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Wednesday, October 24, 2012

O que é ao certo a cobertura ofensiva?


Os especialistas futebolísticos (incluindo este colunista, perdoe-se a imodéstia) abordam frequentemente termos e expressões que, por vezes, têm definições vagas para a maioria dos ouvintes/leitores/telespectadores. Hoje, iremos debruçar-nos sobre o mito da cobertura ofensiva e o que representa. Os pilares do princípio da "cobertura ofensiva" dividem-se em dois:

  1. Apoiar o portador da bola e
  2. Manter o equilíbrio defensivo.

Em termos básicos, isto significa que deverá haver um ou mais jogadores ao lado e/ou atrás do portador da bola, de modo a manter a posse da mesma, mas também para garantir que, se a bola for perdida, haverá alguém pronto para conter a ameaça inicial e impedir que o adversário lance um rápido contra-ataque.

Embora ambos os casos apresentados em seguida possam ser igualmente atribuídos a más decisões individuais, este artigo focar-se-á principalmente na cobertura ofensiva e na importância de o portador da bola saber ler o jogo e identificar a sua melhor opção.

  • Golo n.º1 - Shakhtar v Chelsea
A jogada tem início na direita. Hazard (amarelo) recua para receber o passe de Terry. Tentando abrir espaço para o seu colega, Ramires (azul) avança no terreno. A bola será encaminhada para Mikel (vermelho). Note-se como os quatro jogadores do Shakhtar formam uma diagonal quase perfeita, fechando as linhas de passe.


Mikel recebe a bola e, em vez de a passar para David Luiz (laranja) ou Ivanovic (verde), volta-se para o centro do terreno. Ramires (azul) recua, tentando apoiar o seu companheiro. 


Mikel, sob forte pressão, acaba por remeter a bola para Hazard, mas tanto Mikel (vermelho) como Ramires (azul) ficam à frente do avançado belga. É possível ver Cole na linha do meio-campo e Ivanovic (ver imagem seguinte) mais adiantado. Isto significa que apenas Terry e Luiz estão atrás do prodígio do Chelsea. 


Hazard perde a bola e verifica-se agora uma situação de 2x2, com Ivanovic (verde) demasiado adiantado. Com Luiz (laranja) muito aberto, Terry (roxo) tenta correctamente retardar a jogada.


Luiz (laranja) corre na diagonal em direcção ao centro, ao passo que Terry (roxo) permanece ao centro, à espera de reforços.


É nessa altura que Terry executa uma discutível abordagem defensiva. Com Luiz agora mais perto, Terry aproxima-se do portador da bola, abrindo uma enorme avenida para o passe nas suas costas, em vez de fechar a linha de passe.

Conclusão

A boa leitura de jogo é essencial em qualquer cenário, mas, num contexto tão rigoroso como a Liga dos Campeões, um erro é muitas vezes o suficiente para ser penalizado pelo adversário. Sem a devida cobertura ofensiva (ou seja, opções de passe seguras), tanto Mikel como Hazard deveriam ter-se apercebido do perigo e jogado de forma segura. Por outro lado, os seus companheiros de equipa deveriam ter oferecido um melhor apoio durante o ataque e promovido as adaptações necessárias assim que vislumbraram a possibilidade de perda da bola. 

  • Golo n.º 2 - Spartak de Moscovo v Benfica
Neste caso em particular, o Benfica está a atacar pela direita, como é seu timbre. Salvio (o extremo direito) passa para Matic (o pivô defensivo).


Matic (azul) é imediatamente pressionado por Rafael Carioca (o jogador que viria a marcar o golo). O lateral-direito do Benfica, Maxi Pereira (laranja), é neste momento o jogador mais avançado da equipa. Melgarejo (vermelho), o lateral-esquerdo, apercebe-se das dificuldades do seu colega e insiste em subir no terreno, em vez de oferecer uma linha de passe segura. Note-se o número de jogadores do Benfica à frente da linha da bola.


Tomando uma má decisão, Matic tenta entregar a bola a Melgarejo, mas Bilyaletdinov faz a intercepção. A área a sombreado mostra como não existe ninguém atrás de Matic (azul) para além dos defesas-centrais, no seu meio-campo defensivo.


Nesta imagem, é fácil constatar a situação de igualdade numérica. Jardel (roxo), à semelhança de Terry, preocupa-se mais com a bola do que com o espaço ou em fechar a linha de passe. A bola acabaria por chegar a Jurado, livre de qualquer marcação.


Jurado segura a bola enquanto espera por um colega. Rafael Carioca, jogador que havia pressionado Matic, passa pelo seu opositor e pelo de Jurado e introduz a bola na baliza.

Conclusão

Este foi outro exemplo da necessidade de saber ler o jogo em função do posicionamento do jogador e da equipa. Embora o passe de Matic não tenha sido o ideal, convirá não esquecer as inúmeras más decisões dos seus companheiros, ao não oferecerem suficientes linhas de passe seguras - incluindo a subida de um dos seus colegas após ver o seu pivô em dificuldades. Se Matic tivesse sido devidamente apoiado, haveria algumas linhas de passe ao seu lado ou atrás de si, de modo a manter a posse da bola e a evitar um rápido contra-ataque se a equipa perdesse a bola, como viria a acontecer.

Monday, October 22, 2012

Tão perto, mas tão longe

Equipas iniciais

Havia um enorme burburinho à volta deste encontro, com o Tottenham de de André Villas-Boas a defrontar o seu antigo clube. Iria o treinador português instigar a sua equipa a entrar no jogo em força desde o apito inicial ou iriam os Lilywhites adoptar uma postura mais cautelosa?

Enquanto o Chelsea se debatia com as ausências de John Terry (suspenso) e Frank Lampard (no banco), ao Tottenham faltavam igualmente dois jogadores chave: Moussa Dembélé e Gareth Bale, criando uma parceria entre Tom Huddlestone e Sandro no meio-campo, com Dempsey no flanco esquerdo. Infelizmente para o Tottenham, essas ausências revelaram-se mais importantes do que as do Chelsea ao longo de todo o jogo.

Sem nenhuma das equipas interessada em pressionar à frente, a equipa de Roberto Di Matteo mostrava-se claramente mais confiante e mais segura no momento da posse de bola. Sem o contributo defensivo de Bale e Dempsey pouco disposto a recuar rapidamente, o Chelsea insistiu pelo flanco direito, criando constantemente situações de superioridade numérica.

O Tottenham patenteava enormes dificuldades em sair a jogar. Com Gallas e Caulker no centro da defesa - nenhum dos dois particularmente à vontade a distribuir jogo -, um jogador como Dembélé é essencial, uma vez que pode manter a posse de bola e passar por adversários antes de abrir o jogo. Para além do mais, trata-se de uma equipa que gira em torno da velocidade pura de Bale para a saída de bola, uma directriz que foi anulada devido às diferentes característica de Dempsey. A simples mudança do norte-americano para a ala causou não só uma ineficiência no flanco esquerdo, mas removeu igualmente a incisividade de Desmpey no centro, onde é exímio a aproveitar segundas bolas do seu ponta-de-lança, ao contrário de Sigurdsson. Por seu turno, o médio islandês jogava demasiado à frente para ajudar defensivamente, mas não criava situações de perigo durante os momentos ofensivos - como é frequentemente intenção do treinador ao colocar um jogador deste tipo em posições tão adiantadas. AVB acabaria por perceber isso mesmo e Sigurdsson e Dempsey acabariam por trocar de posição a meio da primeira parte.

O contraste nítido do contributo de Dempsey
entre a primeira e a segunda metade da 1ª parte.

Para uma equipa com rotinas tão inculcadas no lado esquerdo, Aaron Lennon tinha de compensar essa ausência, algo que não fez até ao minuto 25, espalhando imediatamente o pânico na defesa do Chelsea. Na verdade, Lennon viria a criar a melhor oportunidade do Tottenham com Sigurdsson como destino dez minutos mais tarde. O Chelsea chegava ao intervalo a vencer e com toda a justiça.

A segunda metade foi totalmente distinta. O Tottenham libertou-se do medo de atacar e obrigar o duo de médios do Chelsea a trabalhar, algo que deu frutos de forma quase imediata, através do golo de Gallas aos 46 minutos. Alguns minutos depois, a equipa visitada marcaria o segundo tento quando Defoe desviou o remate enrolado de Lennon. Embora os primeiros 15 minutos do Tottenham se tenham ficado a dever em parte à maior intensidade e dinâmica, é importante destacar o contributo de Lennon, uma vez que era o único jogador da equipa da casa (com a excepção do fiável e impressionante Jermaine Defoe) capaz de ultrapassar adversários em situações de 1x1, levando ao seu desposicionamento.

A diferença entre a primeira e a segunda parte é nítida,
com toda a equipa do Tottenham mais ampla e avançada.

O encontro parecia então nas mãos do Tottenham. O Chelsea parecia perdido e incapaz de inverter a situação. Embora o papel de Mata e Hazard na remontada final tenha sido absolutamente fundamental, houve dois factores que actuaram contra o Tottenham: a menor capacidade de Gallas e a ténue protecção do meio-campo à sua linha mais recuada.

Os diferentes contributos defensivos de Sandro e Huddlestone

A ausência de Bale foi obviamente importante, mas a de Dembélé poderá ter sido ainda mais importante. Para além da sua capacidade de oferecer constantemente uma saída de bola, o seu desempenho defensivo é igualmente relevante. O gráfico apresentado mais acima apresenta as distintas participações defensivas de Sandro e Huddlestone, uma diferença que se tornou mais nítida à medida que o encontro se desenrolava. na verdade, a fadiga de Huddlestone foi causa directa do segundo golo do Chelsea e a sua substituição pecou por tardia.

No que diz respeito a Gallas, AVB deverá por certo ansiar pelo regresso de Kaboul ou Assou-Ekotto. Apesar do seu impressionante e vitorioso palmarés, as limitações do defesa-central francês ficaram uma vez mais à vista. Infelizmente para Gallas, o francês já não é o mesmo jogador sólido e fiável que foi em tempo e a partida de Sábado apenas expôs ainda mais as suas fragilidades. Não só o seu posicionamento se tem revelado questionável - originando alívios mal direccionados -, mas a sua leitura de jogo também parece estar a ressentir-se, como ficou provado no terceiro golo do Chelsea.

Esta foi uma partida que o Tottenham poderia e deveria ter vencido após recuperar da desvantagem inicial, não fora por alguns pecadilhos críticos no meio-campo e na defesa. Dembélé e Bale regressarão em breve, tal como Parker, Kaboul e Assou-Ekotto, o que apenas tornará a equipa mais forte. Não obstante a derrota, André Villas-Boas poderá encontrar consolo ao ver que a sua equipa está a evoluir e a caminho de se tornar suficientemente poderosa para se bater com os seus adversários olhos nos olhos.

Monday, May 14, 2012

Liga dos Campeões - Análise do Bayern de Munique

Equipas e movimentações iniciais previstas

Muito embora não fosse este o embate mais popular (um possível confronto entre Barcelona e Real Madrid era o mais desejado por todos), a final da Liga dos Campeões do próximo sábado promete ser um encontro entusiasmante, especialmente porque os estilos das duas equipas não poderiam ser mais diferentes. Uma vez que o Chelsea foi extensivamente analisado aqui, aqui, aqui e aqui, o texto de hoje debruçar-se-á sobre a equipa alemã.

Enquanto o Chelsea se transformou num coeso bloco defensivo com uma abordagem mais reactiva sob as ordens de Roberto Di Matteo, a postura do Bayern de Munique é mais ofensiva e, por conseguinte, o seu onze apresenta um claro desequilíbrio a favor do sector atacante. Com efeito, é difícil imaginar uma equipa mais adequada (em teoria, pelo menos) à recém-descoberta solidez defensiva do Chelsea. 

  • Pontos positivos
É indiscutível que o Bayern é uma equipa de nível mundial; se assim não fosse, não teria batido Real Madrid, Manchester City e Nápoles - entre outros - a caminho da final. Conforme referido anteriormente, a sua força reside evidentemente nas zonas mais avançadas do terreno, com figuras como Mario Gómez, Franck Ribéry, Arjen Robben e Bastian Schweinsteiger. 

Existem dois aspectos fundamentais no jogo do Bayern. Antes de mais, Mario Gómez. É justo que qualquer análise comece por este fantástico ponta-de-lança alemão de ascendência espanhola. As duas mais recentes épocas deste avançado foram sensacionais e, se não fossem os feitos extraterrenos de Messi, seria o melhor marcador da competição. O outro aspecto são os dois extremos, Ribéry e Robben, jogadores insuperáveis em situações de 1v1 e capazes de semear o pânico em qualquer altura. 

Apesar de a descrição da sua posição ser idêntica, o movimentos de ambos é muito distinto. Enquanto Robben joga junto à linha lateral e tende a flectir para o centro, Ribéry tem maior propensão para pegar na bola em zonas mais recuadas em direcção à linha de fundo.

O Bayern apresenta movimentações interessantes
ao concentrar as atenções numa ala e explorar o lado fraco.
Quando Robben flecte para dentro, Gómez tende a ir ao seu encontro, libertando Ribéry.

  • Pontos negativos
À semelhança do Chelsea, a equipa alemã não poderá contar com jogadores fundamentais, tais como Alaba, Gustavo e Badstuber - o que equivale a quase todo o lado esquerdo. O Bayern tem sido repetida e assustadoramente frágil na ala esquerda. Por exemplo, Ribéry tem uma arreliadora tendência para se alienar das suas tarefas defensivas e tanto Alaba como Gustavo denotam imensas dificuldades em termos posicionais, abrindo-se desse modo brechas na sua muralha defensiva. 

Qualquer equipa que defronte o Bayern
sabe que o flanco esquerdo é a melhor opção para atacar.

Ao que parece, todas essas ausências poderão revelar-se felizes para Jupp Heynckes, uma vez que Lahm actuará provavelmente no lado esquerdo, com Rafinha a ocupar o outro flanco, e Kroos recuará para a sua posição natural ao lado de Schweinsteiger. Com o recuo de Kroos, será provável que Müller seja chamado para jogar na posição 10. A grande questão em torno de Müller é a inconstância das suas exibições, algo que não faz propriamente falta numa final da Liga dos Campeões.

Para além disso, o posicionamento defensivo do Bayern deixa muito a desejar. Talvez a presença de Van Buyten traga consigo alguma estabilidade ao sector mais recuado, uma vez que os homens de Heynckes repetem erros que qualquer equipa de amadores tenta não cometer - como, por exemplo, a ausência de cobertura defensiva ou o desaparecimento de um dos centro-campistas. A título de exemplo, a final da taça alemã deixou a nu as enormes fragilidades do sector contra a simples dupla de ataque de Kagawa e Lewandowski, o que parece deixar a entender que Mata e Drogba estarão na sua zona de eleição.

É invulgar que uma simples estratégia de futebol directo
produza tantas oportunidades de golo.
  • Conclusão
No cômputo geral, o jogo deverá ser equilibrado, dada a tradição da Liga dos Campeões segundo a qual ambas as equipas têm algum receio de sofrer o primeiro golo. Ainda assim, é a opinião deste blogue que a abordagem sóbria e reactiva do Chelsea se sobreporá à atitude mais arriscada e ofensiva do Bayern - embora convenha ter em atenção que as duas equipas estarão desfalcadas de alguns jogadores importantes, o que poderá provocar desequilíbrios numa das equipas (ou até mesmo nas duas).

Sunday, May 6, 2012

Chelsea conquista a FA Cup


Equipas e movimentações iniciais

Após uma longa pausa forçada, A Bola do Vasco está de volta - e com nada mais, nada menos do que uma análise sobre o encontro entre Chelsea e Liverpool. No passado sábado, as duas equipas defrontaram-se no primeiro dos dois jogos no espaço de quatro dias. Desta feita, o Chelsea levou a melhor sobre o Liverpool, mas à justa.


Os homens de Roberto Di Matteo iniciaram a partida plenos de confiança, como resultado directo das suas últimas proezas. Com o onze preferido de Di Matteo para as batalhas mais difíceis, o Chelsea apresentou-se coeso, intenso (tanto ofensiva como defensivamente) e com vocação atacante. Por outro lado, a equipa treinada por Kenny Dalglish entrou claramente na expectativa e optou por uma postura menos ousada.


Com Gerrard e Mata com instruções para se juntarem ao seu meio-campo, o centro do terreno estava algo congestionado, como seria de esperar. No entanto, o golo do Chelsea ao fim de dez minutos agitou o evento e serviu como evidência das intenções ofensivas dos Blues. A jogada que deu origem ao golo foi igualmente útil para avaliar a importância da cobertura ofensiva e defensiva, assim como a abordagem de Luís Enrique no duelo com Ramires.


Nunca é de mais realçar a importância da cobertura ofensiva e defensiva.
Spearing (azul) acaba de errar um passe.
Henderson está mais adiantado e Gerrard não é sequer visível.
Percebendo o perigo para a sua equipa, Gerrard (vermelho) recua em sprint,
enquanto Henderson volta devagar.
Mata tem todo o tempo para escolher o passe.
Adicionalmente, Luís Enrique toma a decisão errada de tentar o desarme,
em vez de retardar Ramires e esperar por reforços, permitindo que Ramires passasse.


Na verdade, o meio-campo do Liverpool foi um dos principais problemas. Com Gerrard junto a Suárez e Henderson demasiado adiantado, Spearing foi presa fácil para Mata, o qual estava ao seu melhor nível nas costas do meio-campo do seu adversário e desposicionava Spearing com enorme facilidade. Com o Chelsea fiel ao seu agora habitual 4x4x1x1, as transições ofensivas tinham como alvo Drogba, que demonstrava enorme facilidade em combinar com o génio espanhol para que este assistisse os seus colegas.


Ao contrário de outros jogos, Lampard jogou mais avançado do que Mikel e teve autorização para aparecer perto da grande área adversária, agravando ainda mais a situação dos Reds. Por seu turno, o Liverpool mostrava-se extremamente lento em posse e denotava a ausência de uma centelha criativa. Com efeito, Gerrard recuou inúmeras vezes para pegar no jogo, deixando Suárez ainda mais desacompanhado na frente. Dada a inofensiva ameaça do seu oponente, Ivanovic não tinha qualquer problema em ir ao encontro do avançado uruguaio, impedindo que o Liverpool emprestasse qualidade à sua posse de bola.


Note-se a protecção deficiente da linha defensiva do Liverpool ao longo de todo o encontro.


Dalglish tinha de mudar algo para a segunda parte e optou por um 4x4x2 mais tradicional, com Henderson como médio-direito, Gerrard ao lado de Spearing e Bellamy atrás de Suárez. De forma algo previsível, o meio-campo do Liverpool foi contornado com enorme facilidade, especialmente para o segundo tento do Chelsea, apontado por Drogba.


Com uma simples finta, Lampard liberta-se e tem todo o espaço para assistir Drogba.
O encontro parecia praticamente decidido, mas, três minutos mais tarde, Dalglish substituiu Spearing por Carroll. Henderson regressou ao seu posto mais natural no centro do meio-campo, Bellamy voltou à ala direita e Suárez deslocou-se para trás de Carroll. Como se viria a verificar, Carroll foi uma presença absolutamente fulcral para devolver o Liverpool ao jogo. O corpulento avançado não só tirou o máximo proveito de um erro defensivo do Chelsea para o primeiro golo, como também ofereceu um foco para o ataque da sua equipa, em particular porque tanto Terry como Ivanovic denotavam imensas dificuldades em lidar com o físico e a abordagem do ex-jogador do Newcastle.


Após reentrar na partida, o Liverpool continuou a pressionar os Blues, cujo treinador demorou a aperceber-se do cansaço óbvio da sua equipa. Foi então que Carroll demonstrou toda a sua valia, não oferecendo qualquer período de recuperação à linha defensiva do Chelsea, dando-lhe a provar um pouco do seu veneno - na verdade, Carroll foi extremamente infeliz ao não ver validado aquele que seria o seu segundo golo, já perto do fim do encontro.


Em última análise, ganhou a melhor equipa. O Liverpool raramente foi agressivo, teve inúmeros problemas em sair a jogar, foi lento na circulação de bola e não foi propriamente ambicioso. Ao invés, o Chelsea teve sempre a intenção de controlar o jogo e o respectivo ritmo e, se não fosse o golo algo fortuito de Carroll, teria provavelmente ganho a partida com facilidade.

Friday, April 6, 2012

Benfica - o que melhorar para a próxima época?


É sempre difícil, arriscado e talvez injusto analisar os pontos a melhorar numa equipa que alinhou sem nenhum dos seus defesas-centrais e que estava com dois golos de desvantagem (no conjunto das duas mãos da eliminatória) quando um dos seus melhores jogadores foi expulso. Ainda assim, embora os encarnados tenham saído de Stamford Bridge de cabeça erguida, é precisamente isso que vamos fazer - porque há pormenores que podem - e devem - ser corrigidos, apesar da atitude guerreira do onze benfiquista.

Chelsea e Benfica ofereceram um espectáculo palpitante na passada quarta-feira, num encontro que apuraria o próximo adversário do Barcelona nas meias-finais da Liga dos Campeões. À imagem do que tinha acontecido na partida contra o Sporting de Braga, as águias não se importaram de partir o jogo ao meio, de modo a tirar proveito da lentidão da defensiva contrária. Como tal, ninguém terá sido surpreendido ao assistir, tal como no jogo contra os bracarenses, a um encontro recheado de oportunidades de golo, grandes defesas dos guarda-redes e um público da casa com os nervos à flor da pele.

No presente texto, iremos debruçar-nos sobre 3 questões particulares: posicionamento defensivo, situações defensivas de bola parada e transições defensivas. É justo dizer que o Benfica não teve a sorte do seu lado nos dois jogos, mas não é menos verdade que as equipas mais fortes da Liga dos Campeões tendem a castigar adversários com menor potencial precisamente nesses "detalhes" de menor importância, à primeira vista. Se as águias têm como objectivo capitalizar a experiência adquirida ao longo desta época, deverão ser suficientemente humildes para reconhecer que existe uma diferença considerável entre o futebol português e a prova mais importante a nível europeu - quanto mais depressa o admitirem, mais rapidamente se tornarão um clube a ter em conta por mérito próprio.

1. Posicionamento defensivo. O Benfica é muitas vezes louvado pelo seu implacável futebol de ataque, uma abordagem que quase teve a sua recompensa na passada quarta-feira. No entanto, uma boa cobertura e posicionamento defensivos constituem uma base em que qualquer clube com aspirações de grandeza deve assentar. Independentemente dos danos que tanto Bruno César como Maxi Pereira possam infligir no campo do seu adversário, é igualmente importante que sejam capazes de dominar as suas tarefas defensivas - algo em que nem sempre têm sido bem sucedidos ao longo desta temporada.

Maxi Pereira sobe para marcar Kalou, acabando por ficar lado a lado com Bruno César.
Note-se o espaço nas costas dos dois jogadores, com uma cobertura reduzida por parte de Javi García.

Kalou desmarca-se com uma simples "tabela". Javi García já vai atrasado para fazer a cobertura.


2. Situações defensivas de bola parada. É do conhecimento público que o Benfica semeia o caos com os seus lances de bola parada na zona ofensiva, mas é menos consesual que os comandados de Jorge Jesus são extremamente vulneráveis quando no outro lado da barricada. Recentemente, os vice-campeões nacionais sofreram golos neste tipo de jogada contra o FC Porto e Sporting de Braga (referindo apenas os jogos de maior dimensão) e, no último encontro, foram felizes ao não verem o Chelsea a marcar a partir de cantos, em particular. Apesar das recentes alterações promovidas por Jesus ao nível da marcação zonal, subsistem ajustes a fazer no sentido de vencer equipas mais fortes.

O Benfica insistiu em concentrar um grande número de jogadores na zona do primeiro poste.
Como resultado, David Luiz acaba por ficar sozinho, sem qualquer marcação. Note-se o espaço no segundo poste.

Após um mau alívio, Luiz recebe a bola sem marcação e quase sem oposição.
Capdevila acabou por evitar males maiores, nesta ocasião.

3. Transições defensivas. Muito provavelmente, o aspectomais importante no futebol moderno. A maioria das equipas sabe que é necessário retirar a bola da zona de pressão a seguir à sua recuperação, uma vez que não é expectável que os adversários tenham o mesmo número de jogadores no lado fraco (longe da bola). Os jogadores estão cada vez mais cientes de que a bola tem de rodar de um lado para o outro - de preferência de forma rápida -, no sentido de encontrar uma brecha. A questão que tende a separar as equipas nos dias que correm é a reacção ao momento em que perdem a bola. É verdade que não se trata de algo que apareça nos resumos, mas veja com os seus próprios olhos e analise com mais atenção. O facto de as melhores equipas serem geralmente as mais eficazes nas transições defensivas não pode ser coincidência - ou acha mesmo que o mérito do Barcelona (por exemplo) se baseia apenas no ataque?

Bruno César e Maxi em zonas avançadas do terreno. Nenhum deles faz falta para parar o contra-ataque.
O Benfica está prestes a ter sete jogadores à frente da linha da bola.
 
Javi García (o pêndulo da equipa, de punho fechado) faz a intercepção segundos mais tarde
e diz aos seus colegas que deveriam ter "matado a jogada" quando tiveram a oportunidade.

Note-se a diferença em situação inversa. Artur acaba de entregar a bola para um rápido contra-ataque.
Apercebendo-se de quantos jogadores do Chelsea estão à frente da bola,
Lampard faz rapidamente falta para parar a jogada.

Conclusão. Tudo isto que aqui foi escrito pode ser encarado como algaraviada táctica, mas, muitas das vezes, estes momentos são decisivos para o resultado de um determinado jogo. Embora o Benfica seja capaz de contornar a sua desatenção defensiva na maioria dos jogos do campeonato português, a Liga dos Campeões é muito mais competitiva - e os "tubarões" não se importam de esperar pelas suas presas.

Wednesday, March 28, 2012

A Liga dos Campeões em todo o seu esplendor

Equipas e movimentações iniciais


Benfica e Chelsea defrontaram-se ontem no Estádio da Luz para apurar quem seguiria para as meias-finais da Liga dos Campeões. O que se viu foi uma partida típica da prova rainha a nível europeu, com a equipa de menor dimensão a jogar melhor futebol e os favoritos a resistirem a ondas de ataques sucessivos (ficando perto de sofrer um golo), marcando nos últimos minutos num rápido contra-ataque.

Jorge Jesus, treinador dos encarnados, escalou o onze esperado, com Gaitán e Bruno César nas alas e Aimar por trás de Cardozo. Ao invés, o treinador interino do Chelsea, Roberto Di Matteo, promoveu seis alterações e deixou Bosingwa, Cahill, Essien, Lampard, Sturridge e Drogba de fora (com a chamada altamente improvável de Paulo Ferreira à titularidade), assumindo o objectivo para o encontro - e demonstrando que todos os jogadores do plantel do Chelsea terão a sua oportunidade.

O plano de jogo dos londrinos era de fácil compreensão: actuar em bloco baixo, ceder a iniciativa de jogo, tentar controlar a posse de bola (mesmo que tal não significasse progredir com a mesma) e um contra-ataque, se possível. O Benfica mostrava-se receoso de exercer a sua habitual pressão alta e, com isso, os defesas e médios blues puderam desfrutar de inúmeros momentos para abrandar o ritmo de jogo à sua conveniência, incomodando os adeptos encarnados. Di Matteo tinha feito o trabalho de casa e fez alinhar Kalou (mais diligente e consciente em termos tácticos) na ala esquerda, no sentido de tentar estancar a via preferencial do ataque das águias - o flanco direito. Para além disso, Torres tinha ordens para descair para o espaço que Maxi Pereira abria nas suas costas, de modo a tirar proveito do posicionamento mais atrevido do lateral-direito - e arrastando o seu marcador directo consigo.

Torres recebe uma bola longa nas costas de Maxi Pereira, arrastando Luisão consigo.
Kalou ocupa o espaço criado pelo seu companheiro.

Nesta imagem, Luisão tenta recuperar a posição e é o omnipresente Javi García que faz a compensação.

Esta simples movimentação liberta Meireles e oferece-lhe espaço para rematar
(Maxi, já atrasado, ocupa o lugar de Javi García)

Como habitualmente, o Benfica atacou primordialmente pela direita, com Gaitán, Witsel e Aimar a ocuparem alternadamente a ala, tentando desposicionar Meireles e Mikel - tendo sido bem sucedidos em determinados momentos, mas de forma menos frequente do que o esperado. O problema residia no já infame lado esquerdo. Embora Emerson venha a ser alvo de inúmeras críticas ao longo de toda a temporada, a culpa nem sempre é exclusivamente sua, como o encontro de ontem demonstrou. Ramires, jogando sobre a direita, mas em zonas mais centrais do que Kalou, ajudava a criar superioridade numérica no centro do terreno e tentou repetidamente ultrapassar Emerson, uma vez que Bruno César (e Gaitán, depois de se mudar definitivamente para a esquerda) raramente recuava, deixando demasiado espaço para o Queniano Azul explorar (veja-se a área amarela no gráfico no início da página). Como se constataria mais tarde, esse seria o erro fatal do Benfica.

Ramires (n.º 7), presumível médio-direito, ocupou zonas mais centrais
Embora pareça tratar-se de um contra-ataque, é apenas uma normal jogada corrida.
Ramires tem já imenso espaço à sua volta

Com ambas as equipas dispostas de forma semelhante, tudo se resumiria à velocidade e criatividade. O Chelsea, conforme analisado noutro artigo, é actualmente uma equipa mais calma, bem organizada e menos vulnerável a desmarcações e contra-ataques. Paulo Ferreira foi essencial para a recém-descoberta estabilidade no lado direito da equipa londrina, graças à sua maior fiabilidade defensiva e melhor compreensão das tarefas de um defesa-lateral. As águias teriam de ser mais expeditas na segunda parte.

Foi precisamente isso que se verificou. Tal como acontece recorrentemente nas fases mais adiantadas desta competição, os favoritos foram alvo de ataques cerrados durante os primeiros 15 minutos da segunda parte, um período em que o Benfica podia (e deveria) ter marcado. Cech fez grandes defesas, David Luiz salvou corajosamente um potente remate de Cardozo em cima da linha e parecia que a fortaleza do Chelsea estava prestes a ruir. Era evidente que a maior velocidade de Witsel (jogador que demonstrou novamente ser a peça que faltava ao Benfica para encontros desta magnitude), Aimar e Gaitán (o qual rendeu muito mais na esquerda) estava a causar dificuldades a Meireles e - particularmente - Mikel, especialmente porque Torres estava mais uma vez longe do seu melhor, incapaz de segurar uma bola. Com Mata perdido (parece óbvio que não tem características para iniciar os seus movimentos a partir do centro), Ramires oferecia a única saída para os blues.

Jesus queria desesperadamente vencer o jogo e substituiu Aimar e Bruno César por Rodrigo e Matic, o que significava que Witsel iria para a direita, Matic ocuparia o seu lugar ligeiramente à frente de Javi García e Rodrigo jogaria por trás de Cardozo - e foi então que tudo começou a esfumar-se. À imagem do que tem acontecido em algumas ocasiões, a tentativa do Benfica de vencer o jogo desequilibrou toda a equipa. A influência de Witsel diminuiu na direita e a equipa lisboeta começou a perder o controlo da partida. Embora o golo do Chelsea seja a súmula dos seus actuais pontos fortes (experiência, resiliência, meio-campo mais compacto e contra-ataques), é algo que se tem visto com inusitada frequência no Benfica: a sua vontade de vencer a todo o custo significa muitas das vezes que a equipa fica partida.

Início da jogada que culminaria no golo do Chelsea. Note-se quão adiantado Emerson está, sem cobertura ofensiva.

Após a impressionante corrida de Ramires, cabe a Torres prosseguir a jogada.
Matic prova que ainda não está à altura de jogos desta importância.
A seta verde indica o local em que deveria estar para oferecer cobertura defensiva.

Por fim, há algo que vale a pena referir. Os treinadores afirmar repetidamente que há sempre uma estratégia por trás das suas decisões, mas, por vezes, é difícil fazer sentido. Qual será a lógica de deslocar Witsel para a direita e devolvê-lo à posição original uma dezena de minutos depois? Como é evidente, Jesus está longe de ser o único treinador a fazê-lo; resta-nos apenas esperar que, um dia, um treinador nos dê uma resposta honesta a esta questão.

Monday, March 26, 2012

Benfica-Chelsea: antevisão



Benfica e Chelsea defrontam-se amanhã na primeira mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões, num embate que poderá revelar-se extremamente interessante e imprevisível. São apresentados mais abaixo alguns motivos que poderão explicar por que motivo uma destas equipas passará à fase seguinte.


3 motivos para a vitória do Chelsea

1) Resiliência. Se a partida contra o Nápoles nos ensinou algo, foi que esta equipa não é tão fraca quanto a maioria de nós parece pensar e que ainda tem algo a mostrar. Os jogadores do núcleo duro do Chelsea são vencedores de outras batalhas, capazes de reunir as suas forças quando necessário – os encontros contra o Valência e o Nápoles deverão ser um aviso às hostes encarnadas.

2) Uma tendência para atacar pelo centro. Apesar da mais recente (e ligeira) mudança de ideias de Roberto Di Matteo, Sturridge ocupa habitualmente o lado direito, com tendência para flectir para dentro (ou na esquerda, onde é claramente menos eficaz). Mata, partindo tradicionalmente da asa esquerda, tem igualmente tendência para procurar zonas mais interiores e Drogba é um monstro competitivo que prospera com bolas longas – a alternativa escolhida pelo Chelsea nos últimos jogos. Dado que as águias tendem a deixar o centro do terreno para Javi García de forma quase exclusiva, esta poderá ser uma boa opção para o onze inglês.

3) Um meio-campo mais compacto. Se é verdade que o Chelsea ataca pelo centro, não é menos verdade que defendem melhor nessa zona. Embora ainda esteja distante do que já foi, Essien está cada vez mais próximo dos seus níveis físicos de outrora. Por seu turno, Lampard tem jogado mais recuado do que costumava fazer, mas ainda é capaz de distribuir longas bolas diagonais por cima da última linha contrária, algo a que o Benfica é por vezes vulnerável.


3 motivos para a vitória do Benfica

1) Movimento ofensivo. A abordagem do Benfica passa sempre por lançar vários homens da frente de ataque, mesmo quando essa opção não é necessariamente a mais aconselhável. Nesse aspecto, Gaitán, Bruno César, Nolito e Maxi Pereira são exímios a criar situações de superioridade numérica nas alas e realizar penetrações em "tabelas". Embora alguns membros do plantel do Chelsea ainda se lembrem de como defender devidamente, a fluidez do Benfica poderá ser uma tarefa demasiado hercúlea para os londrinos.

2) Marcação individual do Chelsea. A opção preferencial dos blues em situações defensivas de bolas paradas passa pela marcação individual, podendo revelar-se um ponto fulcral de ataque para as águias. A obsessão de Jesus com os esquemas tácticos poderá ser decisiva para desfazer o impasse.

3) Rápidas transições ofensivas. Um dos principais atributos do Benfica reside na sua velocidade vertical, ou seja, a rapidez com que consegue transformar uma situação defensiva numa clara oportunidade de golo para a sua equipa. Ao invés, as transições defensivas são um dos pontos mais fracos do Chelsea, dado que Mata e Sturridge desprezam com frequência as suas tarefas defensivas e apenas Ramires recua. Com Maxi, Witsel e Gaitán, entre outros, a intensidade do Benfica poderá ser o ponto de partida para a qualificação para as meias-finais.

O inebriante receio da derrota


Equipas e movimentações iniciais
Chelsea e Tottenham encontraram-se no passado sábado para tentar ganhar vantagem na corrida para o lugar que dá acesso à Liga dos Campeões, nos jogos que faltam. No entanto, o receio da derrota foi claramente demasiado grande para ambas as equipas, proporcionando um jogo bastante fechado, cujas melhores oportunidades de golo tiveram origem em lances de bola parada.

O Chelsea entrou em campo sem Meireles, Luiz, Torres e Ivanovic, ao passo que o Tottenham não podia contar com Lennon, fazendo com que van der Vaart fosse colocado na asa direita do seu meio-campo para as tarefas defensivas. A equipa de Harry Redknapp actuou com um bloco baixo e cedeu de bom grado a iniciativa de jogo, com Sandro a receber instruções para subir e perturbar a primeira zona de construção do Chelsea.

No que diz respeito a Roberto Di Matteo, a sua principal preocupação pareceu ser a ameaça de Gareth Bale, ordenando a Ramires que se juntasse a Bosingwa para que fossem constantemente criadas situações de 2v1 contra o veloz galês, o que acaba por explicar o jogo mais discreto. A dupla de meio-campo constituída por Essien e Lampard mostrou-se lenta, como seria de esperar, apesar da crescente combatividade de Essien. Com Ramires estacionado na direita, Sturridge foi colocado na esquerda e Mata atrás de Drogba. O extremo inglês é claramente menos eficaz no lado esquerdo, uma vez que deixa de poder fazer a sua movimentação preferencial e flectir para dentro, e o espanhol sente-se menos à vontade no centro do terreno, pois significa que é o constante alvo de marcação de um defesa-central ou médio-defensivo, em vez de os surpreender com movimentos interiores.

O plano atacante dos homens de Di Matteo era evidente: tirar proveito da presença de Lampard e da sua capacidade de lançar bolas para as costas da defesa contrária, tanto para Sturridge (que ocupava o espaço criado por Drogba) ou pelo próprio Drogba, sempre disposto a batalhar. Perto do intervalo, o Tottenham avançou um pouco mais e tornou o jogo mais interessante, chegando mesmo perto de marcar.

Na segunda metade, Bale e Van der Vaart receberam ordens para jogar mais no centro, asfixiando o meio-campo do Chelsea. Para além disso, o resultado era mais favorável à equipa de Redknapp, o que significava que o Tottenham era mais paciente a rodar a bola de lado para lado. Por seu turno, o Chelsea, mostrava-se sempre mais perigoso quando abria mão de passes diagonais longos para as costas da linha defensiva do seu adversário.

Aos 75 minutos, Torres entrou para o lugar de Essien, dando a entender que o Chelsea iria dar o tudo por tudo. Tal como havia acontecido no encontro em casa contra o Arsenal (ainda no tempo de Villas-Boas), os blues desequilibraram-se, abriram espaços e estiveram muito perto de perder a partida.

Em resumo, o encontro não foi particularmente interessante, mesmo no que se refere à parta mais táctica, vincando um claro contraste com o que tem sido regra nos encontros entre os 5 primeiros classificados da Premier League - jogos com muitos golos, sem grandes cuidados defensivos. Nenhuma equipa queria perder este embate e, com isso, ver esfumar-se a hipótese de aceder à edição do próximo ano da Liga dos Campeões.

Thursday, March 22, 2012

Uma falsa esperança para os treinadores interinos de todo o mundo


Equipas e movimentações iniciais
Roberto Di Matteo esteve a poucos minutos de constituir o exemplo perfeito para todos os presidentes de clubes ansiosos por despedir o seu treinador no culminar de uma série de maus resultados. Se o Chelsea tivesse vencido o Manchester City ontem à noite, teriam conquistado a 5ª vitória em 5 jogos ao comando de Di Matteo. Ao invés, os londrinos foram chamados à realidade e deverão começar a pensar na próxima edição da Liga Europa.

O Manchester City entrou muito forte na partida, particularmente nos primeiros dez minutos. Com Cahill no lugar do lesionado John Terry, o Chelsea é menos intenso e mais vulnerável a diagonais curtas entre Cahill e o lateral do seu lado. Por seu turno, esta opção permitiu a David Luiz ocupar o lugar de defesa-central do lado esquerdo, uma posição a que está mais habituado e em que é mais eficaz.

O plano de jogo do Chelsea era óbvio, aparentemente inspirado na exibição do Sporting no confronto com o City a contar para a Liga Europa: actuar num bloco baixo com duas linhas de quatro e aproveitar a redescoberta alegria e velocidade de Torres, com Meireles como ligação entre sectores. Na verdade, o espanhol fez um excelente trabalho a aproveitar os espaços concedidos pelo onze de Manchester, mas o ex-portista demonstrou não estar à altura desta posição, uma vez que a sua tomada de decisão nem sempre é a melhor e o seu forte não é jogar de costas para a baliza.

Chelsea numa disposição estranhamente semelhante à do Sporting
O City foi claramente a equipa mais dominadora, mas o seu domínio era estrategicamente concedido pelo Chelsea. Excepção feita ao remate de Samir Nasri à barra, os Citizens não conseguiam mais do que remates de longe, incapazes de penetrar na grande área. Como tem acontecido frequentemente, Balotelli e Agüero mostraram a sua tendência para alternar entre o 8 e o 80 (bons momentos de elevada dificuldade técnica, mas impressionantemente inconsistentes) e que não têm predisposição para trabalhar em função da equipa e abrir espaços para os seus colegas. Com adversários cada vez menos interessados em discutir o jogo olhos nos olhos, os homens de Mancini denotam grandes dificuldades em encontrar espaços livres.

Embora Meireles não estivesse a oferecer um contributo particularmente positivo em termos ofensivos, estava a desempenhar um papel importante na marcação (quase) individual a Yaya Touré. Com o costa-marfinense junto a De Jong, a tarefa de Meireles passava claramente por quebrar o ritmo de jogo do City. Silva continuava ausente e Touré estava demasiado preso a tarefas defensivas. A fúria patente na reacção de Mancini na linha lateral demonstrava à evidência que o City não conseguiria nada do encontro se continuasse a jogar dessa forma.

Na segunda parte, Mancini fez entrar Gareth Barry para o lugar de Balotelli, dando razão ao argumento de que, por vezes, a presença de menos atacantes permite atacar melhor. Com o centro do terreno devidamente ocupado, Yaya Touré podia finalmente libertar-se e invadir a zona de conforto do Chelsea - permitindo igualmente a Silva e Nasri jogarem mais adiantados. Por seu turno, Meireles tinha dúvidas sobre se deveria continuar a marcar Yaya Touré ou ficar junto de Barry.

Os primeiros dois golos foram em parte obra do acaso. O tento do Chelsea teve origem num desvio na perna de Yaya Touré e a grande penalidade a favor do City resultou de um remate em desespero que atingiu o braço de Essien. Se ignorarmos o já mencionado remate de Nasri à barra, não houve oportunidades claras de golo para nenhuma das equipas e a vitória do City, ainda que merecida, esteve perto de não se materializar. Em última análise, a abordagem algo tresloucada de Mancini - com Tévez, Dzeko e Agüero em simultâneo - acabou por ser demasiado agressiva para o Chelsea. Ainda assim, a equipa de Di Matteo está agora mais calma e mais bem organizada e até Cech parece estar de volta aos seus melhores dias, com muito menor tendência para erros e distracções.

Wednesday, February 22, 2012

De rastos

O Nápoles venceu ontem o Chelsea por 3-1 e praticamente carimbou a passagem à eliminatória seguinte. Na verdade, dada a situação em que o Chelsea se encontra, é difícil imaginar a equipa inglesa a marcar dois golos sem resposta.


Por vezes, é difícil crer que André Villas-Boas foi durante anos um observador de adversários (e na equipa técnica de José Mourinho). Confrontado com um oponente bastante específico - disposto num 3x4x3 -, o técnico português optou pelo seu mais recente 4x2x3x1, com Meireles e Ramires como duplo-pivô, Mata por trás de Drogba, e Sturridge e Malouda nas alas. Como tal, tanto Sturridge como Malouda se demitiram das suas tarefas defensivas com demasiada frequência e o Nápoles procedeu à sua rotina de criar superioridade numérica nas alas.

Com as subidas de Maggio e Zuñiga e com Hamsik e Lavezzi a não se restringirem às alas, foi difícil entender a abordagem defensiva do Chelsea. Dado que Sturridge e Malouda se mostravam renitentes em assumir uma postura defensiva, Meireles e Ramires eram arrastados para as alas no sentido de tentar estancar a hemorragia e marcar o ala (Zuñiga ou Maggio) ou o extremo (Lavezzi ou Hamsik). Com os dois médios defensivos quase anulados, Cavani e Lavezzi tiveram toda a liberdade de receber a bola e semear o caos na defesa londrina. Como é fácil de concluir, os dois atacantes napolitanos marcaram os três golos e estiveram envolvidos em várias outras jogadas de perigo.

Villas-Boas deveria ter sido fiel ao seu estimado 4x3x3, especialmente se levarmos em conta que nem Ramires nem Meireles constituem necessariamente as melhores escolhas para desempenharem funções num dpulo pivô e que ambos oferecem o seu melhor com a sua llegada à grande área e ao criarem superioridades numéricas a partir do meio-campo. Com esta disposição táctica, não lhes é possível tirar proveito das suas quaildades e Mata é presa fácil para os defesas contrários. Ao optar pelo 4x2x3x1, Villas-Boas ficou impossibilitado de tirar proveito da superioridade numérica que teria no meio do terrno com o seu 4x3x3, o que não deixa de ser estranho.

O Chelsea continua a dar uma imagem de uma equipa à procura de um remédio para todas as panaceias, mas continuam renitentes em fazer coisas simples, desde a formação de uma unidade defensiva coesa a um simples passe de 5 metros. Enquanto jogadores e treinador não aceitarem esse facto, é difícil imaginar os londrinos a manterem o quarto lugar e, com isso, garantirem a presença na próxima edição da Liga dos Campeões.

Sunday, January 16, 2011

A nova vida de Ramires

Ramires foi contratado esta época pelo Chelsea ao Benfica, tendo deixado uma lacuna de difícil preenchimento. No entanto, confesso que, até ontem, não tinha visto nas suas exibições muito mais do que o esforço e profissionalismo que o jogador brasileiro sempre põe em campo. Contra o Blackburn, o médio andou mais nas imediações das suas zonas preferenciais, como se pode ver pelo gráfico mais abaixo, onde estão descritos os roubos de bola efectuados. Com efeito, Ramires limitou mais a sua acção a fechar (e muito bem o seu lado direito) e a compensar as subidas de Michael Essien.

Pessoalmente, creio que terá sido a melhor exibição que já vi Ramires fazer esta época, talvez por não lhe ser cobrado tanto em termos ofensivos, ficando mais à vontade para realizar as suas tão típicas transições rápidas. Talvez agora o seu rendimento possa estabilizar nos elevados níveis a que nos habituou.











 by Guardian Chalkboards

Thursday, June 12, 2008

Uma questão de timing

Scolari é o novo treinador do Chelsea. A notícia foi veiculada pelo site do próprio clube inglês ontem à noite e apanhou uns quantos de surpresa, entre os quais me incluo. Gostaria de dividir a questão em duas partes: razoabilidade da escolha de Abramovich e timing.

Pessoalmente, estou muito curioso em ver o que Scolari é capaz de fazer num clube de topo, com elevadas exigências e uma atenção mediática quase sem par. Se Scolari se zanga com os brandos jornalistas portugueses por lhe colocarem questões que não aprecia, creio que é capaz de os valorizar de outra forma quando conhecer os célebres paparazzi britânicos, especialmente se ele reagir com o seu habitual feitio irascível. Para além do mais, a cultura do futebol britânico poderá coincidir com a sua em termos de futebol guerreiro, mas lembremo-nos que Mourinho foi despedido por "oferecer pouco espectáculo". A fasquia para Scolari estará mais alta do que nunca (Abramovich despediu Mourinho e, alguns meses volvidos, o seu sucessor que levou o clube a lutar pelo título até à última jornada e à final da Liga dos Campeões) e todos os olhos estarão atentos. A ver...

Por outro lado, temos a questão do momento (in)oportuno do comunicado. O técnico brasileiro fez questão de dizer que só tratava do seu futuro depois do Europeu, entre muitas outras coisas, e o anúncio surge antes da ponta final de uma competição muito importante para os portugueses por todos os motivos. Creio que Scolari se pôs a jeito de ouvir as críticas (a menos que vença o Europeu) vindas de todos os quadrantes. Não quero com isto dizer que Scolari não devesse ter agido em favor dos seus interesses, bem pelo contrário, mas creio que pecou imenso pelo timing. Com que moral poderá pedir a Cristiano Ronaldo que não fale do Real ou a outros jogadores que se concentrem na selecção? Por mais que afirme já ter informado os jogadores, os líderes vêem-se muito mais pelo exemplo do que pelas palavras...

Saturday, May 24, 2008

A noite de Ronaldo

A Liga dos Campeões chegou ao fim na noite de quarte-feira, depois de um jogo empolgante e muito bom. Foram quase três horas de incerteza, emoção e oscilações tácticas e não só. As equipas apresentaram-se como se esperava (pessoalmente, fiquei surpreendido com Alex Ferguson, pois não imaginava que se arriscasse a jogar com Rooney e Tévez): o Chelsea no seu habitual 4x3x3, Joe Cole na direita do ataque, Malouda na esquerda e o melhor trio do meio-campo à disposição de Avram Grant - Makelele, Lampard e Ballack. O Manchester United apresentava por seu lado um 4x4x2 (até há pouco tempo, a imagem de marca de Alex Ferguson), com Ronaldo e Hargreaves na esquerda e direita do ataque, respectivamente, e um meio-campo constituído por Scholes e Carrick.

O jogo começou com as coordenadas previsíveis. O Manchester United predispôs-se imediatamente a atacar a baliza do Chelsea, que, por seu turno, se contentava em defender a sua baliza - afinal de contas, uma das suas vocações - e espreitar o contra-ataque de quando em vez. Até marcar o golo, a equipa de Manchester praticou o seu futebol habitual: saídas de bola através dos centrais, com os defesas-laterais a encostarem-se imediatamente à linha do meio-campo, tanto através de passes longos como entregando a bola a Scholes, para que este organizasse o jogo ofensivo da sua equipa. Carrick jogava quase sempre na mesma linha de Scholes (foram várias as vezes em que foi possível ver os dois de perfil, quase), deixando a Ronaldo, na esquerda, as iniciativas ofensivas. Hargreaves cumpria mais uma função neste seu primeiro ano no United, depois de lateral, médio ofensivo e médio de contenção, abrindo espaços na direita tanto para as entradas de Wes Brown, o defesa-direito de serviço, como para as penetrações de Rooney e Tévez. Estes dois atacantes moviam-se na frente do ataque com as características que lhe são conhecidas, deslocando-se tanto para os flancos para servirem de ponto de apoio a Hargreaves ou Ronaldo como recuando no terreno para encararem a baliza de frente. Graças a estas movimentações (e à menor coordenação defensiva de Ballack e Malouda, por exemplo), o Chelsea foi dominado durante 25 minutos, tendo inclusivamente sofrido o primeiro golo de Cristiano Ronaldo, após cruzamento de Wes Brown (de pé esquerdo). Marcado o golo, o Manchester pensou ter o jogo resolvido e deixou de se movimentar conforme o tinha feito até então, passando a apostar mais no trio Ronaldo-Rooney-Tévez, encostando frequentemente Hargreaves ao duo do meio-campo.

Como consequência, o Chelsea foi equilibrando a contenda, com Lampard e Ballack a disporem agora de mais espaço para o seu futebol curto e de variações de flanco. Joe Cole foi continuando a fazer o seu trabalho de sempre, ora progredindo pela ala, ora descaindo para o centro, para que Essien (um mouro de trabalho com uma preparação física impressionante) entrasse em profundidade. Não foi por isso surpreendente que o Chelsea chegasse ao golo, com alguma sorte, diga-se, depois de um remate interceptado de Essien, com Lampard a chegar antes de van der Sar, que havia escorregado. O golo surgiu ao cair do pano da primeira parte, o que alterou radicalmente o que se antevia para a segunda parte.

A segunda parte foi dominada por completo pelo Chelsea, em boa parte graças ao jogo mais próximo do meio-campo do Chelsea e às mais e melhores deambulações de Joe Cole. Drogba, esse, continuava na sua luta incansável no ataque, dando pano para mangas a Ferdinand e Vidic, ao contrário de Malouda, uma absoluta sombra dos seus tempos em Lyon. Assim, e porque Scholes "pedia" a substituição há já algum tempo e porque Carrick se limita a defender, parecendo ter sempre receio de se aventurar em iniciativas ofensivas, o Chelsea foi encostando o Manchester às cordas, criando ocasiões de perigo para a baliza adversária, mas sem conseguir marcar. Drogba conseguiu ainda enviar uma bola ao poste com um remate fantástico, mas insuficiente.

O prolongamento desenrolou-se da mesma forma, mostrando um Chelsea obstinado na sua missão e um Manchester enredado nas suas próprias paredes tácticas, com Rooney e Tévez a perderem fulgor e Hargreaves definitivamente encostado ao meio-campo, dadas as dificuldades em travar Lampard e Ballack. A entrada de Kalou permitiu ao Chelsea ter duas alas durante breves instantes, até à entrada do eternamente inoperante Anelka, um dos maiores bluffs da história do futebol. Lampard teve ainda tempo para enviar nova bola à barra e Drogba conseguiu ser expulso depois de uma escaramuça com Vidic, entre outros, o que teve o condão de despertar a agressividade (a todos os níveis) do Chelsea.

Chegámos assim aos penalties, onde os nervos se revelam e os guarda-redes se podem revelar decisivos. Ronaldo foi o único a falhar, em 9 penalties, e Terry "apenas" tinha de fazer o que lhe competia, o que não conseguiu. Anelka mostrou a sua falta de nervo, ao rematar de forma denunciada e ao vir mostrar-se agastado após o jogo por jogar pouco, fora da sua posição e ainda lhe pedirem para marcar um dos primeiros 5 penalties, o que recusou, por ter entrado há pouco tempo. Com atitudes destas, não admira que alguns marquem e comemorem vitórias, enquanto outros se preocupam com o salário ou minutos de jogo.

Conclusões finais: Avram Grant deverá ter selado em definitivo o seu destino, ao não conseguir ganhar qualquer título, perdendo pelo caminho duas finais que teve na mão (algo impensável até há pouco tempo, para os lados de Stamford Bridge). Abramovich deve estar neste momento arrependido e há algum tempo à procura de um novo timoneiro, depois de ver falhar a sua estratégia (??). Ronaldo conseguiu a sua consagração europeia, apesar de não ter efectuado uma exibição brilhante (não obstante o excelente golo marcado), mostrando todas as suas dificuldades quando marcado por um bom defesa e quando a equipa adversária se mostra inteligente, não lhe oferecendo os espaços de que precisa para se virar para a baliza e embalar. Alex Ferguson ganhou o seu segundo troféu europeu em mais de 20 anos e mostrou que o Manchester esteve este ano uns furos acima do normal, graças também aos muitos milhões de euros dispendidos no defeso.

Creio que, ao fim e ao cabo, este desfecho poderá ser considerado o mais justo, se tivermos em conta as exibições e resultados de ambas as equipas ao longo da época, tendo o Manchester revelado uma maior estabilidade, tanto interna como externa. Veremos dentro de pouco tempo quem será o novo responsável técnico do Chelsea e até que ponto os milhões de Abramovich (que tantos pensavam ser a razão do sucesso de Mourinho) conseguirão fazer novos milagres.

Tuesday, May 20, 2008

Final da Liga dos Campeões: Mourinho continuará ou não a ser o "Special One"?

A Liga dos Campeões tem inúmeros atractivos. É sem dúvida a competição mais apetecível para todos os que têm aspirações a uma conquista gloriosa que deixe o seu nome na história. Pelo lado dos clubes, o prestígio vem acompanhado, em proporção directa, pelo significativo encaixe financeiro, o qual nunca é de todo de desprezar (uma vez que se traduz em maiores receitas directas e indirectas, seja através das bilheteiras com maior afluência no ano seguinte, o aumento das vendas de camisolas com os heróis da final, a possibilidade de contratar estrelas mais cintilantes ou até de conseguir contratos mais vantajosos com os patrocinadores). Por tudo isto, a final da Liga dos Campeões é sempre a quimera que todos pretendem alcançar, especialmente porque a Taça UEFA ficou absolutamente vazia de sentido a partir do momento em que os segundos, terceiros e quartos classificados de muitos países passaram a ter acesso directo ou muito facilitado.

Só assim se explica que esta final vá ser disputada por duas equipas inglesas, uma das quais não venceu o campeonato da época passada, mas isso já pouco importa para este texto. Na minha opinião, parece-me que esta final se divide, mais do que nunca, em várias facções opostas entre si. É certo e sabido que este tipo de jogos atrai muita gente que, regra geral, até nem coloca o futebol na sua lista de prioridades, mas esta partida é diferente.

1) De um lado vão estar todos aqueles que esperam que Cristiano Ronaldo confirme finalmente em plena Liga dos Campeões as diabruras que faz a adversários mais "tenros" e marque um golo à única equipa a quem ainda não o fez. Essas serão as pessoas que, em meados de Junho, estarão a torcer para que nada aconteça ao rapaz-maravilha para que o Europeu possa correr bem a Portugal. No outro lado da barricada, estarão todos aqueles que, apesar dos mais de 60 golos marcados nas duas últimas épocas, ainda acham que Ronaldo é um "bem" algo inflacionado. Por seu turno, estes estarão à espera que Ronaldo falhe rotundamente em mais um momento das grandes decisões para poderem repudiar convenientemente Scolari e o seu séquito.

2) Uma outra batalha prende-se com a eterna questão do futebol espectáculo. O Manchester chegou ao final do campeonato com uma diferença de 19 golos para o Chelsea, o que permite retirar a conclusão lógica que, com o Manchester em campo, há golos pela certa (ainda que nem sempre para o lado que o clube deseja). Ou seja, vai haver quem queira que se faça justiça à equipa que joga sempre para ganhar (e golear, se possível) e haverá quem torça pela antiga equipa de Mourinho, sempre mais "resultadista" - como se diz hoje em dia.

3) Mourinho será sem sombra de dúvida uma das questões centrais deste jogo. Há neste momento meio mundo (essa metade é em grande parte constituída por cidadãos britânicos) ansioso por dizer de sua justiça, caso o Chelsea vença a prova. Se, neste momento, já se ouvem ecos de que foi preciso Mourinho sair para o Chelsea chegar à final da Liga dos Campeões (e para começar a perder finais, já agora), ainda que nas mãos de um treinador sem o grau máximo atribuído pela UEFA, imaginemos o que acontecerá se o Chelsea se sagrar vencedor. Vão chover os habituais chavões de que o dinheiro não é tudo, de que o "português" não passa de um truque publicitário e de que, antes de tratar da imagem, é preciso saber o que se faz como treinador. A outra metade do mundo vai estar certamente a torcer pelo treinador luso, o qual, após sair do FC Porto, passou a estrela nacional, apesar de tanto ter sido criticado enquanto andava por terras nacionais. São essas pessoas que vão torcer, de forma mais ou menos fervorosa, para que o Chelsea perca e Abramovich perceba a frase do mister português quando chegou a Stamford Bridge: "Mr. Abramovich, não precisa de nenhuma estrela para ser campeão. A única estrela sou eu."

Independentemente de todas estas questões, o jogo de amanhã tem tudo para ser um jogo de futebol fantástico, ainda que isso não signifique necessariamente que se trate de um jogo muito vistoso. Ambas as equipas já se conhecem demasiado bem para haver grandes surpresas (ainda que Alex Ferguson padeça de alguma "trenadorite" e tenha uma certa tendência a inovar quando menos se espera) e ambas estarão suficientemente preocupadas em não entregar o ouro ao bandido.

O Chelsea vai provavelmente apostar numa toada de contenção, não só porque é considerado o "patinho feio" da final, mas também porque terá constantemente a preocupação de rodear Ronaldo de homens suficientes que o impeçam tanto de deambular pelo campo como de se virar e ganhar embalo. Além do mais, com homens como Ballack, Lampard, Terry e Drogba, o Chelsea não é famoso pelas suas transições rápidas, mas antes por saber quando desferir o golpe fatal. Não obstante, não tem a mesma estrutura mental que tinha anteriormente e os jogadores parecem efectivamente muito cansados, muito provavelmente pela falta de descanso para tentar chegar ao título no sprint final.

Pelo seu lado, o Manchester já demonstrou estar com "fome de bola". Cristiano Ronaldo vai estar desejoso de provar ao mundo que é o melhor jogador da actualidade e Ferguson não se quer ver a perder. É quanto a mim indiscutível que o Machester ganhou finalmente estatuto de equipa europeia (descolando finalmente do lote do Arsenal, por exemplo, enquanto equipa que promete, mas que não sabe a diferença entre futebol espectáculo e vencer títulos) e que defende bastante melhor hoje do que fazia há um ano atrás, por exemplo. Seja como for, a equipa de Manchester revela sempre algumas dificuldades quando o adversário ataca de forma contínua, mostrando-se frequentemente desorganizada, ao contrário do Chelsea, que, graças aos vários anos com Mourinho, sabe sofrer encostada às cordas e apontar Drogba à baliza adversária em seguida. Foi exactamente o que se viu na meia-final contra o Liverpool.

Para terminar, gostaria apenas de agradecer a vossa participação na mini-sondagem para a final de amanhã e esperar que o jogo seja tão bom como todos esperam. Pela minha parte, posso garantir que estarei colado ao televisor durante pelo menos 90 minutos, ansioso por ver quem cede primeiro.