pecados das várias pessoas que coabitam comigo).
Antes de mais, a ressalva fundamental: é sempre muito mais fácil falar de fora do que estar no banco ou em campo. Dito isto, há algumas questões que me parecem fundamentais no jogo de ontem. Comecemos então pela primeira:
1) O onze titular. Se é verdade que os jogadores sozinhos não ganham jogos, poderemos depreender que os onzes escalados de início tão pouco levarão às vitórias. No entanto, há alguns aspectos que me parecem aplicar-se vezes sem conta. Com efeito (e nisso Jesualdo Ferreira parece ter algumas dificuldades), um onze pode esconder tanto quanto pode revelar. Regra geral, o FC Porto das últimas duas épocas tende a alterar não só a sua forma de jogar, como também o seu onze titular, dando logo a entender uma adaptação (a meu ver) exagerada ao adversário, quase como se fosse mais importante não perder do que ganhar. Por melhor que qualquer táctica seja no papel, são os jogadores que a têm de sentir e intepretar; esse sentimento e interpretação são influenciados, entre outros, por factores motivacionais. Como tal, é mais do que natural que tanto os adversários como os próprios jogadores do FC Porto retirem as suas ilacções. Enquanto que o Sporting se apresentava com o seu onze na máxima força, o FC Porto mostrava-se preocupado com as incursões de Abel (colocando João Paulo à esquerda, uma adaptação que dificilmente funcionará satisfatoriamente) e lançava Mariano González, um jogador voluntarioso mas que não poderá nunca fazer parte dade uma equipa titular que queira ganhar finais, no lugar de Tarik, esse sim, bastante mais fadado para os grandes momentos.
2) Embora Jesualdo Ferreira pareça não compreender, a alteração de uma simples pedra altera equilíbrios e processos numa equipa, especialmente quando essa equipa esteve habituada a iniciar as suas jogadas de ataque pelas alas (por Bosingwa e Fucile) ao longo de toda a época. O mesmo tinha acontecido em Gelsenkirchen e Londres, com os mesmos resultados: uma avalancha ofensiva do adversário, dados os constantes desentendimentos e desequilíbrios provocados por jogadores com características e funções específicas demasiado diferentes dos habituais titulares. Por conseguinte, não surpreendeu ninguém que o FC Porto tivesse passado uma grande parte da primeira metade a encontrar-se defensivamente e a perder-se no ataque.
3) O ataque não existiu, pura e simplesmente, à parte alguns fogachos individuais. Lucho parecia algo deslocado e surpreendido com tudo o que ia acontecendo nas suas costas e Raúl Meireles fazia os possíveis e impossíveis para ajudar João Paulo a defender (uma vez que este tinha tendência ou instruções para se encostar aos dois centrais) e para dar uma "perninha" no ataque, uma vez que Mariano é e será sempre Mariano (um suplente esforçado, no máximo) e Quaresma é... Quaresma. Ou seja, não havia as habituais transições ofensivas rápidas, de que Jesualdo tanto gosta, pois não havia quem as executasse. Fucile tem momentos de caos táctico, para além das constantes perdas de bola supérfluas de Quaresma no meio do campo, com a equipa balanceada para a frente, João Paulo não estava ali para passar a linha do meio-campo e Lisandro estava preso entre os centrais.
4) Quaresma merece uma secção só para si. Não sei o que lhe passa pela cabeça: se são os constantes burburinhos sobre transferências milionárias, se é um egocentrismo desmesurado que ninguém contraria, se é "perrice" por os holofotes penderem actualmente mais sobre Lucho e Lisandro, mas o facto é as suas exibições são de bradar aos céus. Desconcentrado, parecendo viver num universo paralelo (o que tem bastante mais de mau do que de bom), aliena-se constantemente das consequências que as suas acções poderão ter para a sua equipa, havendo pelo menos três situações claras de perigo eminente para Nuno graças às suas perdas de bola infantis. Compreendo com dificuldade o estado de graça de que Quaresma parece usufruir. Com 24 anos, ainda não aprendeu os timings de quando deve passar, fintar, rematar ou simplesmente não perder a bola. Ao contrário de Cristiano Ronaldo (note-se que, quando os dois surgiram, eu afirmei que dava muito mais por Quaresma do que por Ronaldo), parece ter aprendido pouco e com pouca vontade de melhorar o seu jogo para a equipa. E assim se perde um talento potencial... Bem sei que um talento destes pode resolver um jogo, mas, ao fim de mais de 90 minutos de jogo, o que esperava Jesualdo para retirar de campo um ineficiente e aparentemente desalentado Quaresma?
5) Por último, que o texto já vai longo, Raúl Meireles. Um médio que cumpre muito bem as funções de número 8 no 4x3x3 desenhado por Jesualdo, mas que raramente parece aguentar 90 minutos de futebol intenso. Ainda assim, fez várias posições e nem mesmo quando rebentou por completo, gritando de forma sonora ao efectuar um corte em esforço absoluto, teve direito à substituição. É-me difícil entender a razão para tal, pois só vejo duas hipóteses: ou Jesualdo acha que o banco que tem (criado à sua imagem, com "jogadores altos e possantes", como pedira) não é capaz de render o onze titular ou o conceito inicial estava à partida errado, uma vez que uma equipa não pode viver apenas de Bolattis e Kazmierczaks, como ontem se viu. E o Porto acabou a época a jogar sem reforços, à excepção de Mariano González, e sem capacidade de segurar a bola.