Friday, April 10, 2015

FC Porto x Bayern de Munique: Antevisão

O confronto que oporá FC Porto e Bayern de Munique será interessante pelos mais diversos motivos, não sendo de todo descabido imaginar mesmo adeptos de outras equipas portuguesas colados aos ecrãs das suas televisões na próxima quarta-feira, seja para verem a aniquilação dos seus rivais, uma equipa portuguesa a tentar contrariar o favoritismo de um clube de outro porte ou apenas uma entusiasmante partida de futebol num quente serão de Primavera - afinal de contas, a quintessência da Liga dos Campeões.


  • Ser ou não ser

Julen Lopetegui começou a trabalhar no seu modelo de jogo no início do passado mês de Julho. Passou as primeiras semanas da época a implementar o núcleo das suas ideias e tirou proveito da pausa de Inverno da Liga dos Campeões para fazer algo mais do que apenas permitir que a sua equipa jogasse e recuperasse para o encontro seguinte.

As suas ideias de privilégio da posse de bola são bem conhecidas de todos, com todas as suas virtudes e defeitos. E é precisamente neste entroncamento que o jogo contra o Bayern de Munique coloca um sério dilema: os alemães serão porventura uma das equipas menos aconselháveis de defrontar neste momento com um modelo de jogo baseado na posse de bola e, por outro lado, o Bayern de Munique tem demonstrado que as suas maiores vulnerabilidades surgem quando o adversário opta por recuar as suas linhas (ainda que sem "estacionar o autocarro"), fechar o centro e apostar em rápidas transições, em particular dos flancos para o centro. O Wolfsburgo executou esse plano na perfeição em finais de Janeiro e foi devidamente recompensado com uma impressionante vitória por 4-1.

A chave residirá nesta questão que se coloca ao leitor: manter-se fiel às suas ideias embora estes possam ser precisamente os únicos jogos em que essas mesmas ideias poderão ser prejudiciais ou mudar radicalmente de abordagem e arriscar o surgimento da dúvida na mente dos jogadores antes ainda do primeiro toque na bola? A resposta será certamente um dos aspectos mais interessantes do encontro.


  • Frinchas na armadura

Se fosse um homem dado ao jogo, apostaria que Lopetegui permanecerá fiel aos princípios que tem vindo a tentar transmitir aos seus comandados. Partamos do pressuposto por um momento de que esse será o caso e analisemos em maior pormenor as potenciais vulnerabilidades do FC Porto.

A primeira tem necessariamente que ver com a primeira fase de construção. Os dragões gostam de sair a jogar desde trás, mas têm deixado algo a desejar nas partidas contra adversários mais fortes, com os defesas centrais e o guarda-redes Fabiano como principais vítimas. Na eliminatória anterior contra o Basileia, por exemplo, embora a equipa suíça tenha acabado por ser engolida pelo maior poderio futebolístico portista, o FC Porto patenteou enormes dificuldades em sair a jogar ao longo dos primeiros 15 minutos, vendo-se obrigado a recorrer a passes longos para contornar a pressão.

Muito embora o Bayern de Munique não esteja neste momento tão implacável como chegou a ser, por exemplo, quando demoliram a Roma no Stadio Olimpico no passado outono, Pep Guardiola terá certamente constatado esse facto e poderá efectivamente basear a sua estratégia no ataque à defesa do FC Porto nos primeiros minutos no sentido de tentar marcar um golo e reter o controlo ao longo das duas mãos.

Por outro lado, embora seja verdade que Lopetegui logrou melhorar a reacção da sua equipa à perda da bola, a equipa parece ainda algo frágil quando forçada a assumir-se em organização defensiva, com Casemiro a mostrar-se por vezes incapaz de tomar a melhor decisão e tanto Óliver Torres como Herrera a demorarem aqui e ali demasiado tempo a adoptarem as devidas posições de cobertura, especialmente para uma equipa do calibre do Bayern de Munique.

Partindo do princípio de que a equipa alemã jogará muito provavelmente com Robert Lewandowski como ponta-de-lança e Mario Götze e Thomas Müller actuando como avançados interiores, os espaços à frente da defesa do FC Porto e especialmente à volta de Casemiro serão de primordial importância.


  • A abordagem do Bayern de Munique

Apesar da sua representação em pelo menos parte da imprensa, Guardiola está longe de ser uma figura dogmática. O espanhol afirmou detestar o tiki-taka (uma expressão cunhada por Javier Clemente para descrever os incessantes passes sem objectivo derradeiro) enquanto fim em si mesmo e, ao leme do Bayern de Munique, tem provado ser muito mais pragmático do que lhe era reconhecido.

Na última época, por exemplo, lançou Javi Martínez - que actua geralmente a defesa-central nas equipas de Guardiola - como segundo avançado para contornar a pressão avançada do Borussia de Dortmund e dispor assim de um alvo para os passes longos que se adivinhavam. No passado fim-de-semana, contra o mesmo adversário, o treinador catalão optou por uma abordagem mais igualitária da posse de bola e não teve qualquer pejo em recuar as suas linhas. Na última quarta-feira, contra o Bayer Leverkusen, Guardiola seguiu uma abordagem mista, privilegiando a posse, mas com um risco significativamente menor do que o habitual.

Com tudo isto em mente, restam por conseguinte algumas dúvidas sobre qual será a abordagem do treinador do Bayern de Munique, não falando sequer na disposição táctica em permanente mudança - particularmente dada a recente lesão de Mehdi Benatia.

Fazendo uso do mesmo princípio utilizado mais acima no caso do FC Porto, inclinar-me-ia para crer que os campeões alemães virão ao Porto para tentar elucidar a última equipa invicta da competição de que está a entrar nos ares mais rarefeitos da Europa, em vez de lhe demonstrar demasiado respeito. Um golo marcado cedo ofereceria aos homens de Guardiola a possibilidade de descansar com bola e tempo precioso para uma recuperação menos apressada dos jogadores lesionados.


  • Onde tudo se ganhará e perderá

A derradeira secção abvorda os pontos de vantagem de ambas as equipas, começando pela equipa anfitriã, o FC Porto. Os dragões sofreram um enorme revés quando Jackson Martínez saiu lesionado na retumbante vitória frente ao Basileia e quando Cristian Tello se lesionou na coxa na passada semana instantes antes do encontro frente ao Estoril. Com efeito, o ponta-de-lança colombiano seria extremamente útil para ligar o jogo portista e incomodar os defesas centrais do Bayern de Munique, ao passo que Tello seria o jogador ideal para tirar proveito do muito espaço que o Bayern de Munique deixa com frequência sempre que não consegue abafar o adversário no momento que se segue imediatamente à perda da bola.

Ainda assim, Vincent Aboubakar tem deixado indícios promissores nas últimas partidas e a sua imponente presença física está em linha com algumas das principais dificuldades de Dante e Jérôme Boateng. O vigor do camaronês será certamente necessário para que o FC Porto seja capaz de resistir à iminente pressão germânica.

Por outro lado, esta poderá ser a noite em que ÓIiver Torres mostra de uma vez por todas a uma Europa atenta aquilo de que é efectivamente capaz. O mago espanhol será o homem chave quando o FC Porto recuperar a bola, uma vez que o Bayern de Munique é quase irrepreensível nos segundos imediatos após a perda da mesma. Óliver tem de fornecer consistentemente uma linha de passe no início da transição ofensiva para que os dragões tenham tempo de respirar e oportunidade de ligar o seu jogo. Terá com certeza mais liberdade para encontrar o talentoso Yacine Brahimi (cuja capacidade de jogar em espaços reduzidos será mais necessária do que nunca) se tombar para os espaços ao lado da posição habitual de Xabi Alonso ou Phillip Lahm.

Quanto ao Bayern de Munique, apesar da recente onda de lesões, a ameaça que constituem é evidente. Lewandowski sente-se confortável a jogar de costas para a baliza para abrir espaço às entradas dos seus companheiros de equipa - nada mais, nada menos do que o perigoso Mario Götze e o autointitulado "intérprete de espaço" Thomas Mülller. Embora nenhum deles tenha a mesma capacidade de drible de Arjen Robben ou Franck Ribéry, cuja ausência deixa com certeza o Bayern de Munique mais embotado, ambos demonstram enorme competência para encontrar o mais pequeno rasgo de espaço para se colocarem em posições ideais.

Xabi Alonso é o maestro da equipa e peça fundamental da máquina alemã. O espanhol é mestre nomeadamente em passes longos e precisos, sendo essencial para o futebol fluído que o Bayern de Munique apresenta habitualmente. Boateng, por seu turno, estará provavelmente a desfrutar da melhor época da sua carreira e melhorou drasticamente a sua capacidade de passe, sendo agora capaz de dividir uma equipa adversária em dois com uma simples entrega pelo centro - algo a que os médios do FC Porto terão de prestar atenção.
No entanto, o maior trunfo dos campeões alemães é o colectivo que representam, uma ideia partilhada de jogo segundo os princípios do seu treinador e a capacidade de interpretarem e alternarem entre diferentes organizações táctica num piscar de olhos. O momento da equipa de Guardiola poderá não ser o melhor, mas continua a haver um fio condutor - e o carácter implacável da equipa permite-lhes tirar o máximo proveito de quaisquer fragilidades.


  • Conclusão

O FC Porto tem o hábito de se mostrar à altura das mais exigentes ocasiões – e haverá poucas ocasiões mais exigentes do que esta. Contudo, os dragões também demonstraram por vezes uma tendência para se deixarem deslumbrar quando crêem que um adversário forte está vulnerável, tal como acontece neste momento com o Bayern de Munique.

Se os dragões almejam realmente derrotar esta imponente equipa e passar à eliminatória seguinte, terão de imaginar que Robben, Ribéry, Schweinsteiger, Badstuber, Benatia, Javi Martínez e todos os melhores jogadores do Bayern de Munique estão em campo quando entrarem no impecável Estádio do Dragão. Tudo menos do que isso resultará com probabilidade numa catástrofe. Quanto ao Bayern, os seus jogadores estarão certamente avisados da potencial ameaça que o FC Porto constitui e quererá deixar a sua marca na Europa e vingar a única e inescapável vez que uma equipa portuguesa derrotou o Bayern de Munique - 27 de Maio de 1987, a noite de Rabat Madjer.

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