Thursday, April 9, 2009

O clímax de uma época

O FC Porto fez na passada terça-feira uma das suas melhores exibições de sempre na Europa. É justo prestar uma homenagem a Jesualdo Ferreira - não só pelo jogo contra o Manchester United, mas, acima de tudo, pelo período que distou entre a sua contratação e o dia de hoje.

Na verdade, o jogo em Manchester foi para mim o apogeu de uma linha cronológica que começou quando Jesualdo foi contratado para colmatar a vaga deixada em aberto pelo errático Co Adriaanse. Pegando numa equipa que não tinha sido montada à sua imagem, o treinador portista foi capaz de ser campeão nessa época, não logrando convencer a tradicionalmente exigente massa associativa portista. Na época seguinte, mais do mesmo, incluindo exibições muito pouco convincentes frente a adversário do mesmo gabarito, excepção feita à exibição produzida na Luz a seguir a mais uma derrota europeia.

No entanto, foi neste ano - depois de perder Quaresma, Bosingwa e Paulo Assunção - que Jesualdo mostrou os seus verdadeiros dotes, quanto a mim. Ao ver-se forçado a reconstruir uma equipa (por muito que alguns jogadores importantes tenham ficado, a forma de jogar de equipa teve de ser radicalmente alterada, o que muda muitos processos) e a contornar o constante apagamento de Lucho González, o treinador azul e branco mostrou a sua verdadeira fibra e terá, digo eu, convencido de vez os adeptos portistas. Ser capaz de, em pouco tempo, passar da equipa frágil e sem identidade que perdeu contra Leixões e Dínamo de Kiev em poucos dias (não esquecendo a copiosa derrota contra o Arsenal) para a equipa que mostrou aos excessivamente confiantes adeptos ingleses que também se pode jogar bom futebol fora da sua ilha não está ao alcance de muitos. Pelo facto, tiro o meu chapéu.

Gostaria no entanto de fazer uma pequena ressalva. Não obstante todos os méritos apontados a Jesualdo, continuo firme nas minhas convicções (que creio serem validadas pelas mais recentes exibições dos dragões) segundo as quais o melhor caminho para o sucesso passa por uma identificação clara dos nossos objectivos e não nos encolhermos perante nomes teoricamente mais sonantes, como o técnico portista fez não raras vezes frente a clubes mais cotados. Talvez o maior mérito de Jesualdo seja o facto de ter conseguido aprender com os seus próprios erros. Acima de tudo, interessa sermos melhores hoje do que éramos ontem. Esse é para mim o principal indicador de sucesso.

A tradição ainda é o que é

O Boavista FC emitiu anteontem um comunicado onde apontava o dedo a várias instituições devido à eventual preferência dada por várias árbitros à Oliveirense, equipa envolvida na luta pela fuga à despromoção, à imagem do Boavista.

Qualquer consideração que pudesse ter por Álvaro Braga Júnior, presidente do Boavista, desvanceceu-se depois de ler o comunicado em questão. Como tantas e tantas vezes acontece, os presidentes dos clubes refugiam-se em todas as desculpas mais ou (regra geral) menos plausíveis para escamotearem a falta de algumas virtudes. Triste, acima de tudo.

Thursday, April 2, 2009

Onde reside a força?

Numa declaração proferida esta semana, Carlo Ancelotti, treinador do AC Milan, afirmou algo que reflecte a minha opinião pessoal. Segundo o técnico transalpino, o Liverpool é a equipa mais difícil de defrontar. Ancelotti admitiu que o Manchester United era mais forte, mas que era uma equipa que deixava jogar o adversário, ao contrário dos de Liverpool, que defendem muito bem e têm um contra-ataque quase perfeito, nas palavras do técnico rossonero.

Esta afirmação vem de encontro à minha perspectiva sobre o sorteio da Liga dos Campeões, pois creio que, apesar de o Manchester United ser um adversário temível, tem algumas características que poderão vir a revelar-se favoráveis ao FC Porto ao longo da eliminatória. De todas as equipas presentes no sorteio dos quartos-de-final, o Liverpool parecia-me a mais problemática - por defender muito bem e por apostar num tipo de jogo frequentemente semelhante ao que o FC Porto irá previsivelmente adoptar nesta eliminatória.

O estado da nação


Por vias da minha actividade profissional, dei por mim na semana passada a visitar algumas fábricas de uma região portuguesa aparentemente em crise. Confesso que, ao início, a minha apreensão era grande - receava que o choque de realidades fosse demasiado abrupto. No entanto, a única coisa que posso fazer é tecer os mais rasgados elogios aos gerentes e administradores das empresas - que parecem continuar a conseguir fazer milagres, descobrindo constantemente nichos de mercado - e, acima de tudo, aos funcionários dessas empresas, por continuarem a dar o litro, por preferirem trabalhar a viver à custa dos muitos subsídios que por aí há, por não virarem a cara aos momentos difíceis.

Mas o que tem isto a ver com futebol? Na minha opinião, tudo. Foi revigorante ver empresas com mais de 800 funcionários a operarem na perfeição, com todo o respeito pelos direitos dos trabalhadores. Foi estranhamente inesperado entrevistar colaboradores das mais variadas empresas e constatar que o respeito que a administração possa ter ou não por essas pessoas continua a ser tão ou mais importante do que o salário ao final do mês (embora todos nós gostássemos de ganhar mais dinheiro, naturalmente). Mas, acima de tudo - no que diz respeito a este blogue, pelo menos -, foi um óptimo alimento para a alma verificar que é possível ter as contas controladas, saber onde param os activos, quanto se pode gastar no período fiscal seguinte ou onde estão os possíveis nichos de mercado do futuro.

A única coisa que me vinha à mente era sempre idêntica: porque é que é tão difícil fazer isto no futebol? Por que razão continuamos a fazer vista grossa a tantas evidências de que algo está mal? Quantas mais greves como as do Estrela da Amadora ou do Vitória de Setúbal teremos de ver até nos capacitarmos que temos mesmo de inverter a situação?

"Mea culpa"


Há muitos motivos pelos quais admiro o trabalho de José Mourinho, actual treinador do Inter de Milão. Aprecio a sua capacidade de trabalho, de análise da sua equipa e do adversário, de contínua sistematização das suas ideias no treino e no jogo e de conseguir retirar rendimento de jogadores que, à primeira vista, pareciam estar fadados para o insucesso. Aprendi a vê-lo colocar jogadores medianos a render o que nunca tinham rendido até então e nunca mais renderam desde esse momento (o caso de Joe Cole ou Marco Ferreira vem-me imediatamente à memória).

No entanto, há uma outra parte de Mourinho que me cativa: a sua frontalidade em algumas ocasiões. Numa entrevista realizada ontem num canal televisivo italiano, o treinador português não teve qualquer problema em admitir que a contratação de Quaresma não só tinha sido um erro, como admitiu também tratar-se de um erro seu. Não conheço muitos treinadores que não se refugiem na diplomacia das respostas-tipo a este tipo de questões, mesmo depois de se retirarem do activo. Mourinho não teve papas na língua e assumiu uma má contratação (e dispendiosa) feita pelo clube no qual ainda se encontra.

Na minha opinião, são pequenas atitudes como estas que vão aproximando os adeptos das equipas de Mourinho dos jogadores. Mourinho podia ter contornado a questão ou atirado a responsabilidade para um qualquer infortúnio do destino. Ao invés, assumiu a sua culpa, mostrando aos adeptos interistas que não só é capaz de errar, como também de reconhecer os seus próprios erros. Qualquer adepto ficaria contente por ver o seu treinador fazer um mea culpa por uma contratação cara falhada, não?

A lei da simulação


Lisandro López foi ontem castigado com um jogo por ter originado o penalty que viria a dar o golo do FC Porto no recente derby que opôs FC Porto e Benfica. Já ouvi hoje inúmeras vozes levantarem-se contra a decisão pelos mais diversos motivos - desde logo, perguntando se esta terá sido o único caso desta estirpe nos últimos dois anos desde que o actual regulamente foi aprovado. Não obstante as eventuais questões que possam levantar-se à volta da decisão, creio que terá sido dado um bom passo. Esperemos que, daqui para a frente, quem pretenda simular faltas hesite antes de o fazer. Todos nós que gostamos de futebol teríamos a ganhar.

Como praticante, reconheço que é quase sempre necessária uma boa dose de matreirice. No entanto, traço uma distinção clara entre ser mais inteligente do que o adversário e levá-lo a cometer falta e fingir ser tocado para daí tirar vantagem. Colocando a questão em termos práticos: saber posicionarmo-nos para provocar a falta ao adversário é sinal de inteligência e boa leitura de jogo. Mergulhar sem qualquer acção do oponente é faltar à verdade desportiva.

O único comentário adicional que gostaria de tecer é tão só e apenas: mantenha-se a consistência e haja coragem para continuar a tomar estas decisões.

PS: Não obstante tudo o que escrevi atrás, creio que os órgãos disciplinares da Liga poderão vir a deparar-se com um problema, pois haverá agora muito mais vozes atentas a possíveis simulações e que bradarão igual tratamento. A ver vamos se não se abrirá mais uma caixa de Pandora na arbitragem portuguesa.

Tuesday, March 10, 2009

Como perpetuar um mito

Uma das frases repetidas até à exaustão ao longo dos últimos anos é a crescente importância dos lances de bola parada. Hoje em dia, é quase impossível ver e ouvir um jogo na televisão ou no rádio e não ouvir um comentador referir o carácter decisivo deste tipo de jogadas.

Na verdade, a análise estatística dos mais recentes eventos desportivos (três últimas edições da Liga dos Campeões e o mais recente Campeonato Europeu de Futebol), patente nos Relatórios Técnicos disponibilizados pela UEFA a quem pretender analisá-los, remete-nos para outro tipo de conclusões, indicando que a preponderância destes lances tem vindo a diminuir progressivamente. Na verdade, no último Europeu, por exemplo, verificou-se que apenas 1 em cada 64 destas jogadas terminava em golo, o que remete para um baixo índice de eficácia e reduzida probabilidade de golo.

Se, até há algum tempo, se constatava de facto que as bolas paradas decidiam muitas vezes jogos - especialmente por muitas das equipas não estarem alertas para esse facto -, hoje em dia, a maior parte das equipas opta por defender à zona e com uma densa ocupação do espaço em frente à sua baliza, impedindo muitas das vezes as movimentações necessárias para a marcação de um golo.

Ao invés, o que os mais recentes números nos dizem é que uma grande fatia dos golos marcados surgem de rápidas transições ofensivas, seja através da recuperação da bola em zonas adiantadas do campo (por conseguinte, com menor número de defensores pela frente) ou por intermédio de contra-ataques de dois/três toques.

Podemos portanto inferir que, neste momento, que a capacidade de uma equipa mudar rapidamente a sua atitude entre os momentos ofensivos e defensivos se revela cada vez mais decisiva. O futebol caminha aos poucos para uma maior rapidez - não só atlética, mas, acima de tudo, de processos de decisão.