Thursday, April 2, 2009

O estado da nação


Por vias da minha actividade profissional, dei por mim na semana passada a visitar algumas fábricas de uma região portuguesa aparentemente em crise. Confesso que, ao início, a minha apreensão era grande - receava que o choque de realidades fosse demasiado abrupto. No entanto, a única coisa que posso fazer é tecer os mais rasgados elogios aos gerentes e administradores das empresas - que parecem continuar a conseguir fazer milagres, descobrindo constantemente nichos de mercado - e, acima de tudo, aos funcionários dessas empresas, por continuarem a dar o litro, por preferirem trabalhar a viver à custa dos muitos subsídios que por aí há, por não virarem a cara aos momentos difíceis.

Mas o que tem isto a ver com futebol? Na minha opinião, tudo. Foi revigorante ver empresas com mais de 800 funcionários a operarem na perfeição, com todo o respeito pelos direitos dos trabalhadores. Foi estranhamente inesperado entrevistar colaboradores das mais variadas empresas e constatar que o respeito que a administração possa ter ou não por essas pessoas continua a ser tão ou mais importante do que o salário ao final do mês (embora todos nós gostássemos de ganhar mais dinheiro, naturalmente). Mas, acima de tudo - no que diz respeito a este blogue, pelo menos -, foi um óptimo alimento para a alma verificar que é possível ter as contas controladas, saber onde param os activos, quanto se pode gastar no período fiscal seguinte ou onde estão os possíveis nichos de mercado do futuro.

A única coisa que me vinha à mente era sempre idêntica: porque é que é tão difícil fazer isto no futebol? Por que razão continuamos a fazer vista grossa a tantas evidências de que algo está mal? Quantas mais greves como as do Estrela da Amadora ou do Vitória de Setúbal teremos de ver até nos capacitarmos que temos mesmo de inverter a situação?

"Mea culpa"


Há muitos motivos pelos quais admiro o trabalho de José Mourinho, actual treinador do Inter de Milão. Aprecio a sua capacidade de trabalho, de análise da sua equipa e do adversário, de contínua sistematização das suas ideias no treino e no jogo e de conseguir retirar rendimento de jogadores que, à primeira vista, pareciam estar fadados para o insucesso. Aprendi a vê-lo colocar jogadores medianos a render o que nunca tinham rendido até então e nunca mais renderam desde esse momento (o caso de Joe Cole ou Marco Ferreira vem-me imediatamente à memória).

No entanto, há uma outra parte de Mourinho que me cativa: a sua frontalidade em algumas ocasiões. Numa entrevista realizada ontem num canal televisivo italiano, o treinador português não teve qualquer problema em admitir que a contratação de Quaresma não só tinha sido um erro, como admitiu também tratar-se de um erro seu. Não conheço muitos treinadores que não se refugiem na diplomacia das respostas-tipo a este tipo de questões, mesmo depois de se retirarem do activo. Mourinho não teve papas na língua e assumiu uma má contratação (e dispendiosa) feita pelo clube no qual ainda se encontra.

Na minha opinião, são pequenas atitudes como estas que vão aproximando os adeptos das equipas de Mourinho dos jogadores. Mourinho podia ter contornado a questão ou atirado a responsabilidade para um qualquer infortúnio do destino. Ao invés, assumiu a sua culpa, mostrando aos adeptos interistas que não só é capaz de errar, como também de reconhecer os seus próprios erros. Qualquer adepto ficaria contente por ver o seu treinador fazer um mea culpa por uma contratação cara falhada, não?

A lei da simulação


Lisandro López foi ontem castigado com um jogo por ter originado o penalty que viria a dar o golo do FC Porto no recente derby que opôs FC Porto e Benfica. Já ouvi hoje inúmeras vozes levantarem-se contra a decisão pelos mais diversos motivos - desde logo, perguntando se esta terá sido o único caso desta estirpe nos últimos dois anos desde que o actual regulamente foi aprovado. Não obstante as eventuais questões que possam levantar-se à volta da decisão, creio que terá sido dado um bom passo. Esperemos que, daqui para a frente, quem pretenda simular faltas hesite antes de o fazer. Todos nós que gostamos de futebol teríamos a ganhar.

Como praticante, reconheço que é quase sempre necessária uma boa dose de matreirice. No entanto, traço uma distinção clara entre ser mais inteligente do que o adversário e levá-lo a cometer falta e fingir ser tocado para daí tirar vantagem. Colocando a questão em termos práticos: saber posicionarmo-nos para provocar a falta ao adversário é sinal de inteligência e boa leitura de jogo. Mergulhar sem qualquer acção do oponente é faltar à verdade desportiva.

O único comentário adicional que gostaria de tecer é tão só e apenas: mantenha-se a consistência e haja coragem para continuar a tomar estas decisões.

PS: Não obstante tudo o que escrevi atrás, creio que os órgãos disciplinares da Liga poderão vir a deparar-se com um problema, pois haverá agora muito mais vozes atentas a possíveis simulações e que bradarão igual tratamento. A ver vamos se não se abrirá mais uma caixa de Pandora na arbitragem portuguesa.

Tuesday, March 10, 2009

Como perpetuar um mito

Uma das frases repetidas até à exaustão ao longo dos últimos anos é a crescente importância dos lances de bola parada. Hoje em dia, é quase impossível ver e ouvir um jogo na televisão ou no rádio e não ouvir um comentador referir o carácter decisivo deste tipo de jogadas.

Na verdade, a análise estatística dos mais recentes eventos desportivos (três últimas edições da Liga dos Campeões e o mais recente Campeonato Europeu de Futebol), patente nos Relatórios Técnicos disponibilizados pela UEFA a quem pretender analisá-los, remete-nos para outro tipo de conclusões, indicando que a preponderância destes lances tem vindo a diminuir progressivamente. Na verdade, no último Europeu, por exemplo, verificou-se que apenas 1 em cada 64 destas jogadas terminava em golo, o que remete para um baixo índice de eficácia e reduzida probabilidade de golo.

Se, até há algum tempo, se constatava de facto que as bolas paradas decidiam muitas vezes jogos - especialmente por muitas das equipas não estarem alertas para esse facto -, hoje em dia, a maior parte das equipas opta por defender à zona e com uma densa ocupação do espaço em frente à sua baliza, impedindo muitas das vezes as movimentações necessárias para a marcação de um golo.

Ao invés, o que os mais recentes números nos dizem é que uma grande fatia dos golos marcados surgem de rápidas transições ofensivas, seja através da recuperação da bola em zonas adiantadas do campo (por conseguinte, com menor número de defensores pela frente) ou por intermédio de contra-ataques de dois/três toques.

Podemos portanto inferir que, neste momento, que a capacidade de uma equipa mudar rapidamente a sua atitude entre os momentos ofensivos e defensivos se revela cada vez mais decisiva. O futebol caminha aos poucos para uma maior rapidez - não só atlética, mas, acima de tudo, de processos de decisão.

Friday, March 6, 2009

Nós no século XX(I)


Carlos Queiroz, o seleccionador nacional, deu ontem uma interessante e reveladora entrevista num dos canais da TV Cabo. Não fazia a mínima ideia de que o treinador da selecção iria lá estar (não tenho por hábito ver programas de televisão que falem sobre futebol por motivos óbvios), mas fiquei completamente colado ao ecrã, pois estava lá, para além de Queiroz, Luís Freitas Lobo (e João Pinto, para ser totalmente verdadeiro).

A meio do programa, dei por mim a pensar que tinha voltado ao passado. Comecei a ouvir argumentos que já outros tinham ouvido noutros lados. Voltáramos à questão dos naturalizados, com Liedson à cabeça, mas ainda mal refeitos do trauma de Deco e Pepe. Infelizmente, tenho ouvido de muitos treinadores e jogadores de top - o que os responsabiliza ainda mais face à opinião pública - que os naturalizados não deveriam jogar na selecção. Afinal de contas, não eram verdadeiros portugueses, como nós. Creio que não terá faltado muito para ouvirmos a expressão "portugueses de segunda".

Que mentalidade retrógada vem a ser esta? Todos os jogadores que jogam neste momento pela selecção cumprem todos os requisitos previstos na lei para poderem ser considerados portugueses. Não creio que a lei indique que haja maior ou menor nível de portugalidade. Onde está essa linha? É o Bilhete de Identidade? É o nome? Faz mais sentido ter na selecção jogadores como Manuel da Costa, por exemplo, incapaz de dizer duas palavras em português e que conhece o país pelas três visitas que cá fez quando era rapaz? Quem somos nós para dizer que um jogador como Liedson, a título de exemplo, não se sente português? Um homem que vive e trabalha neste país há praticamente seis anos, onde tem a sua família (ou parte dela) e onde criou raízes?

Este comportamento, infelizmente típico em nós, vem sempre escamoteado de alguma forma. No caso de ontem, a questão era o futuro do futebol de formação português. A questão está completamente posta de pernas para o ar: se Liedson se naturalizar e mostrar que quer representar a selecção, não estará automaticamente apto a fazê-lo. Terá, como todos os outros, de mostrar que merece lá estar, independentemente do seu local de nascimento ou residência. A isto Queiroz respondeu de forma simples, mas muito inteligente: virando-se para João Pinto, disse "Sabem como é que vão conseguir ultrapassar o problema dos estrangeiros? Jogando melhor do que eles, sendo melhores do que eles."

São estes comportamentos, sempre enevoados por algum argumento mais ou menos intelectual, que fazem com que racismo e xenofobia perdurem. Poderíamos discutir os critérios da lei - se deveriam ser mais apertados ou específicos -, mas dizer que a quem opta por ser português não é permitido sê-lo de pleno direito parece-me desonesto e imoral. Quando isto acontece num país de gerações de emigrantes...

Monday, March 2, 2009

O futebol

Tive há pouco tempo um professor que dizia que, em Portugal (e no geral), se falava pouco de futebol. Abordavam-se polémicas, cartões, árbitros, penalties, foras-de-jogo, entre muitos outros, mas raramente se discutia qual era o sentido da substituição x, do onze y ou da estratégia z. Ouvi as suas palavras e concordei de imediato, mas acho que só nos últimos tempos consigo ter melhor a noção do que ouvi naquela aula, ao ouvir os pensamentos de um grupo bastante mais alargado de adeptos (?) do desporto-rei. Já não se trata de serem adeptos resultadistas, adjectivo geralmente reservado aos treinadores de forma pejorativa - como se quase todos os treinadores não fossem resultadistas, como se houvesse algo mais a reger o mundo do futebol. Não, já não se trata disso. Trata-se de descortinar as grandes conspirações por trás do penalty não assinalado, do fora-de-jogo que não foi, mas podia ter sido.

Depois do último derby que opôs FC Porto e Sporting, constatei que, de facto, pouco se falou de futebol. Todos os comentadores se apressaram a dizer o quão enfadonho foi o jogo, como constituiu mais um motivo para as pessoas não irem ver jogos. Não seria mais fácil ajudar as pessoas a compreenderem a riqueza do jogo? Não seria mais fácil fazer com que os telespectadores, leitores ou ouvintes tivessem uma melhor noção do que aconteceu durante o jogo? De que forma as equipas se anularam? Que armas utilizaram? Porque é que não se viu Lucho ou João Moutinho? As equipas adoptaram movimentações semelhantes? Quanto mais vou conhecendo, mais acredito que se discutem penalties, foras-de-jogo e faltas por ignorância, pelo facto de a maior parte dos comentadores não desempenhar as suas funções da forma que me parece correcta, ajudando à compreensão do jogo. E assim, continuaremos durante muito tempo a falar do sexo dos anjos.

A ruptura na continuidade

Na minha perspectiva, um dos maiores desafios (seja em que parte da nossa vida for) consiste em conseguir promover uma mudança no decurso normal do dia-a-dia. Num clube de futebol - ou numa empresa -, creio que essa mudança é ainda mais difícil, pois estamos inseridos numa teia de relações socioprofissionais que, não raramente, nos desmotiva ou nos leva para sítios para onde não desejávamos ir.

Vem isto a propósito da continuidade ou não de Paulo Bento e Jesualdo Ferreira à frente de Sporting e FC Porto, respectivamente. Começando pelo técnico sportinguista, parece-me que a qualidade do seu trabalho é inatacável. O clube leonino conseguiu transformar as eternas promessas de títulos (as esperanças dos adeptos sportinguistas eram já quase lendárias) em vitórias efectivas. Custa-me compreender alguns adeptos verde e brancos quando dizem que Paulo Bento deveria sair por já não ter condições de continuar a desempenhar a sua função. Mas que condições são essas? Tem vitórias a mais? Joga quase sempre para ganhar? Não promove o futebol ofensivo de que os adeptos do clube de Alvalade tanto gostam e que tantas vezes lhes trouxe dissabores? Se tivermos em consideração o facto de o orçamento do Sporting ser aproximadamente um terço do de FC Porto e Benfica, o esforço do técnico deveria sair reforçado, na minha opinião. Não obstante o resultado da primeira mão dos oitavos-de-final da Liga dos Campeões, o trabalho desenvolvido tem sido progressivamente melhor. Há maus resultados pelo caminho? Claro que sim, mas nenhum treinador está livre de os ter. O que importa é perceber o que se aprende com esses contratempos.

E é precisamente na questão dos obstáculos que surgem a meio do caminho que o tema da continuidade de Jesualdo entronca no de Paulo Bento. Se é verdade que não fui um dos principais entustiastas do técnico portista, não é menos verdade que me parecia uma solução bem mais adequada para o cargo do que o seu predecessor (Co Adriaanse). No entanto, Jesualdo tem-me surpreendido pela positiva ao mostrar ser capaz de aprender com os erros (os resultados e, principalmente, as exibições do FC Porto nos jogos grandes dos dois primeiros anos são estranhamente confrangedores) e, durante o processo, manter a equipa num nível mais do que aceitável, apesar da perda de jogadores como Quaresma, Paulo Assunção, Bosingwa, Pepe ou Anderson. Apesar do constante movimento da porta giratória de entradas e saídas do Dragão, a equipa portista tem conseguido equilibrar a embarcação, tropeçando aqui e ali, é certo, mas parecendo sempre ter um rumo definido. E ter um rumo (mesmo que errado) é para mim bem mais relevante do que não ter rumo nenhum.

PS: Escrevo este texto antes de qualquer uma das equipas ter ganho ou perdido qualquer título, porque acho que o trabalho tem de ser avaliado não só mediante os resultados, mas, acima de tudo, pelo ponto de partida e de chegada. Como tal, defenderei a minha posição mesmo que um dos treinadores (ou ambos) não vença qualquer troféu.