Tuesday, March 10, 2009

Como perpetuar um mito

Uma das frases repetidas até à exaustão ao longo dos últimos anos é a crescente importância dos lances de bola parada. Hoje em dia, é quase impossível ver e ouvir um jogo na televisão ou no rádio e não ouvir um comentador referir o carácter decisivo deste tipo de jogadas.

Na verdade, a análise estatística dos mais recentes eventos desportivos (três últimas edições da Liga dos Campeões e o mais recente Campeonato Europeu de Futebol), patente nos Relatórios Técnicos disponibilizados pela UEFA a quem pretender analisá-los, remete-nos para outro tipo de conclusões, indicando que a preponderância destes lances tem vindo a diminuir progressivamente. Na verdade, no último Europeu, por exemplo, verificou-se que apenas 1 em cada 64 destas jogadas terminava em golo, o que remete para um baixo índice de eficácia e reduzida probabilidade de golo.

Se, até há algum tempo, se constatava de facto que as bolas paradas decidiam muitas vezes jogos - especialmente por muitas das equipas não estarem alertas para esse facto -, hoje em dia, a maior parte das equipas opta por defender à zona e com uma densa ocupação do espaço em frente à sua baliza, impedindo muitas das vezes as movimentações necessárias para a marcação de um golo.

Ao invés, o que os mais recentes números nos dizem é que uma grande fatia dos golos marcados surgem de rápidas transições ofensivas, seja através da recuperação da bola em zonas adiantadas do campo (por conseguinte, com menor número de defensores pela frente) ou por intermédio de contra-ataques de dois/três toques.

Podemos portanto inferir que, neste momento, que a capacidade de uma equipa mudar rapidamente a sua atitude entre os momentos ofensivos e defensivos se revela cada vez mais decisiva. O futebol caminha aos poucos para uma maior rapidez - não só atlética, mas, acima de tudo, de processos de decisão.

3 comments:

Nazir said...

Tenho amigos que ainda se recordam do gol do sueco Thomas Brolin (saudoso flop) na Copa do Mundo de 94. Elucidativo e ilustra bem este pertinente texto. Realmente, se nos pusermos a pensar (lanço a aposta), poucos se recordarão de 5 gols de laboratório. Mais uma vez, meu caro amigo, chapeau! Comentar o teu texto agora é fácil. Ter chegado lá, contrariando um dos mitos, como bem referes, é já outra coisa. Deixo no entanto uma achega: vejo aqui em Espanha que muitos treinadores trabalham esta componente, insistem. Sobretudo equipas pequenas. Como se não tivessem nada mais para treinar durante a semana, uma espécie de justificação do salário. Realmente é um exagero. Falta no meio campo e já sabemos que o jogador do Málaga aprontará alguma com a cumplicidade do avançado. (Deprimente). No passado sábado tive o privilégio de estar no Camp Nou e verifiquei que era a única jogada do Athletic Bilbao. Depararam-se no entanto com uma clara dificuldade: o jogador que dá o toque, que lança a bola. Yeste não é propriamente um Beckham e como este há 3 ou 4 apenas no mundo da bola(sendo que um deles é o meu irmão, não conta). Enquanto este primeiro passe for tosco, nada a fazer. Abraços saudosos, nzr

VMP said...

Como sempre, na mouche, meu caro Neiz. Compreendo que se atribua uma certa importância a este tipo de jogadas, mas acho que, muitas das vezes, exageramos na sua relevância. A espaços, parece-me entrever aqui e ali falta de trabalho em tudo o resto para além das bolas paradas, incluindo os lances que lhes dão origem. Bem sei que esses momentos, quando acontecem, se revelam frequentemente decisivos, mas estamos a esquecer-nos das restantes largas dezenas de minutos, em que continuamos a ter à nossa disposição infindáveis combinações para atingirmos o nosso objectivo.

É curioso ver como o tempo que uns tanto pedem se revele tão frutífero para outros...

Um grande abraço, Nazir

Paulo said...

Oi Vascão, antes de mais, parabéns pela conclusão de mais um dos teus objectivos. Fico feliz por isso.

Quanto ao post, concordo contigo. Se bem que ainda vamos vendo, por exemplo, no Benfica, que não fossem as bolas paradas e limitavam-se a 2 remates por jogo, em média. Será o seu técnico antiquado? Não sei. Mas os rapazes têem concretizado os seus objectivos: não perder os jogos.

Um pormenor a que tenho estado atento porque comecei a reparar que estavam a desaparecer, são os livres directos. Raras são as vezes, am alta competição, que se vê um livre directo junto à área adversária. Uma por jogo, talvez. Cada vez mais a cultura do corte limpo, conseguida pelos níveis de concentração e poder de antecipação através da leitura de jogo, vem se implementando. Penso que para aqui também contribui a evolução do "fio de jogo" do árbitro (sim, os tipos também têm tácticas e sistemas de jogo), em que já não é com leviandade que se leva o apito à boca. A cultura do deixa jogar está mais enraizada, e eu sou a favor de tal. Tudo bem, há o CR7 a bater vários livres por jogo, mas esse chuta de qualquer lado. Um simples livre encostado à linha lateral, onde o cruzamento cortado e tenso para a área faria mais sentido, serve para o CR7 chutar directamente à baliza.

Concordo, portanto, contigo, quando dizes que se prefere hoje fazer um ataque rápido e envolvente, com dinâmicas e trocas de posições constantes, ou um contra-ataque de 2 ou 3 toques para as costas de um defesa.

Abração.