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Thursday, January 19, 2012

A maldição continua

Equipas e movimentações iniciais
O quinto encontro entre Real Madrid e Barcelona contava desta feita para os quartos-de-final da Taça do Rei e José Mourinho, treinador da equipa da capital espanhola, depositava nesta competição a esperança de eliminar a equipa de Pep Guardiola. Como seria de esperar, o técnico português implementou diversas alterações na procura de uma estratégia que surtisse efeito contra a sua bête noire.

Com efeito, o Real pareceu menos apostado nas suas já famosas transições rápidas durante os primeiros 15 minutos, mostrando-se mais propenso a trocar a bola e, com isso, ganhar tempo para respirar. Não obstante, os contra-ataques mostravam-se venenosos e foi precisamente num contragolpe que Ronaldo enterrou o machado com os adeptos de Madrid e marcou aos catalães. Nessa jogada, o português aproveitou muito bem as costas de Dani Alves (sempre muito mais subido do que Abidal) e, no duelo individual com Piqué, levou a melhor. Pensou-se que seria desta feita que a equipa liderada por Mourinho mataria o borrego, especialmente porque o Barça permanecia bastante estático quando em posse (ao contrário do costume), com igualdade numérica a meio-campo e Messi pouco interventivo.

Com um triângulo muito pressionante no centro do terreno, a intenção do onze madridista passava claramente por abafar a organização de jogo blaugrana, objectivo que foi conseguido durante boa parte da primeira metade do encontro. Embora fossem notórias as instruções no sentido de Ronaldo e Benzema fecharem os seus flancos em organização defensiva, ambos demoravam eternidades a chegar às suas posições mais recuadas, o que deixava os dois laterais blancos constantemente desprotegidos, com Altintop (o improvisado lateral-direito) em particular destaque. Durante a primeira parte, esse factor foi menos notório, uma vez que a bola demorava a chegar a Iniesta, sempre brilhante a criar desequilíbrios ofensivos.

À medida que os minutos iam decorrendo, o Real Madrid foi cedendo a posse da bola cada vez mais rapidamente e recuando progressivamente, permitindo que o Barça se instalasse. Contudo, faltavam aos vistantes as habituais diagonais curtas de desmarcação nas costas da linha defensiva contrária, o que levava a que Xavi perdesse mais bolas do que o habitual.

A segunda parte começou com o golo do empate, inusitadamente resultante de um canto - algo pouco habitual na equipa de Guardiola. Contudo, mais importante do que o golo será a jogada que deu origem ao golo, a qual demonstrou a tendência que o jogo teria durante a etapa complementar. Mais uma vez (tal como tinha acontecido na partida para o campeonato), Guardiola foi capaz de promover adaptações durante o jogo às quais Mourinho demorou a responder. Tendo observado a falta de empenho defensivo de Benzema e a adaptação de Altintop, foi perceptível a inclinação do Barça para a esquerda, onde Iniesta se via constantemente em duelo individual com o turco.

O treinador português tentou reagir com a entrada de Özil e Callejón, passando para um 4x2x3x1, o que levou a que a equipa ficasse sem o controlo do meio-campo. Por conseguinte, o Barcelona tomou definitivamente conta do jogo e o segundo golo surgiu com naturalidade. Com Özil em campo, as tarefas defensivas do meio-campo sobravam apenas para Pepe e Xabi Alonso, que assim permitiram mais tempo a Messi sobre a bola, levando a que este tivesse todo o tempo do mundo para descobrir Abidal absolutamente livre no lado esquerdo - mais uma vez.

Em suma, em mais uma batalha táctica entre dois grandes mestres, o aniversariante Guardiola voltou a levar a melhor sobre Mourinho, não obstante a enésima tentativa do treinador setubalense de tentar encontrar o antídoto para a máquina de futebol catalã.

Sunday, December 11, 2011

A vitória de uma visão


Equipas e movimentações iniciais

O tão aguardado (primeiro) clássico da época espanhola trouxe consigo tudo o que se esperava: golos, duelos tácticos, incerteza no resultado e um Real Madrid muito mais próximo do seu adversário. Sem Ricardo Carvalho, Mourinho foi forçado a desviar Sérgio Ramos para o centro da defesa e adaptar Fábio Coentrão ao lado direito. Do lado do Barcelona, nem Pedro nem Villa tiveram lugar no onze, dando lugar a Fàbregas e Aléxis Sánchez.

O jogo teve início de acordo com os sonhos mais optimistas da equipa madrilena: aos 21 segundos, já a bola estava dentro da baliza de Valdés, depois de um erro deste na colocação de bola com os pés, em grande parte graças à pressão que o Real fez (e viria a fazer) sempre que o guarda-redes se predispunha a movimentar a bola como jogador de campo adicional - tarefa fundamental para a organização ofensiva dos catalães.

Momento imediatamente anterior ao golo do Real Madrid

Mostrando ter aprendido as diversas lições da época passada, Mourinho montou um esquema defensivo de pressão intensa, evitando o erro do primeiro clássico do ano transacto de dar demasiado espaço à primeira fase de construção de jogo ofensivo do adversário. Com efeito, Özil encarregava-se de marcar Busquets, ao passo que Xabi Alonso encostava em Xavi e Lass em Fàbregas ou Iniesta (os quais iam trocando regularmente de posição).

Organização defensiva do Real Madrid

Com isso, o treinador dos blancos ocupava desde logo espaços fundamentais para a manobra do Barça, obrigando a que os médios baixassem para que a equipa saísse a jogar, deixando um enorme espaço entre a linha média e os três avançados. Como se pode ver pela imagem mais acima, o Barça vai tendo cada vez mais dificuldades em jogos mais importantes, pois os seus oponentes vão compreendendo o carácter fundamental de defender em bloco no corredor central. Com efeito, o onze catalão mostrou imensas dificuldades para impor o seu jogo durante a primeira meia-hora, dada a intensidade da pressão madridista, excepção feita ao remate de Messi aos 6', para uma grande defesa de Casillas.

Mostrando mais uma vez ter a lição bem estudada, a equipa da capital tirava enorme proveito dos cantos da equipa contrária (a qual, estranhamente, apostava em cantos longos), provando ser a equipa mais mortífera do momento em contra-ataque. Aliás, o contra-ataque do adversário poderá ter sido o factor que inibiu a habitual intensidade defensiva do Barcelona e costumeira pressão alta.

O jogo começou a inclinar-se a favor do Barça a partir dos 30', momento em que marcou o golo do empate, sem ainda ter justificado esse resultado. No entanto, Messi não se compadece com semelhantes racionalizações. Em mais uma das suas arrancadas (na primeira parte, não foram muitas, dado o excelente trabalho defensivo de Lass e Xabi Alonso), foi superior a 4 adversários e assistiu Aléxis Sánchez para uma diagonal curta e remate bem colocado. O astro argentino mostrava mais uma vez ser um jogador mais colectivo do que Ronaldo, sempre mais apostado em iniciativas individuais e menos dado a colaborar com os colegas para uma movimentação harmoniosa da equipa, acabando mesmo o jogo como o jogador com mais remates.

A partir de então, o jogo ficou mais equilibrado, o Real Madrid acusou o toque e pareceu reconhecer ali a primeira evidência da sua falibilidade. Por seu turno, os de Barcelona mostravam-se fiéis aos seus princípios, continuando a jogar com Valdés mesmo quando este era incomodado pelos oponentes, não obstante o primeiro golo.

A segunda parte trouxe consigo algo de diferente. A grande característica diferenciadora dos visionários é - muito mais do que a sua ideia supostamente luminosa - o trabalho anterior à sua colocação em prática. Guardiola revelou ao mundo, num dos jogos mais importantes da época, que o seu 3x4x3, tão criticado nos últimos tempos, era uma arma para os encontros fundamentais, e não apenas mais uma diatribe do técnico de Santpedor. Dessa forma, a defesa blaugrana ficou organizada com Piqué ao centro, Abidal na meia-esquerda e Puyol na meia-direita, com Dani Alves a avançar para uma posição de centrocampista.

Equipas e movimentações da segunda parte

Com esta alteração aparentemente subtil, Guardiola mostrava-se capaz de admitir decisões menos felizes e dono de uma leitura de jogo invejável. Ao invés de assumir uma maior contenção defensiva, em particular no seu lado direito - massacrado pela inversão de papéis entre Benzema e Ronaldo -, o Barça apostou em aproveitar a enorme bolsa de espaço atrás de Ronaldo e a menor competência defensiva de Marcelo.

Foi assim sem surpresa que vimos um Barça mais fiel aos seus princípios, organizado sobre os seus princípios de jogo curto e apoiado, com maior dinâmica das desmarcações no centro do terreno. Com Messi descaído para a meia-direita com o intuito de sobrecarregar esse mesmo lado e abrir espaços para Dani Alves, o Real foi abrindo brechas, mostrando-se incapaz de fechar as linhas de passe, tal como tinha feito na primeira metade. O 1-2 foi um golo com uma boa dose de felicidade, mas resulta de algum cansaço evidenciado pelos madridistas de correr atrás da bola e de um desposicionamento colectivo.

Depois desse momento, os jogadores do Real Madrid baixaram a cabeça e, com isso, deixaram o meio-campo desprotegido, situação em que os comandados de Guardiola são exímios. A sua equipa passou a convergir toda ela para o meio - Xavi, Messi, Iniesta e Fàbregas -, sendo que Özil já não mostrava a mesma predisposição para defender e Lass não podia cobrir todos os centímetros do campo.

Aos 65', contra a corrente do jogo, Ronaldo falha aquilo que seria o golo do empate e, no minuto seguinte, o Barça dá a machadada final no encontro e no resultado. Iniesta consegue fugir à pressão de Coentrão ainda no seu meio-campo, abre para Messi (descaído para a meia-direita, mais uma vez), o qual entrega a Dani Alves para este cruzar para a cabeça de Fàbregas.

Há a retirar deste golo algumas ilações: com o Real inclinado para a frente na procura de um outro resultado, Messi depara-se com a ausência total de meio-campo e apenas três adversários pela sua frente - Pepe, Sérgio Ramos e Marcelo. Com Sánchez a ocupar os centrais, Dani Alves tem o seu correder livre e Coentrão, envolvido na disputa com Iniesta no início da jogada e sem protecção do seu meio-campo, chega atrasado à marcação de Fàbregas.

Em resumo, Mourinho mostrou que o seu Real está a uma distância muito menor do seu eterno rival, com uma equipa mais pressionante, madura e letal, mas Guardiola insiste em permanecer alguns passos à sua frente, revelando antídotos para os problemas que os seus adversários lhe vão lançando nos momentos mais importantes. O treinador português falou da falta de sorte, mas será forçado a admitir que haverá algo (embora não muito) a melhorar para lograr levar de vencida a sua némesis.

Wednesday, April 6, 2011

O cordeiro e o lobo

A imprensa (desportiva) britânica é sempre capaz de me fazer sorrir. Em primeiro lugar, porque não só têm um sentido de humor apurado, como lhes é permitido fazer uso do mesmo, sem com isso perderem autoridade para falar seja de que tema for. Em segundo lugar, porque a sua insularidade os leva a conceber e proferir afirmações que parecem absolutamente incapazes de terem sido pensadas por quem sabe algo sobre futebol.

Nos dias que antecederam o confronto entre Real Madrid e Tottenham, quase parecia que à equipa da capital espanhola não restava qualquer hipótese, ainda para mais depois da primeira derrota caseira de uma equipa de Mourinho em 9 anos. Folheando os jornais, blogues e artigos de opinião, lia-se todo o tipo de justificações para a passagem dos Spurs à fase seguinte, incluindo um texto particularmente brilhante sobre como o complexo de inferioridade da equipa inglesa seria o ideal para ultrapassar os madrilenos.

Curiosamente, para a maioria dos colunistas das terras de Sua Majestade, a vertente táctica parece ser sempre algo quase pecaminoso ou contagioso. Quando Rafael van der Vaart se mudou de Madrid para Londres, há época e meia, os jornais fizeram grandes parangonas sobre o facto de Harry Redknapp, o treinador da equipa, nunca falar sobre tácticas. Quando van der Vaart explodiu na competição nacional, estava-se perante a derradeira prova de que a táctica era prejudicial.

Se é um facto que o factor motivacional é absolutamente preponderante no desporto (mas não só, claro está), o jogo de ontem foi uma das melhores formas de ver o que a táctica pode fazer. Aos 3 minutos, os Spurs já perdiam, com uma absoluta confusão sobre quem deveria marcar quem ou que espaço. Luka Modric e Gareth Bale, os dois melhores jogadores da equipa, começaram fora das suas posições, sendo que o galês Bale, a grande ameaça do clube inglês, não tocou na bola nos primeiros dez minutos. Peter Crouch, num acesso mais de vontade do que de malícia, viu no jogo de ontem dois cartões amarelos em menos de 15 minutos, deixando a sua equipa com menos um jogador. E o que se viu? Ao invés de uma equipa ciente das sua limitações e necessidades, vimos uma equipa desorganizada, sem capacidade de sair a jogar, sem noção de defesa posicional e que partiu por completo a meio da segunda parte. Redknapp teria muito aprender com a forma como as equipas de Mourinho nunca se partem, mesmo com dez, em desvantagem, num terreno com um ambiente sufocante (lembre-se o jogo entre Barça e Inter em Camp Nou, na última edição da Liga dos Campeões, por exemplo).

A táctica não se destina a aborrecer e limitar os jogadores. Pelo contrário, pretende ajudá-los ao mostrar-lhes as melhores soluções (espera-se) para os diversos cenários que podem ocorrer durante um jogo, para que possam explanar todo o seu futebol. Curiosamente, hoje não se abordam na imprensa inglesa as tácticas de que Redknapp nunca fala.

Thursday, September 17, 2009

Uma costela lusa

Depois do jogo de ontem que opôs Barcelona e Inter de Milão, foi possível constatar que o treinador português tem efectivamente uma costela lusa. Na verdade, desde o jogo entre Benfica e Setúbal que não via uma equipa tão acantonada na sua grande área e a ver a bola passar por todos os centímetros do relvado. Ver o Barcelona é um autêntico prazer para qualquer pessoa que tenha gosto (ainda que remoto) por futebol, fazendo parecer que jogar assim é fácil. Ainda que alguns possam catalogar o jogo da equipa catalã de romântico, a verdade é que só Ibrahimovic dispôs de várias oportunidades claras de golo, não esquecendo Messi (de cabeça) ou Dani Alves (o lateral-direito), a título de exemplo.

Todos quantos acompanham os mais recentes feitos deste Barça saberão que enfrentar esta equipa de peito aberto poderá ser suicídio, mas não creio que colocar todos os jogadores atrás da linha da bola e apostar nos lances longos para Eto'o e Milito seja a melhor solução. Continuo a crer que esta época tem tudo para ser muito melhor para os lados de Milão, mas o Barcelona continua a parecer-me a melhor equipa a nível europeu, neste momento.

Thursday, April 2, 2009

"Mea culpa"


Há muitos motivos pelos quais admiro o trabalho de José Mourinho, actual treinador do Inter de Milão. Aprecio a sua capacidade de trabalho, de análise da sua equipa e do adversário, de contínua sistematização das suas ideias no treino e no jogo e de conseguir retirar rendimento de jogadores que, à primeira vista, pareciam estar fadados para o insucesso. Aprendi a vê-lo colocar jogadores medianos a render o que nunca tinham rendido até então e nunca mais renderam desde esse momento (o caso de Joe Cole ou Marco Ferreira vem-me imediatamente à memória).

No entanto, há uma outra parte de Mourinho que me cativa: a sua frontalidade em algumas ocasiões. Numa entrevista realizada ontem num canal televisivo italiano, o treinador português não teve qualquer problema em admitir que a contratação de Quaresma não só tinha sido um erro, como admitiu também tratar-se de um erro seu. Não conheço muitos treinadores que não se refugiem na diplomacia das respostas-tipo a este tipo de questões, mesmo depois de se retirarem do activo. Mourinho não teve papas na língua e assumiu uma má contratação (e dispendiosa) feita pelo clube no qual ainda se encontra.

Na minha opinião, são pequenas atitudes como estas que vão aproximando os adeptos das equipas de Mourinho dos jogadores. Mourinho podia ter contornado a questão ou atirado a responsabilidade para um qualquer infortúnio do destino. Ao invés, assumiu a sua culpa, mostrando aos adeptos interistas que não só é capaz de errar, como também de reconhecer os seus próprios erros. Qualquer adepto ficaria contente por ver o seu treinador fazer um mea culpa por uma contratação cara falhada, não?

Tuesday, January 27, 2009

A acção do líder


À imagem de muitos adeptos do futebol, sempre fui um admirador confesso de Mourinho. Não me revejo em algumas das suas atitudes para com o jogo, mas reconheço que o seu percurso tem sido de facto muito particular. No entanto, não posso deixar de reconhecer que a sua passagem pelo Inter está a ser tudo menos pacífica, especialmente porque os adeptos deste clube estavam habituados não só a vencer (são actualmente tricampeões de Itália), como a vencer com alguma souplesse.

Ora, hoje por hoje, a equipa de Mourinho está longe de convencer seja quem for e, aparentemente, o seu modelo de jogo parece estar desadequado em relação aos seus jogadores, mas especialmente em relação aos seus adeptos. Foi estranho ouvir os assobios da massa associativa nerazzura no último Domingo ao constatar que a sua equipa não foi capaz de fazer uma jogada com pés e cabeça até ao minuto 42. Creio que a prova mais fiel sobre como o plantel parece não saber onde está foi o acto irreflectido de Mourinho que lhe valeu a expulsão. E quando os jogadores vêem o treinador perder a cabeça assim tão facilmente, o mais provável é que lhe sigam o exemplo.

Tuesday, January 20, 2009

Ovos e omoletes



O Inter sofreu às mãos do Atalanta a maior e mais humilhante derrota da época, num duelo que por certo terá deixado os adeptos portistas em particular atónitos, uma vez que o onze do treinador de maior sucesso do clube azul e branco foi copiosamente batido pela equipa de Luigi del Neri, treinador conhecido pelo despedimento sumário de que foi alvo no Dragão e pelos sucessivos falhanços que foi coleccionando ao longo da sua carreira.

No entanto, a questão não se limita à derrota em si. Todas as equipas têm dias maus, jornadas em que nada do que o treinador faça ou peça parece funcionar. Domingo foi um desses dias para a equipa do Inter. No entanto, o problema parece-me mais abrangente e estrutural. Mourinho foi contratado para substituir Mancini, um treinador que tinha vencido os últimos três campeonatos (em circunstâncias muito particulares, mas das quais já ninguém se lembra), mas que não conseguia alcançar o mesmo sucesso na Liga dos Campeões. Ou seja, Mourinho está obrigado a vencer o campeonato, o que nunca é fácil, em Itália, e a fazer melhor figura do que Mancini na Liga dos Campeões. Ora, dado que o sorteio ditou o embate entre Inter e Manchester, há uma forte possibilidade de Mourinho sair pela mesma porta por que o treinador italiano tantas vezes saiu - os oitvaos-de-final.

Mourinho não quis entrar no Inter como a maior parte dos treinadores, pedindo revoluções de balneário e contratações milionárias. Pediu apenas Mancini (o extremo brasileiro ex-Roma), Quaresma (vá-se lá saber porquê, mas quem sou eu para contestar Il Speciale?) e Deco ou Lampard. Infelizmente para Mourinho, nenhum destes dois optou por ingressar na equipa nerazzurra, o que deixou Mourinho com vários problemas.

A primeira questão começa logo na defesa. Maicon é dono e senhor da lateral-direita, empurrando o decano capitão Zanetti para outras funções. No entanto, não há propriamente titulares indiscutíveis no resto da defesa. Burdisso parece fora do seu ambiente (ver jogo contra o Panathinaikos, por exemplo), Materazzi é uma opção irregular, Samuel prometeu muito, mas nunca chegou a cumprir, Chivu parece ter mais cinco anos do que tem na realidade, Córdoba é um bom defesa, mas tens uns meros 173 cm e Maxwell é esforçado, mas não mais do que isso.

Contudo, é no meio-campo que reside o principal problema. Mourinho conta com Cambiasso e Zanetti, dois mouros de trabalho, mas conta também com Vieira e Dacourt (dois médios completamente ultrapassados), Stankovic, Muntari e o próprio Zanetti (qualquer um deles longe de conseguir pegar no jogo, apesar da combatividade de todos eles) e um Figo que, quando joga, tem por hábito pegar no jogo, para tentar dar a Mourinho aquilo de que este tanto gosta: o domínio dos tempos de jogo.

Ou seja, o técnico português tem à sua disposição um plantel débil, repleto de lacunas e de jogadores que se julgam muito melhores do que são devido aos salários inflaccionados, envelhecido e pouco moldável - características que Mourinho nunca cunhou nas suas equipas. Devido às elevadíssimas exigências em relação ao seu trabalho e às opções (insuficientes) de que dispõe, o Special One está mais perto do que nunca de desiludir todos aqueles que pensavam que ter Mourinho na equipa era garantia de sucesso a todos os níveis.

PS: É muito estranho ver uma equipa de Mourinho completamente à deriva, a sofrer golos constantemente, aparentemente desorganizada e sem alguém que pense o jogo. Quem quiser pode ver aqui um breve resumo do Atalanta-Inter:

Tuesday, May 20, 2008

Final da Liga dos Campeões: Mourinho continuará ou não a ser o "Special One"?

A Liga dos Campeões tem inúmeros atractivos. É sem dúvida a competição mais apetecível para todos os que têm aspirações a uma conquista gloriosa que deixe o seu nome na história. Pelo lado dos clubes, o prestígio vem acompanhado, em proporção directa, pelo significativo encaixe financeiro, o qual nunca é de todo de desprezar (uma vez que se traduz em maiores receitas directas e indirectas, seja através das bilheteiras com maior afluência no ano seguinte, o aumento das vendas de camisolas com os heróis da final, a possibilidade de contratar estrelas mais cintilantes ou até de conseguir contratos mais vantajosos com os patrocinadores). Por tudo isto, a final da Liga dos Campeões é sempre a quimera que todos pretendem alcançar, especialmente porque a Taça UEFA ficou absolutamente vazia de sentido a partir do momento em que os segundos, terceiros e quartos classificados de muitos países passaram a ter acesso directo ou muito facilitado.

Só assim se explica que esta final vá ser disputada por duas equipas inglesas, uma das quais não venceu o campeonato da época passada, mas isso já pouco importa para este texto. Na minha opinião, parece-me que esta final se divide, mais do que nunca, em várias facções opostas entre si. É certo e sabido que este tipo de jogos atrai muita gente que, regra geral, até nem coloca o futebol na sua lista de prioridades, mas esta partida é diferente.

1) De um lado vão estar todos aqueles que esperam que Cristiano Ronaldo confirme finalmente em plena Liga dos Campeões as diabruras que faz a adversários mais "tenros" e marque um golo à única equipa a quem ainda não o fez. Essas serão as pessoas que, em meados de Junho, estarão a torcer para que nada aconteça ao rapaz-maravilha para que o Europeu possa correr bem a Portugal. No outro lado da barricada, estarão todos aqueles que, apesar dos mais de 60 golos marcados nas duas últimas épocas, ainda acham que Ronaldo é um "bem" algo inflacionado. Por seu turno, estes estarão à espera que Ronaldo falhe rotundamente em mais um momento das grandes decisões para poderem repudiar convenientemente Scolari e o seu séquito.

2) Uma outra batalha prende-se com a eterna questão do futebol espectáculo. O Manchester chegou ao final do campeonato com uma diferença de 19 golos para o Chelsea, o que permite retirar a conclusão lógica que, com o Manchester em campo, há golos pela certa (ainda que nem sempre para o lado que o clube deseja). Ou seja, vai haver quem queira que se faça justiça à equipa que joga sempre para ganhar (e golear, se possível) e haverá quem torça pela antiga equipa de Mourinho, sempre mais "resultadista" - como se diz hoje em dia.

3) Mourinho será sem sombra de dúvida uma das questões centrais deste jogo. Há neste momento meio mundo (essa metade é em grande parte constituída por cidadãos britânicos) ansioso por dizer de sua justiça, caso o Chelsea vença a prova. Se, neste momento, já se ouvem ecos de que foi preciso Mourinho sair para o Chelsea chegar à final da Liga dos Campeões (e para começar a perder finais, já agora), ainda que nas mãos de um treinador sem o grau máximo atribuído pela UEFA, imaginemos o que acontecerá se o Chelsea se sagrar vencedor. Vão chover os habituais chavões de que o dinheiro não é tudo, de que o "português" não passa de um truque publicitário e de que, antes de tratar da imagem, é preciso saber o que se faz como treinador. A outra metade do mundo vai estar certamente a torcer pelo treinador luso, o qual, após sair do FC Porto, passou a estrela nacional, apesar de tanto ter sido criticado enquanto andava por terras nacionais. São essas pessoas que vão torcer, de forma mais ou menos fervorosa, para que o Chelsea perca e Abramovich perceba a frase do mister português quando chegou a Stamford Bridge: "Mr. Abramovich, não precisa de nenhuma estrela para ser campeão. A única estrela sou eu."

Independentemente de todas estas questões, o jogo de amanhã tem tudo para ser um jogo de futebol fantástico, ainda que isso não signifique necessariamente que se trate de um jogo muito vistoso. Ambas as equipas já se conhecem demasiado bem para haver grandes surpresas (ainda que Alex Ferguson padeça de alguma "trenadorite" e tenha uma certa tendência a inovar quando menos se espera) e ambas estarão suficientemente preocupadas em não entregar o ouro ao bandido.

O Chelsea vai provavelmente apostar numa toada de contenção, não só porque é considerado o "patinho feio" da final, mas também porque terá constantemente a preocupação de rodear Ronaldo de homens suficientes que o impeçam tanto de deambular pelo campo como de se virar e ganhar embalo. Além do mais, com homens como Ballack, Lampard, Terry e Drogba, o Chelsea não é famoso pelas suas transições rápidas, mas antes por saber quando desferir o golpe fatal. Não obstante, não tem a mesma estrutura mental que tinha anteriormente e os jogadores parecem efectivamente muito cansados, muito provavelmente pela falta de descanso para tentar chegar ao título no sprint final.

Pelo seu lado, o Manchester já demonstrou estar com "fome de bola". Cristiano Ronaldo vai estar desejoso de provar ao mundo que é o melhor jogador da actualidade e Ferguson não se quer ver a perder. É quanto a mim indiscutível que o Machester ganhou finalmente estatuto de equipa europeia (descolando finalmente do lote do Arsenal, por exemplo, enquanto equipa que promete, mas que não sabe a diferença entre futebol espectáculo e vencer títulos) e que defende bastante melhor hoje do que fazia há um ano atrás, por exemplo. Seja como for, a equipa de Manchester revela sempre algumas dificuldades quando o adversário ataca de forma contínua, mostrando-se frequentemente desorganizada, ao contrário do Chelsea, que, graças aos vários anos com Mourinho, sabe sofrer encostada às cordas e apontar Drogba à baliza adversária em seguida. Foi exactamente o que se viu na meia-final contra o Liverpool.

Para terminar, gostaria apenas de agradecer a vossa participação na mini-sondagem para a final de amanhã e esperar que o jogo seja tão bom como todos esperam. Pela minha parte, posso garantir que estarei colado ao televisor durante pelo menos 90 minutos, ansioso por ver quem cede primeiro.