Monday, May 14, 2012

Liga dos Campeões - Análise do Bayern de Munique

Equipas e movimentações iniciais previstas

Muito embora não fosse este o embate mais popular (um possível confronto entre Barcelona e Real Madrid era o mais desejado por todos), a final da Liga dos Campeões do próximo sábado promete ser um encontro entusiasmante, especialmente porque os estilos das duas equipas não poderiam ser mais diferentes. Uma vez que o Chelsea foi extensivamente analisado aqui, aqui, aqui e aqui, o texto de hoje debruçar-se-á sobre a equipa alemã.

Enquanto o Chelsea se transformou num coeso bloco defensivo com uma abordagem mais reactiva sob as ordens de Roberto Di Matteo, a postura do Bayern de Munique é mais ofensiva e, por conseguinte, o seu onze apresenta um claro desequilíbrio a favor do sector atacante. Com efeito, é difícil imaginar uma equipa mais adequada (em teoria, pelo menos) à recém-descoberta solidez defensiva do Chelsea. 

  • Pontos positivos
É indiscutível que o Bayern é uma equipa de nível mundial; se assim não fosse, não teria batido Real Madrid, Manchester City e Nápoles - entre outros - a caminho da final. Conforme referido anteriormente, a sua força reside evidentemente nas zonas mais avançadas do terreno, com figuras como Mario Gómez, Franck Ribéry, Arjen Robben e Bastian Schweinsteiger. 

Existem dois aspectos fundamentais no jogo do Bayern. Antes de mais, Mario Gómez. É justo que qualquer análise comece por este fantástico ponta-de-lança alemão de ascendência espanhola. As duas mais recentes épocas deste avançado foram sensacionais e, se não fossem os feitos extraterrenos de Messi, seria o melhor marcador da competição. O outro aspecto são os dois extremos, Ribéry e Robben, jogadores insuperáveis em situações de 1v1 e capazes de semear o pânico em qualquer altura. 

Apesar de a descrição da sua posição ser idêntica, o movimentos de ambos é muito distinto. Enquanto Robben joga junto à linha lateral e tende a flectir para o centro, Ribéry tem maior propensão para pegar na bola em zonas mais recuadas em direcção à linha de fundo.

O Bayern apresenta movimentações interessantes
ao concentrar as atenções numa ala e explorar o lado fraco.
Quando Robben flecte para dentro, Gómez tende a ir ao seu encontro, libertando Ribéry.

  • Pontos negativos
À semelhança do Chelsea, a equipa alemã não poderá contar com jogadores fundamentais, tais como Alaba, Gustavo e Badstuber - o que equivale a quase todo o lado esquerdo. O Bayern tem sido repetida e assustadoramente frágil na ala esquerda. Por exemplo, Ribéry tem uma arreliadora tendência para se alienar das suas tarefas defensivas e tanto Alaba como Gustavo denotam imensas dificuldades em termos posicionais, abrindo-se desse modo brechas na sua muralha defensiva. 

Qualquer equipa que defronte o Bayern
sabe que o flanco esquerdo é a melhor opção para atacar.

Ao que parece, todas essas ausências poderão revelar-se felizes para Jupp Heynckes, uma vez que Lahm actuará provavelmente no lado esquerdo, com Rafinha a ocupar o outro flanco, e Kroos recuará para a sua posição natural ao lado de Schweinsteiger. Com o recuo de Kroos, será provável que Müller seja chamado para jogar na posição 10. A grande questão em torno de Müller é a inconstância das suas exibições, algo que não faz propriamente falta numa final da Liga dos Campeões.

Para além disso, o posicionamento defensivo do Bayern deixa muito a desejar. Talvez a presença de Van Buyten traga consigo alguma estabilidade ao sector mais recuado, uma vez que os homens de Heynckes repetem erros que qualquer equipa de amadores tenta não cometer - como, por exemplo, a ausência de cobertura defensiva ou o desaparecimento de um dos centro-campistas. A título de exemplo, a final da taça alemã deixou a nu as enormes fragilidades do sector contra a simples dupla de ataque de Kagawa e Lewandowski, o que parece deixar a entender que Mata e Drogba estarão na sua zona de eleição.

É invulgar que uma simples estratégia de futebol directo
produza tantas oportunidades de golo.
  • Conclusão
No cômputo geral, o jogo deverá ser equilibrado, dada a tradição da Liga dos Campeões segundo a qual ambas as equipas têm algum receio de sofrer o primeiro golo. Ainda assim, é a opinião deste blogue que a abordagem sóbria e reactiva do Chelsea se sobreporá à atitude mais arriscada e ofensiva do Bayern - embora convenha ter em atenção que as duas equipas estarão desfalcadas de alguns jogadores importantes, o que poderá provocar desequilíbrios numa das equipas (ou até mesmo nas duas).

Thursday, May 10, 2012

Um ano difícil para o tiki-taka


Equipas e movimentações iniciais

Atlético de Bilbau e Atlético de Madrid defrontaram-se ontem numa final exclusivamente espanhola da Liga Europa. Embora Falcao tenha sido o alvo de todas as atenções e eliminado todas as dúvidas (se ainda as houvesse) em relação ao seu valor ao oferecer à sua equipa a taça numa bandeja de prata, deparamo-nos com uma questão mais ampla: estaremos perante o fim de uma era de futebol de posse e o renascimento do catenaccio?

A partida teve um início bastante vivo. Não era difícil prever que o Atlético de Bilbau optaria por jogar e pressionar em zonas mais adiantadas, mas o Atlético de Madrid mostrou-se igualmente destemido e tentou asfixiar o onze de Bilbau na primeira fase de construção (um problema de que os leões não estavam à espera e para o qual não pareciam ter uma solução satisfatória). Com ambos os extremos extremamente subidos e apenas com a linha defensiva e Iturraspe mais perto da bola, os bascos denotavam grandes dificuldades em sair a jogar e, com efeito, o Atlético de Madrid logrou por diversas vezes recuperar a bola em zonas muito perigosas, com pouca cobertura defensiva por parte dos homens de Marcelo Bielsa.

Até ao primeiro golo de Falcao, o Atlético de Madrid pressionou alto, impedindo o Atlético de Bilbau de sair a jogar.

O Atlético de Madrid empurrou sucessivamente o Atlético Bilbau para trás,
destacando sempre um jogador para marcar Javi Martínez.

Conforme é possível verificar nesta imagem,
o Atlético de Bilbau era uma equipa partida,
com muito espaço entre sectores, expondo-se repetidamente ao risco.

Após o primeiro golo, os rojiblancos recuaram as suas linhas por motivos estratégicos. Em primeiro lugar, seria praticamente impossível manter o ritmo inicial e, para além do mais, o resultado era-lhes favorável. Em segundo lugar, se há campo que a equipa de Bielsa tem de melhorar, é a pressão exercida após a perda da bola, abrindo inúmeras brechas. Com Diego, Turan e Adrián, o Atlético de Madrid tinha todas as cartas na mão.

O Atlético de Madrid optou por baixar o bloco após o primeiro golo,
tentando lançar rápidos contra-ataques após recuperar a bola.
No seguimento do primeiro golo, o encontro entrou num padrão repetitivo, com o Atlético de Bilbau a insistir na verticalidade (excessiva) e a ter pouca paciência para encontrar os espaços na armadura do seu oponente. Por seu turno, os colchoneros recuavam, atraindo o adversário para a armadilha e contra-atacando de súbito. Apesar dos soberbos golos de Falcao, as honras de melhor jogador em campo deveriam recair em Diego. O médio brasileiro, habitualmente pouco disposto a exercer tarefas defensivas, foi brilhante na forma como foi capaz de desempenhar duas funções defensivas, anulando efectivamente Javi Martínez e Iturraspe, os motores da equipa de Bilbau.

Quando a bola estava em posse de Javi Martínez, Diego subia ao seu encontro.

Cinco segundos depois, Diego estava a marcar Iturraspe.

Na verdade, a exibição de Diego faz-nos pensar se estaremos de volta a 1994. Nessa altura, o Barcelona tinha o cognome de Dream Team e era liderado por Guardiola (em campo), no seguimento da conquista da Taça dos Campeões Europeus em 1992. Em 1994, os catalães defrontavam o Milan na final e não restavam dúvidas de que os italianos seriam trucidados. Contudo, os homens de Fabio Capello (sim, esse Capello) foram insuperáveis em termos posicionais e massacraram os espanhóis por 4-0, concedendo a maior fatia da posse de bola - estabelecendo o padrão de quase uma década de blocos baixos, velozes transições e rápidos contra-ataques.

Este ano, vimos diversas equipas que assentam o seu jogo num padrão de passe curto e desmarcação a serem suplantadas por onzes dispostos num defensivo 4x4x1x1; os exemplos do Barcelona, Atlético de Bilbau, Manchester City, entre outros, vêm imediatamente à memória. Estaremos a testemunhar o fim de um ciclo? Servirá o Europeu deste ano para confirmar a tendência e veremos a Espanha a ser eliminada por uma equipa de cariz defensivo com duas linhas de quatro?

Monday, May 7, 2012

O derradeiro confronto de estilos


Equipas e movimentações iniciais

Na passada segunda-feira, Newcastle e Manchester City encontraram-se em nome das suas ambições. O City jogava para o título, após derrotar o Manchester United há uma semana atrás e o Newcastle pretendia continuar a aspirar a um lugar na Liga dos Campeões do próximo ano. Embora tenha sido um jogo interessante, debruçar-nos-emos sobre aspectos específicos e na forma como traduzem uma visão diferente sobre o futebol.

Com efeito, esta partida foi um dos melhores exemplos do confronto entre o futebol inglês e o continental. Tal como Roberto Mancini, o treinador do Newcastle, Alan Pardew, optou por manter o mesmo onze que vencera em Stamford Bridge há alguns dias - um 4x4x2 híbrido, dado que Gutiérrez colabora defensivamente e actua em terrenos mais interiores do que Ben Arfa. Para além disso, Ba ficava atrás de Cissé, descaindo para a esquerda.

Por seu turno, o Manchester City também manteve a mesma equipa e abordagem, embora Yaya Touré tivesse actuado de forma mais contida do que o habitual - antes de se deslocar para zonas mais avançadas, no decorrer da segunda parte. Com Nasri, Tévez e Silva, os forasteiros mostravam-se extremamente móveis e, devido à baixa estatura dos seus avançados, insistiam em atacar pela ala.


  • Ataque
Conforme explicitado mais atrás, as duas equipas denotavam abordagens bastante diversas. O Newcastle dava ares de uma típica equipa britânica dos anos 90. Com Ba e Cissé, a equipa da casa não tinha pejo em lançar bolas longas (especialmente o guarda-redes Tim Krull), geralmente com Ba a tentar lançar Cissé. Quando não resultava, Ben Arfa era o escolhido, na esperança de uma acção mais individualista.

Por outro lado, os homens de Mancini mantiveram-se fiéis ao seu futebol de passe e movimentação. Tal como referido, Touré preocupou-se mais com as suas tarefas defensivas, mas os Citizens continuaram a carregar pelo flanco direito. Ao contrário do seu adversário, criaram superioridade numérica nas alas, particularmente quando Tévez descaía para esse lado, juntamente com Nasri e Zabaleta. Com Cabaye mais adiantado, Tioté tinha de optar por cobrir essa ala e deixar o centro aberto ou deixar Santon e Gutiérrez à sua sorte. Na maioria das vezes, decidiu-se pela segunda opção.

  • Defesa
A partida de ontem foi o exemplo acabado de como desconstruir a estratégia das duas linhas de quatro homens. O Newcastle utilizou esta aparentemente redescoberta abordagem e sofreu muito à custa disso. Ao dar-se ao luxo de deixar pelo menos dois homens na frente (Ba e Cissé e, por vezes, Ben Arfa), o meio-campo dos visitados foi constantemente ultrapassado com simples triangulações, embora se trate de uma equipa bem trabalhada ao nível defensivo. Ainda assim, foi estranho não ver o habitualmente perfeccionista Pardew efectuar os ajustes necessários ao intervalo.

Foi evidente que Mancini estudou o seu oponente, tendo colocado Touré sobre a direita do seu meio-campo para ajudar Kompany e Zabaleta nos duelos aéreos com Ba e Cissé. Ao fazê-lo, os homens de Mancini foram capazes de suster a ameaça do Newcastle, uma vez que a sua bola de saída preferencial não surtia efeito. Com este aspecto em particular, Mancini demonstrou uma vez mais preferir uma abordagem cerebral (continental) ao invés de emocional (britânica). O único erro do City ao longo da partida residiu na liberdade conferida a Ben Arfa, jogador que poderia ter sido decisivo, mas o seu líder técnico foi suficientemente inteligente para introduzir Nigel de Jong, de modo a que Barry pudesse prestar mais atenção a Ben Arfa.

  • Transições
Um outro aspecto relevante foi a reacção de ambas as equipas à perda da bola. Com o seu 4x4x2, os jogadores do Newcastle foram apanhados por diversas vezes em contrapé por não conseguirem recuperar as suas posições de forma suficientemente rápida ou porque Cabaye não tinha pernas para recuar. Ao invés, Barry e Touré mantiveram-se sempre sóbrios e os dois defesas-centrais (especialmente Kompany) não hesitaram em avançar para quebrar os movimentos ofensivos do Newcastle.

Com dois avançados possantes como Ba e Cissé, é estranho que o lado por onde os Magpies optam por atacar - a esquerda - seja ocupado por dois jogadores incapazes de cruzar com o pé esquerdo e com tendência natural para flectir para dentro. Quando o jogo começou a ficar partido (Silva raramente recua nas segundas partes), a equipa da casa poderia ter causado danos, mas nem Santon nem Gutiérrez foram capazes de fazer um cruzamento com conta, peso e medida.

  • Conclusão
No cômputo geral, foi um interessante e evidente confronto de estilos entre duas filosofias futebolísticas vincadamente distintas. O City ficou mais próximo do seu potencial máximo, ao passo que as fragilidades do Newcastle e a ausência de um plano B ficaram à vista, muito embora se trate de uma equipa que conta com algumas pérolas - o caso de Cabaye vem imediatamente à memória, juntamente com Cissé, como não poderia deixar de ser.

Sunday, May 6, 2012

Chelsea conquista a FA Cup


Equipas e movimentações iniciais

Após uma longa pausa forçada, A Bola do Vasco está de volta - e com nada mais, nada menos do que uma análise sobre o encontro entre Chelsea e Liverpool. No passado sábado, as duas equipas defrontaram-se no primeiro dos dois jogos no espaço de quatro dias. Desta feita, o Chelsea levou a melhor sobre o Liverpool, mas à justa.


Os homens de Roberto Di Matteo iniciaram a partida plenos de confiança, como resultado directo das suas últimas proezas. Com o onze preferido de Di Matteo para as batalhas mais difíceis, o Chelsea apresentou-se coeso, intenso (tanto ofensiva como defensivamente) e com vocação atacante. Por outro lado, a equipa treinada por Kenny Dalglish entrou claramente na expectativa e optou por uma postura menos ousada.


Com Gerrard e Mata com instruções para se juntarem ao seu meio-campo, o centro do terreno estava algo congestionado, como seria de esperar. No entanto, o golo do Chelsea ao fim de dez minutos agitou o evento e serviu como evidência das intenções ofensivas dos Blues. A jogada que deu origem ao golo foi igualmente útil para avaliar a importância da cobertura ofensiva e defensiva, assim como a abordagem de Luís Enrique no duelo com Ramires.


Nunca é de mais realçar a importância da cobertura ofensiva e defensiva.
Spearing (azul) acaba de errar um passe.
Henderson está mais adiantado e Gerrard não é sequer visível.
Percebendo o perigo para a sua equipa, Gerrard (vermelho) recua em sprint,
enquanto Henderson volta devagar.
Mata tem todo o tempo para escolher o passe.
Adicionalmente, Luís Enrique toma a decisão errada de tentar o desarme,
em vez de retardar Ramires e esperar por reforços, permitindo que Ramires passasse.


Na verdade, o meio-campo do Liverpool foi um dos principais problemas. Com Gerrard junto a Suárez e Henderson demasiado adiantado, Spearing foi presa fácil para Mata, o qual estava ao seu melhor nível nas costas do meio-campo do seu adversário e desposicionava Spearing com enorme facilidade. Com o Chelsea fiel ao seu agora habitual 4x4x1x1, as transições ofensivas tinham como alvo Drogba, que demonstrava enorme facilidade em combinar com o génio espanhol para que este assistisse os seus colegas.


Ao contrário de outros jogos, Lampard jogou mais avançado do que Mikel e teve autorização para aparecer perto da grande área adversária, agravando ainda mais a situação dos Reds. Por seu turno, o Liverpool mostrava-se extremamente lento em posse e denotava a ausência de uma centelha criativa. Com efeito, Gerrard recuou inúmeras vezes para pegar no jogo, deixando Suárez ainda mais desacompanhado na frente. Dada a inofensiva ameaça do seu oponente, Ivanovic não tinha qualquer problema em ir ao encontro do avançado uruguaio, impedindo que o Liverpool emprestasse qualidade à sua posse de bola.


Note-se a protecção deficiente da linha defensiva do Liverpool ao longo de todo o encontro.


Dalglish tinha de mudar algo para a segunda parte e optou por um 4x4x2 mais tradicional, com Henderson como médio-direito, Gerrard ao lado de Spearing e Bellamy atrás de Suárez. De forma algo previsível, o meio-campo do Liverpool foi contornado com enorme facilidade, especialmente para o segundo tento do Chelsea, apontado por Drogba.


Com uma simples finta, Lampard liberta-se e tem todo o espaço para assistir Drogba.
O encontro parecia praticamente decidido, mas, três minutos mais tarde, Dalglish substituiu Spearing por Carroll. Henderson regressou ao seu posto mais natural no centro do meio-campo, Bellamy voltou à ala direita e Suárez deslocou-se para trás de Carroll. Como se viria a verificar, Carroll foi uma presença absolutamente fulcral para devolver o Liverpool ao jogo. O corpulento avançado não só tirou o máximo proveito de um erro defensivo do Chelsea para o primeiro golo, como também ofereceu um foco para o ataque da sua equipa, em particular porque tanto Terry como Ivanovic denotavam imensas dificuldades em lidar com o físico e a abordagem do ex-jogador do Newcastle.


Após reentrar na partida, o Liverpool continuou a pressionar os Blues, cujo treinador demorou a aperceber-se do cansaço óbvio da sua equipa. Foi então que Carroll demonstrou toda a sua valia, não oferecendo qualquer período de recuperação à linha defensiva do Chelsea, dando-lhe a provar um pouco do seu veneno - na verdade, Carroll foi extremamente infeliz ao não ver validado aquele que seria o seu segundo golo, já perto do fim do encontro.


Em última análise, ganhou a melhor equipa. O Liverpool raramente foi agressivo, teve inúmeros problemas em sair a jogar, foi lento na circulação de bola e não foi propriamente ambicioso. Ao invés, o Chelsea teve sempre a intenção de controlar o jogo e o respectivo ritmo e, se não fosse o golo algo fortuito de Carroll, teria provavelmente ganho a partida com facilidade.

Friday, April 6, 2012

Benfica - o que melhorar para a próxima época?


É sempre difícil, arriscado e talvez injusto analisar os pontos a melhorar numa equipa que alinhou sem nenhum dos seus defesas-centrais e que estava com dois golos de desvantagem (no conjunto das duas mãos da eliminatória) quando um dos seus melhores jogadores foi expulso. Ainda assim, embora os encarnados tenham saído de Stamford Bridge de cabeça erguida, é precisamente isso que vamos fazer - porque há pormenores que podem - e devem - ser corrigidos, apesar da atitude guerreira do onze benfiquista.

Chelsea e Benfica ofereceram um espectáculo palpitante na passada quarta-feira, num encontro que apuraria o próximo adversário do Barcelona nas meias-finais da Liga dos Campeões. À imagem do que tinha acontecido na partida contra o Sporting de Braga, as águias não se importaram de partir o jogo ao meio, de modo a tirar proveito da lentidão da defensiva contrária. Como tal, ninguém terá sido surpreendido ao assistir, tal como no jogo contra os bracarenses, a um encontro recheado de oportunidades de golo, grandes defesas dos guarda-redes e um público da casa com os nervos à flor da pele.

No presente texto, iremos debruçar-nos sobre 3 questões particulares: posicionamento defensivo, situações defensivas de bola parada e transições defensivas. É justo dizer que o Benfica não teve a sorte do seu lado nos dois jogos, mas não é menos verdade que as equipas mais fortes da Liga dos Campeões tendem a castigar adversários com menor potencial precisamente nesses "detalhes" de menor importância, à primeira vista. Se as águias têm como objectivo capitalizar a experiência adquirida ao longo desta época, deverão ser suficientemente humildes para reconhecer que existe uma diferença considerável entre o futebol português e a prova mais importante a nível europeu - quanto mais depressa o admitirem, mais rapidamente se tornarão um clube a ter em conta por mérito próprio.

1. Posicionamento defensivo. O Benfica é muitas vezes louvado pelo seu implacável futebol de ataque, uma abordagem que quase teve a sua recompensa na passada quarta-feira. No entanto, uma boa cobertura e posicionamento defensivos constituem uma base em que qualquer clube com aspirações de grandeza deve assentar. Independentemente dos danos que tanto Bruno César como Maxi Pereira possam infligir no campo do seu adversário, é igualmente importante que sejam capazes de dominar as suas tarefas defensivas - algo em que nem sempre têm sido bem sucedidos ao longo desta temporada.

Maxi Pereira sobe para marcar Kalou, acabando por ficar lado a lado com Bruno César.
Note-se o espaço nas costas dos dois jogadores, com uma cobertura reduzida por parte de Javi García.

Kalou desmarca-se com uma simples "tabela". Javi García já vai atrasado para fazer a cobertura.


2. Situações defensivas de bola parada. É do conhecimento público que o Benfica semeia o caos com os seus lances de bola parada na zona ofensiva, mas é menos consesual que os comandados de Jorge Jesus são extremamente vulneráveis quando no outro lado da barricada. Recentemente, os vice-campeões nacionais sofreram golos neste tipo de jogada contra o FC Porto e Sporting de Braga (referindo apenas os jogos de maior dimensão) e, no último encontro, foram felizes ao não verem o Chelsea a marcar a partir de cantos, em particular. Apesar das recentes alterações promovidas por Jesus ao nível da marcação zonal, subsistem ajustes a fazer no sentido de vencer equipas mais fortes.

O Benfica insistiu em concentrar um grande número de jogadores na zona do primeiro poste.
Como resultado, David Luiz acaba por ficar sozinho, sem qualquer marcação. Note-se o espaço no segundo poste.

Após um mau alívio, Luiz recebe a bola sem marcação e quase sem oposição.
Capdevila acabou por evitar males maiores, nesta ocasião.

3. Transições defensivas. Muito provavelmente, o aspectomais importante no futebol moderno. A maioria das equipas sabe que é necessário retirar a bola da zona de pressão a seguir à sua recuperação, uma vez que não é expectável que os adversários tenham o mesmo número de jogadores no lado fraco (longe da bola). Os jogadores estão cada vez mais cientes de que a bola tem de rodar de um lado para o outro - de preferência de forma rápida -, no sentido de encontrar uma brecha. A questão que tende a separar as equipas nos dias que correm é a reacção ao momento em que perdem a bola. É verdade que não se trata de algo que apareça nos resumos, mas veja com os seus próprios olhos e analise com mais atenção. O facto de as melhores equipas serem geralmente as mais eficazes nas transições defensivas não pode ser coincidência - ou acha mesmo que o mérito do Barcelona (por exemplo) se baseia apenas no ataque?

Bruno César e Maxi em zonas avançadas do terreno. Nenhum deles faz falta para parar o contra-ataque.
O Benfica está prestes a ter sete jogadores à frente da linha da bola.
 
Javi García (o pêndulo da equipa, de punho fechado) faz a intercepção segundos mais tarde
e diz aos seus colegas que deveriam ter "matado a jogada" quando tiveram a oportunidade.

Note-se a diferença em situação inversa. Artur acaba de entregar a bola para um rápido contra-ataque.
Apercebendo-se de quantos jogadores do Chelsea estão à frente da bola,
Lampard faz rapidamente falta para parar a jogada.

Conclusão. Tudo isto que aqui foi escrito pode ser encarado como algaraviada táctica, mas, muitas das vezes, estes momentos são decisivos para o resultado de um determinado jogo. Embora o Benfica seja capaz de contornar a sua desatenção defensiva na maioria dos jogos do campeonato português, a Liga dos Campeões é muito mais competitiva - e os "tubarões" não se importam de esperar pelas suas presas.

Monday, April 2, 2012

O estranho caso de Hugo Viana


Ultimamente, inúmeros colunistas e comentadores têm caracterizado como pouco razoável a ausência de Hugo Viana do onze titular da equipa das quinas no próximo Campeonato Europeu (ou, pelo menos, a sua falta no grupo da Selecção).Com efeito, o médio bracarense tem vindo a revelar-se como provavelmente o melhor médio desta edição da Liga Zon Sagres e, como tal, é natural que se questione a sua ausência.

No futebol, como em tantas outras áreas, o contexto é fundamental. Quer se trate do treinador de um clube ou de um seleccionador nacional, é essencial que os jogadores contratados/seleccionados correspondam ao modelo de jogo do treinador, e não apenas em função das suas boas exibições no seu clube (anterior). Caso contrário, o treinador ver-se-á confrontado com um punhado de jogadores com pouco ou nada em comum, criando cenários caóticos que vemos com demasiada frequência no futebol (o caso de Gian Piero Gasperini no Inter vem imediatamente à memória*), nos quais o treinador tem em mãos a ingrata tarefa de tentar congeminar um qualquer modelo capaz de acolher todos os atletas. Se dúvidas houvesse, essa é a forma ideal para arruinar uma equipa e o respectivo treinador - bastando pensar na forma como Real Madrid, Liverpool, Chelsea ou Manchester City acabaram por gastar tanto dinheiro em contratações malogradas (de Wayne Bridge a Shevchenko ou Torres, de Robinho a Sahin, passando por Carroll ou Charlie Adam), clubes esses que tiveram uma enorme dificuldade em livrar-se desses activos. No caso das selecções nacionais, será suficiente pensar nos motivos que levam os próprios adeptos a criticarem os desempenhos de Messi, Ronaldo, Lampard ou Gerrard (entre muitos outros casos).

Por mais decisivo que Viana tenha vindo a ser na fantástica temporada do Sporting de Braga, é importante verificar se as suas características, qualidades e defeitos se adequam às ideias de Paulo Bento. Não é o objectivo do presente artigo concordar ou discordar das perspectivas do seleccionador nacional, uma vez que lhe compete a ele - e só a ele - tomar as decisões nos melhores interesses da equipa.

1. A táctica do Sporting de Braga. O Sporting de Braga de Leonardo Jardim joga habitualmente em 4x2x3x1, com Custódio como pivô defensivo e Viana por perto. Para além disso, Jardim conta com Lima, um avançado rápido e extremamente móvel, com Mossoró a assumir-se como a ligação entre meio-campo e ataque. Os passes teleguiados de Viana constituem uma alternativa a Mossoró, permitindo ao Sporting de Braga lançar rápidos contra-ataques circunscrevendo Mossoró com passes longos para a velocidade de Lima ou Alan. Defensivamente, os minhotos tendem a assumir uma postura conservadora, actuando com um bloco baixo com duas linhas de quatro. Existem diversos jogadores em torno de Viana para lhe fornecer a cobertura defensiva necessária quando se ausenta para um ataque, por exemplo.

2. A táctica de Portugal. Uma vez mais, esta questão não pretende discutir se se trata da melhor opção para Portugal, mas sim se Hugo Viana é uma escolha adequada. O onze português distribui-se num 4x3x3 há já algum tempo a esta parte. Paulo Bento tem mantido João Moutinho e Raúl Meireles no onze, recentemente com Miguel Veloso no lugar de Carlos Martins. Parece evidente que Bento tem em mente uma equipa capaz de pressionar em zonas mais avançadas quando tal for necessário, uma tarefa para a qual Hugo Viana não parece fadado. Ao contrário do Sporting de Braga, Portugal não dispõe de um típico n.º 10, o que significa que ambos os centro-campistas (à frente de Veloso) têm de defender e atacar - se analisarmos mais de perto as mais recentes convocatórias da Selecção, veremos que Paulo Bento tem convocado jogadores capazes de fazerem isso mesmo, tais como Meireles, Moutinho, Ruben Micael ou Ruben Amorim. Os próprios casos de Castro ou André Santos ficam a dever-se precisamente por satisfazerem os requisitos. Com tantos jogadores de características ofensivas na linha mais recuada (João Pereira e Fábio Coentrão, por exemplo) e extremos que raramente contribuem defensivamente (Nani, Ronaldo, Quaresma), compete aos médios fornecerem a cobertura defensiva, e não o contrário.

3. A abordagem de Portugal. Com base no percurso de Paulo Bento até agora, parece lógico assumir que a abordagem do seleccionador divergirá da de Carlos Queiroz. Em vez de esperar pelos seus adversários, a Selecção procurará abafar os adversários e jogar com uma linha defensiva (mais) subida. Uma vez mais, tal não joga necessariamente a favor de Hugo Viana, um jogador particularmente atreito a acusar sinais de cansaço à medida que o jogo se desenrola e que não costuma apreciar jogar em equipas nesse molde. Para além disso, Viana é vulnerável em situações de jogo mais físicas (conforme foi evidente na eliminatória contra o Besiktas), uma ameaça com que se depararia na maioria dos encontros do Campeonato Europeu.

Conclusão. Em resumo, não creio que se trate de um caso em que um treinador teimoso não aceita admitir o erro do seu primeiro julgamento, mas sim de um caso em que o jogador em questão não casa bem com a táctica e abordagem da equipa. Para colocar a questão em perspectiva, por mais importantes que estes jogadores sejam nos seus clubes actuais, seria irrazoável o Barcelona contratar Luisão, o Milan recrutar James Rodríguez ou o Manchester City recorrer aos préstimos de Matías Fernández - os princípios das equipas e as características dos jogadores não combinam, pura e simplesmente. Pessoalmente, considero que Hugo Viana poderia revelar-se um jogador precioso (particularmente em encontros em que Portugal não se assumisse como claro favorito), mas creio que os seus minutos de jogo seriam limitados.

*Gian Piero Gasperini foi contratado pelo Inter no início da presente época, sendo despedido após cinco jogos (sem vitórias). A ironia do despedimento foi o facto de tal se ficar a dever à implementação do modelo de jogo do treinador italiano (muito intenso e sabidamente de pressão alta), um modelo que não se adequava de todo aos jogadores à sua disposição - quase todos eles na casa dos trinta.

Sunday, April 1, 2012

Num jogo surpreendentemente aberto, Benfica vence ao cair do pano


Equipas e movimentações iniciais

No passado sábado, Benfica e Sporting de Braga defrontaram-se no primeiro dos três jogos que se disputarão em pouco mais de uma semana que poderão decidir de uma vez por todas o vencedor do campeonato português. Cientes da vitória do FC Porto conquistada poucos minutos antes do apito inicial, ambas as equipas sabiam que vencer esta partida era absolutamente fundamental. Como tal, não se assistiu a um jogo fechado, mas sim a um encontro inacreditavelmente aberto que qualquer uma das equipas poderia ter ganho.

O confronto da noite passada constituiu o derradeiro exemplo do melhor que ambos os clubes tinham a oferecer. Por um lado, o Benfica manteve o proverbial pé no acelerador (talvez tentando compensar a performance menos exuberante da passada terça-feira contra o Chelsea) e jogou insistentemente ao ataque desde o começo. Por outro lado, o Sporting de Braga mostrou-se igual a si mesmo, defendendo de forma organizada e provando a sua mestria no contra-ataque.

Como habitualmente, a abordagem defensiva do Braga passou por um quase exemplar 4x4x2

Os encarnados tentaram abafar o seu adversário desde os primeiros segundos, com Rodrigo no lugar do suspenso Aimar. Na verdade, o avançado espanhol foi um dos motivos pelos quais as águias desfrutaram de um excelente início de jogo. Com efeito, não só jogou por trás de Cardozo, como insistiu também em descair para a ala esquerda, criando situações de superioridade numérica com a colaboração de Gaitán e Capdevila (o qual, jogando no lugar habitualmente ocupado por Emerson, ofereceu maior fluidez no jogo ofensivo da sua equipa). Por seu turno, o Sporting de Braga tinha claramente a lição bem estudada e, como tal, sabia por onde lançar os seus contra-ataques, particularmente pelo seu lado esquerdo, explorando o espaço que tanto Maxi Pereira como Witsel (o qual actuou em zonas mais avançadas do que o habitual, numa posição semelhante àquela em que actuou no jogo contra o Zenit em casa) deixavam nas suas costas.

Witsel (círculo vermelho) jogou mais à frente do que o habitual

O Benfica mostrou-se muito forte na recuperação da bola em pressão alta, tendo conseguido fazê-lo com frequência, particularmente durante a primeira parte. Contudo, quando os bracarenses conseguiam furtar-se à primeira zona de pressão e fazer chegar a bola a Hugo Viana, criavam situações ameaçadoras, encontrando imenso espaço e poucos defensores à sua frente. Estranhamente, um confronto tão aberto não dispôs de muitas oportunidades de golo durante a primeira parte.

Após sair da primeira zona de pressão do Benfica, os minhotos tinham muito espaço para explorar.
Note-se a quantidade de espaço e o número de adversários à frente de Mossoró.

A segunda parte trouxe consigo mais do mesmo, mas de forma ainda mais acentuada. Nenhuma das equipas podia dar-se ao luxo de perder mais pontos (nomeadamente a equipa da casa) e, como tal, foi sem surpresa que houve mais situações de golo nos primeiros 10 minutos da segunda parte do que em toda a primeira metade. Os encarnados mostravam-se ainda mais afoitos no ataque, abrindo espaços nas suas costas. Com Alan menos preso a amarras defensivas (durante os primeiros 45 minutos, foi apenas e só um médio-direito, em vez de um extremo), era impossível adivinhar quem marcaria o primeiro golo.

Aos 60 minutos, os comandados de Jorge Jesus começaram a acusar o cansaço, incentivando os forasteiros a tentarem a sua sorte e levarem mais do que o empate para o Minho, transformando o jogo num festim de situações de perigo. Ironicamente, o primeiro golo surgiria da marca da grande penalidade, imprudentemente cometida por Elderson ao cabecear Bruno César em vez da bola. Quatro minutos depois, o mesmo Elderson viria a redimir-se ao marcar na recarga a uma defesa de Artur, no seguimento de um livre marcado por Hugo Viana. O último golo apareceria de forma dramática no 92º minuto, numa altura em que o Sporting de Braga estava já defensivamente desequilibrado com as substituições de cariz ofensivo realizadas poucos minutos antes, na procura do empate.

Em resumo, foi algo estranho ver duas equipas com tão bons resultados recentes na Europa (as águias nos quartos de final na actual edição da Liga dos Campeões e os minhotos como finalistas vencidos da Liga Europa da época passada) - geralmente, um bom indicador da capacidade de controlar um jogo - a proporcionarem um jogo tão aberto. Em termos tácticos, foi interessante constatar que a partida de ontem foi um espelho fiel do desempenho das duas equipas ao longo da temporada - tanto nos aspectos positivos como negativos. Na verdade, este encontro não se assemelhou a um típico jogo do título português, mas sim aos jogos loucos entre os 5 primeiros classificados desta temporada na Premier League.