As últimas semanas têm sido férteis em acontecimentos a todos os níveis. Num dos últimos fins-de-semana, tive oportunidade de encher a barriga de futebol e poder voltar a escrever com mais alguma propriedade. Foi assim que me deparei com o aparente falhanço daquilo a que os espanhóis chamam “doble pivot”, que, na prática, mais não é do que a colocação de dois jogadores à frente da defesa vocacionados para tarefas ofensivas e defensivas.
Com efeito, tanto Real Madrid como Benfica demonstraram a enorme falibilidade deste sistema. Responder-me-ão os mais conhecedores que não são os sistemas que decidem os jogos, antes as suas dinâmicas. Estou inteiramente de acordo. Defendo apenas que há sistemas mais eficazes e de fácil compreensão para os dias que correm. É preciso não esquecer que os tempos ditam algumas tendências no que diz respeito a tácticas, tácticas essas que são mais facilmente apreendidas pelos jogadores a curto prazo.
No que diz respeito ao Benfica, por exemplo, continuo a sustentar que o modelo de jogo de Quique Flores poderá vir a vingar (quanto mais não seja por contar com melhores valores individuais), mas continuo sem ver uma exibição consistente e refinada por parte dos encarnados. O sistema e as movimentações poderão até estar bem delineados, mas algo na mensagem do treinador espanhol parece não estar a chegar aos destinatários. Depois de quase uma época a ver o Benfica jogar, os movimentos dos seus jogadores parecem-me sempre muito mais circunstanciais do que fruto de uma rotina pensada e burilada.
Quanto ao Real Madrid, cometeu o (enorme) pecado de – à boa maneira espanhola – tentar combater o adversário olhos nos olhos. Com o Barça inspirado, esse poderá ser um erro fatal, como acabou por se revelar. Na verdade, ao ver o Real Madrid, pareceu-me estar na presença de uma equipa (inglesa) de há décadas atrás. Diarra e Gago no centro do terreno, incumbidos de fazer frente às inúmeras investidas do Barcelona por essa zona do campo, deixando Higuaín, Raúl e Robben plantados lá na frente. Se, nos dias que correm, já é quase impensável ver jogadores que não participem em todas as fases do jogo, arriscar isso contra este Barça é por certo o caminho para o fracasso, desenganem-se os mais recentes detractores do Chelsea. Mesmo tendo chegado primeiro à vantagem, a equipa madrilena continuou a jogar em cima, não optando por se resguardar, tendo a situação piorado a olhos vistos quando se lançaram aparentemente à toa para cima do adversário quando deram por si atrás no marcador.
Em resumo, porque o texto já vai longo, creio que o duplo pivô tem algumas falhas intrínsecas, como, por exemplo, o enorme espaço entre linhas – tanto na horizontal como na vertical – que subsiste entre os sectores da equipa. Por outro lado, parece-me também importante destacar o facto de este sistema deixar implícita uma reduzida organização e solidariedade ao nível da tarefa, ao deixar um grande número de acções para o mesmo grupo de jogadores.
Thursday, May 14, 2009
Thursday, April 9, 2009
O clímax de uma época
O FC Porto fez na passada terça-feira uma das suas melhores exibições de sempre na Europa. É justo prestar uma homenagem a Jesualdo Ferreira - não só pelo jogo contra o Manchester United, mas, acima de tudo, pelo período que distou entre a sua contratação e o dia de hoje.
Na verdade, o jogo em Manchester foi para mim o apogeu de uma linha cronológica que começou quando Jesualdo foi contratado para colmatar a vaga deixada em aberto pelo errático Co Adriaanse. Pegando numa equipa que não tinha sido montada à sua imagem, o treinador portista foi capaz de ser campeão nessa época, não logrando convencer a tradicionalmente exigente massa associativa portista. Na época seguinte, mais do mesmo, incluindo exibições muito pouco convincentes frente a adversário do mesmo gabarito, excepção feita à exibição produzida na Luz a seguir a mais uma derrota europeia.
No entanto, foi neste ano - depois de perder Quaresma, Bosingwa e Paulo Assunção - que Jesualdo mostrou os seus verdadeiros dotes, quanto a mim. Ao ver-se forçado a reconstruir uma equipa (por muito que alguns jogadores importantes tenham ficado, a forma de jogar de equipa teve de ser radicalmente alterada, o que muda muitos processos) e a contornar o constante apagamento de Lucho González, o treinador azul e branco mostrou a sua verdadeira fibra e terá, digo eu, convencido de vez os adeptos portistas. Ser capaz de, em pouco tempo, passar da equipa frágil e sem identidade que perdeu contra Leixões e Dínamo de Kiev em poucos dias (não esquecendo a copiosa derrota contra o Arsenal) para a equipa que mostrou aos excessivamente confiantes adeptos ingleses que também se pode jogar bom futebol fora da sua ilha não está ao alcance de muitos. Pelo facto, tiro o meu chapéu.
Gostaria no entanto de fazer uma pequena ressalva. Não obstante todos os méritos apontados a Jesualdo, continuo firme nas minhas convicções (que creio serem validadas pelas mais recentes exibições dos dragões) segundo as quais o melhor caminho para o sucesso passa por uma identificação clara dos nossos objectivos e não nos encolhermos perante nomes teoricamente mais sonantes, como o técnico portista fez não raras vezes frente a clubes mais cotados. Talvez o maior mérito de Jesualdo seja o facto de ter conseguido aprender com os seus próprios erros. Acima de tudo, interessa sermos melhores hoje do que éramos ontem. Esse é para mim o principal indicador de sucesso.
Na verdade, o jogo em Manchester foi para mim o apogeu de uma linha cronológica que começou quando Jesualdo foi contratado para colmatar a vaga deixada em aberto pelo errático Co Adriaanse. Pegando numa equipa que não tinha sido montada à sua imagem, o treinador portista foi capaz de ser campeão nessa época, não logrando convencer a tradicionalmente exigente massa associativa portista. Na época seguinte, mais do mesmo, incluindo exibições muito pouco convincentes frente a adversário do mesmo gabarito, excepção feita à exibição produzida na Luz a seguir a mais uma derrota europeia.
No entanto, foi neste ano - depois de perder Quaresma, Bosingwa e Paulo Assunção - que Jesualdo mostrou os seus verdadeiros dotes, quanto a mim. Ao ver-se forçado a reconstruir uma equipa (por muito que alguns jogadores importantes tenham ficado, a forma de jogar de equipa teve de ser radicalmente alterada, o que muda muitos processos) e a contornar o constante apagamento de Lucho González, o treinador azul e branco mostrou a sua verdadeira fibra e terá, digo eu, convencido de vez os adeptos portistas. Ser capaz de, em pouco tempo, passar da equipa frágil e sem identidade que perdeu contra Leixões e Dínamo de Kiev em poucos dias (não esquecendo a copiosa derrota contra o Arsenal) para a equipa que mostrou aos excessivamente confiantes adeptos ingleses que também se pode jogar bom futebol fora da sua ilha não está ao alcance de muitos. Pelo facto, tiro o meu chapéu.
Gostaria no entanto de fazer uma pequena ressalva. Não obstante todos os méritos apontados a Jesualdo, continuo firme nas minhas convicções (que creio serem validadas pelas mais recentes exibições dos dragões) segundo as quais o melhor caminho para o sucesso passa por uma identificação clara dos nossos objectivos e não nos encolhermos perante nomes teoricamente mais sonantes, como o técnico portista fez não raras vezes frente a clubes mais cotados. Talvez o maior mérito de Jesualdo seja o facto de ter conseguido aprender com os seus próprios erros. Acima de tudo, interessa sermos melhores hoje do que éramos ontem. Esse é para mim o principal indicador de sucesso.
A tradição ainda é o que é
O Boavista FC emitiu anteontem um comunicado onde apontava o dedo a várias instituições devido à eventual preferência dada por várias árbitros à Oliveirense, equipa envolvida na luta pela fuga à despromoção, à imagem do Boavista.
Qualquer consideração que pudesse ter por Álvaro Braga Júnior, presidente do Boavista, desvanceceu-se depois de ler o comunicado em questão. Como tantas e tantas vezes acontece, os presidentes dos clubes refugiam-se em todas as desculpas mais ou (regra geral) menos plausíveis para escamotearem a falta de algumas virtudes. Triste, acima de tudo.
Qualquer consideração que pudesse ter por Álvaro Braga Júnior, presidente do Boavista, desvanceceu-se depois de ler o comunicado em questão. Como tantas e tantas vezes acontece, os presidentes dos clubes refugiam-se em todas as desculpas mais ou (regra geral) menos plausíveis para escamotearem a falta de algumas virtudes. Triste, acima de tudo.
Thursday, April 2, 2009
Onde reside a força?
Numa declaração proferida esta semana, Carlo Ancelotti, treinador do AC Milan, afirmou algo que reflecte a minha opinião pessoal. Segundo o técnico transalpino, o Liverpool é a equipa mais difícil de defrontar. Ancelotti admitiu que o Manchester United era mais forte, mas que era uma equipa que deixava jogar o adversário, ao contrário dos de Liverpool, que defendem muito bem e têm um contra-ataque quase perfeito, nas palavras do técnico rossonero.
Esta afirmação vem de encontro à minha perspectiva sobre o sorteio da Liga dos Campeões, pois creio que, apesar de o Manchester United ser um adversário temível, tem algumas características que poderão vir a revelar-se favoráveis ao FC Porto ao longo da eliminatória. De todas as equipas presentes no sorteio dos quartos-de-final, o Liverpool parecia-me a mais problemática - por defender muito bem e por apostar num tipo de jogo frequentemente semelhante ao que o FC Porto irá previsivelmente adoptar nesta eliminatória.
Esta afirmação vem de encontro à minha perspectiva sobre o sorteio da Liga dos Campeões, pois creio que, apesar de o Manchester United ser um adversário temível, tem algumas características que poderão vir a revelar-se favoráveis ao FC Porto ao longo da eliminatória. De todas as equipas presentes no sorteio dos quartos-de-final, o Liverpool parecia-me a mais problemática - por defender muito bem e por apostar num tipo de jogo frequentemente semelhante ao que o FC Porto irá previsivelmente adoptar nesta eliminatória.
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O estado da nação

Por vias da minha actividade profissional, dei por mim na semana passada a visitar algumas fábricas de uma região portuguesa aparentemente em crise. Confesso que, ao início, a minha apreensão era grande - receava que o choque de realidades fosse demasiado abrupto. No entanto, a única coisa que posso fazer é tecer os mais rasgados elogios aos gerentes e administradores das empresas - que parecem continuar a conseguir fazer milagres, descobrindo constantemente nichos de mercado - e, acima de tudo, aos funcionários dessas empresas, por continuarem a dar o litro, por preferirem trabalhar a viver à custa dos muitos subsídios que por aí há, por não virarem a cara aos momentos difíceis.
Mas o que tem isto a ver com futebol? Na minha opinião, tudo. Foi revigorante ver empresas com mais de 800 funcionários a operarem na perfeição, com todo o respeito pelos direitos dos trabalhadores. Foi estranhamente inesperado entrevistar colaboradores das mais variadas empresas e constatar que o respeito que a administração possa ter ou não por essas pessoas continua a ser tão ou mais importante do que o salário ao final do mês (embora todos nós gostássemos de ganhar mais dinheiro, naturalmente). Mas, acima de tudo - no que diz respeito a este blogue, pelo menos -, foi um óptimo alimento para a alma verificar que é possível ter as contas controladas, saber onde param os activos, quanto se pode gastar no período fiscal seguinte ou onde estão os possíveis nichos de mercado do futuro.
A única coisa que me vinha à mente era sempre idêntica: porque é que é tão difícil fazer isto no futebol? Por que razão continuamos a fazer vista grossa a tantas evidências de que algo está mal? Quantas mais greves como as do Estrela da Amadora ou do Vitória de Setúbal teremos de ver até nos capacitarmos que temos mesmo de inverter a situação?
"Mea culpa"

Há muitos motivos pelos quais admiro o trabalho de José Mourinho, actual treinador do Inter de Milão. Aprecio a sua capacidade de trabalho, de análise da sua equipa e do adversário, de contínua sistematização das suas ideias no treino e no jogo e de conseguir retirar rendimento de jogadores que, à primeira vista, pareciam estar fadados para o insucesso. Aprendi a vê-lo colocar jogadores medianos a render o que nunca tinham rendido até então e nunca mais renderam desde esse momento (o caso de Joe Cole ou Marco Ferreira vem-me imediatamente à memória).
No entanto, há uma outra parte de Mourinho que me cativa: a sua frontalidade em algumas ocasiões. Numa entrevista realizada ontem num canal televisivo italiano, o treinador português não teve qualquer problema em admitir que a contratação de Quaresma não só tinha sido um erro, como admitiu também tratar-se de um erro seu. Não conheço muitos treinadores que não se refugiem na diplomacia das respostas-tipo a este tipo de questões, mesmo depois de se retirarem do activo. Mourinho não teve papas na língua e assumiu uma má contratação (e dispendiosa) feita pelo clube no qual ainda se encontra.
Na minha opinião, são pequenas atitudes como estas que vão aproximando os adeptos das equipas de Mourinho dos jogadores. Mourinho podia ter contornado a questão ou atirado a responsabilidade para um qualquer infortúnio do destino. Ao invés, assumiu a sua culpa, mostrando aos adeptos interistas que não só é capaz de errar, como também de reconhecer os seus próprios erros. Qualquer adepto ficaria contente por ver o seu treinador fazer um mea culpa por uma contratação cara falhada, não?
A lei da simulação

Lisandro López foi ontem castigado com um jogo por ter originado o penalty que viria a dar o golo do FC Porto no recente derby que opôs FC Porto e Benfica. Já ouvi hoje inúmeras vozes levantarem-se contra a decisão pelos mais diversos motivos - desde logo, perguntando se esta terá sido o único caso desta estirpe nos últimos dois anos desde que o actual regulamente foi aprovado. Não obstante as eventuais questões que possam levantar-se à volta da decisão, creio que terá sido dado um bom passo. Esperemos que, daqui para a frente, quem pretenda simular faltas hesite antes de o fazer. Todos nós que gostamos de futebol teríamos a ganhar.
Como praticante, reconheço que é quase sempre necessária uma boa dose de matreirice. No entanto, traço uma distinção clara entre ser mais inteligente do que o adversário e levá-lo a cometer falta e fingir ser tocado para daí tirar vantagem. Colocando a questão em termos práticos: saber posicionarmo-nos para provocar a falta ao adversário é sinal de inteligência e boa leitura de jogo. Mergulhar sem qualquer acção do oponente é faltar à verdade desportiva.
O único comentário adicional que gostaria de tecer é tão só e apenas: mantenha-se a consistência e haja coragem para continuar a tomar estas decisões.
PS: Não obstante tudo o que escrevi atrás, creio que os órgãos disciplinares da Liga poderão vir a deparar-se com um problema, pois haverá agora muito mais vozes atentas a possíveis simulações e que bradarão igual tratamento. A ver vamos se não se abrirá mais uma caixa de Pandora na arbitragem portuguesa.
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