Monday, October 8, 2012

FC Porto entra a matar e desacelera em seguida

Equipas e movimentações iniciais


FC Porto e Sporting encontraram-se em lados totalmente opostos do espectro futebolístico. Os dragões vinham de uma excelente exibição e correspondente vitória frente ao Paris Saint-Germain, ao passo que os leões haviam sido trucidados pelo Videoton, com a posterior demissão de Ricardo Sá Pinto. Como tal, não foi de todo surpreendente que Vítor Pereira não promovesse qualquer alteração no seu onze. O treinador interino sportinguista, Oceano Cruz, manteve a mesma estrutura base, optando por Schaars e Elias no centro do terreno e Pranjic à frente de Insúa na ala esquerda, previsivelmente para manter Danilo sob controlo e explorar os espaços nas costas de James Rodríguez, uma vez que o colombiano tende a flectir para o meio.

O plano de Oceano parecia basear-se em restringir os anfitriões e evitar sofrer golos durante o período inicial, instruindo Schaars para que seguisse Lucho quase para todo o lado. Com Elias preocupado com João Moutinho, Fernando ficava frequentemente liberto, uma vez que Izmailov funcionava quase como número 10 e deixava o pivô defensivo portista sem marcação - permitindo aos campeões nacionais desfrutarem de sucessivas situações de superioridade numérica.

Apesar de todas as críticas que tem recebido das bancadas, há que dar crédito a Vítor Pereira por fazer com que este FC Porto jogue um futebol mais fluido na abertura da presente temporada, com o correspondente adiantamento da linha defensiva. Ao recuperar inúmeras bolas logo na transição ofensiva sportinguista, o FC Porto pôde explorar a ausência de Schaars, desposicionado pela movimentação de Lucho. Por seu turno, essa movimentação abria espaços para James, o qual tentou alvejar a baliza precisamente dessa zona (à frente dos defesas-centrais, onde Schaars deveria estar) momentos antes de Danilo oferecer a assistência para o atrevido calcanhar de Jackson Martínez.

Os leões pareceram algo abalados durante alguns minutos, com o FC Porto a permanecer compacto, ainda que exercendo menor pressão em zonas mais adiantadas. Com Mangala no lugar do lesionado Maicon, era provável que os azuis e brancos se deparassem com alguns problemas, uma vez que o defesa-central francês não é tão rápido a reagir e denota maior tendência a fazer passes errados. Para além disso, os comandados de Vítor Pereira começaram a descomprimir após o golo, aparentemente confiantes de que poderiam criar perigo assim que quisessem acelerar o jogo.

Por volta da meia-hora de jogo, o Sporting começou a soltar-se das amarras que havia imposto a si mesmo, percebendo que a defesa subida do FC Porto estava agora vulnerável sem Maicon. Izmailov aproximou-se do seu meio-campo e começou a criar situações de perigo para os seus colegas (e não só), ficando a faltar uma finalização mais apurada. Talvez a intenção de Vítor Pereira tivesse sido sempre essa, pois os jogadores leoninos continuaram a cometer o mesmo erro que cometem há muito tempo, independentemente do nome do treinador: atacar com os dois laterais na perseguição do resultado, abrindo enormes crateras e, por conseguinte, criando situações de inferioridade numérica.

O Sporting ditou os primeiros 15 minutos do segundo tempo. Com Izmailov a assumir cada vez mais a sua presença (o momento da sua substituição foi infeliz, dado que estava a começar a ser o foco de que a equipa visitante necessitava), o meio-campo do FC Porto perdeu por vezes as suas coordenadas, nomeadamente após as más decisões de Varela no último terço do terreno, partindo a equipa em duas partes em circunstâncias críticas. Contudo, se o Sporting pretender efectivamente lutar por uma classificação mais de acordo com os pergaminhos do clube, Elias terá de se envolver mais e oferecer linhas de passe, em vez de se esconder do jogo, sendo igualmente necessário que haja movimentações ofensivas de maior qualidade. Neste momento, todos parecem estar à espera que Carrillo saque um coelho da cartola.

A expulsão de Rojo foi uma consequência natural do maior adiantamento do Sporting (e deveria ter sinalizado o fim do encontro ainda antes da segunda grande penalidade). Embora a abordagem do defesa-central leonino não seja propriamente a ideal, o próximo treinador do Sporting tem de assumir como prioridade a revisão do posicionamento dos laterais em posse, uma vez que deixa a equipa de Alvalada total e desnecessariamente desprotegida.

Em breves palavras, foi um jogo algo fragmentado. O Sporting mantém a sua evidente falta de opções atacantes e o próximo responsável técnico terá uma tarefa árdua pela frente. No que diz respeito ao FC Porto, embora não se possa apelidar a vitória de injusta, houve momentos de perda de controlo e de más tomadas de decisão (particularmente nas transições ofensivas) que poderiam ter tido consequências desastrosas para as ambições portistas. Não obstante, Vítor Pereira estará por certo feliz no seguimento de duas vitórias importantes sem qualquer golo sofrido.

Friday, October 5, 2012

FC Porto conquista vitória com exibição dominadora


Equipas e movimentações iniciais

No primeiro jogo no seu estádio a contar para a Liga dos Campeões, o FC Porto apresentou-se de forma dominante contra o principal adversário do seu grupo. Vítor Pereira optou por Danilo, Fernando e Varela em detrimento de Miguel Lopes, Defour e Atsu, respectivamente. O treinador do Paris Saint-Germain, Carlo Ancelotti, não efectuou grandes alterações no seu onze, com Ménez junto a Ibrahimovic e Nenê por trás dos dois jogadores mais avançados.

Não é todos os dias que se vê uma equipa portuguesa a assumir o papel de favorita, particularmente na Liga dos Campeões e contra um conjunto recheado de estrelas, como o Paris Saint-Germain. Aparentemente nada impressionados com os valores financeiros patentes em toda a imprensa ao longo dos dias anteriores, os comandados de Vítor Pereira mostraram-se decididos a colocar os parisienses em dificuldades e comprovaram a sua evolução desde a temporada transacta (e desde o último encontro contra o Rio Ave).

Os dragões apresentaram uma linha defensiva bastante subida, muito provavelmente com o intuito de impedir que Ibrahimovic jogasse demasiado próximo da grande área do FC Porto, acreditando que nem Ménez nem Nenê constituiriam grande perigo em penetrações vindas de trás. Quanto ao Paris Saint-Germain, a ordem passava por assumir um bloco baixo e aguardar que a pressão portista inicial acabasse por desvanecer com o tempo.

Frente ao 4x3x1x2 do adversário (com Nenê a actuar por trás de Ibrahimovic e Ménez), os campeões portugueses acentuaram ainda mais as suas habituais características ofensivas, explorando e criando situações de superioridade numérica nas alas - nomeadamente (e de forma quase exclusiva) a esquerda. Com James a vaguear entre o centro e a direita e com Varela na esquerda, o FC Porto insistiu no seu lado esquerdo com Alex Sandro, Moutinho e Varela. Com a largura natural oferecida por este último, o meio-campo em losango de Ancelotti ficava demasiado aberto para conseguir dar resposta às ofensivas.

O desenho da jogada era simples e prolongou-se durante quase todo o encontro. Alex Sandro iniciava a movimentação em zonas mais avançadas (próximo da linha do meio-campo), ocupando mediatamente  Chantôme (o qual, verdade seja dita, raramente jogou em áreas mais interiores, como deveria ter feito). Varela era marcado por Van der Wiel e Verratti surgia a marcar Moutinho, receoso que o médio português tomasse conta do centro - acabando por abrir o meio do campo a James ou Lucho. Com a mesma movimentação e algumas triangulações, a equipa portuguesa criou uma chuva de oportunidades de golo.

O típico movimento do FC Porto pela esquerda.
Verratti foi desposicionado de forma demasiado fácil.

Com o contributo defensivo diminuto de Ibrahimovic e Ménez e com Nenê a actuar de forma intermitente, o FC Porto teve frequentemente liberdade de jogar a seu bel-prazer no flanco esquerdo ou pelo centro, uma vez que a ajuda de Matuidi ou dos defesas-centrais chegava sempre (muito) tarde. Como tal, não será um grande risco dizer que os mais de 20 remates à baliza de Sirigu davam muitas vezes origem 'a oportunidades claras. No que diz respeito ao plano de ataque do Paris Saint-Germain, na maioria dos casos, não parecia haver nenhum, para além de esperar que o rebelde atacante sueco sacasse um dos seus coelhos da cartola (o que quase resultou à passagem do 11º minuto, após um toque de calcanhar em estilo).

O único momento em que os parisienses se assumiram como uma ameaça efectiva foram os primeiros 10 minutos da segunda parte, altura em que os médios do FC Porto perderam as suas coordenadas e se mostravam demasiado sôfregos em chegar ao golo, quase sendo castigados pelo atrevimento. Contudo, a calma de Lucho e a resistência de Moutinho devolveram a ordem aos dragões e estes puderam retomar as suas intenções.

Não obstante todas as oportunidades desperdiçadas, o FC Porto foi um justo vencedor - de tal forma que poderá vir a arrepender-se de não ter marcado mais. O golo de James Rodríguez poderá ter chegado tardiamente para os adeptos portistas, mas significou que os três pontos permaneceriam no Dragão. Após as últimas vitórias sucessivas, esperava-se muito mais do Paris Saint-Germain, equipa que apenas poderá queixar-se de si própria. Na verdade, dar-se-ão por satisfeitos por regressarem a Paris apenas com um golo sofrido. Por outro lado, é difícil entender por que motivo Ancelotti, geralmente exímio na sua leitura de jogo, não contrapôs qualquer solução para contrariar a vantagem natural do seu adversário nas alas.

Monday, October 1, 2012

Os golos do Tottenham à lupa


No passado sábado, o Tottenham de André Villas-Boas derrotou o Manchester United no seu próprio reduto, algo que os Hotspurs não logravam há 23 anos - o que poderá vir a revelar-se decisivo para a equipa de AVB. Todos os golos dos Lilywhites tiveram origem na preocupante tendência patenteada pelo United de não estar à altura de adversários mais capazes, ao longo dos últimos anos (nomeadamente após a partida de Carlos Queiroz).

Com Carrick e Scholes no centro do terreno, e Nani e Giggs nas alas, o aparecimento de espaço no meio-campo defensivo do United previa-se frequente, mas a pavorosa exibição do seu meio-campo e defesa deverá estar a deixar Sir Alex Ferguson bastante preocupado. Nesse sentido, partir-se-á para a análise dos golos do Tottenham em maior detalhe, de modo a elucidar algumas das fragilidades dos Diabos Vermelhos.

  • Golo n.º 1



Houve alguns padrões repetitivos ao longo do jogo, no que diz respeito ao posicionamento defensivo. Neste caso em particular, é possível constatar que tanto Carrick (verde) como Scholes (azul) estão afastados da zona da bola, incapazes de proporcionar uma cobertura defensiva adequada. As linhas amarelas tracejadas representam a "tabela" iniciada por Vertonghen (que viria a marcar o golo).




Jermaine Defoe (amarelo) leu o jogo na perfeição e deslocou-se imediatamente para a ala, desposicionando com isso Rio Ferdinand. A "tabela" permite a Vertonghen superar a ténue oposição de Nani.




O movimento de Defoe abre um enorme buraco no centro da defesa do Manchester United (área sombreada). Carrick (verde) e Scholes (azul) já estão atrasados e longe da posição ideal.




Mesmo ao fim de alguns segundos, Carrick (verde) e Scholes (azul) continuam atrasados em relação ao lateral-esquerdo do Tottenham, o qual teve de controlar a bola e resistir à oposição dos seus marcadores. Ferdinand hesita também e a área crítica do campo (área sombreada) na qual Vertonghen irá marcar permanece desprotegida.

  • Golo n.º #2


O Manchester United acaba de perder a bola. Scholes (azul) não pressiona Dembélé (o portador da bola) nem oferece cobertura. A área sombreada representa o enorme buraco no meio que se abria frequentemente para os contra-ataques da equipa londrina. Gareth Bale (vermelho) começou próximo da sua área e acabaria por marcar o golo.




Dembélé passa facilmente por Scholes e nenhum jogador do Manchester United se aproxima para encurtar o espaço ou obrigar o Tottenham a deslocar-se para as alas. Gareth Bale já passou pelo seu "marcador" e tem campo livre à sua frente (área sombreada).




Uma vez mais, Defoe (amarelo) demonstra uma compreensão intuitiva do jogo e começa a fazer o movimento oposto, desposicionando Jonny Evans. Bale (vermelho) recebe a bola sem qualquer marcação e não há ninguém nas imediações. Scholes (azul) está já 5 metros atrás do seu adversário. O Tottenham criava facilmente uma situação de 2x2 em poucos segundos.




Mesmo ao fim de todo este tempo, Evra permanece bem aberto na ala, local em que não pode ser útil à equipa. Defoe (amarelo) prossegue o seu movimento e Bale (vermelho) ataca o espaço vagado pelo seu companheiro de equipa - movimento ofensivo típico. Note-se a distância entre o extremo galês e Ferdinand (laranja). Bale viria a ultrapassar o defesa-central inglês para marcar o segundo golo.




Com Evans fora da jogada, graças ao trabalho árduo de Defoe, Bale (vermelho) tem caminho livre à sua frente em direcção à baliza. Uma vez mais, nem Carrick, nem Scholes, nem Evra ou Rafael estão suficientemente próximos para ajudar. O golo de Bale foi facilitado em demasia e as equipas na Liga dos Campeões estarão atentas à oportunidade de castigar a abordagem defensiva do United.

  • Golo n.º #3



O United acaba de perder a bola, uma vez mais. Dembélé ultrapassa facilmente Scholes (azul) e fica liberto de qualquer marcação.




Com Scholes já fora da jogada, Dembélé pode escolher o melhor passe. A área sombreada representa o enorme buraco que o United abriu novamente entre as linhas e como uma simples bola longa pode contornar todo o meio-campo do United.




Usando da máxima franqueza, esta jogada foi quase inenarrável. Ferdinand (laranja) é novamente desposicionado no seguimento do passe longo de Dembélé na direcção de Defoe. Carrick (verde) e Scholes (azul) não pressionam nem proporcionam cobertura. Como se não bastasse, Rafael (vermelho) parece continuar sem compreender alguns dos fundamentos básicos da sua posição e permanece em linha com Ferdinand e Evans, em vez de dar alguns passos atrás. Note-se como Bale se apercebe imediatamente desse facto e pede a bola no espaço, com o braço. Clint Dempsey (amarelo) dá por si sem qualquer marcação na área mais importante do terreno.




Defoe coloca à bola à frente de Bale para o remate deste último. Carrick (verde) e Scholes (azul) não oferecem qualquer resistência aos seus oponentes. Na área mais importante do terreno, Evans está só (área sombreada) contra três jogadores do Tottenham. Como seria de esperar, Dempsey não teve qualquer dificuldade em aproveitar a defesa incompleta de Lindegaard e marcar o terceiro golo do Tottenham no encontro.


  • Conclusão


Se o Manchester United pretende apresentar uma candidatura séria ao título e/ou melhorar o seu rendimento na Europa relativamente às prestações catastróficas da época passada, convirá recorrer a um extensivo trabalho ao nível do posicionamento defensivo. Caso contrário, irá certamente sofrer às mãos de qualquer equipa que se mostre capaz de contra-atacar pelo centro. À medida que o tempo vai passando, é cada vez mais difícil de compreender ao certo o que leva Sir Alex Ferguson a insistir em deixar o seu meio-campo tão desprotegido.

No que ao Tottenham diz respeito, embora não tenha marcado nem contribuído com qualquer assistência, Jermaine Defoe foi fundamental para a vitória, conforme Michael Cox fez notar de forma tão pertinente. A sua movimentação inteligente foi essencial para arrastar os marcadores dos seus companheiros para fora das suas posições e deverá servir para mostrar que o trabalho de um ponta-de-lança envolve muito mais do que apenas inserir a bola na baliza.

Saturday, September 29, 2012

Vitória da equipa mais madura


Equipas e movimentações iniciais


Ao longo da história, os confrontos entre os dois rivais minhotos têm sido muito mais do que simples partidas de futebol - assemelhando-se muitas vezes a verdadeiras batalhas campais. Graças em parte ao carácter sereno de ambos os treinadores, o encontro da passada sexta-feira não se revelou conflituoso e ofereceu um bom espectáculo, ainda que não se tenha verificado um grande número de oportunidades de golo.

O Vitória de Guimarães entrou no jogo em força, assente no seu 4x3x3, pressionando o Sporting de Braga na sua saída de bola, de modo a evitar a construção de jogo a partir de trás. Beto, por exemplo, foi quase sempre forçado a bater bolas longas, contrariando a forma como o treinador do Sporting de Braga, José Peseiro, gosta de iniciar os ataques. (Por oposição, Doulgas, o guarda-redes vimaranense, procurava sempre enviar a bola para a frente assim que recolhia o esférico, tentando explorar os espaços livres deixados pelos jogadores bracarenses.) Para além disso, o posicionamento de Leonel Olímpio e André André tinha como objectivo impedir que Hugo Viana controlasse o ritmo de jogo e assumisse as rédeas da manobra da sua equipa com os seus tradicionais passes diagonais.

A estratégia do Vitória de Guimarães foi bem sucedida durante os primeiros 15 minutos, mas os forasteiros foram assentando o seu jogo e, aos poucos, conquistaram o controlo do meio-campo, aliviando a pressão sofrida por Viana e Custódio. Com Olímpio e André em zonas mais adiantadas, criavam-se espaços nas costas desses jogadores que eram forçosamente cobertas de forma quase exclusiva por El Adoua. Mossoró, igual a si próprio, foi magistral com os seus movimentos laterais, afastando-se do pivô marroquino, o qual se mostrava demasiado receoso em acompanhar Mossoró, sob risco de desproteger a sua zona exposta.

O bom jogo da equipa da casa ficou a dever-se em parte aos seus extremos pró-activos, os quais deixaram indícios promissores com as suas inteligentes movimentações. Ricardo é um jogador mais técnico que prefere duelos individuais, ao passo que João Ribeiro é melhor a ler o jogo e não tem pejo em ocupar outras áreas do terreno, de forma a dificultar a acção do adversário. Embora seja verdade que se revelaram úteis tanto em termos ofensivos como defensivos, convirá sublinhar que se foram alheando progressivamente das suas tarefas defensivas.

Por um lado, o Vitória de Guimarães, incentivado pelos seus adeptos, parecia deter uma vantagem emocional no jogo. Por outro, o Sporting de Braga estava aparentemente melhor equipado para as diferentes fases do jogo, ainda que tenha parecido algo descoordenado aqui e ali, especialmente no caso de Alan e Hélder Barbosa. A primeira parte, mais fechada, não tinha deixando antever grandes diferenças entre as duas equipas.

A segunda metade consistiu basicamente em tráfego de sentido único. Com uma ideia melhor sobre os seus processos ofensivos, os jogadores visitantes acabaram por marcar o primeiro golo numa transição rápida, no seguimento de um livre no meio-campo ofensivo do Vitória de Guimarães. A vantagem emocional de que os vimaranenses desfrutavam esfumou-se rapidamente após o golo, não obstante a tentativa imediata de fazer subir as suas linhas. Como tantas vezes acontece com as equipas portuguesas, os comandados de Rui Vitória mostravam-se algo desconhecedores sobre o que fazer ao verem-se em desvantagem - verdade seja dita, a falta de profundidade da equipa do Vitória de Guimarães foi hoje por demais evidente, com poucas opções atacantes.

Como se não chegasse, Peseiro optou por fazer descansar Mossóro e substituí-lo por Ruben Micael. O antigo jogador do FC Porto foi fundamental para que o Braga chamasse a si em definitivo o controlo do jogo, impedindo dessa forma uma possível resposta do seu adversário. Adicionalmente, Éder parece estar determinado em provar que poderá muito bem vir a ser o futuro ponta-de-lança da Selecção e do Sporting de Braga, assumindo-se como referência ofensiva capaz de segurar a bola e, com isso, permitir que a sua equipa. O segundo golo bracarense foi apenas um derradeiro fait-divers e um prémio para Hugo Viana.

Friday, September 21, 2012

Uma história de dois avançados

Equipas e movimentações iniciais


Apesar do resultado final, a partida da noite passada ofereceu inúmeros motivos de interesse. Com efeito, poucas vezes um encontro ofereceu um contraste tão vincado entre dois estilos opostos de abordar um jogo de futebol.

O treinador do Newcastle, Alan Pardew, permaneceu fiel às suas convicções e rodou a maior parte da sua equipa (lançando inclusivamente o seu terceiro guarda-redes), mantendo contudo a sua linha defensiva intacta. O onze inglês foi significativamente diferente do que defrontou o Everton na passada segunda-feira. No que diz respeito ao Marítimo, Pedro Martins escalou os mesmos jogadores, excepção feita a Luís Olim no lugar do castigado Ruben Ferreira.

Este encontro constituiu um exemplo perfeito de duas filosofias futebolísticas diametralmente opostas. Por um lado, os Magpies jogaram no seu habitual 4x4x2, com Vuckic a actuar atrás de Shola Ameobi, e optaram pelo que se pode denominar de típico estilo britânico: bolas longas na direcção do avançado mais possante, o qual tentava encaminhar as jogadas para um avançado mais pequeno e rápido. Os madeirenses, por outro lado, optaram pelo típico 4x3x3 português, mais dinâmico e com maior movimento.

Não obstante, os jogadores mais avançados das duas equipas (uma vez que Danilo Dias não pode ser classificado como um verdadeiro ponta-de-lança) constituem os exemplos mais paradigmáticos de cada equipa, resumindo as respectivas abordagens na perfeição.

  • Newcastle

Conforme referido anteriormente, Newcastle optou por lançar bolas longas e directas na direcção de Ameobi. Sem Demba Ba, Papis Cissé, mas, acima de tudo, sem Yohann Cabayé nem Hatem Ben Arfa, os comandados de Pardew não demonstravam qualquer pejo em despejar a bola na frente e aguardar o desfecho. Com Vuckic longe da sua melhor forma, as tabelas e cabeçadas ganhas por Ameobi não se revelavam particularmente úteis, especialmente porque tanto Obertan como Amalfitano permaneciam estáticos e muito distantes das melhores posições para recuperarem as segundas bolas.

Gosling e Bigirimana acabaram por tentar compensar esse facto e oferecer um seguimento adequado aos esforços de Ameobi, o que conferia ao Marítimo ainda mais espaço de manobra. Com ambos os médios-ala longe do jogo e ambos os médios-centro tentando encurtar distâncias para a frente, a linha mais recuada do Newcastle ficava frequentemente exposta, permitindo que os avançados insulares se movimentassem a seu bel-prazer.

Bigirimana, em particular, pareceu muitas vezes não saber que tarefa desempenhar a nível defensivo, durante a primeira parte. À medida que foi ficando aparentemente cada vez mais frustrado pela paciente primeira fase de construção da equipa portuguesa, tentou pressionar um dos defesas-centrais contrários, fazendo com que Gosling se visse rodeado de médios adversários. A situação foi agravada pela incerteza sobre quem deveria marcar Danilo Dias, o irrequieto avançado do Marítimo.

Bigirimana e Gosling deixaram muitas vezes a defesa do Newcastle exposta.


A segunda parte foi melhor para os Magpies, assumindo o controlo do encontro, nomeadamente após a entrada de Sammy Ameobi para o lugar de Vuckic e os defesas-centrais do Marítimo começarem a acusar a fadiga. Na verdade, se é verdade que o Newcastle teve grandes dificuldades para entrar na grande área maritimista durante a primeira parte, não é menos verdade que tiveram maiores facilidades na segunda metade da partida, uma vez que tanto Roberge como João Guilherme começaram a perder o posicionamento adequado com maior frequência. O Newcastle forçou ainda mais o jogo directo e os seus jogadores e treinador poderão sentir-se algo azarados por não terem logrado marcar na segunda parte.

Em resumo, a defesa do Newcastle não esteve segura e mostrou-se demasiado vulnerável a jogadas rápidas nas suas costas, mas contrapuseram um tipo de futebol a que a equipa da casa não está habituada. Ameobi provou que ainda pode ser útil, seja em jogos menos importantes (para aliviar a carga de Papis Cissé e Demba Ba) ou como plano B.

  • Marítimo

A exibição maritimista resumiu o futebol português na perfeição. Inúmeras movimentações inteligentes, extremos a procurarem zonas mais centrais para permitir que os médios interiores e os laterais explorassem os flancos, várias oportunidades durante a primeira fase do encontro e uma derrota quase certa no final, após sofrer imenso às mãos de avançados poderosos.

Ainda que a sua naturalidade seja brasileira, Danilo Dias personifica o avançado português. Exímio a recuar para abrir espaços para os seus companheiros e (sejamos honestos) para evitar o confronto físico com defesas-centrais agressivos e intensos, é o homem que põe toda a equipa a jogar. Ao recuar, funciona frequentemente como jogador extra no meio-campo para oferecer a saída de bola, levando os defesas-centrais contrários a pensar que não têm ninguém para marcar, descobrindo pouco depois que estão a ser atacados por Heldon ou Sami.

O Marítimo teve uma excelente primeira parte, saindo a jogar de forma paciente e aguardando pelo momento certo para encontrar o buraco na defesa contrária - criando três oportunidades claras de golo nos primeiros 12 minutos, todas elas com origem no lado esquerdo, em parte graças ao completo alheamento de Obertan das suas tarefas defensivas.

No que diz respeito à defesa, a equipa insular esteve praticamente irrepreensível durante os 30 minutos iniciais, mantendo a distância correcta para os restantes sectores e fazendo dobras bem feitas para os duelos aéreos com Ameobi. Ambos os extremos colaboraram defensivamente para formar um 4x1x4x1 no momento defensivo, o que contribuiu para uns 30 minutos de bom nível. Contudo, este encontro foi um bom exemplo de que a) os jogadores que actuam no campeonato português não estão habituados a semelhantes confrontos físicos, uma vez que não há avançados com o estilo de Ameobi, e b) ao apitarem ao mais pequeno contacto a favor dos defesas, a arbitragem portuguesa não está a ajudar as equipas portuguesas, as quais denotam grandes dificuldades em manter o mesmo nível de intensidade que as equipas inglesas ao longo do encontro. O melhor exemplo é mesmo a crescente incapacidade de Roberge e João Guilherme de conter os avançados do Newcastle, à medida que o jogo se aproximava do fim.

Em resumo, o Marítimo mostrou que tem condições para lutar com as equipas de maior dimensão, mas terá forçosamente de se concentrar em manter os índices físicos ao longo de toda a partida e em capitalizar  as oportunidades criadas. Caso contrário, esta história terá um fim já familiar para as equipas portuguesas.

Sunday, September 2, 2012

Estará o 4x3x3 prestes a regressar?


O futebol, à imagem da maioria (todos?) dos temas, tem as suas modas. Há não muitos anos trás, jogar num sistema que não o 4x3x3 parecia sacrilégio (deixemos Inglaterra de fora, por agora). Na verdade, quando o 4x2x3x1 começou a dar sinais de vida, com Quique Flores como seu paladino principal, foi algo criticado (incluindo aqui) por diversos motivos. Por outro lado, tal como acontecia com o duplo pivô, a defesa a três parecia morta e enterrada, nada mais do que uma reminiscência dos tempos de Beckenbauer. No momento em que o leitor consulta este texto, parece impossível fugir do 4x2x3x1 (ou do 4x4x1x1, praticamente a mesma coisa) ou de alguma versão de uma defesa a três (especialmente em Itália), nos dias que correm - havendo um número muito reduzido de equipas dispostas num genuíno 4x3x3.

O típico 4x2x3x1

Segundo uma das frases mais comuns do futebol (com alguma razão), os jogos não se ganham no papel, uma vez que nenhum sistema táctico é inerentemente melhor do que outro - tudo se resume às diferentes dinâmicas colectivas. Embora tal seja verdade, continuo a encontrar algumas brechas no 4x2x3x1.

Antes de mais, é minha convicção de que as equipas dispostas neste sistema táctico tendem a partir-se em dois blocos, nomeadamente os seis "defensores" e os quatro "atacantes". Embora esta seja muito provavelmente a forma mais fácil de implementar funções e instruções numa equipa (permitindo eventualmente que um dos defesas-laterais se adiante, por exemplo), tende a criar dois conjuntos distintos de jogadores dentro de uma mesma equipa, dado que os atacantes se mostram relutantes em recuar e executar as suas tarefas defensivas e os defensores hesitam em abandonar as suas posições, receosos que ninguém forneça a devida compensação em organização defensiva.


4x2x3x1 em organização defensiva

Num 4x2x3x1, a organização defensiva assemelha-se habitualmente a um 4x4x1x1, uma vez que os extremos estarão supostamente incumbidos de marcar os laterais contrários. Embora a época transacta tenha proporcionado exemplos mais do que suficientes de que este sistema pode revelar-se extremamente eficaz numa abordagem mais reactiva (da vitória do Chelsea na final da Liga dos Campeões à final da Liga Europa, passando pela final da FA Cup ou pela atitude do Sporting de Braga contra os "grandes", entre muitos outros), não é ainda evidente se esta disposição táctica irá ao encontro de uma equipa que pretenda assumir o controlo do encontro. Sempre que um treinador pretende realmente que a sua equipa jogue um tipo de futebol mais pró-activo através deste sistema, o surgimento imediato de algumas brechas é por demais evidente, particularmente porque os quatro "atacantes" têm a tarefa de criar perigo por si só, o que significa que estarão menos dispostos e fisicamente capazes de recuar e formar a segunda linha de quatro homens, conforme solicitado por este sistema.


O típico 4x3x3

A partida da última sexta-feira opôs Chelsea e Atlético de Madrid e ofereceu-nos um bom confronto entre estes dois sistemas. Roberto Di Matteo, treinador do Chelsea, está a tentar provar ao seu patrão não só que é o homem certo para o lugar, mas também que o Chelsea é capaz de obter os mesmos resultados jogando o tipo de futebol atractivo que Roman Abramovich quer ver desde que comprou o clube, há dez anos. Face ao típico 4x2x3x1 do Chelsea, Diego Simeone, o treinador do Atlético de Madrid, optou por um claro 4x3x3 e atacou as alas do Chelsea criando constantes situações de superioridade numérica nos flancos graças à excelente colaboração entre os extremos, os defesas-laterais e os médios-interiores. Cientes de que Hazard e Mata não trabalhariam muito defensivamente e que Mikel e Lampard não são propriamente os jogadores mais móveis, os jogadores do Atlético de Madrid encontraram rapidamente muito espaço para desmarcações, expondo as fragilidades de um sistema no qual os (seis e, por vezes, menos) "defensores" dão por si frequentemente desprotegidos à sua frente.

4x3x3 em organização defensiva

Adicionalmente, o 4x3x3 oferece uma linha de defesa adicional. Ao invés de duas linhas de quatro jogadores (e dois  atacantes mais adiantados), este sistema permite que o pivô defensivo execute a denominada "função Makelele", designação inspirada no homem que actuava à frente da defesa e impedia que a bola fosse jogada entre linhas. O Atlético Madrid preencheu o centro do terreno e tentou vencer a batalha a meio-campo. Sabendo que os extremos do Chelsea não constituiriam qualquer tipo de ameaça nas zonas exteriores e tenderiam a flectir para dentro, o triângulo de Simeone a meio-campo recuperou inúmeras bolas (e lançou rápidos contra-ataques) graças à mera existência de um número superior de linhas de defesa, ao contrário do que acontece habitualmente com o 4x2x3x1.

Reforçamos mais uma vez que que não se trata de afirmar que um sistema é melhor do que outro. Na verdade, o objectivo deste texto passa precisamente por questionar e estimular um debate sobre os motivos que levam a maioria dos treinadores a optarem pela mesma formação, especialmente quando muitos deles jogaram em diferentes sistemas - sejam eles o 4x3x3 ou qualquer outro sistema táctico. Embora este blogue esteja ciente de que muitas das concepções consideradas ultrapassadas estão a ressurgir, seria interessante descobrir com exactidão por que motivo tal acontece - trata-se apenas da moda mais recente ou será que a maioria dos treinadores descobriu simultaneamente que o 4x2x3x1 era a melhor (e única) opção?

Saturday, September 1, 2012

FC Porto conquista vitória suada

Equipas e movimentações iniciais


Após o encontro da passada semana frente à Académica, a partida de hoje era uma boa oportunidade para aferir a capacidade do Olhanense no seu terreno contra um adversário mais forte e, por outro lado, analisar o FC Porto em maior detalhe. Embora não tenha sido um jogo repleto de oportunidades de golo, tratou-se de uma partida bastante interessante, cuja vitória acabou por sorrir à equipa portuense de forma algo feliz.

  • Os primeiros 15 minutos

Os campeões nacionais entraram bem em campo e deram mostras de pretender dar seguimento à boa exibição frente ao Vitória de Guimarães. Na verdade, os comandados de Vítor Pereira patentearam um nível consideravelmente superior ao nível da pressão alta em relação à temporada transacta, com todos os jogadores no mesmo comprimento de onda no que diz respeito às zonas e momentos para exercer a pressão. Ofensivamente, os portistas tiravam claramente proveito do ponto fraco facilmente identificável do Olhanense: Babanco. Como tal, o FC Porto insistiu em jogar pelo flanco direito durante o primeiro quarto de hora, com Lucho, Danilo e Hulk a teimarem em capitalizar a fraqueza do seu oponente.

Ao invés, a equipa liderada por Sérgio Conceição pareceu algo confusa e perdida até ao momento em que lograram por fim executar uma transição ofensiva bem delineada e punir o mau momento da incursão de Alex Sandro (característica habitual nos defesas-laterais sul-americanos). A jogada em questão serviu igualmente para reforçar as insuficiências de Defour na posição de pivô defensivo e o papel fundamental de Fernando na movimentação colectiva da equipa.

  • 15-45 minutos

Após o tento inicial, os algarvios mostraram-se mais confortáveis em posse e, em simultâneo, o FC Porto ficou defensivamente mais desconjuntado e impaciente na construção das jogadas, com os jogadores a revelarem-se demasiado lentos e previsíveis, aparentemente receosos de se exporem a mais contra-ataques. Vítor Pereira não quis esperar mais e substituiu o ineficaz Atsu por James e o avançado colombiano provocou um impacto imediato ao assistir Moutinho para uma boa oportunidade e ao fazer um delicioso chapéu a Ricardo, o qual demonstrou mais uma vez a sua incapacidade para decidir os melhores momentos de saída a cruzamentos.

  • Segunda parte

Os dragões entraram ainda mais fortes na segunda parte e Jackson enviou uma bola ao posto e marcou o seu segundo golo do campeonato após uma excelente assistência de James. Era difícil antever de que forma os visitados iriam conseguir contornar a organização defensiva do FC Porto, apesar das evidentes brechas que importará abordar o mais rapidamente possível. O jogo desenrolou-se sem grandes motivos de interesse (para além da opção de Vítor Pereira de deslocar James para a posição de Lucho após a substituição deste último, fornecendo eventualmente uma pista sobre as preferências do treinador portista no que diz respeito à posição de James), até Hulk desferir um potente remate e apontar o terceiro golo azul e branco. O resultado parecia decidido, mas o golo de Targino após outra excelente assistência, desta feita de Rui Duarte, abriu novamente o encontro e os forasteiros acabam por sofrer desnecessariamente para conquistar a vitória.

Em suma, o FC Porto foi dominante após a entrada de James, mas convirá melhorar rapidamente a sua consistência defensiva. Quanto ao Olhanense, mostrou mais uma vez um bom posicionamento defensivo, mas continua a não dispor de saídas de bola e da capacidade de assumir o controlo do encontro. Adicionalmente, Rui Duarte pareceu novamente longe da sua posição ideal, jogando em zonas demasiado avançadas e de costas para a baliza. Um ligeiro ajuste por parte de Sérgio Conceição poderá dar lugar a uma equipa mais equilibrada e perigosa.