Showing posts with label Holanda. Show all posts
Showing posts with label Holanda. Show all posts

Monday, June 18, 2012

A vitória da organização

POR_NED_Line_ups.jpg

Equipas e movimentações iniciais


Alguns jogos parecem efectivamente ser disputados no plano teórico. O triunfo de Portugal sobre a Holanda foi uma vitória da lógica. Num encontro inacreditavelmente aberto e repleto de oportunidades de golo, a organização lusitana levou a melhor sobre a desesperada tentativa holandesa de lançar avançados para resolver os seus problemas. Subsistem algumas questões: como é possível que uma partida tão decisiva tenha sido tão aberta e caótica? E terá Portugal aprendido as lições necessárias para quando enfrentarem equipas mais disciplinadas?

A selecção holandesa estava envolta em algumas dúvidas. O seu treinador manter-se-ia fiel ao seu plano de jogo dos dois encontros anteriores? Ou faria uso da sua formação mais ofensiva, incluindo Van der Vaart e Huntelaar? Como se verificou, Bert van Marwijk optou por dar ouvidos às vozes popular e optou pela segunda hipótese, apesar de algumas previsões. Na verdade, Van Marwijk revolucionou toda a equipa, desfazendo a parceria de Van Bommel e De Jong a meio-campo, substituindo o antigo médio do Barcelona e Milan por Van der Vaart, transferindo Sneijder para a esquerda e posicionando Van Persie no apoio a Huntelaar. Olhando para os onzes titulares e para o posicionamento da equipa holandesa nos primeiros minutos, era difícil não antever as crateras que se formariam, mas tudo isso faz parte da magia do futebol. 

Portugal pareceu estranhamente surpreendido pela audácia do adversário, quase como se Paulo Bento não acreditasse realmente que o seu oponente pudesse ser tão ousado. Como tal, a selecção nacional mostrou-se algo confusa nas marcações até ao golo holandês. Em vez do habitual jogo estéril de fogachos individuais, a presença de Van der Vaart dava à Holanda a saída de bola de que necessitavam para as transições, deixando De Jong exclusivamente para tarefas defensivas. Para além disso, com Van Persie a ocupar as áreas de Miguel Veloso, sobravam dúvidas sobre quem deveria acompanhar Van der Vaart e quem deveria deslocar-se para criar situações de 2x1 contra Robben.


POR_NED_Veloso_x_Robben.jpg
Coentrão (amarelo) e Veloso (laranja) tentam impedir que Robben flicta para dentro,
abrindo espaços para Van der Vaart durante os primeiros 15 minutos.
 

O golo holandês teve origem numa dessas situações, mas, por essa altura, já Portugal mostrava algumas melhorias. Com efeito, honra seja feita à selecção nacional por não perder a cabeça após sofrer um golo indesejado. Embora uma grande parte do seu plano de jogo passasse por permitir que os defesas-centrais contrários desfrutassem de tempo em posse e impedir que a bola entrasse no último terço (à imagem do jogo contra a Alemanha), os jogadores lusos conseguiram manter-se calmos e cingir-se à estratégia delineada - permitir que o adversário se partisse em dois e explorar as alas, sabendo que o contributo defensivo de Sneijder, Van der Vaart ou Robben seria quase inexistente. Verdade seja dita, este encontro assemelhou-se por vezes a dois encontros de 5 contra 5 disputados em duas metades distintas.

 


POR_NED_Wings_wide_open_1.jpg
Ronaldo disputa o lance aéreo, arrastando o lateral.
Note-se o espaço à frente de Coentrão (amarelo).
Postiga (azul) apenas tem de criar uma distracção.



 
POR_NED_Wings_wide_open_2.jpg
Ronaldo penteia a bola para Coentrão e o lateral depara-se com um simples 1x1.
Note-se como a última linha defensiva holandesa está desprotegida.
 
Apesar de não terem acertado em cheio no onze inicial apresentado pela Holanda, as nossas previsões não estiveram totalmente incorrectas. A selecção do país das tulipas não era propriamente sólida em termos defensivos com Van Bommel, o que significava que, sem o médio, as perspectivas holandesas ao nível defensivo apenas poderiam ficar mais negras. Na verdade, a linha defensiva holandesa permanecia questionável, no mínimo, e ficava ainda mais vulnerável às diagonais de Ronaldo nas costas, particularmente devido à sua lentidão e à falta de pressão sobre o portador da bola - uma boa descrição do primeiro golo português.

Com a Holanda disposta num invulgar 5-0-5, subsistem dúvidas sobre os quatro momentos do jogo foram suficientemente treinados durante o período que antecedeu o Europeu, dada a descoordenação patenteada pela maioria dos jogadores desde o início da competição. Embora Portugal tenha permitido que o jogo degenerasse para um rol de contra-ataques sucessivos, perigosamente semelhante a alguns jogos da Premier League, pairava no ar a noção de que a selecção nacional tinha maiores probabilidades de marcar (particularmente em contra-ataque) do que de sofrer um golo.


  
POR_NED_Interceptions.png
Portugal fez quase o dobro de recuperações da Holanda.
A distribuição das recuperações holandesas é quase idêntica à partida da Alemanha.
 
A segunda parte trouxe consigo nova revolução. Apesar de manter o mesmo onze, Van Marwijk realizou mais alterações, nomeadamente com o deslocamento de Van Persie para a direita, de Robben para a esquerda e de Sneijder para a posição de n.º 10. Embora seja verdade que o maestro do Inter ofereceu maior estabilidade e tentou fazer rodar a bola, os problemas defensivos permaneciam os mesmos, o que torna ainda mais difícil compreender ao certo a intenção do treinador holandês.


O meio-campo português foi heróico no acompanhamento das tentativas de penetração holandesas, mas Pepe esteve imperial, cobrindo as costas dos seus laterais quando estes eram batidos. Por seu turno, Miguel Veloso foi fundamental para que a equipa fosse sempre capaz de mover a bola de um lado para o outro e iniciar os contra-ataques. Após os primeiros 15 minutos da segunda parte, o jogo voltou a abrir e, tal como na partida contra a Dinamarca, Portugal deveria ter resolvido a questão muito antes. Felizmente para a turma das quinas, a Holanda estava já desfeita e dependia em exclusivo das diatribes individuais de um dos seus avançados.

Com Robben à esquerda, Willems ficou ainda mais exposto e Portugal tinha ainda maior liberdade para explorar esse mesmo flanco através de Moutinho, Nani e João Pereira. Como seria de esperar, as combinações de passe mais frequentes dividiram-se entre esses jogadores. Quase parecendo querer agravar a situação, o treinador holandês decidiu-se por uma abordagem ainda mais temerária e por uma defesa a três, com Robben e Afellay como médios-ala. Portugal limitou-se a esperar pela Holanda e a insistir pelas alas, ciente de que uma das inúmeras oportunidades acabaria por entrar.


POR_NED_JP_Moutinho.png
João Pereira e Moutinho constituíram a segunda combinação mais frequente de Portugal.



POR_NED_Moutinho_Nani.png
Moutinho e Nani constituíram a combinação mais frequente de Portugal,
muitas vezes com Moutinho a fazer passes de ruptura para Nani.
 
Há algumas conclusões importantes a retirar deste encontro. Antes de mais, assistimos a uma prova definitiva de que o talento por si só não é suficiente para ganhar jogos. É verdade que a Holanda dispõe de imenso talento em algumas posições, mas a falta de solidariedade e de ideias colectivas é o caminho certo para o insucesso de qualquer equipa. Em segundo lugar, é difícil vislumbrar o motivo pelo qual a nação vice-campeã do mundo, conhecida pelo seu pensamento futebolístico de vanguarda, parece tão afastada do futebol moderno, tanto ao nível de clubes como de selecções. No que diz respeito a Portugal, convém extrair igualmente algumas ilações. A mais importante tem a ver com Ronaldo: o capitão português necessitava de uma partida assim. Dois golos, um remate à barra, inúmeras oportunidades de golo e muito espaço para correr serão razões mais do que suficientes para que o avançado do Real Madrid supere erros passados. A segunda questão prende-se com a maior rapidez de Paulo Bento na introdução de Custódio, em comparação com o encontro contra a Dinamarca.

No entanto, restam alguns pontos de interrogação. Como se comportará esta equipa contra equipas mais sólidas? Portugal continua a não dispor da capacidade de controlar o jogo quando está à frente no marcador, expondo-se dessa forma a um qualquer incidente aleatório, por exemplo. Por último, o treinador português necessita de abordar a marcação zonal nas situações de bola parada, a qual não está a funcionar na perfeição. Apesar da mais recente vitória, seria imprudente pensar que não existem na selecção nacional áreas que necessitam de melhorias urgentes.


POR_NED_Terrible_zonal_marking.jpg
Portugal não tem estado bem a defender situações de bola parada, especialmente no segundo poste.


Chalkboards criados através da app Stats Zonedisponível gratuitamente na App Store.



Este artigo estará igualmente disponível (na versão inglesa) em PortuGOAL.net.

Friday, June 15, 2012

O que deve fazer Portugal?


No grupo B, o denominado grupo da morte, tudo está ainda por definir, mesmo para a Alemanha, com seis pontos. Nenhuma equipa tem o apuramento garantido e todas podem ainda ser eliminadas, com o conjunto de resultados adequado. No próximo domingo, Portugal e Holanda encontram-se numa partida decisiva, uma partida que os holandeses necessitam de vencer com uma diferença de dois golos e esperar que a Alemanha não repouse sobre os louros contra a Dinamarca.

  • Ataque

A equipa de Bert van Marwijk está longe de ser sólida e coesa. Muitas das vezes, acaba por se partir em dois blocos bem distintos: os 4 defesas mais Van Bommel e De Jong, e os quatro jogadores mais avançados. Com ambos os defesas-centrais com dificuldades evidentes no controlo da bola e com pouca criatividade proveniente dos dois médios mais recuados, a Holanda depende em excesso das iniciativas de Robben, da visão de Sneijder ou das penetrações de Van Persie nas costas da defesa. Todos estes componentes poderiam constituir uma interessante manobra ofensiva, mas os jogadores não parecem ter uma ideia colectiva sobre quando tomar a decisão mais acertada - os insistentes dribles de Robben para dentro, seguidos de remates mais ou menos disparatados, são um bom exemplo disso mesmo.

Ainda assim, convém não esquecer que se trata de uma equipa com alguns jogadores de nível mundial e que, conforme Van Persie mostrou contra a Alemanha, conceder alguns metros a mais a qualquer um desses jogadores poderá revelar-se fatal. Por exemplo, Robben tem tendência a jogar no lado esquerdo de Portugal, a ala que Cristiano Ronaldo deixa habitualmente desprotegida (muito provavelmente seguindo as instruções de Paulo Bento). Com Van der Wiel acostumado a subir sempre que possível, Fábio Coentrão poderá vir a passar novamente por dificuldades. Contudo, ambos os extremos holandeses tendem a driblar para dentro, algo que convirá a Portugal, dado que se trata de uma área em que a selecção nacional se tem mostrado mais forte do que nas alas.

Adicionalmente, devido à ausência de uma ideia colectiva e de movimentações, a Holanda opta frequentemente por passes longos para Van Persie. Neste jogo em particular, Paulo Bento poderia optar por permitir que Pepe actuasse mais em cobertura (uma vez que é mais rápido e mais intenso) e que Bruno Alves se assumisse como primeiro elemento da linha defensiva central, uma vez que tal impediria que os extremos holandeses flectissem para dentro e fizessem passes de ruptura para Van Persie e as suas diagonais curtas.

Cientes de que a Holanda necessita de vencer o jogo com uma margem de dois golos e que irá provavelmente pretender assumir o controlo da partida, Portugal poderá optar por assumir uma postura mais expectante à imagem do que aconteceu contra a Dinamarca (após o primeiro golo) e Alemanha, permitindo que os defesas-centrais e médios-centro progridam com a bola e aproveitando em seguida os erros que tendem a cometer - embora uma melhor finalização seja absolutamente fundamental.

Van Persie tende a procurar o espaço nas costas da defesa contrária.

  • Defesa

Apesar de contar com os médios de contenção Van Bommel e De Jong, esta equipa holandesa não parece tão estanque quanto se mostrou há dois anos, na África do Sul, ainda que muitos dos titulares se tenham mantido. Tendo em consideração que são dois jogadores com tamanha experiência, tanto Van Bommel como De Jong têm sido desposicionados com excessiva facilidade, embora convenha referir o imenso espaço que têm para cobrir, dada a falta de apoio defensivo dos quatro jogadores mais adiantados. No último jogo, por exemplo, a maioria das oportunidades de golo da Alemanha passaram por criar situações de superioridade numérica no lado esquerdo holandês, atraindo os dois médios pivôs defensivos para essa zona, e atacar em seguida o espaço onde deveriam estar. Apesar de todos os esforços envidados por Willem, a equipa permanece reticente em deixá-lo à sua sorte face a extemos mais agressivos.

Van Bommel e De Jong tendem a ajudar defensivamente no lado esquerdo.

As duas assistências da Alemanha tiveram origem em áreas e jogadas semelhantes,
após arrastar os dois médios holandeses para áreas exteriores.

A Holanda dedica maior atenção ao seu lado esquerdo,
quase ignorando o centro do terreno.

Para além disso, Mathijsen e Heitinga são defesas-centrais lentos que não apreciam particularmente avançados rápidos ou trocas posicionais. Poderá ser uma boa ocasião para pedir a Postiga que se desmarque para os flancos, arrastando consigo um dos centrais, e instruir Ronaldo ou Nani para aproveitarem o espaço criado nas zonas centrais da defesa holandesa.

Por último, uma questão igualmente importante. A Holanda joga com uma linha defensiva (relativamente) alta, mas não exercem a pressão necessária sobre o portador da bola, permitindo-lhe muitas das vezes fazer passes de ruptura para a grande área, onde a finalização de Ronaldo e Nani poderá revelar-se decisiva.


  • Conclusão.

Se o futebol fosse uma questão teórica, este jogo teria um resultado final previsível. Portugal está mais bem organizado, é defensivamente mais forte nas zonas centrais e prefere jogar em contra-ataque. Para além disso, a velocidade e capacidade técnica dos seus extremos são o oposto das características da defesa holandesa. Com os quatro jogadores mais adiantados de Van Marwijk pouco inclinados para as tarefas defensivas, Portugal poderá acabar por vencer apenas por ser mais inteligente. Por outro lado, dado o perfil da equipa holandesa, Hugo Viana poderia ser uma boa opção de Paulo Bento, uma vez que o médio do Braga é perito em queimar linhas ao descobrir avançados a 30 ou 40 metros de distância com os seus passes teleguiados (embora esta opção seja altamente improvável).




Chalkboards criados através da app Stats Zonedisponível gratuitamente na App Store.

Este artigo estará igualmente disponível (na versão inglesa) em PortuGOAL.net.

Monday, June 14, 2010

Quando o resultado não diz tudo

É indiscutível que é impossível escamotear uma vitória. A Holanda levou de vencida a selecção dinamarquesa por 2-0, resultado que parece oferecer pouca matéria de discussão. No entanto, creio que não será tanto assim, dado que a equipa laranja demonstrou algumas lacunas preocupantes para quem costuma aspirar (e falhar) a voos mais altos.

A Dinamarca apresentou-se num 4x4x2 clássico, com Rommedahl ligeiramente atrás do ponta-de-lança Bendtner, escolhendo a linha de meio-campo como zona de pressão preferencial. Em vez de se preocupar com as individualidades holandesas, a equipa de Morton Olsen preferiu sempre concentrar-se na posição da bola, saindo ao seu portador sempre que aquela cruzava a linha do meio-campo. Com isto, aliado à pouca mobilidade dos seus quatro jogadores mais avançados, a Holanda tinha mais posse de bola, mas mostrava grandes dificuldades no último terço do terreno.

Ao invés, o onze da equipa dos vikings não só mostrava uma boa organização defensiva, como provava - lance após lance - ter contra-ataques bem trabalhados e rotinados, colocando a defensiva adversária em guarda. Não fora aquele autogolo assaz estranho e creio que estaríamos a falar de um resultado diferente.

No que diz respeito apenas à laranja (hoje pouco) mecânica, destaque para a invulgar agressividade com que os seus jogadores mais recuados abordavam os adversários e o enorme espaço nas costas que tanto van Bommel como de Jong deixam sempre que se aventuram no ataque. Com efeito, as transições defensivas da equipa das tulipas deixam neste momento muito a desejar. A menos que alguns destes problemas sejam resolvidos num futuro não muito distante, creio que a Holanda terá dificuldades em impor-se a equipas de maior porte.

Monday, June 23, 2008

A mesma Holanda de sempre

São muitas raras as vezes que uma selecção chega e um Campeonato da Europa e do Mundo e leva tudo à sua frente - do jogo de abertura até à final. Não tenho uma memória assim tão boa que me permita puxar dos galões e dizer que isso nunca aconteceu. Creio que o último exemplo de um vencedor mais ou menos antecipado foi o Brasil de... Scolari, em 2002, com um Ronaldo em forma, apostado em recuperar o seu prestígio (e uma transferência para o Real Madrid) e uma ausência gritante de adversários de valor. Seja como for, esse Brasil raramente chegou a jogar bem e a encantar.

Este é um dos principais problemas do futebol e dele padecem tanto jogadores como comentadores supostamente conhecedores. Hélder Postiga, por exemplo, disse nos últimos dias que apostava na Holanda para vencer o Europeu por marcar muitos golos. Não tenho a certeza se a frase é mais assustadora pelo seu conteúdo ou pelo facto de a pessoa que a proferiu ser supostamente um jogador de topo, alguém que deveria saber mais sobre os motivos por que se ganham e perdem jogos. No futebol, quase toda a gente gosta dos que dão mais espectáculo, dos que sabem fazer as melhores fintas, dos que marcam golos de fora da área, dos que vencem e quase humilham os adversários. Só assim se percebe que o Brasil, por exemplo, tenha tantos adeptos incondicionais provenientes de outros países. Não nos enganemos: o jeito para a modalide é muito importante. No entanto, feliz ou infelizmente, não é tudo, e os holandeses parecem não conseguir perceber onde está o meio-termo.

Se raramente uma selecção faz justiça ao adágio romano "veni, vidi e vici", tal poderá ser explicado pela dificuldade em manter sempre o mesmo nível ao longo de 3/4 semanas, pelo facto de essa selecção passar a estar debaixo dos holofotes e todas as outras quererem derrotá-la, mas principalmente, na minha opinião, porque os jogadores passam a ter um certo complexo de superioridade, uma espécie de relaxamento por saberem que marcam muitos golos e que o seu futebol de ataque é aparantemente invencível. Pessoalmente, creio que a Holanda cedeu a todos estes pecados.

Depois de terminarem o famoso "grupo da morte" com 9 pontos, frutos de três vitórias, 9 golos marcados e apenas 1 sofrido, vencendo as finalistas do último Mundial por três golos de diferença, todas as atenções se viraram para a Holanda, que passou a ser o inimigo público. De repente, a expressão "futebol total" voltou às bocas do mundo, fazendo com que muita gente ficasse absolutamente deslumbrada com os golos, os contra-ataques, laterais que assistiam e marcavam. E é aqui que me custa compreender algumas pessoas e posições: compreendo perfeitamente que o "comum mortal" se sinta atraído pelo futebol holandês (eu também gosto muito de jogo ao primeiro toque, fintas, golos de fora da área ou antecedidos de 34 toques), mas isso não equivale a dizer que se trata de uma boa equipa. Com um olhar mais atento, detectar-se-iam, ainda na primeira fase, todos os defeitos que a Holanda viria a demonstrar na derrota com a Rússia: o tal futebol total, seguido da descompensação total, com defesas "duros de rins", apesar de experientes, e uma torre de dois médios defensivos - muito bons a destruir, mas com muitas dificuldades sob pressão e na construção de jogo. A comunicação entre defesas/médios defensivos e as linhas mais avançadas aparentava ser muito frágil e facilmente anuláveis. Restava saber até que ponto a Holanda conseguiria dar a volta ao problema. Em poucas palavras, não conseguiu.

À semelhança do que já aqui referi aqui relativamente à questão de Scolari e Portugal, van Basten sofre também ele do problema de não parecer imaginar-se no papel de derrotado. A Holanda não tinha plano B, não parecia saber o que fazer se se apanhasse a perder e parecia não ter treinadas alternativas ao seu plano de jogo habitual. Uma das coisas mais importantes em qualquer modelo de jogo é precisamente avaliar as fragilidades da própria equipa e tentar mascará-las e encontrar-lhes solução. Nem Portugal nem a Holanda tiveram arte e engenho e saíram do Euro com toda a justiça.

Thursday, June 12, 2008

Os pontos fora das contas

A primeira semana do Europeu não acabou, bem o sei, mas penso que está na altura de tecer algumas considerações extra-Selecção nacional. Gostaria de ressalvar alguns pontos positivos e um ou outro negativo, com algumas previsões pelo meio.

1) Itália. É indiscutível que a Itália foi para muita gente a surpresa (pela negativa) do Europeu, até agora, ao sofrer três golos sem resposta de uma Holanda em quem não parecia haver muita a gente disposta a apostar. Pois bem, pessoalmente, e sem tirar qualquer brilho à exibição da Holanda, continuo a achar, mesmo depois de todas as análises de crise do futebol italiano, da culpa do treinador e do catenaccio, que os transalpinos não jogaram assim tão mal quanto se diz e pensa, embora se tenham colocado numa posição difícil num grupo extremamente complicado. A Itália continua a ter uma estrutura muito forte (apesar de a sua defesa ter dado alguns sinais de instabilidade), com um meio-campo muito bom - Pirlo faz as delícias de qualquer um, jogando como 10 a partir da posição de "trinco", sempre bem resguardado por Ambrosini à esquerda e Gattuso à direita -, um ponta-de-lança que aguenta tudo e todos para distribuir jogo e marcar o seu golo de quando em vez e um Di Natale muito veloz e inteligente. A única pecha parece-me ser mesmo Camoranesi, sempre indeciso entre jogar "à Itália" e "à Juventus". Para mim, a Itália está longe de ter feito o último jogo do seu Europeu.

2) Holanda. Um jogo muito bom, sem dúvida, de uma equipa muito mais equilibrada do que o costume, em parte devido à experiência de homens como Ooijer ou Bronckhorst e ao duo de centro-campistas batalhadores que guardam as costas de um Sneijder sempre fantástico e de um van Nistelrooy sedento de golos, ao que parece. No entanto, a Holanda tem raramente o condão de ofuscar ao início para se desvancer quando verdadeiramente importa. Creio que esta equipa tem bom potencial e alcançou uma excelente vitória frente à Itália, mas já não vai poder ter o estatuto de "dark horse" na segunda jornada.

3) Espanha. Uma boa vitória. É indiscutível que foi frente a uma equipa russa com muito poucos argumentos, ao contrário do que seria de esperar, mas quantos vacilam frente a adversários teoricamente mais fáceis (a própria Espanha que o diga). Espanha tem neste momento duas coisas que raramente teve: dois pontas-de-lança muito bons, que se completam de forma quase absoluta (Villa é para mim um dos avançados mais subvalorizados) e um meio-campo com excelente conhecimento de andamentos de jogo composto por Xavi, Iniesta, Xabi Alonso e Marcos Senna. A defesa parece-me lenta e algo exposta, especialmente quando sujeita a pressão alta. A ver vamos se Aragonés ainda vai a tempo.

4) Rússia e Turquia. Pessoalmente, duas das maiores desilusões. Quanto à Suíça e Áustria, creio que não se podia esperar algo de muito diferente de equipas do segundo/terceiro escalão do futebol mundial. Não estava à espera que tanto Russia como Turquia vencesse o Europeu, mas imaginei que tanto uma como outra selecção fosse conseguir impor algum do seu futebol e causar um ou outro incómodo. Pode ser que ainda vão a tempo, mas os sinais apresentados não deixam antever grandes surpresas..

Posto isto, gostaria apenas de fazer referência a alguns jogadores que se revelaram ou confirmaram o seu estatuto:
  • Deco - Agastado com as constantes dúvidas em torno da sua atitude e do seu futebol e respaldado no facto de não ter feito demasiado jogos, ameaçou isto desde que chegou à concentração: perfeito domínio dos tempos de jogo, passes de risco de longa distância capazes de fazer tremer as basculações das equipas adversárias, sem medo do jogo. O Deco de antigamente.
  • Moutinho - Conforme já expresso noutro ponto deste blogue, impecável a defender, sempre disponível para atacar, não vira a cara à luta e tem sido uma boa parte do segredo desta Selecção.
  • Sneijder - Impressionante, este holandês. Inteligente, rápido, excelente primeiro toque e reacção, só tem a melhorar.
  • Pirlo e Zambrotta - Apesar de derrotados, creio que merecem um destaque positivo. Pirlo correu a tudo, nunca deixou de pedir bola e tentar organizar jogo, apesar de o jogo nem lhe ter corrido de feição. O todo-o-terreno das laterais Zambrotta acaba o jogo como começou: sempre fresco, pronto a apoiar ataque e defesa, como se estivesse a ouvir música no seu iPod.
  • Villa - Diagonais impressionantes, óptima capacidade física, sempre disposto a arriscar e a fazer os movimentos necessários para se libertar a si ou ao seu companheiro de ataque, Fernando Torres. Muito bom, mesmo.

E ainda nem acabou a primeira semana...