Tuesday, October 30, 2012

Tanto para fazer em tão pouco tempo


Franky Vercauteren é o próximo treinador do Sporting, mas talvez nem ele próprio tivesse noção da magnitude da tarefa que terá em mãos. De há vários anos a esta parte, o Sporting tem-se resumido quase exclusivamente a um punhado de jogadores, geralmente abandonados à sua sorte, rodeados por um constante circo mediático e treinadores fragilizados. Acontecerá o mesmo com o técnico belga?

Qualquer análise táctica da equipa de Alvalade tende a ser extremamente trabalhosa, uma vez que raramente se tem a noção da existência de uma equipa rotinada pelo(s) seu(s) treinador(es). Com efeito, para um observador externo com recurso apenas aos jogos disputados, é muito difícil encontrar ordens ou instruções pré-estabelecidas e metade da equipa parece pensar o jogo de forma muito diferente da restante metade. O que mais choca ao ver as actuações leoninas são as exibições, mais do que os resultados. Ao contrário da opinião de Oceano Cruz, os erros pelos quais o Sporting tem sido castigado não são de ordem individual.

Independentemente do talento individual existente, cabe ao treinador definir algumas directrizes básicas e, com base nessas linhas orientadoras, trabalhar do geral para o particular. As mais recentes versões do Sporting não têm demonstrado que o treinador (seja ele quem for) tenha sido capaz de fazer passar a sua mensagem, continuando a desapontar os seus mais fiéis seguidores. Com base neste e em muitos outros encontros, Franky Vercauteren tem em mãos uma tarefa árdua. Analisemos mais de perto algumas das principais questões, por ordem aleatória.

1. Ricky van Woflswinkel. É triste ver tanto potencial desperdiçado. Vercauteren necessita de recuperar a confiança perdida do avançado holandês e transformá-lo novamente numa máquina de fazer golos. A recepção de Wolfswinkel parece estar a piorar de dia para dia e a sua velocidade está longe de ser o que era. Tendo em conta a falta de alternativas válidas, o ponta-de-lança sportinguista precisa de estar na sua melhor forma.

2. Um onze estável. Não se trata aqui de defender que os mesmos onze jogadores deverão ter lugar garantido independentemente das prestações ou da forma, mas, ao passo que é relativamente simples referir o onze mais comum de FC Porto, Benfica ou Braga, acertar na equipa titular do Sporting assemelha-se a uma obra do acaso. Vercauteren deverá definir um grupo de jogadores à volta do qual possa criar a espinha dorsal da equipa.

3. Um modelo de jogo claro. Tal como acontece com a questão mais acima, não se trata de afirmar que o treinador não poderá alterar a sua disposição táctica, mas, ao longo das últimas épocas, o número de organizações tácticas impostas aos jogadores do Sporting é verdadeiramente surpreendente. Sim, é possível (e desejável) ser tacticamente flexível, mas só após definir o modelo de jogo principal com clareza.

4. Evitar em definitivo situações comprometedoras. Conforme referido neste mesmo blog, a cobertura ofensiva é um dos aspectos primordiais do futebol moderno, algo que o Sporting não parece dominar de todo. Analisemos mais de perto alguns exemplos.

O Sporting acaba de perder a bola e está já totalmente desequilibrado.

Um mero segundo depois, a Académica já dispõe de superioridade numérica.

Neste caso, Schaars sofre uma intensa pressão,
mas ninguém se aproxima nem encurta o campo.
A área a sombreado representa uma potencial avenida para o golo.

Esta jogada teve lugar perto do intervalo.
Note-se no número de opções de passe seguras.
A Académica parece muito mais organizada e perigosa.

Rinaudo passa para trás e os jogadores do Sporting permanecem distantes.
Pressentindo o perigo, a Académica ataca imediatamente Rojo.

Passaram já cinco segundos e o Sporting não dispõe
de mais do que quatro jogadores, igual número à Académica.

5. Sair a jogar. Se uma equipa faz tenções de vencer encontros de forma consistente, deverá jogar em função das suas qualidades, não permitindo que seja o encontro a orientar o jogo. O Sporting não poderá basear-se em Boulahrouz ou Rinaudo para comandar a sua forma de jogar, sob o risco de perderem a bola com inusitada facilidade, conforme aconteceu hoje uma e outra vez. Vercauteren não deverá ter medo de despender algum tempo a instruir os seus jogadores a sair a jogar desde trás (na linha do seu passado enquanto jogador e treinador). O Sporting necessita urgentemente de uma noção de finalidade para o seu jogar.

Este ângulo é perfeito para compreender
a perspectiva do portador da bola
e as suas dificuldades para encontrar um colega livre.

Wednesday, October 24, 2012

O que é ao certo a cobertura ofensiva?


Os especialistas futebolísticos (incluindo este colunista, perdoe-se a imodéstia) abordam frequentemente termos e expressões que, por vezes, têm definições vagas para a maioria dos ouvintes/leitores/telespectadores. Hoje, iremos debruçar-nos sobre o mito da cobertura ofensiva e o que representa. Os pilares do princípio da "cobertura ofensiva" dividem-se em dois:

  1. Apoiar o portador da bola e
  2. Manter o equilíbrio defensivo.

Em termos básicos, isto significa que deverá haver um ou mais jogadores ao lado e/ou atrás do portador da bola, de modo a manter a posse da mesma, mas também para garantir que, se a bola for perdida, haverá alguém pronto para conter a ameaça inicial e impedir que o adversário lance um rápido contra-ataque.

Embora ambos os casos apresentados em seguida possam ser igualmente atribuídos a más decisões individuais, este artigo focar-se-á principalmente na cobertura ofensiva e na importância de o portador da bola saber ler o jogo e identificar a sua melhor opção.

  • Golo n.º1 - Shakhtar v Chelsea
A jogada tem início na direita. Hazard (amarelo) recua para receber o passe de Terry. Tentando abrir espaço para o seu colega, Ramires (azul) avança no terreno. A bola será encaminhada para Mikel (vermelho). Note-se como os quatro jogadores do Shakhtar formam uma diagonal quase perfeita, fechando as linhas de passe.


Mikel recebe a bola e, em vez de a passar para David Luiz (laranja) ou Ivanovic (verde), volta-se para o centro do terreno. Ramires (azul) recua, tentando apoiar o seu companheiro. 


Mikel, sob forte pressão, acaba por remeter a bola para Hazard, mas tanto Mikel (vermelho) como Ramires (azul) ficam à frente do avançado belga. É possível ver Cole na linha do meio-campo e Ivanovic (ver imagem seguinte) mais adiantado. Isto significa que apenas Terry e Luiz estão atrás do prodígio do Chelsea. 


Hazard perde a bola e verifica-se agora uma situação de 2x2, com Ivanovic (verde) demasiado adiantado. Com Luiz (laranja) muito aberto, Terry (roxo) tenta correctamente retardar a jogada.


Luiz (laranja) corre na diagonal em direcção ao centro, ao passo que Terry (roxo) permanece ao centro, à espera de reforços.


É nessa altura que Terry executa uma discutível abordagem defensiva. Com Luiz agora mais perto, Terry aproxima-se do portador da bola, abrindo uma enorme avenida para o passe nas suas costas, em vez de fechar a linha de passe.

Conclusão

A boa leitura de jogo é essencial em qualquer cenário, mas, num contexto tão rigoroso como a Liga dos Campeões, um erro é muitas vezes o suficiente para ser penalizado pelo adversário. Sem a devida cobertura ofensiva (ou seja, opções de passe seguras), tanto Mikel como Hazard deveriam ter-se apercebido do perigo e jogado de forma segura. Por outro lado, os seus companheiros de equipa deveriam ter oferecido um melhor apoio durante o ataque e promovido as adaptações necessárias assim que vislumbraram a possibilidade de perda da bola. 

  • Golo n.º 2 - Spartak de Moscovo v Benfica
Neste caso em particular, o Benfica está a atacar pela direita, como é seu timbre. Salvio (o extremo direito) passa para Matic (o pivô defensivo).


Matic (azul) é imediatamente pressionado por Rafael Carioca (o jogador que viria a marcar o golo). O lateral-direito do Benfica, Maxi Pereira (laranja), é neste momento o jogador mais avançado da equipa. Melgarejo (vermelho), o lateral-esquerdo, apercebe-se das dificuldades do seu colega e insiste em subir no terreno, em vez de oferecer uma linha de passe segura. Note-se o número de jogadores do Benfica à frente da linha da bola.


Tomando uma má decisão, Matic tenta entregar a bola a Melgarejo, mas Bilyaletdinov faz a intercepção. A área a sombreado mostra como não existe ninguém atrás de Matic (azul) para além dos defesas-centrais, no seu meio-campo defensivo.


Nesta imagem, é fácil constatar a situação de igualdade numérica. Jardel (roxo), à semelhança de Terry, preocupa-se mais com a bola do que com o espaço ou em fechar a linha de passe. A bola acabaria por chegar a Jurado, livre de qualquer marcação.


Jurado segura a bola enquanto espera por um colega. Rafael Carioca, jogador que havia pressionado Matic, passa pelo seu opositor e pelo de Jurado e introduz a bola na baliza.

Conclusão

Este foi outro exemplo da necessidade de saber ler o jogo em função do posicionamento do jogador e da equipa. Embora o passe de Matic não tenha sido o ideal, convirá não esquecer as inúmeras más decisões dos seus companheiros, ao não oferecerem suficientes linhas de passe seguras - incluindo a subida de um dos seus colegas após ver o seu pivô em dificuldades. Se Matic tivesse sido devidamente apoiado, haveria algumas linhas de passe ao seu lado ou atrás de si, de modo a manter a posse da bola e a evitar um rápido contra-ataque se a equipa perdesse a bola, como viria a acontecer.

Monday, October 22, 2012

Manchester United - Stoke City: dois mundos diferentes


Equipas iniciais

A partida que opunha Manchester United e Stoke City prometia ser uma das batalhas tácticas mais interessantes da jornada, com duas abordagens previsivelmente muito diferentes. Subsistiam inclusivamente algumas dúvidas sobre se o Manchester United seria capaz de contrariar a ameaça aérea do Stoke.

A forma mais óbvia (e já um cliché, nos dias que correm) de distinguir o Stoke City de quase todas as restantes equipas consiste em analisar os passes realizados com destino no último terço do terreno. Com Peter Crouch, Tony Pullis não hesita por um momento em optar por um jogo mais directo, especialmente contra adversários mais fortes. Quanto ao United, o jogo mais baseado no passe e desmarcação acabaria por resultar e por ser determinante para o resultado.

Passes das duas equipas no último terço do campo

A abordagem do Stoke era muito simples - mas eficaz: enviar a bola para Crouch (particularmente no lado de Ferdinand), o qual a remetia para Kightly ou Walters - as competências de Crouch de fazer a equipa jogar são frequentemente menosprezadas. Muito provavelmente cientes das dificuldades de Ferdinand e Evans pelo ar e da falta de ritmo de Scholes e Carrick para recuperar as segundas bolas, os forasteiros insistiam em executar essa jogada uma e outra vez. Os comandados de Pullis permaneciam compactos num 4x1x4x1 - não excessivamente retraído, inesperadamente - e atacavam o Manchester United quando estes tentavam entrar pelo centro, partindo em rápidos contra-ataques.

Desarmes e intercepções do Stoke City, predominantemente no lado esquerdo.

Para além disso, com Valencia e Welbeck a ficarem pelo ataque e com Rooney mais adiantado do que o habitual, os extremos do Stoke flectiam para dentro sem oposição, confundindo ainda mais as marcações do Manchester United. Na verdade, antes de os comandados de Sir Alex Ferguson igualarem a partida, o Stoke City poderia ter duplicado a vantagem sem que isso causasse qualquer surpresa. Embora apenas tenham usufruído de 36% de posse de bola, a equipa de Tony Pulis revelou-se muito mais incisiva durante boa parte da primeira metade.

O Manchester United começou a encontrar o seu ritmo à medida que o seu ataque se foi tornando mais fluido. Van Persie, Rooney e Welbeck podem trocar de posição entre si, algo que não fizeram durante os primeiros 30 minutos. Van Persie deu o exemplo ao deslocar-se cada vez mais para a ala esquerda, deixando o centro para as investidas de Rooney a partir de trás, o que acabaria por resultar no primeiro golo dos visitados.

Gráficos dos passes de Van Persie e Rooney (assistências a amarelo)

Estes três jogadores viriam a marcar e a fornecer as assistências para todos os golos do Manchester United (com excepção da assistência de Valencia para o tento de Van Persie). Dos três, o avançado holandês mostrou ser o mais perigoso e o mais difícil de marcar, uma vez que ocupou diversas zonas do terreno, levando os seus companheiros a procurar outras posições. Welbeck provou mais uma vez que é mais forte em zonas mais interiores e Rooney demonstrou novamente que é um jogador completo, com talento para jogar em qualquer posição.

Resta ainda uma última questão para cada equipa. O segundo golo do Stoke City ofereceu novo exemplo da necessidade do Manchester United de contar com um jogador defensivamente mais competitivo no seu meio-campo e de abordar as suas fragilidades pelo centro - o segundo tento do Stoke foi invulgarmente semelhante à forma como o Tottenham destroçou o Manchester United há algumas semanas. No que diz respeito ao Stoke, embora esta abordagem possa dar frutos contra equipas mais fortes, será necessário um modelo mais elaborado caso pretendam subir na tabela.

Tão perto, mas tão longe

Equipas iniciais

Havia um enorme burburinho à volta deste encontro, com o Tottenham de de André Villas-Boas a defrontar o seu antigo clube. Iria o treinador português instigar a sua equipa a entrar no jogo em força desde o apito inicial ou iriam os Lilywhites adoptar uma postura mais cautelosa?

Enquanto o Chelsea se debatia com as ausências de John Terry (suspenso) e Frank Lampard (no banco), ao Tottenham faltavam igualmente dois jogadores chave: Moussa Dembélé e Gareth Bale, criando uma parceria entre Tom Huddlestone e Sandro no meio-campo, com Dempsey no flanco esquerdo. Infelizmente para o Tottenham, essas ausências revelaram-se mais importantes do que as do Chelsea ao longo de todo o jogo.

Sem nenhuma das equipas interessada em pressionar à frente, a equipa de Roberto Di Matteo mostrava-se claramente mais confiante e mais segura no momento da posse de bola. Sem o contributo defensivo de Bale e Dempsey pouco disposto a recuar rapidamente, o Chelsea insistiu pelo flanco direito, criando constantemente situações de superioridade numérica.

O Tottenham patenteava enormes dificuldades em sair a jogar. Com Gallas e Caulker no centro da defesa - nenhum dos dois particularmente à vontade a distribuir jogo -, um jogador como Dembélé é essencial, uma vez que pode manter a posse de bola e passar por adversários antes de abrir o jogo. Para além do mais, trata-se de uma equipa que gira em torno da velocidade pura de Bale para a saída de bola, uma directriz que foi anulada devido às diferentes característica de Dempsey. A simples mudança do norte-americano para a ala causou não só uma ineficiência no flanco esquerdo, mas removeu igualmente a incisividade de Desmpey no centro, onde é exímio a aproveitar segundas bolas do seu ponta-de-lança, ao contrário de Sigurdsson. Por seu turno, o médio islandês jogava demasiado à frente para ajudar defensivamente, mas não criava situações de perigo durante os momentos ofensivos - como é frequentemente intenção do treinador ao colocar um jogador deste tipo em posições tão adiantadas. AVB acabaria por perceber isso mesmo e Sigurdsson e Dempsey acabariam por trocar de posição a meio da primeira parte.

O contraste nítido do contributo de Dempsey
entre a primeira e a segunda metade da 1ª parte.

Para uma equipa com rotinas tão inculcadas no lado esquerdo, Aaron Lennon tinha de compensar essa ausência, algo que não fez até ao minuto 25, espalhando imediatamente o pânico na defesa do Chelsea. Na verdade, Lennon viria a criar a melhor oportunidade do Tottenham com Sigurdsson como destino dez minutos mais tarde. O Chelsea chegava ao intervalo a vencer e com toda a justiça.

A segunda metade foi totalmente distinta. O Tottenham libertou-se do medo de atacar e obrigar o duo de médios do Chelsea a trabalhar, algo que deu frutos de forma quase imediata, através do golo de Gallas aos 46 minutos. Alguns minutos depois, a equipa visitada marcaria o segundo tento quando Defoe desviou o remate enrolado de Lennon. Embora os primeiros 15 minutos do Tottenham se tenham ficado a dever em parte à maior intensidade e dinâmica, é importante destacar o contributo de Lennon, uma vez que era o único jogador da equipa da casa (com a excepção do fiável e impressionante Jermaine Defoe) capaz de ultrapassar adversários em situações de 1x1, levando ao seu desposicionamento.

A diferença entre a primeira e a segunda parte é nítida,
com toda a equipa do Tottenham mais ampla e avançada.

O encontro parecia então nas mãos do Tottenham. O Chelsea parecia perdido e incapaz de inverter a situação. Embora o papel de Mata e Hazard na remontada final tenha sido absolutamente fundamental, houve dois factores que actuaram contra o Tottenham: a menor capacidade de Gallas e a ténue protecção do meio-campo à sua linha mais recuada.

Os diferentes contributos defensivos de Sandro e Huddlestone

A ausência de Bale foi obviamente importante, mas a de Dembélé poderá ter sido ainda mais importante. Para além da sua capacidade de oferecer constantemente uma saída de bola, o seu desempenho defensivo é igualmente relevante. O gráfico apresentado mais acima apresenta as distintas participações defensivas de Sandro e Huddlestone, uma diferença que se tornou mais nítida à medida que o encontro se desenrolava. na verdade, a fadiga de Huddlestone foi causa directa do segundo golo do Chelsea e a sua substituição pecou por tardia.

No que diz respeito a Gallas, AVB deverá por certo ansiar pelo regresso de Kaboul ou Assou-Ekotto. Apesar do seu impressionante e vitorioso palmarés, as limitações do defesa-central francês ficaram uma vez mais à vista. Infelizmente para Gallas, o francês já não é o mesmo jogador sólido e fiável que foi em tempo e a partida de Sábado apenas expôs ainda mais as suas fragilidades. Não só o seu posicionamento se tem revelado questionável - originando alívios mal direccionados -, mas a sua leitura de jogo também parece estar a ressentir-se, como ficou provado no terceiro golo do Chelsea.

Esta foi uma partida que o Tottenham poderia e deveria ter vencido após recuperar da desvantagem inicial, não fora por alguns pecadilhos críticos no meio-campo e na defesa. Dembélé e Bale regressarão em breve, tal como Parker, Kaboul e Assou-Ekotto, o que apenas tornará a equipa mais forte. Não obstante a derrota, André Villas-Boas poderá encontrar consolo ao ver que a sua equipa está a evoluir e a caminho de se tornar suficientemente poderosa para se bater com os seus adversários olhos nos olhos.

Friday, October 19, 2012

Barcelona - um modelo diferente

Este texto será porventura tardio, mas permanece pertinente, uma vez que iremos analisar processos (defensivos) consolidados. Tito Vilanova foi nomeado como sucessor de Pep Guardiola no sentido de dar continuidade a uma determinada filosofia, a qual se revelou frutífera ao longo dos últimos anos. Embora seja verdade que a maioria das linhas gerais se mantém, não é menos verdade que Vilanova abandonou quase por completo a defesa a três (excepto em situações de desvantagem) e que a pressão defensiva é actualmente menos intensa e eficaz. Deitemos um olhar rápido à partida contra o Real Madrid de 7 de Outubro.


  • Golo n.º 1 do Real Madrid
O Real Madrid estava a lograr rodar a bola de flanco para flanco, nomeadamente através dos passes longos de Xabi Alonso. Aqui, a bola acabara de ir da esquerda para a direita, com Özil a devolvê-la ao centro. Com uma pressão defensiva muito menos intensa, os extremos do Barcelona parecem ter dúvidas quanto ao que deverão fazer sem a bola e esquecem-se frequentemente de defender. Neste caso em particular, existem cinco jogadores do Real Madrid na grande área, contra igual número de adversários. Note-se como Ronaldo (azul) é deixado numa situação de 1x1 contra Dani Alves, com imenso espaço para todas as habilidades (área sombreada).


Quando a bola chega a Benzema, um dos defesas-centrais vai ao seu encontro, conforme esperado, e Dani Alves (laranja) hesita entre oferecer cobertura ao seu companheiro de equipa e marcar Ronaldo. Uma vez mais, o extremo direito dos catalães não está minimamente próximo da zona de acção e nem Xavi nem Fàbregas (os médios neste encontro) oferecem qualquer contributo defensivo junto à grande área.


Essa simples hesitação é suficiente para Ronaldo ultrapassar Dani Alves (laranja) e introduzir a bola na baliza  com um potente remate de pé esquerdo.


  • Golo n.º 2 do Real Madrid

No segundo golo da equipa madrilena, houve outra questão pertinente. O Barcelona tem sido esta época menos preciso no capítulo do passe e tem cedido a bola de forma menos criteriosa, especialmente em jogos com maior grau de dificuldade. Aqui, os catalães perdem novamente a bola e a equipa demora mais do que o devido a reencontrar a sua disposição (defensiva). O centro do terreno está totalmente desprotegido (área sombreada) e Dani Alves não está entre a baliza e o seu adversário directo, conforme deveria. Para além do mais, não há ninguém entre a baliza e Özil (no interior da área sombreada).


Com ninguém a sair ao encontro de Özil, Ronaldo passa em sprint pelo lateral-direito do Barcelona. Sem qualquer pressão no meio-campo (os dois interiores catalães estão muito longe da zona de acção), o internacional alemão pode escolher o passe ideal e a tentativa de fora-de-jogo não constituiu qualquer obstáculo para a velocidade e inteligente movimentação de Ronaldo.

  • Conclusão
Não obstante o começo exemplar até este encontro (com 6 vitórias em outros tantos jogos), as exibições do Barcelona têm sido tudo menos perfeitas. A posse de bola tem sido por vezes mais descontinuada, mas, acima de tudo, a abordagem defensiva parece estar a mudar, propositadamente ou não. A pressão imediata que a equipa catalã costumava exercer após o momento de perda da bola está longe do que era, mas a sua abordagem e posicionamento defensivos não mudaram em conformidade, o que ajuda a explicar em parte o súbito aumento de golos sofridos.

Sunday, October 14, 2012

Sabotage Times

O primeiro artigo da minha colaboração com o Sabotage Times está já disponível para consulta aqui (em inglês).

Friday, October 12, 2012

Portugal não concretiza e perde

Equipas e movimentações iniciais

Portugal e Rússia defrontaram-se em Moscovo para um encontro potencialmente decisivo para apurar o primeiro classificado do grupo (o qual evitará dessa forma o temido play-off). Ruben Micael jogou na posição habitualmente ocupada por Raúl Meireles, enquanto a Rússia apresentou um onze esperado, com a ausência de Dzagoev como a única surpresa.

Num campo sintético, Portugal deparou-se de início com algumas dificuldades para impor o seu jogo de passe e recepção. O plano russo era por demais evidente: permitir que os defesas-centrais portugueses tivessem a bola e atacar o portador da bola assim que estava chegava aos médios ou laterais. Quando a bola era devolvida aos defesas-centrais ou ao guarda-redes, os jogadores russos exerciam uma pressão intensa. Foi com essa abordagem como pano de fundo que o primeiro e único golo do encontro surgiu.


Ruben Micael acabou de perder a posse da bola.
Pepe (vermelho) apercebe-se e tenta encurtar o espaço.

Bruno Alves (verde) interpreta a situação de modo incorrecto e reage tarde,
não acompanhando a movimentação de Pepe e ficando longe do posicionamento ideal.

Na verdade, Portugal reagiu bastante bem ao tento russo e conseguiu encontrar o seu equilíbrio. Pressionando em zonas mais avançadas, os comandados de Paulo Bento lograram recuperar inúmeras bolas, abafando a iniciativa russa. Ainda assim, a equipa de Leste mostrou-se muito perigosa sempre que conseguia circunscrever a pressão inicial portuguesa. Micael permaneceu demasiado adiantado durante a maior parte do tempo que esteve em campo e Moutinho tinha dúvidas sobre se se deveria juntar ao médio do Sporting de Braga ou ajudar Miguel Veloso, o qual ficou muitas vezes isolado.

Miguel Veloso ficou muitas vezes abandonado à sua sorte
na tentativa de contrariar os ataques russos.

A Rússia parecia extremamente satisfeita com o resultado e parecia acreditar que as suas rápidas transições ofensivas acabariam por punir Portugal - e, como tal, recuaram as suas linhas. Não obstante, a sua defesa não se apresentou a um nível muito elevado e Portugal conseguiu efectivamente criar várias oportunidades quase sempre por intermédio da mesma jogada através do seu 4x3x3 - à imagem do encontro entre FC Porto e Paris Saint-Germain - no flanco direito (a lesão de Fábio Coentrão não ajudou em nada as pretensões portuguesas).

Nani (azul) passa a bola para Postiga, o qual a endossa para João Pereira.
A presença de Micael (laranja) impede que o defesa-central
proporcione a cobertura defensiva necessária.

Nani tira o máximo proveito da movimentação de Postiga
e da presença de Micael para atacar o espaço criado.

Portugal tinha relativa facilidade em encontrar essas situações porque tanto Fayzulin como Shirokov permaneciam demasiado adiantados (um pouco à imagem de Micael), o que significava que os jogadores lusos não tinham grande dificuldade em localizar Postiga ou Ronaldo desmarcados no centro. Apesar das várias oportunidades, a tomada de decisão portuguesa no último terço do campo raramente apresentou os índices mais desejados.

Como se tal não bastasse, a eficaz pressão subida portuguesa não se fazia acompanhar de uma eficaz linha defensiva mais recuada, situação que derivava ora de distracções individuais, ora do excessivo espaço permitido após a primeira zona de pressão.

Fazendo uso de uma estratégia já conhecida, Paulo Bento substituiu Ruben Micael por Varela e Portugal transformou-se num 4x2x3x1. Moutinho ficou mais próximo de Veloso, ao passo que Nani passou para o centro, nas costas de Postiga. Este plano B já deu frutos no passado - contra a Dinamarca, por exemplo -, mas, desta feita, foi o último suspiro português. Apesar da louvável intenção do seleccionador português, o meio-campo ficou desequilibrado e a equipa das quinas nunca mais se mostrou capaz de exercer a mesma pressão ou criar qualquer outra situação de perigo.

Embora esta não tenha sido a melhor exibição da selecção lusa, o resultado poderá parecer algo injusto, à luz das exibições das duas equipas. Ao intervalo, Portugal rematara muito mais vezes, apresentava um número bem superior de passes realizados e uma percentagem mais elevada de passes certos - ainda que a segunda parte não tenha sido bem conseguida e fosse difícil ver como Portugal acabaria por marcar.