Tuesday, January 27, 2009

A acção do líder


À imagem de muitos adeptos do futebol, sempre fui um admirador confesso de Mourinho. Não me revejo em algumas das suas atitudes para com o jogo, mas reconheço que o seu percurso tem sido de facto muito particular. No entanto, não posso deixar de reconhecer que a sua passagem pelo Inter está a ser tudo menos pacífica, especialmente porque os adeptos deste clube estavam habituados não só a vencer (são actualmente tricampeões de Itália), como a vencer com alguma souplesse.

Ora, hoje por hoje, a equipa de Mourinho está longe de convencer seja quem for e, aparentemente, o seu modelo de jogo parece estar desadequado em relação aos seus jogadores, mas especialmente em relação aos seus adeptos. Foi estranho ouvir os assobios da massa associativa nerazzura no último Domingo ao constatar que a sua equipa não foi capaz de fazer uma jogada com pés e cabeça até ao minuto 42. Creio que a prova mais fiel sobre como o plantel parece não saber onde está foi o acto irreflectido de Mourinho que lhe valeu a expulsão. E quando os jogadores vêem o treinador perder a cabeça assim tão facilmente, o mais provável é que lhe sigam o exemplo.

Tuesday, January 20, 2009

Taças e Calendários


A taça da discórdia, também conhecida como Taça da Liga, tem conhecido algumas opiniões mais ou menos inflamadas relativamente à sua reduzida utilidade e aproveitamento. Têm-se ouvido inúmeras opiniões sobre a sua diminuta pertinência e sobre a indiferença com que alguns clubes a recompensam (nomeadamente o FC Porto). Pessoalmente, creio que haverá alguns pontos acertados, mas diria que, no geral, a Taça da Liga pode vir a tornar-se uma competição interessante.

Em primeiro lugar, é mais um troféu. Ou seja, é mais um título para os treinadores conquistarem e taparem com isso algumas das lacunas das suas equipas (Paulo Bento gabou-se incessantemente sobre o feito de chegar à final da Taça da Liga, no ano passado, por exemplo). Em segundo lugar, é mais uma oportunidade para as equipas ditas pequenas poderem chegar um pouco mais longe e dar nas vistas. Terceiro, é uma competição que vem ajudar a preencher o espartano calendário competitivo português e que vem permitir que os chamados "grandes" possam rodar jogadores e ir introduzindo paulatinamente os jovens das camadas de formação.

Admito sem problemas que há pontos negativos na Taça da Liga. Ninguém sabe em que moldes se realiza, não há horários minimamente estáveis (inacreditável a forma como jogos decisivos para o mesmo grupo não se realizam à mesma hora) e os frutos que se podem retirar daí são relativamente diminutos. Pessoalmente, creio que interessará reorganizar a calendarização da prova e oferecer ao seu vencedor, por exemplo, um lugar na Taça UEFA, o que abriria por certo o apetite de quase todas as equipas.

Gostaria apenas de deixar uma nota relativamente à calendarização da época. Sempre que o campeonato parece estar finalmente pronto a arrancar, há uma interrupção - seja para a Taça de Portugal, para a Taça da Liga, para a Selecção Nacional ou outra coisa qualquer. Compreendo com muita dificuldade esta aniquilação do carácter competitivo do principal campeonato português, no qual somos chegados à ultima jornada da primeira volta quase sem dar por ela, uma vez que quatro jornadas seguidas é coisa que ainda não existiu. A minha questão é a seguinte: os dirigentes do futebol português acham mesmo que as nossas equipas estão sobrecarregadas e que não podem fazer dois jogos por semana?

Ovos e omoletes



O Inter sofreu às mãos do Atalanta a maior e mais humilhante derrota da época, num duelo que por certo terá deixado os adeptos portistas em particular atónitos, uma vez que o onze do treinador de maior sucesso do clube azul e branco foi copiosamente batido pela equipa de Luigi del Neri, treinador conhecido pelo despedimento sumário de que foi alvo no Dragão e pelos sucessivos falhanços que foi coleccionando ao longo da sua carreira.

No entanto, a questão não se limita à derrota em si. Todas as equipas têm dias maus, jornadas em que nada do que o treinador faça ou peça parece funcionar. Domingo foi um desses dias para a equipa do Inter. No entanto, o problema parece-me mais abrangente e estrutural. Mourinho foi contratado para substituir Mancini, um treinador que tinha vencido os últimos três campeonatos (em circunstâncias muito particulares, mas das quais já ninguém se lembra), mas que não conseguia alcançar o mesmo sucesso na Liga dos Campeões. Ou seja, Mourinho está obrigado a vencer o campeonato, o que nunca é fácil, em Itália, e a fazer melhor figura do que Mancini na Liga dos Campeões. Ora, dado que o sorteio ditou o embate entre Inter e Manchester, há uma forte possibilidade de Mourinho sair pela mesma porta por que o treinador italiano tantas vezes saiu - os oitvaos-de-final.

Mourinho não quis entrar no Inter como a maior parte dos treinadores, pedindo revoluções de balneário e contratações milionárias. Pediu apenas Mancini (o extremo brasileiro ex-Roma), Quaresma (vá-se lá saber porquê, mas quem sou eu para contestar Il Speciale?) e Deco ou Lampard. Infelizmente para Mourinho, nenhum destes dois optou por ingressar na equipa nerazzurra, o que deixou Mourinho com vários problemas.

A primeira questão começa logo na defesa. Maicon é dono e senhor da lateral-direita, empurrando o decano capitão Zanetti para outras funções. No entanto, não há propriamente titulares indiscutíveis no resto da defesa. Burdisso parece fora do seu ambiente (ver jogo contra o Panathinaikos, por exemplo), Materazzi é uma opção irregular, Samuel prometeu muito, mas nunca chegou a cumprir, Chivu parece ter mais cinco anos do que tem na realidade, Córdoba é um bom defesa, mas tens uns meros 173 cm e Maxwell é esforçado, mas não mais do que isso.

Contudo, é no meio-campo que reside o principal problema. Mourinho conta com Cambiasso e Zanetti, dois mouros de trabalho, mas conta também com Vieira e Dacourt (dois médios completamente ultrapassados), Stankovic, Muntari e o próprio Zanetti (qualquer um deles longe de conseguir pegar no jogo, apesar da combatividade de todos eles) e um Figo que, quando joga, tem por hábito pegar no jogo, para tentar dar a Mourinho aquilo de que este tanto gosta: o domínio dos tempos de jogo.

Ou seja, o técnico português tem à sua disposição um plantel débil, repleto de lacunas e de jogadores que se julgam muito melhores do que são devido aos salários inflaccionados, envelhecido e pouco moldável - características que Mourinho nunca cunhou nas suas equipas. Devido às elevadíssimas exigências em relação ao seu trabalho e às opções (insuficientes) de que dispõe, o Special One está mais perto do que nunca de desiludir todos aqueles que pensavam que ter Mourinho na equipa era garantia de sucesso a todos os níveis.

PS: É muito estranho ver uma equipa de Mourinho completamente à deriva, a sofrer golos constantemente, aparentemente desorganizada e sem alguém que pense o jogo. Quem quiser pode ver aqui um breve resumo do Atalanta-Inter:

Tuesday, January 13, 2009

O silêncio após o ruído


Incomoda-me imenso que as pessoas apenas pareçam saber reclamar do azar e nunca reconheçam quando a sorte lhes toca com a mesma ênfase. Vem a isto a propósito (neste caso, embora destaque desde já que os restantes treinadores e dirigentes tendem a fazer o mesmo) do último Benfica-Braga, onde a exibição do árbitro foi tão má, que até foi possível ver um ou outro benfiquista mais ferrenho assumi-lo em praça pública. Não me interessa honestamente quem foi beneficiado ou prejudicado. Interessa-me, isso sim, que ainda há não muito tempo a arbitragem do Benfica-Nacional parecia um caso de polícia, ao passo que, agora, ninguém do clube da Luz vem referir as prementes reformas do sector da arbitragem que urge fazer, etc, etc. Infelizmente, quase todos os responsáveis do futebol acabam por fazer o mesmo. Felizmente, nem todos nós somos crédulos ao ponto de não ver nessas palavras e atitudes uma mera tentativa de esconder defeitos próprios.

Acertar em tudo


No passado Domingo, FC Porto e Trofense empataram a zero no Dragão. Mais uma vez, os pupilos de Jesualdo voltaram a falhar onde menos era costume. No entanto, ao contrário de muitos jogos desta época, em que os azuis e brancos não conseguiram simplesmente rubricar uma exibição convincente, os dragões foram capazes neste jogo de criar inúmeras oportunidades, tendo acertado em tudo o que mexia à frente da baliza, incluindo a linha de golo. Se quiserem ver pelos vossos próprios olhos o que a ansiedade é capaz de fazer, vejam a última jogada do jogo aqui.

No entanto, gostaria apenas de referir um ponto. Ouvi mais uma vez em pouco tempo os intervenientes do lado do FC Porto mencionarem que poderiam estar ali a noite toda, que a bola não entraria. Por mais que saiba que isso acontece num ou noutro jogo, não deixa de ser estranho quando começa a acontecer em vários seguidos. E os dragões já não marcam no seu estádio há 210 minutos. Todos nós temos azar, mais cedo ou mais tarde, mas, quando começamos a queixar-nos do azar repetidamente, começa a soar a desculpa de mau pagador...

Para quem quiser ver o chorrilho de oportunidades desperdiçadas:

O país dos pinos


Depois de ver o Sporting-Marítimo, percebi como a Liga portuguesa se resume em traços muito gerais a uma equipa de treinos, apenas. Percebi também por que razão somos sujeitos não raras vezes ao futebol agora chamado "resultadista" (como se houvesse outro). Na verdade, no último Sábado, o Sporting foi capaz de adormecer o ritmo do jogo e pôr-se a jeito de sofrer um dissabor que o Marítimo nunca soube aproveitar. Para os jogadores verde-rubros, havia sempre mais uma finta, mais um movimento, algo mais a fazer - havia sempre mais um pino para contornar, tal como nos treinos. Sempre. Assim, em vez de criarem perigo, não foram sequer capazes de fazer um remate enquadrado na baliza para aquecer o pobre guardião do Sporting.
Com equipas assim, porque não pensar em retirar as balizas?

Monday, January 5, 2009

Um olhar pelo estrangeiro

Tive oportunidade de assistir este fim-de-semana a um curioso programa de televisão num canal que, em boa verdade, nem sei bem qual era nem qual o seu propósito. Interessa para aqui, isso sim, que pude presenciar durante uns quinze a vinte minutos o dia-a-dia da gestão de um clube da elite europeia - o Ajax. Estranhamente, tanto treinadores como dirigentes não pareciam importar-se minimamente de serem perseguidos por câmaras e microfones enquanto tomavam as decisões do seu dia-a-dia.

Muito mais estranho, contudo, era o modo como se tomavam decisões naquele clube na época de 1997-2000. As decisões de prolongar contratos ou não eram tomadas numa breve reunião onde se discutiam inúmeras outras coisas, as combinações de resultados que permitiram que o Ajax entrasse ou não na Liga dos Campeões eram discutidas no túnel de acesso do campo onde se iria realizar o último jogo, as palavras e acções de treinadores e jogadores da equipa principal pareciam retiradas de um filme surreal onde ninguém sabia muito bem o que estava ali a fazer, entre muitas outras pérolas que permitiram confirmar que o mundo do futebol continua extremamente desorganizado e uma tertúlia muito pouco profissionalizada de círculos fechados.

Deixo-vos apenas como exemplo a imagem (ainda que mental) de um Jan Wouters - à altura treinador da equipa, sem qualquer ideia sobre o que fazer nem qualquer tipo de controlo sobre a sua equipa - como treinador de uma das principais equipas da Europa, com uma carreira com menos de três curtos anos sem qualquer feito digno de registo, a ser despedido em pleno jogo de centenário do clube, ao passo que os dirigentes apenas pareciam saber querer despedi-lo, mas sem noção de quem viria a seguir ou com que perfil.

Para aqueles de nós que acham que tudo o que se faz de mal tende a concentrar-se em Portugal, seria bom deitar uma vista de olhos.