Showing posts with label Sporting. Show all posts
Showing posts with label Sporting. Show all posts

Wednesday, January 9, 2013

O negócio Izmailov/Miguel Lopes - quem sai por cima?


Inconcebíveis em Espanha, normais em Itália ou não tão raras em Inglaterra, as transferências entre os principais clubes são sempre uma questão sensível em Portugal. Marat Izmailov e Miguel Lopes trocaram ontem oficialmente de clube. Embora este tipo de transacção não aconteça todos os dias, estes dois clubes têm conseguido de tempos a tempos encontrar uma linha de comunicação entre si sempre que a necessidade surgiu - da troca Peixe/Costinha por Rui Jorge/Bino até à venda de Hélder Postiga ou João Moutinho. Ainda assim, subsiste uma questão: quem sairá beneficiado do mais recente negócio?

  • Izmailov

Izmailov era há já algum tempo um espinho cravado no flanco verde e branco. Em conflito com o departamento médico do clube, a estrela russa tornou a sua permanência no clube muito mais difícil ao insurgir-se contra as injustiças cometidas contra si, na sua opinião. Apesar de ser um jogador de elevado calibre quando estava na plena posse das suas capacidades, Izmailov nunca pôde desfrutar desses momentos durante muito tempo, sempre incapaz de se mostrar consistentemente ao nível por que tanto os adeptos e o próprio jogador ansiavam.

Nas primeiras duas das suas seis épocas no Sporting, o russo foi com frequência a diferença entre a sua equipa e a concorrência, inspirando os seus companheiros com a sua habilidade e servindo de baluarte da equipa. A qualidade das suas movimentações com e sem bola era irrepreensível e Izmailov parecia fadado para voos mais altos. No entanto, as repetidas lesões nos joelhos fizeram do jogador uma sombra de si mesmo, vindo por vezes a público criticar os directores ou o departamento médico do clube através dos jornais.

Nas temporadas que se seguiram, os seus regressos foram quase sempre abreviados pelos problemas dos joelhos, com Izmailov a desparecer dos convocados durante semanas a fio. Sempre que jogava, era possível vislumbrar um relance do jogador que havia sido e poderia ser, mas esse momento nunca durava muito tempo, com o jogador a lesionar-se uma vez mais.

Nos últimos tempos, o médio russo parecia estar encurralado no Sporting, incapaz de merecer o respeito dos adeptos, treinadores e companheiros de equipa. A sua fidelidade à causa e a sua capacidade de trabalho começaram a ser colocadas em questão e Izmailov deixou de ser visto como a estrela que poderia virar jogos a favor da sua equipa. Uma mudança poderá ser-lhe útil, particularmente porque, no FC Porto, não é provável que venha a ser considerado o jogador mais dotado da equipa, tendo de se aplicar a fundo para merecer um lugar no onze.

  • Miguel Lopes

O caso do defesa-lateral Miguel Lopes dificilmente poderia ser mais distinto. Formando nas camadas jovens do Benfica, foi promovido ao Benfica B, com a equipa a ser extinta pouco depois. Descendo uma divisão, começou a jogar pelo Operário. O Rio Ave, na altura na Liga de Honra, reparou no jogador e avançou para a sua contratação. Miguel Lopes foi fundamental para a promoção do clube à divisão principal e começou a atrair as atenções dos três grandes durante a primeira metade da época 2008/09. Acabaria por assinar pelo FC Porto em Janeiro de 2009.

Embora nunca tenha sido titular absoluto sob as ordens de nenhum treinador portista, Miguel Lopes logrou ainda assim estabelecer-se como alternativa viável em ambos os flancos durante a época e meia em que esteve ao serviço dos azuis e brancos. Em Agosto de 2010, foi emprestado ao Bétis (na altura, na segunda divisão espanhola), contribuindo uma vez mais para a promoção do seu clube ao campeonato principal.

Na temporada seguinte, acabaria novamente emprestado, mas um erro administrativo da parte do Saragoça (pelo qual o clube acabou por compensar o jogador) obrigou Miguel Lopes a esperar por Janeiro de 2011 por uma oportunidade para mostrar o seu valor noutro local. Esse local foi Braga, onde impressionou em ambos as alas. As suas exibições valeram-lhe a chamada de Paulo Bento à equipa de 23 jogadores que actuou no Euro 2012.

Na época actual, o internacional português foi titular por diversas vezes no lugar de Danilo (ainda a tentar encontrar o seu ritmo), mas foi descendo gradualmente na ordem de importância, chegando inclusivamente a referir a sua insatisfação antes da quadra natalícia. O seu tempo no FC Porto parecia ter chegado ao fim.

  • Conclusão

Com a partida de Hulk, a presença de Atsu na CAN e a intermitência de Iturbe, o FC Porto viu-se subitamente com poucas opções nas alas. Considerando que James Rodríguez foi recentemente diagnosticado com uma lesão que o manterá afastado por quatro semanas, Izmailov poderá bem ser uma bela aquisição. Contudo, a contratação do russo é incaracterística face ao que o clube nortenho nos habituou, uma vez que se trata de um jogador de 30 anos com poucos jogos nas últimas épocas, com um problema grave no joelho, e que ostenta um passado duvidoso ao nível da sua fidelidade. Adicionalmente, o russo não tem qualquer valor de revenda. Por outro lado, o FC Porto abre mão de um lateral de 26 anos capaz de jogar em ambos os flancos e que estava a começar a afirmar-se na selecção nacional.

Para o Sporting, este negócio apenas poderá ser considerado uma vitória, uma vez que descarta um problema que vinha a consumir todo o clube há já algum tempo e encontra algum alívio na folha de salários. Mais importante ainda, os leões recebem em troca um lateral-direito (de preferência) de qualidade capaz de afastar os holofotes do infeliz Cédric e provocar um impacto imediato. Miguel Lopes é um jogador com um futuro brilhante à sua frente e, se continuar a ser convocado para os trabalhos da selecção, o seu valor de mercado disparará em flecha e o Sporting poderá acabar por conseguir um belo lucro.

Tuesday, October 30, 2012

Tanto para fazer em tão pouco tempo


Franky Vercauteren é o próximo treinador do Sporting, mas talvez nem ele próprio tivesse noção da magnitude da tarefa que terá em mãos. De há vários anos a esta parte, o Sporting tem-se resumido quase exclusivamente a um punhado de jogadores, geralmente abandonados à sua sorte, rodeados por um constante circo mediático e treinadores fragilizados. Acontecerá o mesmo com o técnico belga?

Qualquer análise táctica da equipa de Alvalade tende a ser extremamente trabalhosa, uma vez que raramente se tem a noção da existência de uma equipa rotinada pelo(s) seu(s) treinador(es). Com efeito, para um observador externo com recurso apenas aos jogos disputados, é muito difícil encontrar ordens ou instruções pré-estabelecidas e metade da equipa parece pensar o jogo de forma muito diferente da restante metade. O que mais choca ao ver as actuações leoninas são as exibições, mais do que os resultados. Ao contrário da opinião de Oceano Cruz, os erros pelos quais o Sporting tem sido castigado não são de ordem individual.

Independentemente do talento individual existente, cabe ao treinador definir algumas directrizes básicas e, com base nessas linhas orientadoras, trabalhar do geral para o particular. As mais recentes versões do Sporting não têm demonstrado que o treinador (seja ele quem for) tenha sido capaz de fazer passar a sua mensagem, continuando a desapontar os seus mais fiéis seguidores. Com base neste e em muitos outros encontros, Franky Vercauteren tem em mãos uma tarefa árdua. Analisemos mais de perto algumas das principais questões, por ordem aleatória.

1. Ricky van Woflswinkel. É triste ver tanto potencial desperdiçado. Vercauteren necessita de recuperar a confiança perdida do avançado holandês e transformá-lo novamente numa máquina de fazer golos. A recepção de Wolfswinkel parece estar a piorar de dia para dia e a sua velocidade está longe de ser o que era. Tendo em conta a falta de alternativas válidas, o ponta-de-lança sportinguista precisa de estar na sua melhor forma.

2. Um onze estável. Não se trata aqui de defender que os mesmos onze jogadores deverão ter lugar garantido independentemente das prestações ou da forma, mas, ao passo que é relativamente simples referir o onze mais comum de FC Porto, Benfica ou Braga, acertar na equipa titular do Sporting assemelha-se a uma obra do acaso. Vercauteren deverá definir um grupo de jogadores à volta do qual possa criar a espinha dorsal da equipa.

3. Um modelo de jogo claro. Tal como acontece com a questão mais acima, não se trata de afirmar que o treinador não poderá alterar a sua disposição táctica, mas, ao longo das últimas épocas, o número de organizações tácticas impostas aos jogadores do Sporting é verdadeiramente surpreendente. Sim, é possível (e desejável) ser tacticamente flexível, mas só após definir o modelo de jogo principal com clareza.

4. Evitar em definitivo situações comprometedoras. Conforme referido neste mesmo blog, a cobertura ofensiva é um dos aspectos primordiais do futebol moderno, algo que o Sporting não parece dominar de todo. Analisemos mais de perto alguns exemplos.

O Sporting acaba de perder a bola e está já totalmente desequilibrado.

Um mero segundo depois, a Académica já dispõe de superioridade numérica.

Neste caso, Schaars sofre uma intensa pressão,
mas ninguém se aproxima nem encurta o campo.
A área a sombreado representa uma potencial avenida para o golo.

Esta jogada teve lugar perto do intervalo.
Note-se no número de opções de passe seguras.
A Académica parece muito mais organizada e perigosa.

Rinaudo passa para trás e os jogadores do Sporting permanecem distantes.
Pressentindo o perigo, a Académica ataca imediatamente Rojo.

Passaram já cinco segundos e o Sporting não dispõe
de mais do que quatro jogadores, igual número à Académica.

5. Sair a jogar. Se uma equipa faz tenções de vencer encontros de forma consistente, deverá jogar em função das suas qualidades, não permitindo que seja o encontro a orientar o jogo. O Sporting não poderá basear-se em Boulahrouz ou Rinaudo para comandar a sua forma de jogar, sob o risco de perderem a bola com inusitada facilidade, conforme aconteceu hoje uma e outra vez. Vercauteren não deverá ter medo de despender algum tempo a instruir os seus jogadores a sair a jogar desde trás (na linha do seu passado enquanto jogador e treinador). O Sporting necessita urgentemente de uma noção de finalidade para o seu jogar.

Este ângulo é perfeito para compreender
a perspectiva do portador da bola
e as suas dificuldades para encontrar um colega livre.

Monday, October 8, 2012

FC Porto entra a matar e desacelera em seguida

Equipas e movimentações iniciais


FC Porto e Sporting encontraram-se em lados totalmente opostos do espectro futebolístico. Os dragões vinham de uma excelente exibição e correspondente vitória frente ao Paris Saint-Germain, ao passo que os leões haviam sido trucidados pelo Videoton, com a posterior demissão de Ricardo Sá Pinto. Como tal, não foi de todo surpreendente que Vítor Pereira não promovesse qualquer alteração no seu onze. O treinador interino sportinguista, Oceano Cruz, manteve a mesma estrutura base, optando por Schaars e Elias no centro do terreno e Pranjic à frente de Insúa na ala esquerda, previsivelmente para manter Danilo sob controlo e explorar os espaços nas costas de James Rodríguez, uma vez que o colombiano tende a flectir para o meio.

O plano de Oceano parecia basear-se em restringir os anfitriões e evitar sofrer golos durante o período inicial, instruindo Schaars para que seguisse Lucho quase para todo o lado. Com Elias preocupado com João Moutinho, Fernando ficava frequentemente liberto, uma vez que Izmailov funcionava quase como número 10 e deixava o pivô defensivo portista sem marcação - permitindo aos campeões nacionais desfrutarem de sucessivas situações de superioridade numérica.

Apesar de todas as críticas que tem recebido das bancadas, há que dar crédito a Vítor Pereira por fazer com que este FC Porto jogue um futebol mais fluido na abertura da presente temporada, com o correspondente adiantamento da linha defensiva. Ao recuperar inúmeras bolas logo na transição ofensiva sportinguista, o FC Porto pôde explorar a ausência de Schaars, desposicionado pela movimentação de Lucho. Por seu turno, essa movimentação abria espaços para James, o qual tentou alvejar a baliza precisamente dessa zona (à frente dos defesas-centrais, onde Schaars deveria estar) momentos antes de Danilo oferecer a assistência para o atrevido calcanhar de Jackson Martínez.

Os leões pareceram algo abalados durante alguns minutos, com o FC Porto a permanecer compacto, ainda que exercendo menor pressão em zonas mais adiantadas. Com Mangala no lugar do lesionado Maicon, era provável que os azuis e brancos se deparassem com alguns problemas, uma vez que o defesa-central francês não é tão rápido a reagir e denota maior tendência a fazer passes errados. Para além disso, os comandados de Vítor Pereira começaram a descomprimir após o golo, aparentemente confiantes de que poderiam criar perigo assim que quisessem acelerar o jogo.

Por volta da meia-hora de jogo, o Sporting começou a soltar-se das amarras que havia imposto a si mesmo, percebendo que a defesa subida do FC Porto estava agora vulnerável sem Maicon. Izmailov aproximou-se do seu meio-campo e começou a criar situações de perigo para os seus colegas (e não só), ficando a faltar uma finalização mais apurada. Talvez a intenção de Vítor Pereira tivesse sido sempre essa, pois os jogadores leoninos continuaram a cometer o mesmo erro que cometem há muito tempo, independentemente do nome do treinador: atacar com os dois laterais na perseguição do resultado, abrindo enormes crateras e, por conseguinte, criando situações de inferioridade numérica.

O Sporting ditou os primeiros 15 minutos do segundo tempo. Com Izmailov a assumir cada vez mais a sua presença (o momento da sua substituição foi infeliz, dado que estava a começar a ser o foco de que a equipa visitante necessitava), o meio-campo do FC Porto perdeu por vezes as suas coordenadas, nomeadamente após as más decisões de Varela no último terço do terreno, partindo a equipa em duas partes em circunstâncias críticas. Contudo, se o Sporting pretender efectivamente lutar por uma classificação mais de acordo com os pergaminhos do clube, Elias terá de se envolver mais e oferecer linhas de passe, em vez de se esconder do jogo, sendo igualmente necessário que haja movimentações ofensivas de maior qualidade. Neste momento, todos parecem estar à espera que Carrillo saque um coelho da cartola.

A expulsão de Rojo foi uma consequência natural do maior adiantamento do Sporting (e deveria ter sinalizado o fim do encontro ainda antes da segunda grande penalidade). Embora a abordagem do defesa-central leonino não seja propriamente a ideal, o próximo treinador do Sporting tem de assumir como prioridade a revisão do posicionamento dos laterais em posse, uma vez que deixa a equipa de Alvalada total e desnecessariamente desprotegida.

Em breves palavras, foi um jogo algo fragmentado. O Sporting mantém a sua evidente falta de opções atacantes e o próximo responsável técnico terá uma tarefa árdua pela frente. No que diz respeito ao FC Porto, embora não se possa apelidar a vitória de injusta, houve momentos de perda de controlo e de más tomadas de decisão (particularmente nas transições ofensivas) que poderiam ter tido consequências desastrosas para as ambições portistas. Não obstante, Vítor Pereira estará por certo feliz no seguimento de duas vitórias importantes sem qualquer golo sofrido.

Monday, May 21, 2012

Nova vitória para o futebol defensivo


Equipas iniciais


A final da presente edição da Taça de Portugal estava recheada de expectativas, uma vez que tanto o Sporting como a Académica haviam atingido esta partida decisiva no seguimento de campanhas plenas de sofrimento. Como tal, a hipótese de juntarem mais um título ao seu palmarés constituía motivo mais do que suficiente para ver se alguma das equipas estava disposta a fazer um derradeiro esforço.

Este artigo tem início em algo que representa um dos maiores desafios do futebol - o processo de tomada de decisão. É-nos dito com frequência que este desporto se rege em torno da força de vontade, da atitude e da coragem, mas também à volta de tácticas e posicionamento. A tomada de decisão é um elo essencial na união de todos esses aspectos - sendo o golo da Académica um exemplo perfeito.

A jogada começa quando Polga vai ao encontro de Adrien, o qual faz um "carrinho", acaba por lesionar o defesa central do Sporting e entrega a bola a um colega. Dispondo de apenas alguns segundos, os leões não foram capazes de efectuar os ajustes necessários (em condições normais, um dos médios-centro preenche a zona de acção do defesa central) e sofreram o único golo do encontro.

O lugar de Polga, no chão, não é ocupado por ninguém, conforme se vê no círculo amarelo.

Sem ninguém a ocupar o lugar de Polga, Insúa é obrigado a flectir para o centro,
libertando Marinho para o golo.

Se a Académica já estava preparada para actuar em linhas recuadas e ceder a iniciativa de jogo, um golo no 4º minuto não alteraria o seu plano de jogo. Na verdade, o onze de Alvalade mostrou novamente que se sente muito mais à vontade contra equipas favoritas do que quando tem de infligir danos em equipas de menor dimensão. A estratégia dos estudantes era evidente: dispostos num tradicional 4x3x3, a Académica chamava Elias ou Schaars para a frente, procurando explorar os espaços que se abriam em seguida. Com quase todas as linhas de passe fechadas ao centro, o Sporting era forçado para as alas e obrigado a recorrer a cruzamentos para Wolfswinkel, longe de ser um especialista nesse tipo de jogo.

A Académica incentivava os avanços de Elias, procurando apanhar o Sporting desprevenido.
Note-se o espaço a azul atrás do meio-campo sportinguista.

Alguns segundos depois, Elias cai na armadilha e a Académica conquista o espaço que procurava.

Ao contrário do recém-redescoberto 4x2x3x1, o 4x3x3 permite que os extremos adversários sejam defendidos pelos médios-interiores (neste caso, Adrien e David Simão), e não pelos extremos, libertando-os para rápidos contra-ataques. Com a marcação individual de Diogo Melo a Matías Fernández, deveria caber a Elias ou Schaars fazer a diferença pelo centro do terreno tirando proveito do espaço aberto por Melo. Ao invés, os jogadores leoninos permaneciam presos às suas posições originais e demasiado estáticos.

Apesar da limitação dos seus movimentos, Capel foi efectivamente o único jogador a tentar modificar o cenário, levando os seus adversários a cometer faltas, particularmente no último terço do campo. Embora os leões tenham vindo a tirar proveito de situações de bola parada desde que Ricardo Sá Pinto assumiu o comando técnico, desta feita nem o gigante Onyewu foi capaz de fazer qualquer diferença a este nível.

A segunda parte foi bastante diferente - o início pelo menos. Com efeito, o primeiro minuto foi o exemplo perfeito do que se seguiria durante 20 minutos. Com Izmailov no lugar de Elias (um caso típico de um jogador prejudicado pela sua polivalência, parecendo jogar quase sempre fora da sua posição), a equipa do Sporting partiu-se em dois sectores de cinco jogadores. Embora os homens de Sá Pinto pudessem ter marcado poucos segundos depois do reatamento, poderiam igualmente ter sofrido um golo na jogada imediatamente a seguir, não fossem os dois terríveis falhanços de Edinho.

Ao fim de 60 minutos, a Académica começou a acusar sinais de fadiga e a mostrar-se pouco interessada em manter a posse de bola. Mesmo perante essa oportunidade, o Sporting não foi capaz de quebrar a oposição da defesa adversária; na verdade, os leões foram pouco criativos - à parte alguns fogachos de  Carrillo - e denotaram uma preocupante incapacidade de contornar adversários interessados em fazer aquilo que o próprio Sporting fez contra equipas mais fortes, ao longo desta época.

Em jeito de comentário, Adrien provou novamente que tem lugar na primeira equipa do Sporting e David Simão mostrou que poderá tornar-se num centrocampista muito útil. Se tanto Sporting como Benfica estiverem interessados em desenvolver estes dois jogadores, poderão revelar-se adições interessantes para os planos futuros da selecção nacional.

Friday, March 16, 2012

Sporting termina em desespero, depois de primeira parte perfeita


Equipas e movimentações iniciais

Ambas as equipas de Manchester tinham uma última oportunidade para passar à fase seguinte da Liga Europa. A tarefa do City parecia ser mais verosímil, mas Mancini não quis arriscar novamente, optando por um onze bastante diferente para a segunda mão. Em vez dos médios defensivos De Jong e Barry, o treinador italiano preferiu contar com Pizarro e Touré no centro e Johnson no lugar de Milner. Mancini parecia ter aprendido o suficiente sobre o seu adversário e pretender contrapor uma nova estratégia.

A presença de Pizarro significava que o City era capaz de orquestrar os seus ataques a partir de posições mais recuadas, em vez de ficar à espera do génio de David Silva. O principal ponto forte de Pizarro é a sua capacidade de fazer girar a bola de um lado para o outro e efectuar longos passes diagonais para os flancos. Na verdade, essa parecia ser a principal via para o City chegar ao golo - Pizarro (ou Yaya Touré) tentavam rodar a bola e, em seguida, lançar Johnson na direita. Com Micah Richards a subir e Yaya Touré do mesmo lado, havia muito espaço para o Sporting contra-atacar.

Quanto aos leões, a imagem mais abaixo é um exemplo perfeito da sua estratégia - com efeito, não diferia em muito do plano do primeiro jogo. A equipa lisboeta entrou bem no jogo, com zonas de pressão claramente definidas e com tendência para explorar o espaço nas costas de Richards. No entanto, essa mesma estratégia podia não ser a mais indicada para este caso - uma vez que Pizarro comandava as operações numa área a que o Sporting não estava preparado para chegar.

Sporting disposto num clássico 4x4x2, com Izmailov numa posição mais central
Um dos principais desafios para qualquer adversário do City passa por saber como anular David Silva. Ricardo Sá Pinto optou novamente por fazer uso de Izmailov numa posição mais central do que Capel, mas, desta feita, o médio russo roçou quase a marcação individual ao mágico espanhol. Com isso, Kolarov tinha liberdade para subir pelo seu flanco, o que obrigava Carriço a fazer a compensação, de modo a garantir que a equipa portuguesa tinha sempre superioridade numérica nas alas.

Izmailov ocupou frequentemente zonas mais centrais do que Carriço e Schaars, na marcação a Silva
Ao invés, isso significava que o Sporting tinha grande facilidade em criar desequilíbrios nesse flanco, dado que Silva nem sempre recua nas suas tarefas defensivas e tanto De Jong como Barry  estavam ausentes para compensar. Na outra ala, Capel mostrava uma vez mais que poderá nunca vir a revelar todo o seu potencial - as suas movimentações e tomadas de decisão são estranhamente semelhantes às de um extremo do fim do século passado.

Os dois golos leoninos tiveram origem no (invulgar) mau posicionamento defensivo do City. O primeiro resultou de um fantástico livre directo de Matías Fernández, com origem numa desastrada tentativa de desarme de Balotelli sobre Insúa, que tinha (mais uma vez) ocupado o espaço nas costas de Yaya Touré. O segundo foi ainda mais inexplicável, uma vez que surgiu no seguimento de uma bola a 60 metros da baliza. Polga fez um passe longo para a ala direita e a má decisão de Savic de disputar o lance aéreo foi agravada pela total ausência de cobertura do resto da sua equipa para a segunda bola. O Sporting chegava ao intervalo com dois golos de vantagem - e com toda a justiça.

Savic chega tarde à disputa de bola, com uma péssima cobertura da sua equipa.
Note-se a distância relativamente aos seus companheiros
Mancini substituiu Johnson por De Jong para a segunda metade, optando por um 4x2x3x1, com Pizarro e De Jong ao centro. O treinador italiano parecia admitir finalmente que fazia pouco sentido continuar a insistir nas alas, uma zona onde o Sporting tinha clara vantagem numérica. O primeiro golo do City foi um seguimento lógico desse raciocínio, com Balotelli a criar uma indecisão nas marcações e abrindo espaço. O 4x4x2 clássico do Sporting era fácil de contornar pelo centro e, assim que o City o percebeu, o mal estava feito.

Para além disso, a substituição de Ricky van Wolfswinkel e Matías significava que o Sporting não tinha como sair na transição ofensiva e que o City podia carregar ainda mais. Os leões começaram a dar sinais de cansaço e a grande penalidade cometida desnecessariamente por Renato Neto apenas piorou o cenário. Os portugueses terminaram o jogo em desnecessário desespero, forçados a recorrer às últimas forças para tentar evitar aquilo que seria um desfecho trágico e, no global, injusto.

O desempenho de Pereirinha e Izmailov é de louvar. O português não fugiu à regra: ponderado, criterioso e com uma óptima leitura de jogo. O jogador russo foi um verdadeiro herói, não sendo habitual ver um jogador do seu calibre empenhar-se em prol da equipa.

Thursday, March 8, 2012

"Em Roma, sê romano"


Equipas e movimentações iniciais


Num encontro fechado, o Sporting conquistou uma vitória por 1-0 que poderá revelar-se decisiva quando as equipas se encontrarem novamente, de hoje a uma semana. Ricardo Sá Pinto mostrou ser suficientemente humilde para aprender com os erros do FC Porto na última eliminatória perante o mesmo adversário e optou por uma estratégia bem diferente da abordagem de Vítor Pereira.

Com efeito, Sá Pinto escalou um invulgar (para equipas portuguesas) 4x4x2 assimétrico (ver imagem mais abaixo), imitando na perfeição o onze previsível do City. Carriço e Schaars tinham como missão proteger a sua linha defensiva e, embora Capel e Izmailov completassem uma segunda linha de quatro no meio-campo, o russo ocupou mais interiores, provavelmente prevendo a tendência de David Silva de descair para o centro. Foi pedido a Schaars que jogasse um pouco mais avançado em relação a Carriço, no sentido de ocupar o espaço entre sectores.



O Manchester City mostrou a sua postura habitual nos jogos longe do seu reduto. Com Clichy no lugar de Micah Richards a lateral-direito, Milner como falso ala direito e Silva à esquerda, não restava outra alternativa ao City senão jogar pelo centro, deparando-se com uma compacta defesa leonina.

Em vez de jogar olhos nos olhos com o seu adversário, os leões entraram de forma cautelosa, receosos de subir o bloco e, com isso, exporem a sua linha defensiva (à imagem do que o FC Porto fez nos dois jogos com os citizens). Confrontado com uma equipa inglesa com ADN italiano, Sá Pinto não teve pejo em conceder o favoritismo e o domínio de jogo à equipa de Roberto Mancini, esperando que o Sporting fosse capaz de lançar rápidos contra-ataques. Com Izmailov a criar superioridade numérica no centro do terreno, quase todas as bolas recuperadas iam rapidamente ao encontro de João Pereira, especialmente porque - como é do conhecimento geral - David Silva não é particularmente adepto de auxiliar nas tarefas defensivas.

Os ingleses mostravam-se lentos e pareciam crer que o problema se resolveria naturalmente, limitando-se a rodar a bola, esperando que Silva sacasse um coelho da cartola. Por seu turno, Van Wolfswinkel e Matías Fernández, batalharam com afinco no sentido de reduzir os espaços e fechar as linhas de passe aos médios-centro do City. Ao fim dos primeiros 25 minutos, o Sporting tornou-se menos calculista e temeroso e começou a mostrar que pretendia discutir o jogo, nomeadamente através de remates de longe.

A primeira parte chegou ao fim, com ambas as equipas aparentemente mais interessadas em não sofrer do que em marcar. Xandão marcou um delicioso golo de calcanhar e presumiu-se que o jogo abriria aí a partir de então. Embora a equipa da capital se tenha mostrado aqui e ali algo sôfrega em acompanhar o entusiasmo da multidão nos minutos que se seguiram, conseguiu manter o seu controlo emocional e resistiu à tentação de partir para cima do adversário, cingindo-se ao seu plano de jogo.

Enquanto que Mancini substituiu Dzeko (mais uma exibição desinspirada do bósnio) por Balotelli, Sá Pinto tentou garantir que o Sporting não sofria um golo potencialmente fatal ao mandar para o terreno de jogo Pereirinha e Renato Neto para os lugares de Izmailov e Matías, respectivamente. A mensagem era clara: o resultado era perfeito e a vantagem de um golo deveria permanecer intacta. Balotelli foi na verdade o único citizen capaz de causar problemas ao Sporting (principalmente ao irascível João Pereira) e o City ficou muito próximo do golo da igualdade na parte final do encontro, incluindo uma cabeçada de Balotelli à barra.

Em jeito de conclusão, o treinador do Sporting reconheceu as diferenças entre as duas equipas e foi capaz de convencer os seus jogadores que teriam de trabalhar muito e estar dispostos a ter menos a bola em sua posse para serem bem sucedidos. A sua abordagem italiana funcionou na perfeição e Mancini insiste em demonstrar que as noites europeias permanecem pesadelos, mesmo se é verdade que o resultado foi lisonjeiro para o Sporting.

Individualmente, gostaria de destacar Matías Fernández pela sua capacidade de trabalho e presença de espírito, uma vez que se assumiu como o principal elo de ligação entre defesa e ataque, oferecendo uma bola de saída, mas gostaria igualmente de elogiar o mal-amado Anderson Polga. Embora Xandão tenha mostrado mais uma vez que poderá ser uma adição valiosa para a equipa, o campeão do mundo mostrou que continua a ser um excelente jogador quando a sua equipa não é constantemente apanhada em contrapé.

Monday, January 16, 2012

5 pontos sobre o Sp. Braga - Sporting

Equipas e movimentações iniciais
Num duelo para o terceiro lugar da I Liga, Sporting de Braga e Sporting proporcionaram ontem um bom espectáculo, com golos, indecisão no resultado e nuances tácticas. Sem Wolfswinkel, Ribas recebeu o aceno de Domingos para saltar para o onze. Para complementar as alterações, Matías entrou para o lugar de Renato Neto e Evaldo para o lugar de Carrillo, o que significou o adiantamento do argentino e a passagem de Capel para o lado direito. Com estas premissas, destacam-se 5 pontos:

1 - Um número tão grande de alterações na equipa sportinguista (incluindo o habitual sistema em que a equipa joga) confundiu por completo os jogadores, permitindo que os bracarenses tomassem conta dos primeiros 20 minutos de jogo. Schaars e Elias mostraram ser uma dupla particularmente vulnerável no meio-campo, situação agravada com a particular concentração defensiva dos 4 jogadores mais adiantados.

2 - Hugo Viana tomou conta desses primeiros 20 minutos ao aparecer em zonas que não eram patrulhadas por ninguém. Embora a sua acção tenha sido limitada por Elias a partir desse momento, isso significou que o brasileiro foi igualmente anulado, perdendo-se o seu precioso contributo em termos ofensivos. Como se não fosse suficiente, ter-se-á visto ontem que nem Elias nem Schaars deverão ser responsáveis pela primeira fase de construção, dado o seu critério duvidoso nessa situação.

3 - Mossoró foi a peça fundamental para as transições do onze minhoto. Com Viana a servir sempre de farol para os seus colegas paraa saída da zona de pressão, Mossoró oferecia sempre uma linha de passe e a capacidade de descobrir os espaços mais vulneráveis da defensiva contrária, nomeadamente através das movimentações de Lima para os flancos. A vitória de ontem ficou seriamente em risco quando Leonardo Jardim retirou Mossoró e colocou na sua posição Hugo Viana. A partir desse momento, o Sporting de Braga nunca mais foi capaz de contra-atacar.

4 - Capel continua a demonstrar ser um jogador de características algo ultrapassadas, especialmente para um jogador tão novo. Com movimentos muito redutores, acaba por prender a equipa a uma velocidade que nem sempre é favorável para os interesses da sua própria equipa. Na direita, mostrou todas as suas limitações tácticas, ao mostrar-se incapaz de ocupar espaços interiores e criar superioridade numérica no centro e/ou abrir o flanco para a entrada do lateral.

5 - Tanto Domingos como Leonardo Jardim ostentam uma reputação assinalável na esfera dos treinadores nacionais. No entanto, foi estranho verificar análises discutíveis quer para o onze inicial, quer durante o próprio jogo. As dificuldades por que ambas as equipas passaram (o Sporting no início e o Braga a partir da saída de Mossoró) estão directamente relacionadas com as opções dos seus líderes.

Tuesday, June 28, 2011

O mundo ao contrário

Infelizmente para o futebol em geral, mas mais ainda para o clube em questão, o Sporting parece continuar a estar a ferro e fogo, dando sinais de que, tal como se suspeitava, os resultados da equipa principal mais não eram do que um reflexo de problemas que corriam mais fundo. Ao ler num jornal a entrevista dada pelos principais "olheiros" do Sporting, é impossível não concluir que, ao contrário do que muitos de nós gostam de fazer crer, o futebol ainda é gerido por caprichos, capelinhas e modas do momento. Não me parece haver outro ponto de chegada face ao que nos foi agora confirmado por quem está por dentro da realidade do clube, ainda que manifestamente incompatibilizado com a actual direcção. Com efeito, muitas das pessoas que rodeiam os clubes (em particular os grandes) parecem muito mais interessadas em querer servir-se a si mesmas do que servir o clube.

Os sinais que o futebol, no seu âmbito global, continua a enviar para o exterior continuam a ser de um amadorismo e de compadrios que apenas parecem encontrar par na política.

Tuesday, April 12, 2011

Lar, doce lar

Nos últimos tempos, tem sido frequente ouvirmos falar da "casa táctica" de Luís Freitas Lobo. No fundo, aquilo a que o atento observador se refere é a disposição e movimentações com que a equipa se identifica, quer de forma natural (pela predisposição dos seus jogadores), quer pelo trabalho do seu treinador.

Não querendo de forma alguma descurar o restante trabalho de José Couceiro, aquilo que salta claramente à vista é a capacidade do treinador sportinguista de conferir à equipa uma coerência táctica - posicionamento, movimentações, transições - que Paulo Sérgio nunca conseguiu implementar nos longos meses em que esteve à frente do clube. Com essa estabilidade, a equipa verde e branca logrou manter-se afastada - tanto quanto possível - da confusão reinante no clube, trazendo alguma alma e dignidade a um "grande" do futebol português.

Em momentos mais complicados, as coisas mais simples poderão revelar-se decisivas. Ao teimar em não estabilizar um onze, um esquema táctico e uma forma de jogar, Paulo Sérgio apenas serviu para agudizar uma intranquilidade que já grassava na equipa. Ao invés, Couceiro optou pela estratégia inversa: dar continuidade a uma ideia de jogo e reunir os jogadores em torno da mesma. Os resultados estão à vista.

Thursday, November 5, 2009

De Lisboa a Kazan

Depois de mais uma jornada da Liga dos Campeões, creio ser esta uma boa altura para avaliar o momento do Sporting. Paulo Bento está de facto sob fogo, particularmente dos seus próprios simpatizantes e associados. Com efeito, o Sporting está longe de brilhar no principal campeonato português, contrapondo uma carreira europeia sólida na Liga Europa (não esquecendo contudo o afastamento da Liga dos Campeões às mãos da Fiorentina).

Do muito que se tem falado nas últimas semanas sobre o momento da equipa verde e branca, uma grande fatia passa pela já de todos conhecida falta de condições financeiras para lançar uma candidatura consistente à conquista do título, de que o Sporting anda arredado desde 2002, sob o comando de Lazslo Bölöni (e os golos de Mário Jardel, já agora). Embora seja indiscutível que o orçamento do Sporting é mainfestamente inferior ao dos seus maiores rivais, a equipa de Alvalade parece padecer de muitos outros problemas que não terão forçosamente que ver com a maior ou menor capacidade financeira.

Se escrevo este texto agora, escrevo-o depois de ver Dínamo de Kiev e Rubin Kazan fazerem passar os seus adversários - respectivamente, Inter de Milão e Barcelona - por um mau bocado. Na verdade, o campeão russo conquistou aos catalães 4 pontos em 6 possíveis nas duas últimas jornadas. Quanto ao Dínamo, esteve a 10 minutos de cometer igual proeza face à equipa de José Mourinho. Ora, qualquer uma destas equipas está longe de ter o mesmo poderio económico dos seus rivais; no entanto, não foi por isso que o seu empenho, inteligência ou trabalho estratégico foi menor. Em ambos os casos, as equipas mereceram de forma galharda os resultados que lograram. Cientes de que não podiam lutar com as mesmas armas, foram à procura dos pontos fracos - que todas as equipas têm - e demonstraram um enorme espírito de luta e conhecimento das suas capacidades e das dos seus adversários.

Se o Sporting se queixa da falta de condições de que FC Porto e Benfica desfrutam, o que poderá dizer-se do Braga, por exemplo? O empenho, a garra, a vontade e o espírito de equipa não se fazem com dinheiro - muitas vezes, bem pelo contrário. Os responsáveis máximos do futebol do Sporting parecem esquecer-se com alguma frequência deste ponto, ao aludir vezes e vezes sem conta às suas limitações.

Neste momento, a equipa do Sporting padece da ausência de solidez defensiva e de criatividade ofensiva. Ao fim de 4 anos, não haverá quem não saiba como se movimenta o losango de Paulo Bento e respectivas variantes. A equipa parece tolhida, envergonhada e pouco disposta a ir à luta, o que não deixa de ser assaz estranho numa equipa orientada por Paulo Bento. A lateral-esquerda da defesa é um problema, tal como o é a constante indefinicação na frente (Postiga demonstra ainda e sempre a sua capacidade de se ausentar dos jogos e não ser um avançado felino, Caicedo permanece uma incógnita) ou o meio-campo em permanente bulição, onde, não fora o capitão João Moutinho, tudo seria feito de forma ainda mais lenta.

Se Paulo Bento pode ser "chamado à pedra" por alguns destes pontos, o que dizer dos seus superiores hierárquicos, ao não criarem condições (leia-se contratação de jogadores e/ou gestão do plantel) para que o treinador possa de facto atirar-se aos objectivos que deveriam ser partilhados por todos? O plantel sportinguista tem várias lacunas, sendo que nem todas podem ser supridas, ao contrário do que se possa pensar, por jovens acabados de sair da formação do clube. De facto, o Sporting parece continuar a olvidar clubes mais pequenos, onde actuam jogadores com enorme potencial e de grande valia (a curto-médio prazo).

Em suma, não creio que o problema dos leões desta época se resuma a esta época. Pelo contrário, parece ser o final de um trajecto que se vinha desenhando há já algum tempo, mas ao qual ninguém pareceu querer dar demasiada importância. Enquanto o FC Porto era o único rival a dominar, tudo parecia ser aceitável. Agora que o Benfica parece ter finalmente acordado da sua dormência, a situação parece ter-se agravado consideravelmente. Sempre que tiverem dúvidas, vejam o Rubin Kazan ou o Dínamo de Kiev a jogar.

Thursday, August 13, 2009

Um sprint a três?



"Mais uma voltinha, mais uma viagem." Este não é o lema do campeonato nacional, mas bem que podia ser. Com efeito, a principal competição futebolística de clubes tem início já amanhã, perfilando-se como favoritos os três candidatros tradicionais - desta feita, com um equilíbrio de forças aparentemente diferente.

Na verdade, o Benfica reforçou-se muito e supostamente bem. O presidente encarnado tentou mais uma vez resolver a falta de títulos atirando dinheiro para cima do problema. Não está em causa o valor dos jogadores benfiquistas, bem pelo contrário, mas sim saber até que ponto este projecto representa algo mais a médio prazo ou apenas e só, como tem sido apanágio, a tentativa deste ano.

Creio que Jesus poderá obter resultados incomparavelmente melhores do que Quique Flores, por vários motivos. Antes de mais, o treinador português conhece o futebol nacional como Quique não conhecia. Além do mais, a equipa encarnada chega a esta fase da época com uma ideia clara sobre o que tem de fazer nos diversos momentos de jogo (independentemente de os fazer bem ou mal), coisa que nem na última jornada o Benfica de Quique conseguiu. No lado inverso, o lado irascível de Jesus e os seus dotes de comunicação poderão criar-lhe alguns anticorpos, tanto dentro como fora do Estádio da Luz. Como principal defeito deste Benfica - até ver -, o mesmo de que padecia o Sporting de Braga na época passada: uma certa falta de flexibilidade táctica, particularmente quando os adversários sabem defender atrás, expondo em demasia a falta de velocidade dos centrais benfiquistas.

No que diz respeito ao Sporting, a versão deste ano parece-me ligeiramente mais fraca. A falta de dinheiro não permitiu o investimento "devido" (nas palavras do próprio presidente leonino) na equipa, subsistindo ainda todas as dúvidas sobre Miguel Veloso, Vukcevic, Postiga, entre outros. Na minha opinião, creio que o valor e a ausência de Derlei não foram devidamente avaliadas. O seu papel no balneário e a sua presença física e anímica faziam deste Sporting uma equipa muito mais aguerrida. Neste momento, os próprios adeptos não parecem crer efectivamente que o clube vá lutar pelo título, especialmente tendo em conta as contratações dos eternos rivais da Segunda Circular.

Quanto ao FC Porto, permanece quanto a mim uma incógnita. Jesualdo Ferreira terá vincados os seus créditos de forma definitiva no ano transacto, ao conseguir reconstruir com sucesso uma equipa repleta de jogadores novos (no bilhete de identidade e/ou no clube). Saber até que ponto conseguirá fazê-lo sem dois dos principais intervenientes dos últimos quatro anos - Lucho e Lisandro - é uma das grandes questões deste campeonato. Hulk deverá explodir em definitivo, mas Belluschi não é Lucho (para o melhor e para o pior) e não há nenhum avançado como Lisandro, o que implicará uma alteração significativa do processo de jogo portista.

Classificação final: FC Porto, Benfica, Sporting. Pessoalmente, não sei se o Benfica tem ainda a estaleca necessária para suportar as vicissitudes do campeonato e até que ponto Jesus se dará bem com todos os holofotes virados para ele. O Sporting deste ano parece-me demasiado fragilizado animicamente, embora tenha condições para se intrometer nas contas do título, naturalmente.

Tuesday, January 13, 2009

O país dos pinos


Depois de ver o Sporting-Marítimo, percebi como a Liga portuguesa se resume em traços muito gerais a uma equipa de treinos, apenas. Percebi também por que razão somos sujeitos não raras vezes ao futebol agora chamado "resultadista" (como se houvesse outro). Na verdade, no último Sábado, o Sporting foi capaz de adormecer o ritmo do jogo e pôr-se a jeito de sofrer um dissabor que o Marítimo nunca soube aproveitar. Para os jogadores verde-rubros, havia sempre mais uma finta, mais um movimento, algo mais a fazer - havia sempre mais um pino para contornar, tal como nos treinos. Sempre. Assim, em vez de criarem perigo, não foram sequer capazes de fazer um remate enquadrado na baliza para aquecer o pobre guardião do Sporting.
Com equipas assim, porque não pensar em retirar as balizas?

Saturday, November 29, 2008

Leõzinhos com as garras recolhidas

É muito estranho constatar que, no cúmulo dos dois jogos com o Barcelona, o Sporting encaixou nada menos do que nove golos. Sim, poderíamos aqui abrir um espaço para abordar todas as maravilhas do futebol dos catalães, para referir que já aplicaram várias vezes a famosa "chapa 5" a adversários ao longo desta temporada. No entanto, não deixa de ser curioso que um treinador tão afeiçoado à construção de uma equipa de trás para a frente, como é o caso de Paulo Bento, não consiga ter um remédio para pelo menos estancar a hemorragia, aparentemente.

Independenetemente de todos os méritos tácticos e técnicos do Barcelona, os leões pareciam completamente adormecidos, apáticos e desinteressados. E isso começa a ser já uma regularidade assustadora no onze do Sporting - e, para mim, pelo menos, totalmente imprevista. Não sei até que ponto a constante instabilidade emocional de Paulo Bento na sua relação com os árbitros e questões afins se imiscuiu no balneário ou se há egos a mais à espera da (suposta) contratação por um tubarão europeu. Seja como for, é difícil conquistar títulos quando se anda constantemente a recuperar de desvantagens.

Thursday, November 6, 2008

A confirmação

É muito bom ver o Sporting nos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. Na sua terceira presença consecutiva nesta competição, o Sporting voltou a melhorar o registo da época anterior, tal como havia feito na última edição da Liga milionária. Mais, os leões têm-se revelado mestres e senhores do 1-0. Se é verdade que não estão a lograr fazer exibições de encher o olho (as assistências são o reflexo disso mesmo), é indiscutível que a equipa de Paulo Bento tem sabido crescer com o tempo e com os jogos efectuados. Mesmo descontando o facto de o grupo em que os verde e brancos estão inseridos ter uma qualidade abaixo da média, excepção feita ao Barcelona, não é menos verdade que é frequente ver as equipas portuguesas desperdiçarem excelentes oportunidades de passarem às fases seguintes. Como tal, é de louvar a luta, o carácter e persistência de Paulo Bento e da sua SAD.

Continuo a achar que a equipa leonina foi a que melhor se apetrechou no defeso e que é a que mais hipóteses tem de chegar ao título nacional. Para além disso, conseguiu juntar a essa capacidade a vontade de lutar por algo mais, na Europa. Creio que estará na altura de o clube de Alvalade abandonar de vez os seus queixumes das limitações de orçamento, pois creio que se tem vindo a provar que muito dinheiro não equivale necessariamente a muitos títulos.

Gostaria por fim de deixar uma palavra de apreço ao treinador do Sporting e à sua SAD. Ao primeiro por saber que caminho pretende trilhar, com que jogadores e de que forma. À segunda, por ter sabido não desistir do seu treinador, antes o apoiando sempre nas alturas mais difíceis. Creio que este apuramento é também fruto dessa estabilidade. E, num ápice, o Sporting passou de equipa em crise a equipa que dá passos seguros e decisivos. As maravilhas do mundo da bola...

Wednesday, August 20, 2008

3x3 - Parte III

Passemos agora para o outro lado da Segunda Circular para ver os altos e baixos do Sporting.

Mais:
  1. Plantel equilibrado. Finalmente o Sporting consegue iniciar uma época com um plantel bom e equilibrado. As saídas foram mais do que razoáveis, escoando os excessos, e os jogadores contratados estão não só identificados com o futebol português, mas também, na maior parte dos casos, com a equipa leonina, especificamente. Rochemback, Postiga, Caneira (para além das confirmações de Grimi e Izmailov) vêm oferecer a Paulo Bento uma maior amplitude de opções, tanto ao nível do esquema táctico como da rotatividade que poderá empregar nas diferentes fases da época - algo que não pôde fazer no ano passado.
  2. Estrutura dirigente consciente e inteligente. A SAD do Sporting terá os seus defeitos, naturalmente, mas soube contratar a preceito e com um enorme rigor financeiro. Para além disso, assume-se como um organismo no qual Paulo Bento se pode respaldar (como já vimos em situações delicadas na última época) sempre que a sua nau se desgovernar. Uma boa ligação entre as chefias, técnica e administrativa, continua a ser fundamental e, não raras vezes, uma garantia de sucesso.
  3. Dinâmica de vitória. Apesar de ter o orçamento mais pequeno dos três grandes, Paulo Bento conseguiu incutir uma excelente dinâmica de conquista, assumindo-se como uma verdadeira máquina de conquistar taças. A vitória da última Taça de Portugal e das duas últimas Supertaças (a Taça da Liga foi perdida nos penalties) demonstrou que esta equipa, em boas condições, é capaz de produzir bom futebol - de forma inteligente e perspicaz.

Menos:

  1. Alas. O treinador do Sporting sempre deu preferência ao 4x4x2 losango, apesar de, nesta pré-época, ter mostrado que queria ter à sua disposição, pelo menos, um 4x4x2 mais clássico. No entanto, parece-me que lhe faltam as alas, habitualmente preenchidas pelas subidas de Grimi e Abel. No entanto, na longa época que se avizinha, não creio que os dois laterais consigam aguentar o exigente ritmo de todas as competições ao mesmo nível e, como se viu, na época passada, o Sporting sofre muito quando não consegue fazer subir os seus laterais. Para além disso, em jogos mais fechados, os jogadores leoninos mostraram algumas dificuldades em jogar pelas alas, pois não existem jogadores talhados para isso - os melhores serão Izmailov, Derlei, Djaló ou até Vukcevic, que poderão descair para as alas, sem contudo se afirmarem como verdadeiros extremos.
  2. Balneário. O Sporting arriscou bastante ao contratar bons jogadores para posições que já estavam aparentemente preenchidas. Postiga, Rochemback e Vukcevic, por exemplo, são jogadores que, como já se viu noutras ocasiões, são capazes de colocar os seus interesses e frustrações acima dos interesses do grupo. Paulo Bento terá de ser muito inteligente a gerir todas as situações de rotatividade e titularidade, sob pena de ficar com um balneário fissurado.
  3. Rui Patrício. Uma equipa "grande" precisa de um grande guarda-redes. Não necessariamente de um guarda-redes que faça muitas defesas vistosas, mas sim de alguém fiável e pouco dado ao erro (o exemplo de Ricardo parece-me óbvio). Não obstante a sua exibição na Supertaça, o guarda-redes sportinguista ainda precisa de amadurecer e desenvolver algumas das suas capacidades. Na verdade, não creio que transmita ainda a segurança necessária aos seus companheiros de defesa, não se encontrando, na minha opinião, ao nível de Quim ou Helton. Na última época, os seus erros custaram alguns pontos. A ver vamos o que nos traz esta temporada.

Conclusão:

Paulo Bento tem à sua disposição o melhor plantel das últimas épocas. Se conseguir manter o seu plantel concentrado nos objectivos certos, terá tudo para conseguir o campeonato que foge há seis anos à equipa de Alvalade. A gestão interna do balneário afigura-se difícil, mas Paulo Bento já mostrou anteriormente que não permite grandes veleidades a jogadores com complexos de vedeta.

A história repete-se

O Sporting venceu mais uma vez uma Supertaça ao FC Porto. Nada poderia ser mais taxativo e repetitivo. Uma vez mais, a equipa de Jesualdo Ferreira perdeu uma competição a disputar num único jogo, demonstrando novamente enormes dificuldades contra adversários que saibam estudar bem os seus oponentes, como é o caso de Paulo Bento. Creio que se impõe que Jesualdo reflicta demoradamente nas suas estatísticas quando confrontado com o treinador leonino. Na verdade, os dragões parecem sempre deparar-se com inusitadas dificuldades sempre que jogam contra a equipa de Alvalade, especialmente ao nível táctico. Com efeito, o 4x4x2 do Sporting, com avançados móveis e defesas-laterais que sabem subir para apoiar o ataque, parece ser sempre demasiado complicado para o tradicional 4x3x3 do treinador portista, que parece sempre inventar quando não deveria, aparentemente.

Seja como for, tenho de admitir que o Sporting não fez o jogo fantástico que os seus adeptos querem fazer crer, muito pelo contrário. Na verdade, após os primeiros dez minutos, o onze verde e branco parecia completamente perdido em termos organizacionais - mais por seu demérito do que por mérito das investidas da turma das Antas. Rodríguez parecia ser o único com força e sentido de oportunidade para levar as suas intenções avante, sendo apenas parado pelas constantes faltas do meio-campo e defesa sportinguistas. Ao marcar o golo ao cair do pano da primeira parte, o Sporting ficou com uma mão na taça e não mais a largou.

Apesar da vitória, relembro que foi o próprio Paulo Bento quem referiu que o resultado não espelhava de forma justa a diferença entre as duas equipas, uma postura louvável e honesta, coisa rara nos treinadores de futebol. Na verdade, o Sporting pareceu-me ainda longe do seu esplendor organizacional e da sagacidade táctica que o seu treinador parece pedir sempre aos seus jogadores. Djaló marcou dois golos, é certo, é a coqueluche da nossa praça nos dias que correm, mas parece-me continuar a sofrer de longas ausências do jogo, deixando a equipa por vezes manca e recuperando o seu ânimo apenas quando as coisas lhe correm melhor.

Por seu turno, Farías continua a demorar a explodir de uma vez. Apesar das oportunidades que lhe têm sido dadas ao longo do tempo, o avançado argentino continua longe de impressionar treinador e adeptos. A opção de Jesualdo por colocá-lo a ponta-de-lança fez com que a equipa portista perdesse todas as referências e mecanismos, pois a rotina de jogar na frente com Lisandro, um jogador muito mais poderoso, móvel e rápido, perdeu-se por completo. Como tal, o FC Porto perdeu não só um extremo, mas também um ponta-de-lança, tendo sido possível ver os passes transviados de Lucho devido à manifesta falta de velocidade de Farías.

Pessoalmente, continuo a crer que o Sporting tem não só o melhor plantel, como o melhor treinador. Convém não esquecer que o orçamento leonino é manifestamente inferior ao orçamento azul e branco, o que atesta bem a capacidade de fazer mais e/ou melhores omoletes com menos ovos, com contratações acertadas e extremamente criteriosas. Pela minha parte, tenho enormes dúvidas quanto à adaptação de Guarín à posição 6 (foram notórias as suas dificuldades em grandes porções do jogo) e quanto aos laterais-esquerdos, todos eles com grandes debilidades num ou noutro nível, excepção feita ao adaptado Fucile. Creio que a recente aposta portista (quase exclusiva) no mercado sul-americano é muito arriscada, uma vez que a adaptação ao campeonato português é quase sempre demorada e, algumas vezes, nunca chega a acontecer efectivamente.

Monday, July 28, 2008

Um Sporting coeso e equilibrado

O Sporting promete. Pessoalmente, creio que a equipa leonina tem tudo para dar algumas alegrias aos seus sócios e simpatizantes. A direcção da SAD conseguiu fazer excelentes negócios (excepção feita a Izmailov - na minha opinião, demasiado caro para as suas oscilações) com as entradas de Grimi, Caneira, Rochemback e Postiga. No entanto, o maior trunfo terá sido porventura conseguir segurar e precaver as eventuais saídas de Miguel Veloso e João Moutinho. Bem sei que este último anunciou alto e bom som a sua intenção de sair - uma atitude pouco previsível, creio, do capitão do Sporting, que terá perdido porventura algum do capital de confiança junto da SAD, do treinador e dos adeptos ao vir assumir a sua vontade em plena praça pública.

Seja como for, o fim-de-semana revelou aquilo que se imaginava: uma equipa completamente identificada com o seu treinador, concepção de jogo e esquema táctico (apesar de haver ainda, é claro, muito a fazer) e uma segunda linha que rapidamente discutirá a titularidade, especialmente dado o exigente calendário que se avizinha. Não obstante as minhas dúvidas relativamente à versão mais clássica do 4x4x2 que Paulo Bento pretende, uma vez que o Sporting não conta propriamente com muitos médios-ala, a equipa pareceu-me equilibrada nos vários momentos - excepção feita à adaptação de Caneira a trinco, uma opção que julgo meramente circunstancial - e a dupla Liedson-Derlei fará muito provavelmente alguns estragos com a sua capacidade de luta e de pressão alta.

Com este esquema mais clássico, Paulo Bento conseguirá uma maior capacidade de desequilíbrio, mas creio que perderá algum do domínio do jogo que tanto gosta de ter. Rochemback poderá revelar-se uma excelente ajuda no meio-campo na criação de passes de ruptura, mas as suas oscilações físicas (muito provavelmente causadas pelo seu constante excesso de peso e aparente falta daquilo a que se chama "treino invisível") e Romagnoli vai ter de se aplicar a fundo, tal como Vukcevic e Izmailov, para garantirem um lugar no onze. Quanto a Postiga e Djaló, serão boas alternativas a Derlei, especialmente, uma vez que, aos 33 anos e depois de uma operação tão delicada, poderá não ter fôlego para as várias dezenas de jogos que aí vêm. Não houvera um Rui Patrício ainda com algumas "tremideiras" e arriscar-me-ia a apostar no Sporting como campeão.

Wednesday, June 4, 2008

Um negócio da China

Nem sempre é fácil ter um blogue actualizado. Curiosamente, até há pouco tempo, debatia-me com a questão posta ao contrário, pois era da opinião que só uma pessoa muito pouco informada sobre o mundo da bola poderia criar um espaço sobre futebol em finais de Maio, quando a competição está prestes a esfriar (descontemos por instantes o fenómeno dos campeonatos europeu e mundial). E no entanto...

Hélder Postiga sempre foi um jogador diferente de muitos dos que vão enchendo plantéis de futebol. Sempre foi, confesso, um jogador cuja difereça tanto me atraía como me repugnava. Lembro-me perfeitamente do primeiro jogo que fez, no preciso dia em que fez 20 anos, a 2 de Agosto de 2002, contra o Atlético de Madrid (não me perguntem por que razão sei estas coisas, mas creio que deverá ter a ver com um desvio no cérebro para este tipo de questões). Ao vê-lo jogar, pareceu-me ver ali algo mais do que nas constantes promessas que vão surgindo nos inícios de época dos vários clubes. Pensei ver ali um jogador inteligente, um avançado no sentido mais lato do termo, e não apenas um ponta-de-lança. No fundo, uma espécie de versão actualizada e (bastante) melhorada de Domingos, o anterior ponta-de-lança "da casa". Nessa época, com o cargo de treinador ocupado por Octávio Machado (um dos insucessos da carreira de Pinto da Costa), o jovem jogador foi conseguindo impor-se paulatinamente, acumulando minutos e alguns golos, inclusivamente. Na época seguinte, já com Mourinho ao leme, Postiga mostrou muitas qualidades para um jovem de 21 anos, assumindo um papel importante na manobra ofensiva da equipa. No final desse ano, seria transferido por quase 9 milhões de euros para o Tottenham.

Esse momento parece ter prejudicado para sempre Hélder Postiga. A partir daí, apenas durante momentos mostrou ser o jogador que poderia ter sido, mau grado os seus constantes abaixamentos de forma. Num ano na liga inglesa, marcou um golo no campeonato e foi devolvido com carimbo de "reprovado" ao FC Porto, que fez questão de o ir buscar num negócio que rondou os cinco milhões de euros, incluindo a ida de Pedro Mendes, um dos jogadores mais subvalorizados da década no FC Porto, na minha modesta opinião. Postiga voltou, mas não voltou o mesmo. Com tiques e maneirismos de vedeta que sempre tinha demonstrado (mas que Mourinho sempre tinha conseguido controlar, fazendo mesmo referência no seu livro a alguns episódios), Postiga pareceu sempre querer mostrar que qualquer clube lhe devia agradecer tê-lo no seu plantel. Adriaanse, que tinha começado por apostar definitivamente nele, não o quis ver mais à frente e despromoveu-o à equipa B. Após um empréstimo ineficaz ao St. Etienne, voltou à equipa principal com a contratação de Jesualdo. Teve o seu oásis em meia época, marcando uma dezena de golos, e eclipsou-se para sempre, aparentemente.

Sempre reinvidicativo em campo (uma das melhores estórias de que me lembro sobre Hélder Postiga foi a escolha de Quaresma, pasme-se, de Postiga como o companheiro mais difícil em campo, por estar constantemente a reclamar com tudo e todos), o avançado de Vila do Conde foi perdendo espaço na equipa e nas opções do treinador, parecendo entrar sempre a contragosto e em velocidade reduzida. Resultado: empréstimo ao Panathinaikos, onde não foi propriamente feliz, tendo inclusivamente perdido o lugar para Manucho.

Todas estas incidências acabam por nos trazer à contratação de Postiga pelo Sporting, por 2,5 milhões de euros por 50% do passe. Neste momento, muitas das vozes portistas à minha volta que se fazem ouvir (incluindo a minha, tenho de admitir) mostram-se aliviadas. Com efeito, o FC Porto acaba por conseguir vender em condições vantajosas (numa futura transferência, o FC Porto recebe 50% da transferência; caso esta seja de pelo menos 6 milhões de euros, o Sporting terá de a aceitar ou pagar a parte correspondente) um jogador que prometia ficar "encalhado" durante muito tempo, permitindo também libertar-se de um dos salários mais chorudos e de uma má influência no balneário dada a sua atitude - nesse aspecto, um jogador nada "à Porto".

No entanto, creio que a história não acaba aqui. O negócio poderá ser bom para o FC Porto neste momento, mas eu esperaria até ao epílogo da questão. O Sporting contratou um bom avançado, com bons dotes técnicos, diferente de Liedson ou Derlei, que lhe tinha vindo a faltar há algum tempo. Postiga já demonstrou por diversas vezes ao longo do tempo que precisa de ser constantemente acarinhado, respondendo quando se sente protegido (Scolari é o melhor exemplo). Se Paulo Bento conseguir "apaparicá-lo" o suficiente nos momentos em que for ao banco, dando-lhe minutos de qualidade, Postiga é capaz de lhe retribuir. Por outro lado, o avançado sente que tem obrigatoriamente de arrepiar caminho, sob pena de ser votado ao esquecimento e a possibilidade Sporting aparece-lhe como uma excelente oportunidade de recuperar algum do prestígio perdido. Por último, o Sporting assum esta contratação antes de um Europeu onde Postiga poderá mostrar-se um pouco mais, podendo vir a oferecer-lhe um certo embalo para a próxima época.

Por estas e por outras, não creio que o balanço deste episódio possa ser feito de forma tão imediata. Esperemos pela época que se avizinha.