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Thursday, July 3, 2008

Os altos e baixos do Euro 2008

Em jeito de balanço, gostaria de destacar três pontos altos e três aspectos menos positivos do Euro que findou no último Domingo. Com efeito, creio que existirá uma unanimidade relativamente à boa qualidade do futebol praticado, competitivade do torneio e vencedor inesperado, dado o seu historial. Não obstante, nem só de coisas boas se fez este Europeu. Comecemos então pelas questões menos positivas:

  • Grécia. Teria sempre de se esperar muito mais dos campeões europeus em 2004. Creio que Otto Rehagel não foi lesto a retirar as devidas ilações do apuramento para o Mundial de 2006. O futebol que lhe permitiu levar de vencida o campeonato organizado em Portugal foi perdendo os seus encantos e necessitava de evoluir. Ao recusar fazê-lo, Rehagel acabou por cavar um buraco na areia para si e para os seus jogadores. Grande parte das selecções sabia perfeitamente o que fazer para vencer a Grécia. Notou-se.
  • França e Itália. Pessoalmente, creio que a desilusão francesa é incomparavelmente maior, uma vez que parece decididamente uma embarcação completamente à deriva, sem rumo nem timoneiro. Quanto à Itália, apesar dos meus progonósticos, acabou eliminada nos penalties às mãos dos futuros campeões europeus, revelando falta de eficácia tanto a atacar como a defender e a ausência de desequilibradores para além de Pirlo.
  • A estrutura da competição. Muito já se falou, antes do Europeu, sobre a esquematização do mesmo. Emparelhar dois grupos até à final poderia ter-se relevado complicado, causando repetições de jogos de duas partidas após o final dessa fase. Creio que não haveria essa necessidade.

Em relação aos pontos altos, havendo muitos a destacar, gostaria de realçar três, começando pelo óbvio:

  • Espanha. Boa organização de jogo, boa forma de encapotar as falhas da sua própria equipa, um guarda-redes que não comprometeu e dois avançados muito bons (embora Torres tenha estado um pouco aquém das suas prestações em Inglaterra, o que nos poderia levar para a questão da qualidade dos defesas em terras de Sua Majestade). Xavi e Marcos Senna foram duas peças fundamentais, mas convém não esquecer Fabregas, Iniesta ou Villa.
  • Alemanha. Terceiro lugar no último mundial e finalista vencida no último Europeu. Se levarmos em conta as prestações anteriores a essas competições, poderemos ver que a Mannschaft foi capaz de dar a volta a uma tendência negativa que se vinha desenhando há alguns anos a esta parte, provando que uma boa mentalidade e eficiência são capazes de disfarçar falhas aparantemente muito importantes.
  • Turquia. Bem sei que, quando se fala na equipa de Ancara, se fala especialmente do seu "coração", fazendo referência à sua capacidade de luta. No entanto, por mais importante que seja, os turcos demonstraram algo mais do que isso - boa qualidade de jogo, boas movimentações, excelente leitura do jogo adversário e uma invulgar capacidade de sofrimento e entreajuda. Ao contrário do que o próprio afirmara anteriormente, o seleccionador Fatih Terim continuará até 2012.

Monday, June 30, 2008

Um vencedor inesperado

A Espanha nunca seria a minha aposta para vencer o Euro 2008. Não porque tivesse uma má equipa ou não merecesse estar na competição, mas sim pela já famosa tremideira nas pernas sempre que a ocasião era importante e por Aragonés. Não tendo idade suficiente para me lembrar de todas as glórias do decano treinador espanhol, propaladas sempre que é interveniente num jogo, apenas me recordo dos constantes disparates do mister espanhol, sejam eles tácticos ou mais sérios (como o caso de Reyes e Henry, por exemplo). Na verdade, sempre que vi equipas orientadas por Aragonés, vi onzes confusos, sem grandes ideias e uma leitura de jogo a fazer lembrar Scolari. Para além disso, havia a questão Raúl; hoje, dia a seguir à final do Euro, não se ouvirá ninguém dizer que foi uma má decisão, mas relembro o ruído que se gerou em Espanha devido a tal opinião.

Não obstante o que pudesse pensar, a Espanha foi a melhor equipa do Europeu, especialmente por ter sido a mais constante, a que melhor noção tinha do jogo que queria implementar e como poderia levar as suas intenções avante. Ontem, os espanhóis apenas sentiram algumas dificuldades no início (provando que tanto Puyol como Sérgio Ramos eram vulneráveis), devido ao pressing alemão que fez com que La Roja não tivesse o espaço necessário para criar jogo numa primeira fase. Ao fim dos primeiros 15 minutos, a Espanha desembaraçou-se e não mais recolheu as garras.

Com efeito, com Torres sozinho na frente de ataque, a equipa espanhola jogava num 4x1x4x1, com Senna atrás de Xavi, Iniesta, Fabregas e Silva. Desta forma, com algumas movimentações interessantes de Fernando Torres -ontem melhor do que no resto da competição - (ora caindo para a faixa lateral, ora apostando na sua velocidade e na lentidão dos defesas germânicos), havia sempre pelo menos um homem solto, graças também às trocas de bola e posição entre os homens do meio-campo, trabalhando sempre para que um deles pudesse encarar o meio-campo adversário e, com isso, fazer passes em profundidade para as costas dos laterais espanhóis. Foi assim que, aos poucos, a Espanha foi empurrando uma Alemanha que demonstrou todas as falhas que se lhe conheciam. A diferença foi que, desta vez, não houve Ricardo nem Rüstü e, como tal, nunca a Espanha teve de andar atrás do resultado.

Por seu turno, a Alemanha demonstrava o que se adivinhava: centrais com imensas dificuldades ao nível técnico e da velocidade, Lahm com um desempenho sofrível em termos defensivos (o primeiro golo foi mais um exemplo disso mesmo) e um Hitzlsperger que parece fazer pouco na equipa. Ballack pareceu sempre alheado do jogo (como quase sempre acontece), mas, desta feita, não teve livres nem remates de fora para brilhar - e isso costuma ser muitas vezes suficiente para fazer com que o capitão da Mannschaft não mais apareça em jogo. Klose bem lutou entre os centrais espanhóis, mas, sem apoio em condições, era difícil fazer melhor.

O outro momento em que a Espanha vacilou e que poderia ter alterado o rumo dos acontecimentos foi a entrada de Kuranyi para o lugar do inadequado Hitzlsperger. Durante 5 a 10 minutos, a Espanha pareceu não estar preparada para a alteração táctica (4x4x2, com Podolski e Schweinsteiger nas alas e Ballack e Frings no meio) e chegou mesmo a mostrar-se confusa. No entanto, a entrada de Xabi Alonso reequilibrou as contas e a Espanha continuou a fazer o que queria da defesa alemã e só não marcou porque não quis, ficando a dever a si própria vários golos mais.

Pessoalmente, tenho de confessar que preferia uma vitória da Espanha, embora temesse uma reedição da tradicional falta de nervo espanhola em momentos importantes, quer antes da final, quer durante os primeiros 15 minutos. No entanto, esta selecção pareceu quase sempre bastante focada no objectivo final e (estranhamente para mim) bem orientada em termos tácticos, raramente abdicando do seu jogo. Tenho para mim que, não fora Marcos Senna, a Espanha não teria conseguido chegar tão longe, pois sempre teve jogadores de craveira igual ou superior à de Xavi, Iniesta ou Silva, mas raramente pôde contar com um jogador tão inteligente, disponível e físico como o brasileiro naturalizado espanhol do Villareal. Graças a ele, os restantes elementos do meio-campo e da defesa puderam encarregar-se mais descansadamente das suas acções. Graças a ele, Ballack não se viu e a Alemanha quase nunca conseguiu entrar pelo meio. Graças (também) a ele, a Espanha tinha sempre uma boa hipótese de começar ou continuar o seu jogo ofensivo e um constante equilíbrio defensivo.

Friday, June 27, 2008

Derrota por falta de comparência

Como que para comprovar a minha ignorância e a falibilidade das minhas "previsões", a Rússia perdeu ontem de forma absoluta. Não perdeu, como a Turquia, porque a sorte lhe foi madrasta, por ter do outro lado uma equipa alemã com a estrelinha de campeã ou por um qualquer capricho do árbitro. Pelo contrário, ao invés do que tinha dito, a selecção russa foi categoricamente derrotada, com a mesma diferença de golos do jogo da primeira jornada: 3-0. Muito honestamente, creio que a Rússia perdeu por culpa própria. Não faltam nem faltarão os arautos das qualidades espanholas, de Xavi a Iniesta (excelente assistência no primeiro golo - vamos fazer de contas que a intenção não era rematar à baliza, mas sim um passe magistral para Xavi), de Fabregas a Villa, o grande ausente da final; eu não serei um desses arautos.

A Rússia perdeu porque nem sequer entrou em campo. Na verdade, o seu Europeu pareceu terminar no momento em que o árbitro deu como terminado o jogo dos quartos-de-final frente à Holanda. Enquanto via esse jogo com amigos, foram vários os que manifestaram a sua surpresa para com a forma física da Rússia, como se parecessem querer trucidar os holandeses, independentemente do lugar nas meias-finais. Nenhum de nós conseguia perceber como é que aquela selecção parecia estar em tão melhor forma física e de que forma é que todo aquele entusiasmo não teria reflexos nocivos no jogo seguinte. Pois bem, os reflexos foram muito mais do que nocivos. A selecção russa não compareceu ao jogo.

Há que dar mérito ao plano de jogo espanhol, naturalmente, mas não demasiado. Não creio, à semelhança dos vários textos que já li hoje, que tenha sido a Espanha a anular as principais armas russas. Se é certo que Sérgio Ramos escolheu precisamente o jogo de ontem para me fazer ver que é melhor jogador do que eu penso, colocando imensas dificuldades a Zhirkov, não é menos verdade que a Rússia esteve longe de desenvolver as suas movimentações e muito mais longe de interpretar bem a táctica da Espanha (que não surpreendeu nada nem ninguém com a sua forma de jogar). Tenho noção de que "queimei a língua", como se costuma dizer, ao apostar na Rússia para vencer a Espanha, mas não nego que o jogo da armanda espanhola emperra muito facilmente se lhe retirarem o comando do jogo (como os russos haviam feito à Holanda) e com uma pressão mais alta, uma vez que os castelhanos privilegiam o ritmo lento e em progressão, ficando muitas vezes desposicionados ao defender.

Parabéns à Espanha - acima de tudo, por ter conseguido chegar até aqui, algo que não faziam há várias décadas. Esta geração demonstrou, não obstante todas as suas falhas, maior força de carácter do que as anteriores fornadas de Michel, Hierro, Butragueño, entre outros.

Gostava apenas de acrescentar uma última nota: a Espanha dominou todo o jogo, indiscutivelmente, mas os golos apenas surgiram depois da substituição de Villa por Fabregas. Com esta alteração, a Espanha deixou de ser a única equipa a actuar com dois pontas-de-lança (com Villa a sobrepor-se de forma notória a Torres em todos os aspectos), para passar a actuar mais perto de um 4x2x31, muito semelhante ao alemão). Duvido que Aragonés arrisque na colocação de Güiza no onze inicial, o que, a acontecer, deverá proporcionar um maior equilíbrio entre as partes.

E o teimoso sou eu

Há quem diga, de entre aqueles que me conhecem, que sou muito teimoso, ainda mais que o próprio Scolari, o que não é tarefa muito fácil, como todos sabemos - não, não vou aproveitar para colocar mais uma vez o ex-seleccionador em causa. Sou teimoso, sim, por continuar a achar que a Alemanha não tem necessariamente futebol para estar onde está. Dir-me-ão que sim, claro que tem; afinal de contas, está na final do Europeu. Pessoalmente, tento ver os resultados de uma forma mais crítica do que o simples "ganhou, é bom". Aliás, foi precisamente esse olhar que me permitiu arriscar o palpite de que a Grécia não voltaria a ir longe com Otto Rehagel, apesar da vitória no Euro 2004 ou que Portugal não passaria da primeira fase (passou, bem o sei, mas apenas para perder com uma equipa "a sério" logo em seguida).

A Alemanha tem bons jogadores (Podolski e Schweinsteiger, Frings e Ballack, por exemplo), obviamente, mas é uma equipa desequilibrada e com óbvios pontos fracos. A dulpa de centrais está longe de convencer, o guarda-redes germânico assemelha-se em vários aspectos a Ricardo e é relativamente simples contrariar a sua construção de jogo. No entanto, pelo que parece, nada disso é suficiente para permitir uma vitória aos adversários. A Alemanha sofreu mais uma vez, na passada quarta-feira, enormes sustos perante o seu oponente - a Turquia. Durante a primeira parte, houve bolas na trave, combinações muito perigosas e a propósito, pressão alta por parte dos turcos, mas tudo isso rendeu apenas um golo. Como se não chegasse, a Alemanha marcou logo a seguir. Na verdade, o domínio turco (honra seja feita não só à sua bravura, que roça por vezes a inconsciência de quem tudo quer e... tudo perde, mas também à lição de futebol que deu ao adversário, sabendo o que atacar e quando) foi de tal ordem, que a Alemanha apenas rematou três vezes. Para mal dos otomanos, os três remates foram certeiros.

É óbvio que não vou alinhar pelo argumento de que os resultados teutónicos são apenas fruto da sorte. É indiscutível que há mérito na forma como abordam as bolas paradas, por exemplo, nas diagonais de Schweinsteiger e no pé esquerdo de Podolski - apenas sugiro que o substrato é menor do que o que os resultados poderão dar a entender, para mim. Estou na verdade muito curioso com a resposta da Alemanha frente à "La Roja", que parece vir em crescendo de forma, especialmente depois da vitória de ontem, mesmo sem o seu melhor marcador. Pessoalmente, creio que o seu 4x2x3x1 resultará muito melhor para travar as investidas castelhanas do que frente aos turcos, sempre muito mais mexidos e mais disponíveis para constantes trocas de posições.

Monday, June 23, 2008

Quem quer empatar acaba por perder, muitas das vezes

Esta é uma das frases mais frequentemente ouvidas aos comentadores sábios e sabidos do futebol. Apesar de não deixar de ter algum fundo de verdade, nem sempre se aplica. Especialmente no caso dos italianos. Confesso que nutro um certo tipo de amor/ódio pela selecção transalpina. Por um lado, não consigo ficar indiferente à forma como as sucessivas selecções italianas conseguem dominar o jogo, asfixiar o adversário, sofrer constantes ondas ofensivas dos adversários, criar três ocasiões de golo (por vezes, menos) e marcar numa delas. É um misto de sobriedade, disfarce das próprias insuficiências, cinismo e eficácia que me deixa sempre inclinado a admirá-los. Por outro lado, como espectador, não posso dizer que fique entusiasmado sempre que penso que a Itália vai jogar - antevêem-se sempre jogos com poucos golos, sem muitas ocasiões para marcar, muito faltoso e de resultado quase sempre certo. Ou seja, retira tudo o que de bom há no futebol: imprevisibilidade, espectáculo, golos.

Já tinha escrito anteriormente que a Itália sem Pirlo e Gattuso seria significativamente diferente. Com efeito, não há ninguém nesta selecção que possa preencher o lugar de Pirlo, seja na posição 6 ou 10, uma vez que tanto Perrotta como de Rossi são jogadores com características completamente diferentes. Desta feita, a Itália apostou num 4x4x2 (losango, na maior parte do tempo), deixando Luca Toni sempre sozinho na frente, com Cassano - um dos maiores flops da história do futebol - a descair para o flanco esquerdo, tentando aproveitar as subidas despropositadas de Sérgio Ramos e a falta de adaptação ao lugar de defesa-direito. Com de Rossi, Perrotta, Aquilani e Ambrosini (o elemento "estranho" neste meio-campo da Roma), a Itália abafava muito do jogo de que a Espanha necessita para criar espaços. Jogando mais atrás do que o costume e apostando nas constantes bolas longas para Cassano e/ou Toni, a Itália não teve qualquer problema em dar a iniciativa de jogo à Espanha, com os quatro elementos do meio-campo sempre mais preocupados em defender.

Como tal, não foi minimamente surpreendente ver que a Xavi, Iniesta e Senna não conseguiam fazer o que queriam: constantes trocas de posições e de bola, tentando abrir espaços para as diagonais de Villa e Torres. Dado que a selecção italiana jogava muito encostada à sua área, não havia lugar às acelerações com e sem bola dos avançados espanhóis. Villa foi porventura o único a conseguir jogar entre as linhas defensivas italianas, fugindo às suas marcações.

A selecção italiana passou os 120 minutos satisfeita com o empate, assente no pressuposto de que, uma vez que tinham o melhor guarda-redes, os penalties seriam apenas um procedimento necessário e obrigatório, mas de resultado garantido. Afinal de contas, os espanhóis jogavam contra o fardo da tradição: tinham perdido 3 vezes no dia 22 de Junho nos quartos-de-final de uma competição e não venciam a Itália em competições oficiais há 88 anos. Nada melhor do que vencer o jogo para "matar o borrego" de uma vez por todas. E assim foi.

Não consigo afirmar que a Espanha mereceu ganhar, mas sei que não merecia perder. A Itália refugiou-se constantemente naquele deixar passar o tempo tão característico de uma Juventus ou Milan, com os seus jogadores a congratularem-se no final dos 120 minutos regulamentares, como se a vitória estivesse ali à espreita, garantida, certa. Desta feita, Buffon não foi suficiente, apesar de ter defendido um dos cinco remates. A Itália ficou órfã da classe de Pirlo e da garra de Gattuso e mostrou que o seu banco estava repleto daquilo a que os americanos chamam "role players" (jogadores de suporte), mas ninguém capaz de mudar os acontecimentos do jogo. E quando assim é...

Quanto à Espanha, demonstrou novamente enormes dificuldades para segurar um ponta-de-lança forte (Ibrahimovic já tinha sido um pesadelo), alguma debilidade na recuperação das posições defensivas e um Sérgio Ramos que insiste em apostar na sua suposta velocidade e técnica, mas que acaba por desequilibrar (e muito) a defensiva castelhana. Os russos têm sido mestres em saber aproveitar esses espaços e não me admiraria nada se visse Arshavin e/ou Zhirkov em grande velocidade repetidas vezes.

O pódio do vencedor

A Rússia não deu qualquer hipótese à Holanda e apurou-se para as meias-finais do Campeonato da Europa de 2008. Não fora o golo (muito) tardio de van Nistelrooy e a Holanda teria, tal como Portugal, perdido o jogo em 90 minutos, muito por culpa própria (ver post mais abaixo). Assim sendo, foi forçada a ir a um prolongamento a todos os títulos humilhante. Apesar do dia de descanso extra, apesar de ser a favorita, apesar de ter marcado um golo em cima da hora (supostamente desmoralizando assim um adversário que já contava com a derrota), apesar de quase todos os seus titulares terem assistido de fora ao jogo com a Roménia - apesar de tudo isto, a Holanda era uma equipa física e animicamente abatida e a Rússia encarregou-se de comprovar isso mesmo, fazendo um prolongamento como há muito não se via e demolindo qualquer resistência laranja. Os russos marcaram dois golos no prolongamento, enviaram uma bola à barra, mas, acima de tudo, demonstraram uma capacidade física invulgar - com certeza explicável pelo facto de irem apenas a meio da época, e não no final da mesma, como a maioria dos restantes participantes no Europeu.

A Rússia fez aquilo que dela (eu) esperava. Na verdade, apesar de não apostar na Rússia como vencedora do Euro, não tinha grandes dúvidas de que passaria a Holanda sem grandes problemas, uma vez que tinha mostrado ser muito mais equipa e muito mais flexível às nuances tácticas dos diferentes jogos e respectivos momentos. Ou seja, Guus Hiddink demonstrou mais uma vez estar talhado para este tipo de confrontos, conseguindo não só potenciar ao máximo as capacidades dos seus jogadores, como também anular as forças do adversário. Hiddink sabia que a Holanda precisava de bola para atacar, mas que, ao fazê-lo, ficava muito exposta. Como resultado, roubou a iniciativa de jogo e aproveitou o constante desequilíbrio e falta de vocação defensiva dos seus muitos jogadores atacantes (van Persie, Sneijder, van der Vaart, van Nistelrooy). Para piorar a situação para o lado holandês, os russos apostaram no seu futebol de constantes movimentações, provando que, apesar de a técnica ser importantíssima, a sábia ocupação dos espaços faz maravilhas. Como diz o ditado, "um bom jogador resolve um jogo; uma boa equipa resolve campeonatos".

Tenho muita curiosidade em saber até que ponto a Rússia vain conseguir aguentar esta pressão que surge agora de ser a equipa do momento (sucedendo precisamente à Holanda), não podendo já apostar na táctica de contra-golpe, própria de quem é apenas um outsider. A partir de agora, tal como aconteceu com a suposta Laranja Mecânica, todos os olhares estarão voltados para a equipa de Hiddink. No fundo, esta selecção russa é a versão transnacional do Zenit que venceu a última edição da Taça UEFA - dois jogadores que desequilibram os pratos da balança, mas que não deixam de ajudar a equipa enquanto colectivo (uma característica que ainda falta a Cristiano Ronaldo, por exemplo), um elenco de suporte que sabe o que tem a fazer, movimentando-se para os espaços vazios de modo a libertarem as estrelas, e deslocações muito a proprósito.

Pessoalmente, creio que a Rússia não tem ainda o traquejo e a manha necessários para conseguir levar de vencida uma Alemanha, por exemplo, mas desenganem-se os espanhóis se pensarem que vão ver uma reedição do primeiro jogo da sua selecção, frente a esta mesma Rússia.

A mesma Holanda de sempre

São muitas raras as vezes que uma selecção chega e um Campeonato da Europa e do Mundo e leva tudo à sua frente - do jogo de abertura até à final. Não tenho uma memória assim tão boa que me permita puxar dos galões e dizer que isso nunca aconteceu. Creio que o último exemplo de um vencedor mais ou menos antecipado foi o Brasil de... Scolari, em 2002, com um Ronaldo em forma, apostado em recuperar o seu prestígio (e uma transferência para o Real Madrid) e uma ausência gritante de adversários de valor. Seja como for, esse Brasil raramente chegou a jogar bem e a encantar.

Este é um dos principais problemas do futebol e dele padecem tanto jogadores como comentadores supostamente conhecedores. Hélder Postiga, por exemplo, disse nos últimos dias que apostava na Holanda para vencer o Europeu por marcar muitos golos. Não tenho a certeza se a frase é mais assustadora pelo seu conteúdo ou pelo facto de a pessoa que a proferiu ser supostamente um jogador de topo, alguém que deveria saber mais sobre os motivos por que se ganham e perdem jogos. No futebol, quase toda a gente gosta dos que dão mais espectáculo, dos que sabem fazer as melhores fintas, dos que marcam golos de fora da área, dos que vencem e quase humilham os adversários. Só assim se percebe que o Brasil, por exemplo, tenha tantos adeptos incondicionais provenientes de outros países. Não nos enganemos: o jeito para a modalide é muito importante. No entanto, feliz ou infelizmente, não é tudo, e os holandeses parecem não conseguir perceber onde está o meio-termo.

Se raramente uma selecção faz justiça ao adágio romano "veni, vidi e vici", tal poderá ser explicado pela dificuldade em manter sempre o mesmo nível ao longo de 3/4 semanas, pelo facto de essa selecção passar a estar debaixo dos holofotes e todas as outras quererem derrotá-la, mas principalmente, na minha opinião, porque os jogadores passam a ter um certo complexo de superioridade, uma espécie de relaxamento por saberem que marcam muitos golos e que o seu futebol de ataque é aparantemente invencível. Pessoalmente, creio que a Holanda cedeu a todos estes pecados.

Depois de terminarem o famoso "grupo da morte" com 9 pontos, frutos de três vitórias, 9 golos marcados e apenas 1 sofrido, vencendo as finalistas do último Mundial por três golos de diferença, todas as atenções se viraram para a Holanda, que passou a ser o inimigo público. De repente, a expressão "futebol total" voltou às bocas do mundo, fazendo com que muita gente ficasse absolutamente deslumbrada com os golos, os contra-ataques, laterais que assistiam e marcavam. E é aqui que me custa compreender algumas pessoas e posições: compreendo perfeitamente que o "comum mortal" se sinta atraído pelo futebol holandês (eu também gosto muito de jogo ao primeiro toque, fintas, golos de fora da área ou antecedidos de 34 toques), mas isso não equivale a dizer que se trata de uma boa equipa. Com um olhar mais atento, detectar-se-iam, ainda na primeira fase, todos os defeitos que a Holanda viria a demonstrar na derrota com a Rússia: o tal futebol total, seguido da descompensação total, com defesas "duros de rins", apesar de experientes, e uma torre de dois médios defensivos - muito bons a destruir, mas com muitas dificuldades sob pressão e na construção de jogo. A comunicação entre defesas/médios defensivos e as linhas mais avançadas aparentava ser muito frágil e facilmente anuláveis. Restava saber até que ponto a Holanda conseguiria dar a volta ao problema. Em poucas palavras, não conseguiu.

À semelhança do que já aqui referi aqui relativamente à questão de Scolari e Portugal, van Basten sofre também ele do problema de não parecer imaginar-se no papel de derrotado. A Holanda não tinha plano B, não parecia saber o que fazer se se apanhasse a perder e parecia não ter treinadas alternativas ao seu plano de jogo habitual. Uma das coisas mais importantes em qualquer modelo de jogo é precisamente avaliar as fragilidades da própria equipa e tentar mascará-las e encontrar-lhes solução. Nem Portugal nem a Holanda tiveram arte e engenho e saíram do Euro com toda a justiça.

Friday, June 20, 2008

O Europeu por um canudo

Portugal foi afastado definitiva e inapelavelmente do Campeonato da Europa de 2008. Scolari sai, quanto a mim, pela porta pequena, perdendo contra uma das equipas alemãs mais acessíveis dos últimos anos. Sabia-se que as bolas paradas eram o calcanhar de Aquiles da selecção lusa (como já o tinha dito anteriormente aqui) e um dos pontos fortes da Alemanha. Pois bem, parece que todos os dias adicionais resultantes do primeiro lugar do grupo garantido atempadamente serviram apenas para fazer descansar os titulares. Como se não chegasse, quem tem Ricardo na baliza arrisca-se sempre a sofrer e a perder.

Comecemos pelo início. Portugal jogou manifestamente melhor do que a Alemanha durante 20 minutos. Não obstante a diferente estrutura táctica da Alemanha relativamente aos jogos anteriores (um sinal claro do muito respeito que a Selecção impunha), Portugal não se atemorizou e o triângulo do meio-campo, juntamente com Simão (uma primeira parte de muito bom nível), confundiram frequentemente as marcações alemãs. No entanto, quem falha oportunidades como as de Nuno Gomes ou Moutinho antes do golo alemão perde o direito de se queixar da sorte.

A meio da primeira parte, a Alemanha fez a sua primeira jogada de perigo. Bosingwa, parecendo ainda e sempre algo alienado (como ao longo de todo o Europeu), deu demasiadas facilidades a Podolski, que centrou para a diganol de Schweinsteiger, ultrapassando Paulo Ferreira (parecendo muitas vezes muito desconfortável na sua posição adaptada). Pouco depois, no primeiro lance de bola parada, a Alemanha marcou novamente. Ronaldo voltou a ser decisivo, mas desta feita na baliza errada, ao perder o seu marcador directo. Mais uma vez, a marcação homem-a-homem de Portugal nas bolas paradas comprometia. Portugal via-se a perder por 2-0 tendo criado mais e melhores ocasiões de golo, mas falhando rotudamente quando não se pode. E é também por isso que alguns valem muitos milhões e outros consideravelmente menos.

Portugal continuou embalado nas asas de Deco (que jogo!), que jogava ora curto, ora comprido, flanqueando ou tabelando, e continuou a empurrar uma Alemanha que tinha cometido o pecado de baixar o seu bloco, dando a Portugal o que tanto gosta: posse de bola. Com o golo de Nuno Gomes, o intervalo surgiu numa altura em que todos esperavam o empate. Portugal surgiu mais afoito na segunda parte, tentando encostar os germânicos às cordas, mas não há táctica, vontade e coração que aguente os constantes sofrimentos causados pelos desaires de Ricardo. Num momento em que Portugal procurava o empate, sofreu o terceiro golo em mais uma saída extemporânea do n.º 1 português.

O que se seguiu foi "classic Scolari": uma total falta de plano B, como se a derrota não fosse um cenário minimamente possível, e uma leitura de jogo absolutamente antiquada e ultrapassada. Foi, por isso, sem qualquer surpresa, que vi o tempo escoar-se sem que Portugal parecesse criar qualquer tipo de perigo. A saída de Nuno Gomes levou Ronaldo para o meio, mas Nani decide demasiadas, demasiadas vezes mal - levando à perda de bolas importantes naqueles momentos. A entrada de Postiga colocou Portugal a jogar num 4x2x4 assumido, com Meireles e Deco ao meio, mas para pouco mais serviu do que para equilibrar um pouco mais as contas finais. Portugal perdia por demérito próprio - como um dos jornais de hoje dizia, entregou o ouro ao bandido tímido.

Quanto a Scolari, confirmei o que vinha apregoando há algum tempo a esta parte. À medida que o núcleo duro de Mourinho se foi desvanecendo e se foi criando a necessidade de renovar (de forma competente) a equipa, esta foi perdendo mecanismos, qualidades e resultados. Como prova, basta dizer que Ronaldo não fez um Europeu fantástico, longe disso, pois a equipa raramente lhe dava os espaços necessários e que os resultados foram em constante declínio desde o Euro 2004 até hoje - final, semi-final, quartos-de-final. Com dificuldades na leitura de jogo, Scolari demonstrou mais uma vez que as suas equipas têm tendência para soçobrar nos momentos decisivos, muitas vezes por aparente falta de trabalho de casa, de observação e de treino metódico. A motivação é uma componente essencial da competição, sem dúvida alguma, mas não é, nem pode ser, a única. É por isso que alguns vencem mais vezes do que outros.

Resta agora ver se Holanda e Espanha, as duas restantes selecções do "bom futebol" mostram argumentos diferentes na hora da verdade.

Wednesday, June 18, 2008

A Europa às voltas

A segunda semana do Europeu já vai a meio e já há equipas inteiras a fazerem as malas para voltarem a casa, mais ou menos vergadas ao peso da derrota. Portugal conseguiu, como já se sabia, passar aos quartos-de-final, jogando contra a Alemanha, conforme se previa.

Começando pelo tema que tanto deixou os portugueses irritados, creio que Scolari fez o que tinha a fazer. Os seus actos viriam a virar-se contra si num futuro próximo, fosse como fosse (a menos que vença o Europeu), e, como tal, optou por "viver e morrer" pela sua cabeça. Rodou a equipa, premiou os habituais suplentes com 90 minutos de jogo, dando-lhes ritmo e passando uma mensagem de confiança. Infelizmente, a derrota veio a acontecer, mas não creio que venha a ser tão dramática quanto isso. O apuramento e o primeiro lugar do grupo estavam garantidos: que mal poderia fazer uma derrota, inclusivamente?

A Suíça demonstrou um outro aspecto que me parece importante e que já foi demonstrado não raramente por Scolari: por vezes, parece não compreender que substituir 8 jogadores por outros 8 jogadores para as mesmas posições nunca dá o mesmo resultado, pois os equilíbrios, movimentações (com e sem bola) são completamente diferentes. Espero sinceramente que o seleccionador tenha compreendido que Meira nunca pode ser trinco a menos que seja para defender o resultado, que Miguel está absolutamente fora de forma, que Quaresma é o que é e que Miguel Veloso não pode jogar na posição 8. Mas isso sou eu.

De resto, a grande notícia surgiu ontem - a França foi eliminada do Europeu. Creio que não haveria muita gente a prever este final, mas foi efectivamente o que aconteceu. Pessoalmente, penso que foi mais do que justo. A França pareceu sempre uma equipa sem ideias, sem forma de marcar golos ou dominar qualquer jogo (embora tivesse bons momentos contra a Holanda), demonstrando que Domenech é um treinador falho de ideias e que nem sempre rodear-se dos mesmos veteranos dá bons resultados. Uma vez não é vez, como costuma dizer-se. Caneco, até Humberto Coelho chegou à meia-final de um Europeu! A Itália demonstrou alguns pontos fortes, como sempre, mas mais algumas fraquezas do que seria de esperar. Seja como for, jogar contra a Espanha sem Pirlo e Gattuso vai ser uma tarefa extremamente complicada, porque não há ninguém com características semelhantes ao génio do AC Milan. A ver vamos que solução apresenta Donadoni.

Quanto ao jogo de amanhã de Portugal frente à Alemanha, terei de discordar de Big Phil (para nos irmos habituando alcunha colocada pelos ingleses), pois, pelo que vi até agora, a Alemanha está longe de me parecer uma selecção imbatível, quanto mais a melhor selecção do Europeu. Fritz é lento e não desequilibra ofensivamente (embora seja um bom equilíbrio para Lahm), Jansen é o elo mais fraco da equipa, enquanto que os dois pontas-de-lança (sendo Klose o melhor deles, de longe) retiram alguma profundidade aos flancos da equipa. Se a Alemanha jogar da mesma forma contra Portugal, apenas com Ballack e Frings a fazerem o trabalho de sapa, creio que Portugal vai ter a tarefa facilitada para controlar o jogo, graças às boas acções de Petit, Moutinho e Deco. Creio que Portugal tem tudo para ganhar o jogo, até porque Podolski terá a opção de ficar nos terrenos de Bosingwa ou imiscuir-se nos de Ricardo Carvalho, Pepe e Petit. Vamos lá ver o que faz a suposta melhor equipa do Europeu. Cá estaremos para falar disso!

Thursday, June 12, 2008

Os pontos fora das contas

A primeira semana do Europeu não acabou, bem o sei, mas penso que está na altura de tecer algumas considerações extra-Selecção nacional. Gostaria de ressalvar alguns pontos positivos e um ou outro negativo, com algumas previsões pelo meio.

1) Itália. É indiscutível que a Itália foi para muita gente a surpresa (pela negativa) do Europeu, até agora, ao sofrer três golos sem resposta de uma Holanda em quem não parecia haver muita a gente disposta a apostar. Pois bem, pessoalmente, e sem tirar qualquer brilho à exibição da Holanda, continuo a achar, mesmo depois de todas as análises de crise do futebol italiano, da culpa do treinador e do catenaccio, que os transalpinos não jogaram assim tão mal quanto se diz e pensa, embora se tenham colocado numa posição difícil num grupo extremamente complicado. A Itália continua a ter uma estrutura muito forte (apesar de a sua defesa ter dado alguns sinais de instabilidade), com um meio-campo muito bom - Pirlo faz as delícias de qualquer um, jogando como 10 a partir da posição de "trinco", sempre bem resguardado por Ambrosini à esquerda e Gattuso à direita -, um ponta-de-lança que aguenta tudo e todos para distribuir jogo e marcar o seu golo de quando em vez e um Di Natale muito veloz e inteligente. A única pecha parece-me ser mesmo Camoranesi, sempre indeciso entre jogar "à Itália" e "à Juventus". Para mim, a Itália está longe de ter feito o último jogo do seu Europeu.

2) Holanda. Um jogo muito bom, sem dúvida, de uma equipa muito mais equilibrada do que o costume, em parte devido à experiência de homens como Ooijer ou Bronckhorst e ao duo de centro-campistas batalhadores que guardam as costas de um Sneijder sempre fantástico e de um van Nistelrooy sedento de golos, ao que parece. No entanto, a Holanda tem raramente o condão de ofuscar ao início para se desvancer quando verdadeiramente importa. Creio que esta equipa tem bom potencial e alcançou uma excelente vitória frente à Itália, mas já não vai poder ter o estatuto de "dark horse" na segunda jornada.

3) Espanha. Uma boa vitória. É indiscutível que foi frente a uma equipa russa com muito poucos argumentos, ao contrário do que seria de esperar, mas quantos vacilam frente a adversários teoricamente mais fáceis (a própria Espanha que o diga). Espanha tem neste momento duas coisas que raramente teve: dois pontas-de-lança muito bons, que se completam de forma quase absoluta (Villa é para mim um dos avançados mais subvalorizados) e um meio-campo com excelente conhecimento de andamentos de jogo composto por Xavi, Iniesta, Xabi Alonso e Marcos Senna. A defesa parece-me lenta e algo exposta, especialmente quando sujeita a pressão alta. A ver vamos se Aragonés ainda vai a tempo.

4) Rússia e Turquia. Pessoalmente, duas das maiores desilusões. Quanto à Suíça e Áustria, creio que não se podia esperar algo de muito diferente de equipas do segundo/terceiro escalão do futebol mundial. Não estava à espera que tanto Russia como Turquia vencesse o Europeu, mas imaginei que tanto uma como outra selecção fosse conseguir impor algum do seu futebol e causar um ou outro incómodo. Pode ser que ainda vão a tempo, mas os sinais apresentados não deixam antever grandes surpresas..

Posto isto, gostaria apenas de fazer referência a alguns jogadores que se revelaram ou confirmaram o seu estatuto:
  • Deco - Agastado com as constantes dúvidas em torno da sua atitude e do seu futebol e respaldado no facto de não ter feito demasiado jogos, ameaçou isto desde que chegou à concentração: perfeito domínio dos tempos de jogo, passes de risco de longa distância capazes de fazer tremer as basculações das equipas adversárias, sem medo do jogo. O Deco de antigamente.
  • Moutinho - Conforme já expresso noutro ponto deste blogue, impecável a defender, sempre disponível para atacar, não vira a cara à luta e tem sido uma boa parte do segredo desta Selecção.
  • Sneijder - Impressionante, este holandês. Inteligente, rápido, excelente primeiro toque e reacção, só tem a melhorar.
  • Pirlo e Zambrotta - Apesar de derrotados, creio que merecem um destaque positivo. Pirlo correu a tudo, nunca deixou de pedir bola e tentar organizar jogo, apesar de o jogo nem lhe ter corrido de feição. O todo-o-terreno das laterais Zambrotta acaba o jogo como começou: sempre fresco, pronto a apoiar ataque e defesa, como se estivesse a ouvir música no seu iPod.
  • Villa - Diagonais impressionantes, óptima capacidade física, sempre disposto a arriscar e a fazer os movimentos necessários para se libertar a si ou ao seu companheiro de ataque, Fernando Torres. Muito bom, mesmo.

E ainda nem acabou a primeira semana...

Prognósticos da Selecção (no fim do jogo, claro está)

O trabalho é muitas vezes uma desculpa. Dá muito jeito para arranjarmos uma justificação para não fazermos algo que queremos ou, pior, para não fazermos algo que queremos, mas para o qual não temos a força de vontade necessária. Outras vezes há em que é de facto difícil conseguir conciliar tudo - família, vida pessoal, trabalho (sempre em frente ao computador) e... campeonato da Europa de futebol! Com todas estas condicionantes e a miríade de "treinadores de bancada" que por aí andam (alguns deles a comentarem na televisão), quem é que consegue manter um blogue actualizado sobre futebol? Infelizmente, eu falhei redondamente.

Seja como for, aqui vão as minhas considerações - já tardias, pois era minha intenção escrever antes de os jogos começarem, fazer algumas previsões, comentar a exibição de Portugal do primeiro jogo e avançar com alguns dados para o segundo.

Portugal surpreendeu-me. Não tenho qualquer pejo em admiti-lo. Não sou exactamente um dos maiores defensores de Scolari (na minha opinião, tem grandes lacunas ao nível da leitura de jogo e da concepção táctica da sua própria equipa), embora não creia também que só tem defeitos. Acho que é capaz de unir um grupo como poucos, mas que tem momentos em que dá a entender que tanto podia treinar futebol como outra modalidade qualquer. Dito isto, tenho de admitir que Portugal me surpreendeu pela positiva por dois motivos: em primeiro lugar, Simão Sabrosa. Não sendo um apaixonado pelo seu futebol, tenho para mim que confere um equilíbrio muito maior à equipa do que Quaresma ou Nani (temi que Scolari fosse optar pelo maior brilho do campeonato inglês). Ronaldo joga de forma um pouco anárquica na Selecção, voluntária ou involuntariamente, com constantes diagonais para a zona do ponta-de-lança, o que faz com que Simão tenha um papel muito importante numa ala em que o defesa-lateral é adaptado. Quando Ronaldo flecte para o meio, abre espaço a Bosingwa, o qual, quando Portugal constrói as jogadas de trás para a frente, se coloca invariavelmente na linha de meio-campo. Em segundo lugar, Moutinho. Este sim, um dos maiores segredos para o constante fluir do jogo da Selecção. Deco é fundamental (sempre foi, para mim), sem sombra de dúvida, mas Moutinho substitui Maniche ao ponto de aqueles que previram que este ia fazer muita falta ao jogo de Scolari já nem se lembrarem dele. Moutinho faz o constante vaivém de apoio tanto a Petit como a Deco, mostrando o quanto aprendeu a jogar em todas as posições do losango de Paulo Bento nos últimos anos

Qualquer uma das exibições de Portugal teve momentos muito bons. É um facto que a Selecção tremeu após o primeiro golo da República Checa, marcado um pouco "a frio" e expondo porventura a maior insuficiência desta selecção (jogadores como Deco, Simão, Moutinho ou Petit diminuem drasticamente a média de alturas e o hábito de disputar bolas pelo ar), mas não perdeu por completo as suas coordenadas, o que demonstra alguma estabilidade, embora a situação pudesse ter sido mais gravosa frente a uma selecção mais desenvolta a atacar.

Nas fases mais adiantadas da prova, Portugal terá alguns problemas, creio eu, face a equipas que joguem com o bloco mais subido e que tapem a primeira fase de construção - entre os centrais e Deco ou Moutinho. Paulo Ferreira parece-me bem adaptado ao lugar (teve dois excelentes cruzamentos de pé esquerdo, ontem), o meio-campo funciona com classe, embora Petit demonstre, como sempre, algumas dificuldades quando tem de encostar aos centrais para criar superioridade numérica quando confrontado com dois avançados adversários. Bosingwa parece estar ainda sobre o efeito alienante da contratação pelo Chelsea e está longe de demonstrar neste Europeu todo o seu potencial. De resto, Portugal parece estar de facto, ao contrário do que eu imaginar, em condições de fazer boa figura.