Friday, October 19, 2012

Barcelona - um modelo diferente

Este texto será porventura tardio, mas permanece pertinente, uma vez que iremos analisar processos (defensivos) consolidados. Tito Vilanova foi nomeado como sucessor de Pep Guardiola no sentido de dar continuidade a uma determinada filosofia, a qual se revelou frutífera ao longo dos últimos anos. Embora seja verdade que a maioria das linhas gerais se mantém, não é menos verdade que Vilanova abandonou quase por completo a defesa a três (excepto em situações de desvantagem) e que a pressão defensiva é actualmente menos intensa e eficaz. Deitemos um olhar rápido à partida contra o Real Madrid de 7 de Outubro.


  • Golo n.º 1 do Real Madrid
O Real Madrid estava a lograr rodar a bola de flanco para flanco, nomeadamente através dos passes longos de Xabi Alonso. Aqui, a bola acabara de ir da esquerda para a direita, com Özil a devolvê-la ao centro. Com uma pressão defensiva muito menos intensa, os extremos do Barcelona parecem ter dúvidas quanto ao que deverão fazer sem a bola e esquecem-se frequentemente de defender. Neste caso em particular, existem cinco jogadores do Real Madrid na grande área, contra igual número de adversários. Note-se como Ronaldo (azul) é deixado numa situação de 1x1 contra Dani Alves, com imenso espaço para todas as habilidades (área sombreada).


Quando a bola chega a Benzema, um dos defesas-centrais vai ao seu encontro, conforme esperado, e Dani Alves (laranja) hesita entre oferecer cobertura ao seu companheiro de equipa e marcar Ronaldo. Uma vez mais, o extremo direito dos catalães não está minimamente próximo da zona de acção e nem Xavi nem Fàbregas (os médios neste encontro) oferecem qualquer contributo defensivo junto à grande área.


Essa simples hesitação é suficiente para Ronaldo ultrapassar Dani Alves (laranja) e introduzir a bola na baliza  com um potente remate de pé esquerdo.


  • Golo n.º 2 do Real Madrid

No segundo golo da equipa madrilena, houve outra questão pertinente. O Barcelona tem sido esta época menos preciso no capítulo do passe e tem cedido a bola de forma menos criteriosa, especialmente em jogos com maior grau de dificuldade. Aqui, os catalães perdem novamente a bola e a equipa demora mais do que o devido a reencontrar a sua disposição (defensiva). O centro do terreno está totalmente desprotegido (área sombreada) e Dani Alves não está entre a baliza e o seu adversário directo, conforme deveria. Para além do mais, não há ninguém entre a baliza e Özil (no interior da área sombreada).


Com ninguém a sair ao encontro de Özil, Ronaldo passa em sprint pelo lateral-direito do Barcelona. Sem qualquer pressão no meio-campo (os dois interiores catalães estão muito longe da zona de acção), o internacional alemão pode escolher o passe ideal e a tentativa de fora-de-jogo não constituiu qualquer obstáculo para a velocidade e inteligente movimentação de Ronaldo.

  • Conclusão
Não obstante o começo exemplar até este encontro (com 6 vitórias em outros tantos jogos), as exibições do Barcelona têm sido tudo menos perfeitas. A posse de bola tem sido por vezes mais descontinuada, mas, acima de tudo, a abordagem defensiva parece estar a mudar, propositadamente ou não. A pressão imediata que a equipa catalã costumava exercer após o momento de perda da bola está longe do que era, mas a sua abordagem e posicionamento defensivos não mudaram em conformidade, o que ajuda a explicar em parte o súbito aumento de golos sofridos.

Sunday, October 14, 2012

Sabotage Times

O primeiro artigo da minha colaboração com o Sabotage Times está já disponível para consulta aqui (em inglês).

Friday, October 12, 2012

Portugal não concretiza e perde

Equipas e movimentações iniciais

Portugal e Rússia defrontaram-se em Moscovo para um encontro potencialmente decisivo para apurar o primeiro classificado do grupo (o qual evitará dessa forma o temido play-off). Ruben Micael jogou na posição habitualmente ocupada por Raúl Meireles, enquanto a Rússia apresentou um onze esperado, com a ausência de Dzagoev como a única surpresa.

Num campo sintético, Portugal deparou-se de início com algumas dificuldades para impor o seu jogo de passe e recepção. O plano russo era por demais evidente: permitir que os defesas-centrais portugueses tivessem a bola e atacar o portador da bola assim que estava chegava aos médios ou laterais. Quando a bola era devolvida aos defesas-centrais ou ao guarda-redes, os jogadores russos exerciam uma pressão intensa. Foi com essa abordagem como pano de fundo que o primeiro e único golo do encontro surgiu.


Ruben Micael acabou de perder a posse da bola.
Pepe (vermelho) apercebe-se e tenta encurtar o espaço.

Bruno Alves (verde) interpreta a situação de modo incorrecto e reage tarde,
não acompanhando a movimentação de Pepe e ficando longe do posicionamento ideal.

Na verdade, Portugal reagiu bastante bem ao tento russo e conseguiu encontrar o seu equilíbrio. Pressionando em zonas mais avançadas, os comandados de Paulo Bento lograram recuperar inúmeras bolas, abafando a iniciativa russa. Ainda assim, a equipa de Leste mostrou-se muito perigosa sempre que conseguia circunscrever a pressão inicial portuguesa. Micael permaneceu demasiado adiantado durante a maior parte do tempo que esteve em campo e Moutinho tinha dúvidas sobre se se deveria juntar ao médio do Sporting de Braga ou ajudar Miguel Veloso, o qual ficou muitas vezes isolado.

Miguel Veloso ficou muitas vezes abandonado à sua sorte
na tentativa de contrariar os ataques russos.

A Rússia parecia extremamente satisfeita com o resultado e parecia acreditar que as suas rápidas transições ofensivas acabariam por punir Portugal - e, como tal, recuaram as suas linhas. Não obstante, a sua defesa não se apresentou a um nível muito elevado e Portugal conseguiu efectivamente criar várias oportunidades quase sempre por intermédio da mesma jogada através do seu 4x3x3 - à imagem do encontro entre FC Porto e Paris Saint-Germain - no flanco direito (a lesão de Fábio Coentrão não ajudou em nada as pretensões portuguesas).

Nani (azul) passa a bola para Postiga, o qual a endossa para João Pereira.
A presença de Micael (laranja) impede que o defesa-central
proporcione a cobertura defensiva necessária.

Nani tira o máximo proveito da movimentação de Postiga
e da presença de Micael para atacar o espaço criado.

Portugal tinha relativa facilidade em encontrar essas situações porque tanto Fayzulin como Shirokov permaneciam demasiado adiantados (um pouco à imagem de Micael), o que significava que os jogadores lusos não tinham grande dificuldade em localizar Postiga ou Ronaldo desmarcados no centro. Apesar das várias oportunidades, a tomada de decisão portuguesa no último terço do campo raramente apresentou os índices mais desejados.

Como se tal não bastasse, a eficaz pressão subida portuguesa não se fazia acompanhar de uma eficaz linha defensiva mais recuada, situação que derivava ora de distracções individuais, ora do excessivo espaço permitido após a primeira zona de pressão.

Fazendo uso de uma estratégia já conhecida, Paulo Bento substituiu Ruben Micael por Varela e Portugal transformou-se num 4x2x3x1. Moutinho ficou mais próximo de Veloso, ao passo que Nani passou para o centro, nas costas de Postiga. Este plano B já deu frutos no passado - contra a Dinamarca, por exemplo -, mas, desta feita, foi o último suspiro português. Apesar da louvável intenção do seleccionador português, o meio-campo ficou desequilibrado e a equipa das quinas nunca mais se mostrou capaz de exercer a mesma pressão ou criar qualquer outra situação de perigo.

Embora esta não tenha sido a melhor exibição da selecção lusa, o resultado poderá parecer algo injusto, à luz das exibições das duas equipas. Ao intervalo, Portugal rematara muito mais vezes, apresentava um número bem superior de passes realizados e uma percentagem mais elevada de passes certos - ainda que a segunda parte não tenha sido bem conseguida e fosse difícil ver como Portugal acabaria por marcar.

Monday, October 8, 2012

FC Porto entra a matar e desacelera em seguida

Equipas e movimentações iniciais


FC Porto e Sporting encontraram-se em lados totalmente opostos do espectro futebolístico. Os dragões vinham de uma excelente exibição e correspondente vitória frente ao Paris Saint-Germain, ao passo que os leões haviam sido trucidados pelo Videoton, com a posterior demissão de Ricardo Sá Pinto. Como tal, não foi de todo surpreendente que Vítor Pereira não promovesse qualquer alteração no seu onze. O treinador interino sportinguista, Oceano Cruz, manteve a mesma estrutura base, optando por Schaars e Elias no centro do terreno e Pranjic à frente de Insúa na ala esquerda, previsivelmente para manter Danilo sob controlo e explorar os espaços nas costas de James Rodríguez, uma vez que o colombiano tende a flectir para o meio.

O plano de Oceano parecia basear-se em restringir os anfitriões e evitar sofrer golos durante o período inicial, instruindo Schaars para que seguisse Lucho quase para todo o lado. Com Elias preocupado com João Moutinho, Fernando ficava frequentemente liberto, uma vez que Izmailov funcionava quase como número 10 e deixava o pivô defensivo portista sem marcação - permitindo aos campeões nacionais desfrutarem de sucessivas situações de superioridade numérica.

Apesar de todas as críticas que tem recebido das bancadas, há que dar crédito a Vítor Pereira por fazer com que este FC Porto jogue um futebol mais fluido na abertura da presente temporada, com o correspondente adiantamento da linha defensiva. Ao recuperar inúmeras bolas logo na transição ofensiva sportinguista, o FC Porto pôde explorar a ausência de Schaars, desposicionado pela movimentação de Lucho. Por seu turno, essa movimentação abria espaços para James, o qual tentou alvejar a baliza precisamente dessa zona (à frente dos defesas-centrais, onde Schaars deveria estar) momentos antes de Danilo oferecer a assistência para o atrevido calcanhar de Jackson Martínez.

Os leões pareceram algo abalados durante alguns minutos, com o FC Porto a permanecer compacto, ainda que exercendo menor pressão em zonas mais adiantadas. Com Mangala no lugar do lesionado Maicon, era provável que os azuis e brancos se deparassem com alguns problemas, uma vez que o defesa-central francês não é tão rápido a reagir e denota maior tendência a fazer passes errados. Para além disso, os comandados de Vítor Pereira começaram a descomprimir após o golo, aparentemente confiantes de que poderiam criar perigo assim que quisessem acelerar o jogo.

Por volta da meia-hora de jogo, o Sporting começou a soltar-se das amarras que havia imposto a si mesmo, percebendo que a defesa subida do FC Porto estava agora vulnerável sem Maicon. Izmailov aproximou-se do seu meio-campo e começou a criar situações de perigo para os seus colegas (e não só), ficando a faltar uma finalização mais apurada. Talvez a intenção de Vítor Pereira tivesse sido sempre essa, pois os jogadores leoninos continuaram a cometer o mesmo erro que cometem há muito tempo, independentemente do nome do treinador: atacar com os dois laterais na perseguição do resultado, abrindo enormes crateras e, por conseguinte, criando situações de inferioridade numérica.

O Sporting ditou os primeiros 15 minutos do segundo tempo. Com Izmailov a assumir cada vez mais a sua presença (o momento da sua substituição foi infeliz, dado que estava a começar a ser o foco de que a equipa visitante necessitava), o meio-campo do FC Porto perdeu por vezes as suas coordenadas, nomeadamente após as más decisões de Varela no último terço do terreno, partindo a equipa em duas partes em circunstâncias críticas. Contudo, se o Sporting pretender efectivamente lutar por uma classificação mais de acordo com os pergaminhos do clube, Elias terá de se envolver mais e oferecer linhas de passe, em vez de se esconder do jogo, sendo igualmente necessário que haja movimentações ofensivas de maior qualidade. Neste momento, todos parecem estar à espera que Carrillo saque um coelho da cartola.

A expulsão de Rojo foi uma consequência natural do maior adiantamento do Sporting (e deveria ter sinalizado o fim do encontro ainda antes da segunda grande penalidade). Embora a abordagem do defesa-central leonino não seja propriamente a ideal, o próximo treinador do Sporting tem de assumir como prioridade a revisão do posicionamento dos laterais em posse, uma vez que deixa a equipa de Alvalada total e desnecessariamente desprotegida.

Em breves palavras, foi um jogo algo fragmentado. O Sporting mantém a sua evidente falta de opções atacantes e o próximo responsável técnico terá uma tarefa árdua pela frente. No que diz respeito ao FC Porto, embora não se possa apelidar a vitória de injusta, houve momentos de perda de controlo e de más tomadas de decisão (particularmente nas transições ofensivas) que poderiam ter tido consequências desastrosas para as ambições portistas. Não obstante, Vítor Pereira estará por certo feliz no seguimento de duas vitórias importantes sem qualquer golo sofrido.

Friday, October 5, 2012

FC Porto conquista vitória com exibição dominadora


Equipas e movimentações iniciais

No primeiro jogo no seu estádio a contar para a Liga dos Campeões, o FC Porto apresentou-se de forma dominante contra o principal adversário do seu grupo. Vítor Pereira optou por Danilo, Fernando e Varela em detrimento de Miguel Lopes, Defour e Atsu, respectivamente. O treinador do Paris Saint-Germain, Carlo Ancelotti, não efectuou grandes alterações no seu onze, com Ménez junto a Ibrahimovic e Nenê por trás dos dois jogadores mais avançados.

Não é todos os dias que se vê uma equipa portuguesa a assumir o papel de favorita, particularmente na Liga dos Campeões e contra um conjunto recheado de estrelas, como o Paris Saint-Germain. Aparentemente nada impressionados com os valores financeiros patentes em toda a imprensa ao longo dos dias anteriores, os comandados de Vítor Pereira mostraram-se decididos a colocar os parisienses em dificuldades e comprovaram a sua evolução desde a temporada transacta (e desde o último encontro contra o Rio Ave).

Os dragões apresentaram uma linha defensiva bastante subida, muito provavelmente com o intuito de impedir que Ibrahimovic jogasse demasiado próximo da grande área do FC Porto, acreditando que nem Ménez nem Nenê constituiriam grande perigo em penetrações vindas de trás. Quanto ao Paris Saint-Germain, a ordem passava por assumir um bloco baixo e aguardar que a pressão portista inicial acabasse por desvanecer com o tempo.

Frente ao 4x3x1x2 do adversário (com Nenê a actuar por trás de Ibrahimovic e Ménez), os campeões portugueses acentuaram ainda mais as suas habituais características ofensivas, explorando e criando situações de superioridade numérica nas alas - nomeadamente (e de forma quase exclusiva) a esquerda. Com James a vaguear entre o centro e a direita e com Varela na esquerda, o FC Porto insistiu no seu lado esquerdo com Alex Sandro, Moutinho e Varela. Com a largura natural oferecida por este último, o meio-campo em losango de Ancelotti ficava demasiado aberto para conseguir dar resposta às ofensivas.

O desenho da jogada era simples e prolongou-se durante quase todo o encontro. Alex Sandro iniciava a movimentação em zonas mais avançadas (próximo da linha do meio-campo), ocupando mediatamente  Chantôme (o qual, verdade seja dita, raramente jogou em áreas mais interiores, como deveria ter feito). Varela era marcado por Van der Wiel e Verratti surgia a marcar Moutinho, receoso que o médio português tomasse conta do centro - acabando por abrir o meio do campo a James ou Lucho. Com a mesma movimentação e algumas triangulações, a equipa portuguesa criou uma chuva de oportunidades de golo.

O típico movimento do FC Porto pela esquerda.
Verratti foi desposicionado de forma demasiado fácil.

Com o contributo defensivo diminuto de Ibrahimovic e Ménez e com Nenê a actuar de forma intermitente, o FC Porto teve frequentemente liberdade de jogar a seu bel-prazer no flanco esquerdo ou pelo centro, uma vez que a ajuda de Matuidi ou dos defesas-centrais chegava sempre (muito) tarde. Como tal, não será um grande risco dizer que os mais de 20 remates à baliza de Sirigu davam muitas vezes origem 'a oportunidades claras. No que diz respeito ao plano de ataque do Paris Saint-Germain, na maioria dos casos, não parecia haver nenhum, para além de esperar que o rebelde atacante sueco sacasse um dos seus coelhos da cartola (o que quase resultou à passagem do 11º minuto, após um toque de calcanhar em estilo).

O único momento em que os parisienses se assumiram como uma ameaça efectiva foram os primeiros 10 minutos da segunda parte, altura em que os médios do FC Porto perderam as suas coordenadas e se mostravam demasiado sôfregos em chegar ao golo, quase sendo castigados pelo atrevimento. Contudo, a calma de Lucho e a resistência de Moutinho devolveram a ordem aos dragões e estes puderam retomar as suas intenções.

Não obstante todas as oportunidades desperdiçadas, o FC Porto foi um justo vencedor - de tal forma que poderá vir a arrepender-se de não ter marcado mais. O golo de James Rodríguez poderá ter chegado tardiamente para os adeptos portistas, mas significou que os três pontos permaneceriam no Dragão. Após as últimas vitórias sucessivas, esperava-se muito mais do Paris Saint-Germain, equipa que apenas poderá queixar-se de si própria. Na verdade, dar-se-ão por satisfeitos por regressarem a Paris apenas com um golo sofrido. Por outro lado, é difícil entender por que motivo Ancelotti, geralmente exímio na sua leitura de jogo, não contrapôs qualquer solução para contrariar a vantagem natural do seu adversário nas alas.

Monday, October 1, 2012

Os golos do Tottenham à lupa


No passado sábado, o Tottenham de André Villas-Boas derrotou o Manchester United no seu próprio reduto, algo que os Hotspurs não logravam há 23 anos - o que poderá vir a revelar-se decisivo para a equipa de AVB. Todos os golos dos Lilywhites tiveram origem na preocupante tendência patenteada pelo United de não estar à altura de adversários mais capazes, ao longo dos últimos anos (nomeadamente após a partida de Carlos Queiroz).

Com Carrick e Scholes no centro do terreno, e Nani e Giggs nas alas, o aparecimento de espaço no meio-campo defensivo do United previa-se frequente, mas a pavorosa exibição do seu meio-campo e defesa deverá estar a deixar Sir Alex Ferguson bastante preocupado. Nesse sentido, partir-se-á para a análise dos golos do Tottenham em maior detalhe, de modo a elucidar algumas das fragilidades dos Diabos Vermelhos.

  • Golo n.º 1



Houve alguns padrões repetitivos ao longo do jogo, no que diz respeito ao posicionamento defensivo. Neste caso em particular, é possível constatar que tanto Carrick (verde) como Scholes (azul) estão afastados da zona da bola, incapazes de proporcionar uma cobertura defensiva adequada. As linhas amarelas tracejadas representam a "tabela" iniciada por Vertonghen (que viria a marcar o golo).




Jermaine Defoe (amarelo) leu o jogo na perfeição e deslocou-se imediatamente para a ala, desposicionando com isso Rio Ferdinand. A "tabela" permite a Vertonghen superar a ténue oposição de Nani.




O movimento de Defoe abre um enorme buraco no centro da defesa do Manchester United (área sombreada). Carrick (verde) e Scholes (azul) já estão atrasados e longe da posição ideal.




Mesmo ao fim de alguns segundos, Carrick (verde) e Scholes (azul) continuam atrasados em relação ao lateral-esquerdo do Tottenham, o qual teve de controlar a bola e resistir à oposição dos seus marcadores. Ferdinand hesita também e a área crítica do campo (área sombreada) na qual Vertonghen irá marcar permanece desprotegida.

  • Golo n.º #2


O Manchester United acaba de perder a bola. Scholes (azul) não pressiona Dembélé (o portador da bola) nem oferece cobertura. A área sombreada representa o enorme buraco no meio que se abria frequentemente para os contra-ataques da equipa londrina. Gareth Bale (vermelho) começou próximo da sua área e acabaria por marcar o golo.




Dembélé passa facilmente por Scholes e nenhum jogador do Manchester United se aproxima para encurtar o espaço ou obrigar o Tottenham a deslocar-se para as alas. Gareth Bale já passou pelo seu "marcador" e tem campo livre à sua frente (área sombreada).




Uma vez mais, Defoe (amarelo) demonstra uma compreensão intuitiva do jogo e começa a fazer o movimento oposto, desposicionando Jonny Evans. Bale (vermelho) recebe a bola sem qualquer marcação e não há ninguém nas imediações. Scholes (azul) está já 5 metros atrás do seu adversário. O Tottenham criava facilmente uma situação de 2x2 em poucos segundos.




Mesmo ao fim de todo este tempo, Evra permanece bem aberto na ala, local em que não pode ser útil à equipa. Defoe (amarelo) prossegue o seu movimento e Bale (vermelho) ataca o espaço vagado pelo seu companheiro de equipa - movimento ofensivo típico. Note-se a distância entre o extremo galês e Ferdinand (laranja). Bale viria a ultrapassar o defesa-central inglês para marcar o segundo golo.




Com Evans fora da jogada, graças ao trabalho árduo de Defoe, Bale (vermelho) tem caminho livre à sua frente em direcção à baliza. Uma vez mais, nem Carrick, nem Scholes, nem Evra ou Rafael estão suficientemente próximos para ajudar. O golo de Bale foi facilitado em demasia e as equipas na Liga dos Campeões estarão atentas à oportunidade de castigar a abordagem defensiva do United.

  • Golo n.º #3



O United acaba de perder a bola, uma vez mais. Dembélé ultrapassa facilmente Scholes (azul) e fica liberto de qualquer marcação.




Com Scholes já fora da jogada, Dembélé pode escolher o melhor passe. A área sombreada representa o enorme buraco que o United abriu novamente entre as linhas e como uma simples bola longa pode contornar todo o meio-campo do United.




Usando da máxima franqueza, esta jogada foi quase inenarrável. Ferdinand (laranja) é novamente desposicionado no seguimento do passe longo de Dembélé na direcção de Defoe. Carrick (verde) e Scholes (azul) não pressionam nem proporcionam cobertura. Como se não bastasse, Rafael (vermelho) parece continuar sem compreender alguns dos fundamentos básicos da sua posição e permanece em linha com Ferdinand e Evans, em vez de dar alguns passos atrás. Note-se como Bale se apercebe imediatamente desse facto e pede a bola no espaço, com o braço. Clint Dempsey (amarelo) dá por si sem qualquer marcação na área mais importante do terreno.




Defoe coloca à bola à frente de Bale para o remate deste último. Carrick (verde) e Scholes (azul) não oferecem qualquer resistência aos seus oponentes. Na área mais importante do terreno, Evans está só (área sombreada) contra três jogadores do Tottenham. Como seria de esperar, Dempsey não teve qualquer dificuldade em aproveitar a defesa incompleta de Lindegaard e marcar o terceiro golo do Tottenham no encontro.


  • Conclusão


Se o Manchester United pretende apresentar uma candidatura séria ao título e/ou melhorar o seu rendimento na Europa relativamente às prestações catastróficas da época passada, convirá recorrer a um extensivo trabalho ao nível do posicionamento defensivo. Caso contrário, irá certamente sofrer às mãos de qualquer equipa que se mostre capaz de contra-atacar pelo centro. À medida que o tempo vai passando, é cada vez mais difícil de compreender ao certo o que leva Sir Alex Ferguson a insistir em deixar o seu meio-campo tão desprotegido.

No que ao Tottenham diz respeito, embora não tenha marcado nem contribuído com qualquer assistência, Jermaine Defoe foi fundamental para a vitória, conforme Michael Cox fez notar de forma tão pertinente. A sua movimentação inteligente foi essencial para arrastar os marcadores dos seus companheiros para fora das suas posições e deverá servir para mostrar que o trabalho de um ponta-de-lança envolve muito mais do que apenas inserir a bola na baliza.

Saturday, September 29, 2012

Vitória da equipa mais madura


Equipas e movimentações iniciais


Ao longo da história, os confrontos entre os dois rivais minhotos têm sido muito mais do que simples partidas de futebol - assemelhando-se muitas vezes a verdadeiras batalhas campais. Graças em parte ao carácter sereno de ambos os treinadores, o encontro da passada sexta-feira não se revelou conflituoso e ofereceu um bom espectáculo, ainda que não se tenha verificado um grande número de oportunidades de golo.

O Vitória de Guimarães entrou no jogo em força, assente no seu 4x3x3, pressionando o Sporting de Braga na sua saída de bola, de modo a evitar a construção de jogo a partir de trás. Beto, por exemplo, foi quase sempre forçado a bater bolas longas, contrariando a forma como o treinador do Sporting de Braga, José Peseiro, gosta de iniciar os ataques. (Por oposição, Doulgas, o guarda-redes vimaranense, procurava sempre enviar a bola para a frente assim que recolhia o esférico, tentando explorar os espaços livres deixados pelos jogadores bracarenses.) Para além disso, o posicionamento de Leonel Olímpio e André André tinha como objectivo impedir que Hugo Viana controlasse o ritmo de jogo e assumisse as rédeas da manobra da sua equipa com os seus tradicionais passes diagonais.

A estratégia do Vitória de Guimarães foi bem sucedida durante os primeiros 15 minutos, mas os forasteiros foram assentando o seu jogo e, aos poucos, conquistaram o controlo do meio-campo, aliviando a pressão sofrida por Viana e Custódio. Com Olímpio e André em zonas mais adiantadas, criavam-se espaços nas costas desses jogadores que eram forçosamente cobertas de forma quase exclusiva por El Adoua. Mossoró, igual a si próprio, foi magistral com os seus movimentos laterais, afastando-se do pivô marroquino, o qual se mostrava demasiado receoso em acompanhar Mossoró, sob risco de desproteger a sua zona exposta.

O bom jogo da equipa da casa ficou a dever-se em parte aos seus extremos pró-activos, os quais deixaram indícios promissores com as suas inteligentes movimentações. Ricardo é um jogador mais técnico que prefere duelos individuais, ao passo que João Ribeiro é melhor a ler o jogo e não tem pejo em ocupar outras áreas do terreno, de forma a dificultar a acção do adversário. Embora seja verdade que se revelaram úteis tanto em termos ofensivos como defensivos, convirá sublinhar que se foram alheando progressivamente das suas tarefas defensivas.

Por um lado, o Vitória de Guimarães, incentivado pelos seus adeptos, parecia deter uma vantagem emocional no jogo. Por outro, o Sporting de Braga estava aparentemente melhor equipado para as diferentes fases do jogo, ainda que tenha parecido algo descoordenado aqui e ali, especialmente no caso de Alan e Hélder Barbosa. A primeira parte, mais fechada, não tinha deixando antever grandes diferenças entre as duas equipas.

A segunda metade consistiu basicamente em tráfego de sentido único. Com uma ideia melhor sobre os seus processos ofensivos, os jogadores visitantes acabaram por marcar o primeiro golo numa transição rápida, no seguimento de um livre no meio-campo ofensivo do Vitória de Guimarães. A vantagem emocional de que os vimaranenses desfrutavam esfumou-se rapidamente após o golo, não obstante a tentativa imediata de fazer subir as suas linhas. Como tantas vezes acontece com as equipas portuguesas, os comandados de Rui Vitória mostravam-se algo desconhecedores sobre o que fazer ao verem-se em desvantagem - verdade seja dita, a falta de profundidade da equipa do Vitória de Guimarães foi hoje por demais evidente, com poucas opções atacantes.

Como se não chegasse, Peseiro optou por fazer descansar Mossóro e substituí-lo por Ruben Micael. O antigo jogador do FC Porto foi fundamental para que o Braga chamasse a si em definitivo o controlo do jogo, impedindo dessa forma uma possível resposta do seu adversário. Adicionalmente, Éder parece estar determinado em provar que poderá muito bem vir a ser o futuro ponta-de-lança da Selecção e do Sporting de Braga, assumindo-se como referência ofensiva capaz de segurar a bola e, com isso, permitir que a sua equipa. O segundo golo bracarense foi apenas um derradeiro fait-divers e um prémio para Hugo Viana.