Thursday, August 20, 2009

A bota e a perdigota


De tempos a tempos, vem a terreiro um dos principais responsáveis do futebol europeu e/ou mundial defender uma qualquer teoria sobre aspectos financeiros do futebol - dos tectos salariais às "loucuras" de algumas transferências, entre outros. Pessoalmente, creio que isto reflecte apenas uma total falta de coragem dos mesmos responsáveis em propor e aplicar efectivamente medidas reais e coerentes independentemente do nome dos clubes.

Hoje em dia, quase todos os clubes são socidedades anónimas desportivas. Creio que a questão não passará pela ingerência dos órgãos supervisores na gestão de cada um dos clubes, mas sim pela imposição de regras claras: clubes com dívidas não podem participar nas competições. Se assim fosse, os clubes chegariam por eles mesmos às suas próprias visões da realidade e seriam forçados a compreender as suas verdadeiras capacidades e a viver dentro das suas possibilidades.

Se assim não for, a caravana continuará a passar e a única coisa que se ouvirá serão os soundbytes de Messieurs Platini e Blatter.

Thursday, August 13, 2009

Um sprint a três?



"Mais uma voltinha, mais uma viagem." Este não é o lema do campeonato nacional, mas bem que podia ser. Com efeito, a principal competição futebolística de clubes tem início já amanhã, perfilando-se como favoritos os três candidatros tradicionais - desta feita, com um equilíbrio de forças aparentemente diferente.

Na verdade, o Benfica reforçou-se muito e supostamente bem. O presidente encarnado tentou mais uma vez resolver a falta de títulos atirando dinheiro para cima do problema. Não está em causa o valor dos jogadores benfiquistas, bem pelo contrário, mas sim saber até que ponto este projecto representa algo mais a médio prazo ou apenas e só, como tem sido apanágio, a tentativa deste ano.

Creio que Jesus poderá obter resultados incomparavelmente melhores do que Quique Flores, por vários motivos. Antes de mais, o treinador português conhece o futebol nacional como Quique não conhecia. Além do mais, a equipa encarnada chega a esta fase da época com uma ideia clara sobre o que tem de fazer nos diversos momentos de jogo (independentemente de os fazer bem ou mal), coisa que nem na última jornada o Benfica de Quique conseguiu. No lado inverso, o lado irascível de Jesus e os seus dotes de comunicação poderão criar-lhe alguns anticorpos, tanto dentro como fora do Estádio da Luz. Como principal defeito deste Benfica - até ver -, o mesmo de que padecia o Sporting de Braga na época passada: uma certa falta de flexibilidade táctica, particularmente quando os adversários sabem defender atrás, expondo em demasia a falta de velocidade dos centrais benfiquistas.

No que diz respeito ao Sporting, a versão deste ano parece-me ligeiramente mais fraca. A falta de dinheiro não permitiu o investimento "devido" (nas palavras do próprio presidente leonino) na equipa, subsistindo ainda todas as dúvidas sobre Miguel Veloso, Vukcevic, Postiga, entre outros. Na minha opinião, creio que o valor e a ausência de Derlei não foram devidamente avaliadas. O seu papel no balneário e a sua presença física e anímica faziam deste Sporting uma equipa muito mais aguerrida. Neste momento, os próprios adeptos não parecem crer efectivamente que o clube vá lutar pelo título, especialmente tendo em conta as contratações dos eternos rivais da Segunda Circular.

Quanto ao FC Porto, permanece quanto a mim uma incógnita. Jesualdo Ferreira terá vincados os seus créditos de forma definitiva no ano transacto, ao conseguir reconstruir com sucesso uma equipa repleta de jogadores novos (no bilhete de identidade e/ou no clube). Saber até que ponto conseguirá fazê-lo sem dois dos principais intervenientes dos últimos quatro anos - Lucho e Lisandro - é uma das grandes questões deste campeonato. Hulk deverá explodir em definitivo, mas Belluschi não é Lucho (para o melhor e para o pior) e não há nenhum avançado como Lisandro, o que implicará uma alteração significativa do processo de jogo portista.

Classificação final: FC Porto, Benfica, Sporting. Pessoalmente, não sei se o Benfica tem ainda a estaleca necessária para suportar as vicissitudes do campeonato e até que ponto Jesus se dará bem com todos os holofotes virados para ele. O Sporting deste ano parece-me demasiado fragilizado animicamente, embora tenha condições para se intrometer nas contas do título, naturalmente.

Regresso ao presente




Ao fim de várias semanas de silêncio, eis que a actividade (e a normalidade) regressa a este blogue. Numa tentativa de compensar o vazio dos últimos tempos, seguem-se algumas previsões acerca dos três principais campeonatos europeus: Inglaterra, Itália e Espanha. Começaremos pela coqueluche do momento - a liga espanhola - por lá se encontrar o (ainda) melhor jogador do mundo e o maior investimento numa equipa de futebol desde tempos imemoriais.




Real Madrid - O que dizer e esperar de uma equipa paga a peso de ouro com o (aparentemente) único objectivo de dominar o futebol a nível doméstico e europeu? Kaká e Ronaldo fazem sonhar a afición madridista como nunca, com promessas de futebol vistoso - e quem sabe a hipótese de ultrapassarem finalmente a barreira dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões. No entanto, substistem inúmeras pontas soltas por resolver no plantel merengue, o que deverá levar a um balneário pouco coeso e um sem-fim de desvios de atenção sobre o que realmente importa. Qualquer coisa abaixo de campeões será visto como fracasso.

Barcelona - Em equipa que vence, não se mexe - já lá diz o ditado. No entanto, os catalães passaram quase toda a pré-temporada a tentar bulir no seu plantel, apesar do triplete, como que atemorizados com as investidas dos seus arqui-rivais. O único negócio que fizeram foi a troca de Ibrahimovic por Eto'o e 50 milhões de euros - num negócio que não me parece à partida favorecer especialmente a equipa da cidade condal.

Classificação: Creio que, apesar de todos os problemas por que o Real vai passar, a equipa da capital acabará por lograr o campeonato, especialmente porque a velocidade, o talento e a capacidade de trabalho de Eto'o vão ser difíceis de igualar e compensar.




Em Inglaterra, a época parece ter todos os condimentos necessários para ser disputada até ao limite. Se, por um lado, a equipa do Manchester United perdeu a sua figura de proa e "abono de família", o Chelsea viu-se reforçado com Carlo Ancelotti, o ex-treinador do Milan, e o Liverpool continua a sua caminhada estável (ainda que infrutífera em termos de títulos domésticos). Pessoalmente, vejo a revalidação do título do Manchester United particulamente difícil, visto que Michael Owen ainda é uma incógnita e Valencia poderá não explodir já na primeira época - pelo menos, ao nível de um Cristiano Ronaldo. Chelsea e Liverpool não mexeram muito nas suas equipas, preferindo evoluir na continuidade.

Classificação: Chelsea campeão, seguido de Manchester e Liverpool. A equipa da cidade dos Beatles perdeu Xabi Alonso, uma importante peça do meio-campo, continuando assim com algumas dificuldades em manter o elevado ritmo dos seus adversários.




Em Itália, a competição prevê-se extremamente renhida, particularmente entre Inter e Juventus. Com efeito, a vecchia signora reforçou o seu plantel e mudou de treinador (já no final da época passada), parecendo dar razão às vozes dos muitos adeptos que reclamavam por um futebol mais atractivo e com melhores resultados. Diego e Felipe Melo são apenas os dois rostos mais visíveis de uma equipa que terá este ano mais argumentos para se intrometer na luta pelo título. Quanto à equipa de Mourinho, creio que saiu reforçada deste defeso, particularmente com as contratações de Eto'o (o negócio da década, ao ser trocado por Ibrahimovic mais 50 milhões de euros) e Milito, um jogador discreto, mas muito útil. A equipa nerazzura passa a ter mais armas ofensivas e muito mais capacidade de trabalho. Aposto pessoalmente numa campanha europeia incomparavelmente melhor. No que diz respeito ao Milão, a época que se avizinha promete ser penosa. Sem Kaká, apenas com Pato e Pirlo, a equipa milanesa não parece capaz de lutar pelo título.

Classificação: Inter, Juventus, Milan. Apesar de ainda contar com alguns elementos com uma complicada relação idade/rendimento, a equipa de Mourinho e cª. parece ainda deter uma ligeira vantagem sobre a Juve. A ver vamos se essa vantagem é suficiente ou se o treinador da Juventus, Ciro Ferrara, consegue inverter o recente ciclo de vitórias do Inter.

Tuesday, May 19, 2009

Dúvida metódica

Antever-se-á um final feliz quando o actual treinador de um clube (a quem já foram feitas as malas) vence sem apelo nem agravo o seu presumível sucessor?

Quando o dinheiro não é tudo


Há pouco menos de um ano, os três grandes fizeram questão de anuncar um investimento reforçado nas respectivas equipas futebolísticas, alegadamente devido ao facto de o campeonato da época 2008/09 apenas consagrar o acesso directo à Liga dos Campeões ao vencedor do campeonato nacional. Contudo, apenas Sporting e FC Porto lograram fazer boas campanhas tanto a nível doméstico como internacional (não obstante o atropelamento do Sporting pelo Bayern Munique).

Pelo contrário, os encarnados apostaram forte numa época que devia devolver o clube aos títulos e lugares de destaque em consonância com a sua história. Com efeito, a época finda com o Benfica a limitar-se a confirmar o terceiro lugar - precisamente frente a um dos seus adversários directos.

Como é possível ver pela interessante análise do site MaisFutebol, o mais recente percurso do Benfica aponta para um distanciamento gradual do primeiro lugar, antes ficando mais próximo da quarta posição.

Ao invés, parece-me justo realçar o excelente desempenho de Braga e Nacional, equipas que efectuaram investimentos significativamente inferiores, mas que parecem ter uma visão estratégica a médio/longo prazo mais abrangente e frutífera.

Creio que o melhor exemplo do que acaba de ser dito passa pela valorização que ambos os clubes conseguem fazer dos seus treinadores e jogadores, ao contrário do clube da Luz, de onde os seus activos saem muitas das vezes pela porta pequena.

Continuo a defeder que ao Benfica falta um desenvolvimento sustentado e sustentável, alicerçado num projecto cuidadosamente concebido, que contemple uma visão a médio prazo, visão que não seja posteriormente posta em causa ao mais ligeiro contratempo. Os resultados não nos dizem toda a verdade. É necessário saber interpretar o caminho que se trilhou para chegar até lá. Só assim se eliminam defeitos e aprimoram qualidades.

Thursday, May 14, 2009

Mais um ano à deriva


"Mais uma voltinha, mais uma viagem." Pois bem, somos novamente chegados a Maio e já se ouve falar há algum tempo de contratações para os lados do Estádio da Luz. Porque estes eventos nunca surgem isolados, a vinda de novos jogadores é quase sempre acompanhada do sururu à volta do novo treinador dos encarnados, uma vez que o actual não cumpriu mais uma vez os objectivos. Na verdade, este texto está a ser escrito hoje, mas podia muito bem ter sido escrito em cada um dos últimos 15 anos, período durante o qual o maior clube português contou com 17 treinadores, tendo sido campeão por duas vezes.

Esperei que Rui Costa conseguisse trazer algum bom senso à nação benfiquista, convencendo o seu presidente e restantes dirigentes de que nem sempre o melhor caminho para o sucesso é fazer tabula rasa do ano que finda - especialmente com a época ainda a decorrer. Infelizmente, não foi o caso. O Benfica irá previsivelmente proceder mais uma vez a uma revolução no balneário, servindo novamente de porta giratória e parecendo ter uma invulgar característica: a de não aprender com os próprios erros. Se olhar para Norte custa tanto ao seu presidente, pois que olhe para o outro lado da Segunda Circular, onde se trabalha com mais seriedade, rigor e noção de continuidade. Caso contrário, o presente do Benfica tenderá a perpetuar-se.

Quando uma boa decisão se transforma num erro


Serei o primeiro a afirmar que o sucesso de um treinador de futebol não se mede apenas em títulos. No entanto, enquanto via na passada semana a equipa de Arsène Wenger a ser mais uma vez eliminada sem apelo nem agravo às mãos do Manchester United, não consegui deixar de me interrogar sobre os critérios de avaliação do trabalho de um treinador. Sim, o mister francês granjeou uma reputação de descobrir jovens talentos, mas a equipa londrina parece sempre um onze desgarrado, ainda e sempre sem maturidade táctica e mental para vingar nos momentos decisivos. Onde pára o dedo do treinador? Quando é que este Arsenal deixa de ser uma equipa em constante evolução - especialmente quando está longe de estar coarctada em termos orçamentais?