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Thursday, June 28, 2012

Portugal perde, mas mostra o caminho


Equipas e movimentações iniciais


Não é fácil ficarmos satisfeitos, muito menos felizes, após uma derrota. Independentemente dos esforços envidados, subsiste uma distinta sensação de que algo falhou. Por outro lado, Phil Jackson, o antigo treinador da NBA que levou diferentes equipas a 11 títulos, afirmou em tempos que havia derrotas que lançavam as bases de uma equipa - aquelas em que os jogadores tinham dado tudo por tudo e em que tinham aberto mão dos seus egos em nome de algo maior. Para Portugal, o jogo da noite passada foi uma dessas vezes.

Ambos os seleccionadores fizeram uso dos seus onzes preferidos, com uma alteração em cada lado - o ponta-de-lança. Enquanto que a mudança de Paulo Bento foi forçada, devido à lesão de Hélder Postiga, Vicente Del Bosque surpreendeu tudo e todos ao colocar Negredo de início, em vez dos habituais Torres e Fàbregas. Os primeiros minutos permitiram confirmar que o treinador espanhol pretendia um jogador mais rápido na desmarcação, tentando impedir que a defesa portuguese subisse demasiado e comprimisse o espaço entre linhas. Era evidente que a Espanha não estava no jogo para brincar nem disposta a menosprezar Portugal.

Adicionalmente, Del Bosque manteve Xavi numa posição mais avançada do que o habitual - conforme havia feito contra a França. Com esse posicionamento, os campeões do mundo pretendiam impedir que Veloso dispusesse de muito tempo em posse e, numa perspectiva ofensiva, conferir a Xabi Alonso o espaço necessário para os seus habituais passes longos e transformar Xavi numa espécie de n.º 10.

Xavi (amarelo) jogou em zonas mais avançadas durante a maior parte do jogo,
tanto a atacar como a defender.

Embora Portugal não tenha pressionado o mais à frente possível, a selecção lusa tentou (com êxito, na maioria das situações) impedir que o adversário saísse calmamente a jogar a partir de trás e forçar Xavi, Iniesta e Alonso a jogarem de costas para a baliza de Rui Patrício. Com a habitual falta de largura - uma vez que tanto Silva como Iniesta flectem para dentro - e velocidade dos campeões em título, não havia grande perigo de a linha portuguesa mais recuada ser ultrapassada por bolas altas. Com efeito, os comandados de Paulo Bento deixavam muitas vezes Arbeloa à responsabilidade individual de Coentrão, dado que o lateral-direito do Real Madrid não é um defesa particularmente ágil com a bola nos pés. Parecia que o seleccionador português estava a colocar a armadilha para que o lateral espanhol avançasse no terreno, de modo a ser apanhado em contrapé e libertar o espaço para Ronaldo.

Portugal não se limitou a esperar pelo adversário.
Pelo contrário, tentou incomodar a primeira fase de construção espanhola.

Para além disso, Moutinho, Meireles e Nani mostravam-se insuperáveis ao fechar (quase) todas as linhas de passe pelo centro. Ao deixarem Arbeloa para Coentrão, Meireles e Moutinho podiam focar a sua atenção no caminho preferido do adversário e oferecer uma saída de bola para as tiradas de Ronaldo.

A abordagem defensiva de Portugal roçou a perfeição,
tanto quanto possível contra um adversário como a Espanha.

Tal como se esperava, as transições portuguesas tinham frequentemente Hugo Almeida como principal ponto de referência, geralmente no lado do Piqué, com o ponta-de-lança da Figueira da Foz a tentar desposicionar o defesa-central do Barcelona e abrir espaços para Ronaldo, o qual tinha como objectivo evidente aproveitar o espaço entre Piqué e Arbeloa. Embora muitos desses passes longos se tenham transviado, demonstrou à evidência que a Espanha sente grandes dificuldades nos duelos aéreos - não tanto pelos duelos em si, mas por perturbarem o seu bem trabalhado posicionamento defensivo.


A selecção nacional mostrou-se igualmente componente em anular as transições ofensivas espanholas. Moutinho foi fenomenal nesse particularao aparecer frequentemente em áreas mais adiantadas para impedir o primeiro passe e, dessa forma, evitar que Xabi Alonso (na maioria dos casos) pudesse escolher o passe mais indicado para os seus companheiros de equipa. Muito embora não exista um gráfico a comprová-lo, esse trabalho quase invisível ofereceu uma segurança acrescida à linha mais recuada da equipa portuguesa. Com isso, Portugal lutava praticamente de igual para igual com a Espanha e a estatística da posse de bola ao intervalo patenteava isso mesmo: Portugal havia tido a bola em seu poder durante 45% do tempo.


Não obstante o reduzido número de oportunidades de golo ao longo de todo o encontro, Portugal e Espanha tiveram ocasiões para matar o jogo. Na verdade, à medida que o jogo se desenrolava, parecia cada vez mais evidente que a equipa que marcasse em primeiro lugar seria a vencedora. Navas entrou para o lugar de Silva aos 60 minutos para tentar esticar o jogo e houve efectivamente algumas jogadas em que essa parecia ser a solução - Coentrão deixaria de poder jogar por dentro e teria de ir ao encontro do extremo espanhol, abrindo um espaço entre o lateral-esquerdo e Bruno Alves. No entanto, a selecção espanhola não pareceu muito interessada em tirar partido dessa via.

Apesar de toda a intensidade, o encontro de ontem não teve muitas oportunidades de golo.

Apesar da agressividade ofensiva,
Portugal necessita claramente de melhorar ao nível da finalização.

A Espanha dominou todo o prolongamento e poderia até ter alcançado a vitória, caso Rui Patrício não tivesse demonstrado a sua qualidade com defesas de grande qualidade. A selecção nacional pareceu demasiado fatigada para continuar a perseguir a bola e a Espanha continuou a acumular minutos de posse de bola. Com Nani exausto e Nélson Oliveira no lugar de Hugo Almeida, Portugal denotava grandes dificuldades em acertar o primeiro passe após a recuperação da bola, o que, por sua vez, dava lugar a mais posse de bola à Espanha.

Em resumo, assistimos a uma partida muito interessante a todos os níveis, incluindo tacticamente. Mesmo derrotada, os seleccionados portugueses poderão sentir-se reconfortados com o facto de terem sido adversários valorosos desta soberba equipa espanhola e de que actuar a este nível perante a Espanha não está ao alcance de todos. Apesar da derrota, a selecção nacional mostrou que a equipa de Del Bosque não é um obstáculo insuperável e que Portugal tem todo o potencial para se tornar em breve uma potência por direito próprio.


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Este artigo estará igualmente disponível (na versão inglesa) em PortuGOAL.net.

Wednesday, June 27, 2012

3 razões para a vitória de Portugal


A primeira meia-final do presente Campeonato Europeu disputa-se esta noite entre Portugal e Espanha, o derradeiro confronto regional de estilos e duradouros rancores. Ao tiki-taka e controlo quase obsessivo do ritmo e da bola por parte da equipa espanhola, Portugal responde com uma defesa assertiva e rápidos contra-ataques. Na verdade, se estivermos dispostos a ignorar por momentos os confrontos anteriores entre estas duas equipas (partidas essas que levam a considerar La Roja a vencedora antecipada, com apenas uma derrota em sete jogos oficiais), veremos que, mesmo sem esquecer a Alemanha, a selecção nacional é provavelmente a equipa mais bem apetrechada para derrotar os espanhóis. Vejamos porquê.

1. O confronto táctico. O exemplo francês demonstrou à evidência que muitas equipas, incluindo as de maior nomeada, optam por mudar a sua abordagem, dinâmica, posicionamento e mecanismos quando defrontam Espanha. Essa postura será porventura o maior tributo que se pode prestar a esta equipa: a superioridade espanhola parece ser um dado adquirido, talvez mais do que nunca na história deste desporto, e qualquer onze terá certamente de se adaptar ao estilo espanhol, em lugar de fazer uso das suas próprias forças.

Esta é a primeira questão em que a abordagem de Paulo Bento parece render dividendos. Portugal não deverá ceder à tentação de mudar um único jogador, por exemplo. A selecção lusa tem preferido actuar num bloco mais recuado e partir para transições rápidas desde o primeiro encontro da competição, o que a deixa preparada para os movimentos de passe e desmarcação do seu adversário. Ainda assim, os seleccionados portugueses mostraram também (no jogo contra a Dinamarca, por exemplo) que podem pressionar em zonas mais adiantadas, se necessário. Para além disso, não obstante a futilidade do furor que se tem gerado em torno do 4-0 da última vez que estas equipas se defrontaram (num encontro particular, convém relembrar), é conveniente relembrar que a opção de Paulo Bento nessa altura passou por disputar o jogo nos mesmos termos da equipa espanhola (nesse momento): pressionar alto, forçar Xavi e Xabi Alonso a receber a bola de costas para a baliza contrária e evitar os passes de ruptura.

Neste aspecto, Portugal parece contar mais uma vez com alguma fortuna. João Moutinho e Raúl Meireles são trabalhadores incansáveis, dispostos a subir e descer no terreno para ajudar os seus colegas mais recuados, mas não têm qualquer problema em deixar outros brilharem e fazer os passes de que Ronaldo ou Nani necessitam para explorar as costas dos defesas contrários. Como é óbvio, os comandados de Paulo Bento necessitarão de todas as ajudas possíveis, mas a tranquilidade do seleccionador português passará por saber que a sua defesa tem melhorado a cada jogo que passa e que a velocidade e leitura de jogo de Pepe poderão ser a resposta necessária ao estilo espanhol.


2. Hugo Almeida. A sério. Embora muito provavelmente não estivesse destinado a ser titular, se Postiga não se tivesse lesionado, o robusto ponta-de-lança poderá revelar a sua utilidade. Partindo do pressuposto que Portugal cederá a iniciativa de jogo e permitirá que a Espanha controle o ritmo de jogo, a selecção nacional necessitará de uma saída. Com todos os olhos concentrados em Ronaldo, Hugo Almeida poderá constituir uma importante referência ofensiva no sentido de manter Piqué e Sérgio Ramos ocupados e vencer duelos aéreos na direcção de Ronaldo ou Nani, tirando partido das subidas de Arbeloa ou Jordi Alba.


3. Ronaldo. Não há como fugir ao capitão português. Se Portugal tem efectivamente aspirações a levar de vencida os actuais campeões europeus e mundiais, Ronaldo terá de assumir o seu papel de herói. Embora seja verdade que os seus companheiros de equipa terão de se apresentar ao seu melhor nível de sempre, o avançado do Real Madrid será muito provavelmente o principal responsável por oferecer os momentos de génios necessários para semear o pânico na defesa espanhola. Com Hugo Almeida à sua frente, Ronaldo desfrutará provavelmente de mais espaço entre os defesas-centrais e Busquets, o que lhe poderá proporcionar a oportunidade necessária para marcar.

Monday, June 25, 2012

A defesa do Europeu


Há coisas no futebol que dispensam palavras. Aqui fica a monumental defesa de Gianluigi Buffon contra a Inglaterra.

Friday, June 22, 2012

Portugal nas asas de Ronaldo


Equipas e movimentações iniciais


Portugal e República Checa foram as primeiras equipas a lutar por um lugar nas meias-finais da presente edição do Campeonato Europeu. Como seria de esperar, fomos presenteados com uma abordagem mais tímida por parte de ambas as equipas, uma vez que se tratava de uma partida a eliminar e nenhuma das equipas queria voltar para casa depois de chegar tão longe.

Nesta fase da competição, é eminentemente óbvio que todos fizeram os seus trabalhos de casa e, muitas das vezes, os dois onzes tentam anular as qualidades dos seus adversários, ao invés de fazerem valer as suas. Por conseguinte, não foi propriamente surpreendente ou inesperado ver defesas-centrais a fazerem uso de passes longos, dado o pouco espaço de manobra a meio-campo.

Com Dadira no lugar de Rosicky (sem condições físicas para jogar de início), o seleccionador checo Michal Bilek tentou preencher o centro do terreno e tornar a sua equipa estreita, replicando de alguma forma o que havia feito contra a Rússia. Paulo Bento respondeu colocando Nani e Ronaldo em posições mais interiores, esperando que os defesas-laterais ocupassem as zonas exteriores.


Portugal não teve um início feliz e, à semelhança da partida contra a Alemanha, falhou inúmeros passes (simples), complicando uma das principais qualidades da selecção lusa: as rápidas transições ofensivas. Na verdade, foram os checos a comandar as operações durante os primeiros 25 minutos, explorando preferencialmente as alas, conforme esperado.


Meireles tenta fechar ao meio enquanto Selassie avança no terreno,
sem a vigilância de Ronaldo.

Ao tentar cobrir a sua posição e a de Ronaldo, Meireles já vai atrasado.
Esta situação em particular deixou muitas vezes Coentrão exposto.


Tanto Raúl Meireles como João Moutinho estavam demasiado receosos de abandonar as suas posições iniciais e ceder a batalha do meio-campo, algo que se arrastou até ao minuto 25, altura em que Moutinho apareceu finalmente em zonas mais adiantadas e isolou Ronaldo com um fantástico passe de ruptura. Embora a jogada tivesse sido invalidada pelo árbitro, foi o toque a reunir de que a equipa necessitava.


Moutinho (amarelo) avança finalmente no terreno e Ronaldo (vermelho) flecte para dentro.

Ronaldo (vermelho) é exímio na exploração das costas das defesas,
especialmente quando dispõe de passes de ruptura como o de Moutinho (amarelo).

Foi difícil perceber se Paulo Bento optou por manter Meireles como interior esquerdo por essa ser a posição em que o médio terminou o jogo contra a Holanda ou se constituiu uma tentativa de tirar partido das subidas de Gebre-Selassie. Seja como for, tal significava que Portugal era (ainda que marginalmente) mais perigoso pelo flanco esquerdo, particularmente após o 25º minuto, momento em que Coentrão começou a libertar-se e a subir pela sua ala, com Ronaldo em zonas cada vez mais centrais.

O rendimento de Portugal melhorou substancialmente ao fim dos primeiros 25 minutos. 


Paulo Bento acertou em cheio nas instruções e correcções ao intervalo. A primeira jogada da segunda parte foi um tiro de aviso aos checos. Meireles fez em menos de 30 segundos o que Portugal ainda não tinha feito até então - algo que um médio deverá fazer num 4x3x3 (especialmente se o ponta-de-lança não for móvel, como é o caso de Hugo Almeida). Para além de receber a bola entre os sectores adversários, Meireles subiu para ocupar o espaço libertado por Ronaldo, o qual estava  à espera de um possível cruzamento. Esta jogada seria uma réplica simétrica do golo de Ronaldo.

Meireles (amarelo) recebe a bola entre linhas pela primeira vez no jogo. 
Meireles (amarelo) sobe pelo lado esquerdo,
permitindo que Ronaldo (vermelho) se liberte e procure o cruzamento.

Com a equipa entusiasmada, todos os sectores estavam mais próximos, permitindo que os médios e defesas jogassem mais à frente e recolhessem as sempre importantes segundas bolas. Ainda que a pressão portuguesa não fosse sufocante, servia para desgastar a equipa checa, chegando mesmo a anular os tímidos contra-ataques dos comandados de Bilak. 

Moutinho e Meireles libertaram-se finalmente dos seus grilhões tácticos e começaram não só a rodar a bola, mas também a criar situações de superioridade numérica nas alas para que Ronaldo e Nani ocupassem zonas interiores em que causassem maior perigo. Os gráficos dos passes de Moutinho constituem um bom exemplo disso mesmo: no final da primeira parte, o médio do FC Porto era o quinto jogador com maior número de passes. No fim do encontro, estava no topo da lista, a alguma distância do segundo.

Moutinho mostrou-se muito mais activo e incisivo durante a segunda parte.

Não obstante os inúmeros remates (na sua maioria, longe do alvo), Portugal não se mostrava capaz de acabar com o jogo, o que poderia revelar-se custoso mais adiante. Com os checos desgastados e aparentemente descrentes, o golo de Portugal parecia apenas uma questão de tempo. E, com efeito, o tento surgiu por intermédio do inevitável Ronaldo, ansioso por anular mais dois remates aos ferros em momentos anteriores. Moutinho atacou a ala, tal como Meireles havia feito no primeiro lance da segunda parte, e centrou para uma cabeçada imparável do avançado do Real Madrid. O resultado estava decidido.



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Monday, June 18, 2012

A vitória da organização

POR_NED_Line_ups.jpg

Equipas e movimentações iniciais


Alguns jogos parecem efectivamente ser disputados no plano teórico. O triunfo de Portugal sobre a Holanda foi uma vitória da lógica. Num encontro inacreditavelmente aberto e repleto de oportunidades de golo, a organização lusitana levou a melhor sobre a desesperada tentativa holandesa de lançar avançados para resolver os seus problemas. Subsistem algumas questões: como é possível que uma partida tão decisiva tenha sido tão aberta e caótica? E terá Portugal aprendido as lições necessárias para quando enfrentarem equipas mais disciplinadas?

A selecção holandesa estava envolta em algumas dúvidas. O seu treinador manter-se-ia fiel ao seu plano de jogo dos dois encontros anteriores? Ou faria uso da sua formação mais ofensiva, incluindo Van der Vaart e Huntelaar? Como se verificou, Bert van Marwijk optou por dar ouvidos às vozes popular e optou pela segunda hipótese, apesar de algumas previsões. Na verdade, Van Marwijk revolucionou toda a equipa, desfazendo a parceria de Van Bommel e De Jong a meio-campo, substituindo o antigo médio do Barcelona e Milan por Van der Vaart, transferindo Sneijder para a esquerda e posicionando Van Persie no apoio a Huntelaar. Olhando para os onzes titulares e para o posicionamento da equipa holandesa nos primeiros minutos, era difícil não antever as crateras que se formariam, mas tudo isso faz parte da magia do futebol. 

Portugal pareceu estranhamente surpreendido pela audácia do adversário, quase como se Paulo Bento não acreditasse realmente que o seu oponente pudesse ser tão ousado. Como tal, a selecção nacional mostrou-se algo confusa nas marcações até ao golo holandês. Em vez do habitual jogo estéril de fogachos individuais, a presença de Van der Vaart dava à Holanda a saída de bola de que necessitavam para as transições, deixando De Jong exclusivamente para tarefas defensivas. Para além disso, com Van Persie a ocupar as áreas de Miguel Veloso, sobravam dúvidas sobre quem deveria acompanhar Van der Vaart e quem deveria deslocar-se para criar situações de 2x1 contra Robben.


POR_NED_Veloso_x_Robben.jpg
Coentrão (amarelo) e Veloso (laranja) tentam impedir que Robben flicta para dentro,
abrindo espaços para Van der Vaart durante os primeiros 15 minutos.
 

O golo holandês teve origem numa dessas situações, mas, por essa altura, já Portugal mostrava algumas melhorias. Com efeito, honra seja feita à selecção nacional por não perder a cabeça após sofrer um golo indesejado. Embora uma grande parte do seu plano de jogo passasse por permitir que os defesas-centrais contrários desfrutassem de tempo em posse e impedir que a bola entrasse no último terço (à imagem do jogo contra a Alemanha), os jogadores lusos conseguiram manter-se calmos e cingir-se à estratégia delineada - permitir que o adversário se partisse em dois e explorar as alas, sabendo que o contributo defensivo de Sneijder, Van der Vaart ou Robben seria quase inexistente. Verdade seja dita, este encontro assemelhou-se por vezes a dois encontros de 5 contra 5 disputados em duas metades distintas.

 


POR_NED_Wings_wide_open_1.jpg
Ronaldo disputa o lance aéreo, arrastando o lateral.
Note-se o espaço à frente de Coentrão (amarelo).
Postiga (azul) apenas tem de criar uma distracção.



 
POR_NED_Wings_wide_open_2.jpg
Ronaldo penteia a bola para Coentrão e o lateral depara-se com um simples 1x1.
Note-se como a última linha defensiva holandesa está desprotegida.
 
Apesar de não terem acertado em cheio no onze inicial apresentado pela Holanda, as nossas previsões não estiveram totalmente incorrectas. A selecção do país das tulipas não era propriamente sólida em termos defensivos com Van Bommel, o que significava que, sem o médio, as perspectivas holandesas ao nível defensivo apenas poderiam ficar mais negras. Na verdade, a linha defensiva holandesa permanecia questionável, no mínimo, e ficava ainda mais vulnerável às diagonais de Ronaldo nas costas, particularmente devido à sua lentidão e à falta de pressão sobre o portador da bola - uma boa descrição do primeiro golo português.

Com a Holanda disposta num invulgar 5-0-5, subsistem dúvidas sobre os quatro momentos do jogo foram suficientemente treinados durante o período que antecedeu o Europeu, dada a descoordenação patenteada pela maioria dos jogadores desde o início da competição. Embora Portugal tenha permitido que o jogo degenerasse para um rol de contra-ataques sucessivos, perigosamente semelhante a alguns jogos da Premier League, pairava no ar a noção de que a selecção nacional tinha maiores probabilidades de marcar (particularmente em contra-ataque) do que de sofrer um golo.


  
POR_NED_Interceptions.png
Portugal fez quase o dobro de recuperações da Holanda.
A distribuição das recuperações holandesas é quase idêntica à partida da Alemanha.
 
A segunda parte trouxe consigo nova revolução. Apesar de manter o mesmo onze, Van Marwijk realizou mais alterações, nomeadamente com o deslocamento de Van Persie para a direita, de Robben para a esquerda e de Sneijder para a posição de n.º 10. Embora seja verdade que o maestro do Inter ofereceu maior estabilidade e tentou fazer rodar a bola, os problemas defensivos permaneciam os mesmos, o que torna ainda mais difícil compreender ao certo a intenção do treinador holandês.


O meio-campo português foi heróico no acompanhamento das tentativas de penetração holandesas, mas Pepe esteve imperial, cobrindo as costas dos seus laterais quando estes eram batidos. Por seu turno, Miguel Veloso foi fundamental para que a equipa fosse sempre capaz de mover a bola de um lado para o outro e iniciar os contra-ataques. Após os primeiros 15 minutos da segunda parte, o jogo voltou a abrir e, tal como na partida contra a Dinamarca, Portugal deveria ter resolvido a questão muito antes. Felizmente para a turma das quinas, a Holanda estava já desfeita e dependia em exclusivo das diatribes individuais de um dos seus avançados.

Com Robben à esquerda, Willems ficou ainda mais exposto e Portugal tinha ainda maior liberdade para explorar esse mesmo flanco através de Moutinho, Nani e João Pereira. Como seria de esperar, as combinações de passe mais frequentes dividiram-se entre esses jogadores. Quase parecendo querer agravar a situação, o treinador holandês decidiu-se por uma abordagem ainda mais temerária e por uma defesa a três, com Robben e Afellay como médios-ala. Portugal limitou-se a esperar pela Holanda e a insistir pelas alas, ciente de que uma das inúmeras oportunidades acabaria por entrar.


POR_NED_JP_Moutinho.png
João Pereira e Moutinho constituíram a segunda combinação mais frequente de Portugal.



POR_NED_Moutinho_Nani.png
Moutinho e Nani constituíram a combinação mais frequente de Portugal,
muitas vezes com Moutinho a fazer passes de ruptura para Nani.
 
Há algumas conclusões importantes a retirar deste encontro. Antes de mais, assistimos a uma prova definitiva de que o talento por si só não é suficiente para ganhar jogos. É verdade que a Holanda dispõe de imenso talento em algumas posições, mas a falta de solidariedade e de ideias colectivas é o caminho certo para o insucesso de qualquer equipa. Em segundo lugar, é difícil vislumbrar o motivo pelo qual a nação vice-campeã do mundo, conhecida pelo seu pensamento futebolístico de vanguarda, parece tão afastada do futebol moderno, tanto ao nível de clubes como de selecções. No que diz respeito a Portugal, convém extrair igualmente algumas ilações. A mais importante tem a ver com Ronaldo: o capitão português necessitava de uma partida assim. Dois golos, um remate à barra, inúmeras oportunidades de golo e muito espaço para correr serão razões mais do que suficientes para que o avançado do Real Madrid supere erros passados. A segunda questão prende-se com a maior rapidez de Paulo Bento na introdução de Custódio, em comparação com o encontro contra a Dinamarca.

No entanto, restam alguns pontos de interrogação. Como se comportará esta equipa contra equipas mais sólidas? Portugal continua a não dispor da capacidade de controlar o jogo quando está à frente no marcador, expondo-se dessa forma a um qualquer incidente aleatório, por exemplo. Por último, o treinador português necessita de abordar a marcação zonal nas situações de bola parada, a qual não está a funcionar na perfeição. Apesar da mais recente vitória, seria imprudente pensar que não existem na selecção nacional áreas que necessitam de melhorias urgentes.


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Portugal não tem estado bem a defender situações de bola parada, especialmente no segundo poste.


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Friday, June 15, 2012

O que deve fazer Portugal?


No grupo B, o denominado grupo da morte, tudo está ainda por definir, mesmo para a Alemanha, com seis pontos. Nenhuma equipa tem o apuramento garantido e todas podem ainda ser eliminadas, com o conjunto de resultados adequado. No próximo domingo, Portugal e Holanda encontram-se numa partida decisiva, uma partida que os holandeses necessitam de vencer com uma diferença de dois golos e esperar que a Alemanha não repouse sobre os louros contra a Dinamarca.

  • Ataque

A equipa de Bert van Marwijk está longe de ser sólida e coesa. Muitas das vezes, acaba por se partir em dois blocos bem distintos: os 4 defesas mais Van Bommel e De Jong, e os quatro jogadores mais avançados. Com ambos os defesas-centrais com dificuldades evidentes no controlo da bola e com pouca criatividade proveniente dos dois médios mais recuados, a Holanda depende em excesso das iniciativas de Robben, da visão de Sneijder ou das penetrações de Van Persie nas costas da defesa. Todos estes componentes poderiam constituir uma interessante manobra ofensiva, mas os jogadores não parecem ter uma ideia colectiva sobre quando tomar a decisão mais acertada - os insistentes dribles de Robben para dentro, seguidos de remates mais ou menos disparatados, são um bom exemplo disso mesmo.

Ainda assim, convém não esquecer que se trata de uma equipa com alguns jogadores de nível mundial e que, conforme Van Persie mostrou contra a Alemanha, conceder alguns metros a mais a qualquer um desses jogadores poderá revelar-se fatal. Por exemplo, Robben tem tendência a jogar no lado esquerdo de Portugal, a ala que Cristiano Ronaldo deixa habitualmente desprotegida (muito provavelmente seguindo as instruções de Paulo Bento). Com Van der Wiel acostumado a subir sempre que possível, Fábio Coentrão poderá vir a passar novamente por dificuldades. Contudo, ambos os extremos holandeses tendem a driblar para dentro, algo que convirá a Portugal, dado que se trata de uma área em que a selecção nacional se tem mostrado mais forte do que nas alas.

Adicionalmente, devido à ausência de uma ideia colectiva e de movimentações, a Holanda opta frequentemente por passes longos para Van Persie. Neste jogo em particular, Paulo Bento poderia optar por permitir que Pepe actuasse mais em cobertura (uma vez que é mais rápido e mais intenso) e que Bruno Alves se assumisse como primeiro elemento da linha defensiva central, uma vez que tal impediria que os extremos holandeses flectissem para dentro e fizessem passes de ruptura para Van Persie e as suas diagonais curtas.

Cientes de que a Holanda necessita de vencer o jogo com uma margem de dois golos e que irá provavelmente pretender assumir o controlo da partida, Portugal poderá optar por assumir uma postura mais expectante à imagem do que aconteceu contra a Dinamarca (após o primeiro golo) e Alemanha, permitindo que os defesas-centrais e médios-centro progridam com a bola e aproveitando em seguida os erros que tendem a cometer - embora uma melhor finalização seja absolutamente fundamental.

Van Persie tende a procurar o espaço nas costas da defesa contrária.

  • Defesa

Apesar de contar com os médios de contenção Van Bommel e De Jong, esta equipa holandesa não parece tão estanque quanto se mostrou há dois anos, na África do Sul, ainda que muitos dos titulares se tenham mantido. Tendo em consideração que são dois jogadores com tamanha experiência, tanto Van Bommel como De Jong têm sido desposicionados com excessiva facilidade, embora convenha referir o imenso espaço que têm para cobrir, dada a falta de apoio defensivo dos quatro jogadores mais adiantados. No último jogo, por exemplo, a maioria das oportunidades de golo da Alemanha passaram por criar situações de superioridade numérica no lado esquerdo holandês, atraindo os dois médios pivôs defensivos para essa zona, e atacar em seguida o espaço onde deveriam estar. Apesar de todos os esforços envidados por Willem, a equipa permanece reticente em deixá-lo à sua sorte face a extemos mais agressivos.

Van Bommel e De Jong tendem a ajudar defensivamente no lado esquerdo.

As duas assistências da Alemanha tiveram origem em áreas e jogadas semelhantes,
após arrastar os dois médios holandeses para áreas exteriores.

A Holanda dedica maior atenção ao seu lado esquerdo,
quase ignorando o centro do terreno.

Para além disso, Mathijsen e Heitinga são defesas-centrais lentos que não apreciam particularmente avançados rápidos ou trocas posicionais. Poderá ser uma boa ocasião para pedir a Postiga que se desmarque para os flancos, arrastando consigo um dos centrais, e instruir Ronaldo ou Nani para aproveitarem o espaço criado nas zonas centrais da defesa holandesa.

Por último, uma questão igualmente importante. A Holanda joga com uma linha defensiva (relativamente) alta, mas não exercem a pressão necessária sobre o portador da bola, permitindo-lhe muitas das vezes fazer passes de ruptura para a grande área, onde a finalização de Ronaldo e Nani poderá revelar-se decisiva.


  • Conclusão.

Se o futebol fosse uma questão teórica, este jogo teria um resultado final previsível. Portugal está mais bem organizado, é defensivamente mais forte nas zonas centrais e prefere jogar em contra-ataque. Para além disso, a velocidade e capacidade técnica dos seus extremos são o oposto das características da defesa holandesa. Com os quatro jogadores mais adiantados de Van Marwijk pouco inclinados para as tarefas defensivas, Portugal poderá acabar por vencer apenas por ser mais inteligente. Por outro lado, dado o perfil da equipa holandesa, Hugo Viana poderia ser uma boa opção de Paulo Bento, uma vez que o médio do Braga é perito em queimar linhas ao descobrir avançados a 30 ou 40 metros de distância com os seus passes teleguiados (embora esta opção seja altamente improvável).




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Thursday, June 14, 2012

Portugal conquista a vitória, mas depara-se com dilema táctico

Equipas e movimentações iniciais


Portugal e Dinamarca defrontaram-se na passada quarta-feira num jogo que poderia significar o adeus para a selecção nacional se não obtivesse a vitória de que tanto necessitava. Perante um adversário sempre complicado - impulsionado por uma vitória algo feliz contra a Holanda -, Portugal apenas podia avançar.

Ambos os treinadores mantiveram os seus onzes iniciais, como que afirmando que quaisquer ajustes que pudessem ser necessários seriam menores. Paulo Bento havia exprimido a sua confiança em Hélder Postiga e explicitou que o papel de ponta-de-lança não se limita às estatísticas de golos marcados, eliminando assim possíveis dúvidas e esperanças relativamente à possibilidade Nélson Oliveira ser titular. Por seu turno, Morten Olsen não parecia ter motivos para promover alterações num onze que tinha levado de vencida os vice-campeões mundiais. 

Embora o seleccionador e a maioria dos jogadores tivessem afirmado estarem satisfeitos com a exibição contra a Alemanha e que as críticas eram infundadas, a verdade é que Portugal respondeu aos apelos de uma abordagem mais pró-activa. Na verdade, embora o posicionamento defensivo português não tivesse sido caracterizado como relaxado, Portugal avançou um patamar e pressionou os dinamarqueses junto à sua área - era evidente que Bento havia visto o jogo anterior e pretendia evitar que a Dinamarca saísse a jogar.

Portugal não pretendia deixar a Dinamarca abrandar o jogo.
Postiga obriga o guarda-redes a passar, Nani pressiona o seu homem
e Moutinho (amarelo) e Meireles tentam recuperar a bola.

Moutinho (amarelo) persegue um dos médios dinamarqueses
e Meireles (laranja) oferece cobertura.

Embora seja verdade que Portugal tentava recuperar a bola o mais rapidamente possível, não é menos verdade que Bento se mostrava interessado em evitar que a Dinamarca abrandasse o jogo em demasia e ditasse o ritmo. Dessa forma, os jogadores lusos manter-se-iam pró-activos e vigilantes. Contudo, a Dinamarca logrou evitar essa pressão em algumas situações, nomeadamente através da sua jogada de eleição - em que a bola segue de um defesa-central para a ala, um dos médios recebe-a no centro e encaminha-a rapidamente para o lado contrário.

A bola vem da ala para os médios-centro.
Com um simples movimento de primeira, a Dinamarca liberta-se das marcações. 

Sem marcação, o médio faz um passe longo.
O movimento de Bendtner (amarelo) é fundamental, arrastando Bruno Alves.
O extremo (fora da imagem) dispõe de muito espaço para a desmarcação.

Após uns primeiros 15 minutos de intenso ataque dinamarquês pela direita, Portugal conseguiu por fim estancar a hemorragia e começou a recuperar cada vez mais bolas. Não só os roubos de bola se verificavam em zonas mais adiantadas, mas, por outro lado, Ronaldo patenteava melhorias na ligação entre defesa e ataque, algo que estivera ausente do jogo de Portugal contra a Alemanha. Com efeito, Ronaldo mostrou-se tão empenhado nessas funções, que praticamente abandonou o flanco esquerdo.

Olhando para os chalkboards, é fácil constatar a maior predisposição de Nani para recuar. 

O primeiro golo português não foi propriamente surpreendente - ainda que a forma como foi marcada o seja. A selecção lusa parecia ter finalmente encontrado o seu ritmo e era por demais evidente que todos os jogadores se sentiam mais confiantes, com e sem bola. Nani e os três médios foram incansáveis quando Portugal não tinha a posse da bola e estiveram particularmente bem nas segundas bolas. Na verdade, o segundo golo foi um exemplo perfeito disso mesmo, oferecendo uma preciosa injecção de moral para Postiga, o marcador do golo. A partida parecia resolvida, mas um cruzamento dinamarquês da direita alguns minutos antes do intervalo deu origem ao golo de Bendtner e a um mar de incertezas.

Embora sem grande sucesso, a Dinamarca insistiu em cruzar pela direita. 

Com Veloso em bom nível na anulação de Eriksen, Portugal mostrava-se capaz de controlar o jogo, ainda que não o dominasse. Atraindo o adversário para a armadilha, os comandados de Paulo Bento deixavam que Agger progredisse em posse e lançavam-se em rápidas contra-ataques assim que o central dinamarquês falhava um passe ou dava um passo em falso. Dois desses contra-ataques foram desperdiçados por Ronaldo e poderiam ter acabado efectivamente com o jogo.

Sem instinto assassino e com o habitual desperdício, Portugal pareceu começar a acusar a pressão da vitória e os nervos apoderaram-se da selecção das quinas. Meireles e Moutinho regressaram ao modo nervoso de passes prematuros, permitindo que a equipa nórdica voltasse ao jogo. A partir desse momento, as instruções que Ronaldo tinha no sentido de não recuar começaram a fazer cada vez menos sentido, dado que não restavam quaisquer dúvidas aos pupilos de Olsen sobre o ponto fraco de Portugal. Embora não seja forçoso que uma equipa seja simétrica, é imperial que seja equilibrada - algo que não estava a ser. Qualquer adversário (actual e futuro) da equipa portuguesa terá bem presente essa fragilidade no flanco esquerdo.

Muito embora o enorme buraco e o sofrimento de Coentrão fossem demasiado evidentes, Bento surpreendeu ao substituir Postiga por Nélson Oliveira. Embora a substituição tenha permitido à equipa segurar a bola durante mais algum tempo, não resolveu a questão da ala esquerda e o golo dinamarquês parecia uma questão de minutos. Quando Bendtner marcou o segundo da sua conta pessoal, não houve caras de espanto.

Varela acabou por conseguir marcar o golo que permitiu que Portugal passe a respirar melhor, mas foi um jogo que a selecção nacional deveria ter ganho sem apelo nem agravo, dadas as evidentes fragilidades da equipa nórdica em ataque organizado. Num Campeonato Europeu tão competitivo como este, o desperdício das oportunidades de golo que surgem não se coaduna com voos muito altos.

Note-se como o flanco direito é defensivamente muito mais activo do que o esquerdo. 

Se Portugal pretende evitar a eliminação imediatamente após passar o grupo da morte, terá de melhorar o controlo dos ritmos do jogo, concretizar as oportunidades que o bom rendimento defensivo proporcionar e, acima de tudo, resolver a cratera que Ronaldo deixa no lado esquerdo. Se assim não for, a Holanda poderá ser a equipa ideal para uma dura lição.


Chalkboards criados através da app Stats Zonedisponível gratuitamente na App Store.

Este artigo estará igualmente disponível (na versão inglesa) em PortuGOAL.net.

Monday, June 11, 2012

A solução para o tiki-taka?


Equipas e movimentações iniciais


Espanha e Itália não poderiam ter oferecido um jogo melhor para uma tarde de Domingo de futebol. Recheado de grandes jogadores, nuances tácticas e bons golos, a partida foi um regalo para a vista. Fomos inclusivamente presenteados com uma batalha táctica vista com pouca frequência - a Espanha com um falso ponta-de-lança contra uma Itália com uma defesa a três - que pôs muitos a pensar se estaríamos a assistir ao nascimento do antídoto para o tiki-taka.

Posicionamento defensivo da Itália:
três centrais (amarelo), três médios (laranja) e dois médios-ala.
A Espanha optou por um sistema sem ponta-de-lança fixo.

1. A defesa italiana. Com De Rossi a actuar por trás de Chiellini e Bonucci, havia alguma curiosidade sobre o que os três defesas-centrais fariam sem bola, uma vez que era provável que não tivessem ninguém para marcar directamente. Na verdade, com Fàbregas libertando muitas vezes a zona do ponta-de-lança para as penetrações de Silva e Iniesta, poderia presumir-se que a defesa a três seria questionável. Contudo, a defesa italiana rubricou uma excelente exibição ao fazer três coisas:

  • Quando a bola rodava das alas para o centro e havia a possibilidade de um passe de ruptura, De Rossi avançava para tentar fechar a linha de passe - devidamente respaldado por Chiellini e Bonucci (para além de um dos médios-ala).
  • Ao dispor de uma defesa a três, a Itália estava  protegida contra bolas por cima ou passes de ruptura (a especialidade e grande trunfo da Espanha).


Mesmo com Navas (amarelo) a tentar esticar o jogo, o médio-ala podia proteger o exterior
e o defesa-central desse lado fornecia a cobertura sem desequilibrar a defesa.
Giaccherini (o médio-ala) acompanha o extremo espanhol (seta amarela).
Chiellini protege o interior e fecha a linha de passe (seta verde).

  • Após a perda da bola, um dos defesas-centrais da Itália podia dar-se ao luxo de subir no terreno para parar as transições rápidas da Espanha.
2. A defesa espanhola. A Espanha não pareceu igual a si mesma - por motivos estratégicos ou por fadiga. Com uma equipa dividida entre jogadores do Barcelona e do Real Madrid, o aspecto defensivo pareceu algo confuso. A Espanha tem por hábito recuperar a bola rapidamente, descansando em seguida com a bola em seu poder. A linha defensiva pareceu algo receosa de subir e diminuir o espaço entre sectores e foi evidente que Busquets, Xavi e Xabi Alonso não tinham a energia necessária para tal. Para além disso, o 3x5x2 da Itália significava que os seus médios-ala eram marcados pelos laterais espanhóis, e não pelos extremos - subitamente, os três médios espanhóis tinham de dividir as atenções.

Sem extremos ou avançados rápidos, as transições espanholas eram frequentemente travadas, especialmente porque nem Xavi nem Xabi Alonso têm perfil para constantes correrias. Sem pressão alta, a Espanha tornou-se previsível após a recuperação da bola.

3. O ataque italiano. A fase ofensiva italiana apresentou inúmeros aspectos interessantes. Por exemplo, o sistema de Cesare Prandelli poderia dar lugar a uma equipa partida, com os dois avançados desligados do resto da equipa. Pelo contrário, Maggio e Giaccherini (actuando como médio-ala esquerdo) ofereceram caminhos óbvios para sair a jogar com a bola controlada e tiveram liberdade para avançar a seu bel-prazer. Ainda mais importante foi o trabalho de Balotelli e Cassano (especialmente deste último) ao ligar os dois momentos do jogo italiano recuando para receber a bola ou explorando as costas dos laterais espanhóis (ocupados com os médios-ala italianos).

A outra questão relevante foi a forma como os transalpinos contornaram a equipa castelhana. A resposta mais provável passaria por Pirlo, na sua habitual função de regista recuado. Ao invés, foi De Rossi (a partir da sua posição de líbero) que orquestrou a maioria dos ataques, rodou a bola e ditou o ritmo de jogo. O médio da Roma foi o segundo jogador italiano com mais toques na bola (68 contra os 49 de Pirlo), fez o maior número de passes e registou o maior número de bolas longas (13 contra as 9 de Pirlo) - tudo isso com uma precisão de passe de 85% (todas as estatísticas extraídas de whoscored.com).

4. O ataque espanhol. A Espanha entrou neste Campeonato Europeu de forma muito semelhante ao Campeonato do Mundo de 2010. Ao tentar manter a equipa o mais feliz possível e incluir muitos dos centrocampistas (Silva, Iniesta, Fàbregas, Xavi Alonso e Xavi), Vicente Del Bosque cometeu o mesmo erro do primeiro encontro na África do Sul, contra a Suíça. Uma vez mais, Silva e Iniesta demonstraram a tendência natural para flectir para o centro e Fàbregas não foi particularmente eficaz na sua posição de falso ponta-de-lança, em parte devido à ausência de Messi ou Aléxis Sánchez para as penetrações no espaço libertado pelo médio espanhol.

A Espanha não contou com qualquer referência atacante.
Neste caso, apenas Iniesta tenta desequilibrar a defesa italiana.

Sem Pedro Rodríguez, David Villa ou Jesus Navas nas alas e sem um ponta-de-lança a fazer diagonais curtas nas costas da defesa, o meio-campo estava repleto de jogadores italianos e Buffon teve uma tarde quase descansada, não fosse o golo da Roja

A Espanha insistiu em jogar pelo centro, desta feita sem ninguém para fazer as diagonais
ao encontro dos passes de Xavi ou Alonso.



Como se tal não fosse suficiente, a ausência de Puyol obriga a que Sérgio Ramos actue como defesa-central, deixando de contribuir com as suas arrancadas. Arbeloa não é um jogador com essas características e Jordi Alba foi mais discreto do que o esperado, agravando a situação espanhola. O golo de Fàbregas foi possivelmente o único momento em que a defesa italiana não foi suficientemente rápida a efectuar os reajustes necessários - sublinhando a importância da penetração do lado fraco (contrário ao da bola).

Iniesta (amarelo) passa para Silva e movimenta-se para a ala, arrastando o seu marcador.
No lado contrário, Fàbregas (azul) ataca a zona da grande área.
O posicionamento de Giaccherini (laranja) é deficiente, demasiado aberto para fornecer cobertura.
Com De Rossi obrigado a ir ao encontro de Silva,
a cobertura defensiva de Giaccherini vai tarde. 

Torres acabou por entrar para o lugar de Fàbregas e, tal como no Mundial, David Silva foi novamente sacrificado em nome de uma maior largura de jogo. Irá Del Bosque sujeitá-lo a situação idêntica e deixá-lo no banco para o próximo jogo? Irá Torres (ou Llorente) ser titular em detrimento de Xabi Alonso, por exemplo (o papel de Fàbregas é frequentemente menosprezado, mas as suas movimentações verticais vindo de trás semeiam o caos devido à sua imprevisibilidade)?

Em resumo, assistimos a um jogo fantástico que nos deixou à espera dos próximos desenvolvimentos desta competição. Irá o Europeu servir de cenário para uma (mini-)revolução táctica e irá De Rossi revolucionar a posição de líbero - seguindo as pegadas de Beckenbauer ou Matthäus? Estaremos perante o fim do tiki-taka?

Sunday, June 10, 2012

Uma gota no oceano


O fim do segundo dia do Europeu ainda há pouco chegou e podemos desde já retirar algumas ilações. A vitória da Dinamarca sobre a Holanda foi um exemplo quase perfeito de bom posicionamento, ideias claras para retirar a bola da zona de pressão e procurar os espaços livres.

Para além disso, tanto Daniel Agger como Simon Kjaer estiveram quase inexcedíveis na defesa. A situação detalhada mais abaixo ilustra como uma boa cobertura defensiva é fundamental, particularmente contra jogadores tão capazes em situações de 1 para 1.


1. Afellay tenta passar por Jacobsen, lateral-direito dinamarquês. Note-se o posicionamento de Kjaer (amarelo). A partir de onde se encontra, pode manter debaixo de olho o ponta-de-lança que se movimenta nas suas costas e oferecer uma cobertura a Jacobsen, caso Afellay o ultrapasse.





2. Afellay ultrapassa Jacobsen. O extremo holandês consegue driblar o lateral dinamarquês. Assim que Kjaer se apercebe disso, vai imediatamente em seu socorro, criando uma situação de 2 para 1 e parando Afellay. Note-se o posicionamento dos jogadores holandeses mais próximos.





3. Kjaer desarma Afellay. O defesa-central dinamarquês rouba a bola a Afellay. Note-se como uma cobertura ofensiva deficiente permite que Kjaer tenha tempo mais do que suficiente para decidir para onde endossar a bola. 



Embora estas situações pareçam casos isolados, uma boa  organização e posicionamento defensivos poderão representar a diferença entre uma vitória por 1-0, um empate ou uma derrota. Se, a juntar a isso, houver uma noção clara do destino do esférico nos momentos imediatamente a seguir, a tarefa de toda a equipa torna-se subitamente muito mais fácil.

A História a repetir-se


Equipas e movimentações iniciais


Portugal e Alemanha ofereceram-nos o primeiro jogo de xadrez do Europeu. Os três encontros até então tinham divergido daquela que era a expectativa consensual - confrontos fechados com poucos golos. O onze português não apresentou qualquer surpresa, com Hélder Postiga e João Pereira a ocuparem os lugares de Hugo Almeida e Miguel Lopes, mas Joachim Löw, o treinador alemão, optou por Mats Hummels em vez de Per Mertesacker, provavelmente para disponibilizar uma cobertura defensiva mais veloz para as investidas de Cristiano Ronaldo.

Portugal reconheceu desde logo a superioridade alemã e abordou a partida de forma cautelosa. Resistindo à tentação de recuar o bloco em demasia, a estratégia dos homens de Paulo Bento era evidente: impedir que o adversário chegasse com a bola controlada ao último terço do terreno. Para tal, tentaram sufocar a primeira fase de construção alemã, com Moutinho e Meireles a encaixarem em Schweinsteiger e Khedira, respectivamente. Contudo, a presença de Hummels fazia com que a Alemanha fosse capaz de contornar facilmente esse obstáculo, particularmente porque Hélder Postiga não parecia saber quem deveria marcar.

Hummels proporcionou uma melhor circulação de bola à Mannschaft.

Ao fim de 20 minutos, a selecção nacional começou a ter cada vez mais dificuldades em encontrar as linhas para contra-atacar. Incapaz de jogar pela direita, a principal alternativa passava pelos passes longos de Fábio Coentrão na direcção de Ronaldo ou Postiga, com pouco sucesso. Para além disso, não obstante a preocupação com Ronaldo demonstrada ao longo das conferências de imprensa antes do jogo, foi evidente que Löw havia feito os seus trabalhos de casa, dado que Miguel Veloso era sempre marcado de perto por Özil ou Gómez. Por seu turno, isso fazia com que as opções portuguesas fossem previsíveis e não muito bem sucedidas.

Portugal tentou sufocar o meio-campo alemão.

Com ambas as equipas aparentemente mais receosas de uma derrota do que interessadas na vitória, a segunda parte não foi muito diferente. Nenhum dos onzes foi capaz de tirar máximo proveito dos seus pontos fortes. Embora a Alemanha fosse mais pró-activa, continuava sem conseguir encontrar espaço pelo centro do terreno e começou a procurar a ameaça aérea de Gómez com maior insistência. Por outro lado, as transições lusas não chegavam ao seu destino devido aos inúmeros passes (simples) transviados e movimentações assíncronas.

Löw tentou alterar o estado das coisas ao pedir a Schweinsteiger que jogasse mais adiantado, de modo a que Özil pudesse explorar o espaço livre à frente da defesa portuguesa. A estratégia resultou parcialmente, com o maestro alemão a criar facilmente situações de superioridade numérica nas alas (Ronaldo e Nani tinham instruções claras para não acompanharem o seu adversário directo e fornecerem a bola de saída), mas não obteve o resultado final pretendido. No que se refere a Portugal, sem alguém com o perfil de Rui Costa ou Deco, era difícil agitar o jogo a partir do meio-campo, com ambos os extremos demasiado agarrados às suas posições de partida.

O empate parecia ser o resultado mais previsível até ao 72º minuto, quando Mário Gómez demonstrou que, embora não ofereça o envolvimento de Klose na construção de jogo, possui uma rara capacidade de transformar uma bola solta num golo num fracção de segundo. A partir desse momento, Portugal teve de correr atrás do resultado e Bento lançou Varela para o lugar de Meireles (Nélson Oliveira já tinha substituído Postiga ao 69º minuto) para um último esforço. Após o golo sofrido, a selecção mostrou como pode ser mais perigosa se não se limitar a esperar pelo adversário e, ao invés, estiver disposta a fazer uso das suas armas em zonas mais avançadas.

Muito embora seja provável que os jogadores, treinador e adeptos portugueses venham a queixar-se do infortúnio e referir as duas bolas nos ferros, a verdade é que Portugal apenas poderá queixar-se de si mesmo. Por mais importante que a organização de uma equipa seja, isso por si só não poderá ser o único ponto do plano de jogo, se se pretender atingir o sucesso. Bento tentará levantar o moral dos seus jogadores afirmando que Portugal desfrutou das melhores ocasiões de golo, mas talvez fosse melhor pedir aos seus jogadores que não receassem assumir o que fazem de melhor.


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