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Monday, October 8, 2012

FC Porto entra a matar e desacelera em seguida

Equipas e movimentações iniciais


FC Porto e Sporting encontraram-se em lados totalmente opostos do espectro futebolístico. Os dragões vinham de uma excelente exibição e correspondente vitória frente ao Paris Saint-Germain, ao passo que os leões haviam sido trucidados pelo Videoton, com a posterior demissão de Ricardo Sá Pinto. Como tal, não foi de todo surpreendente que Vítor Pereira não promovesse qualquer alteração no seu onze. O treinador interino sportinguista, Oceano Cruz, manteve a mesma estrutura base, optando por Schaars e Elias no centro do terreno e Pranjic à frente de Insúa na ala esquerda, previsivelmente para manter Danilo sob controlo e explorar os espaços nas costas de James Rodríguez, uma vez que o colombiano tende a flectir para o meio.

O plano de Oceano parecia basear-se em restringir os anfitriões e evitar sofrer golos durante o período inicial, instruindo Schaars para que seguisse Lucho quase para todo o lado. Com Elias preocupado com João Moutinho, Fernando ficava frequentemente liberto, uma vez que Izmailov funcionava quase como número 10 e deixava o pivô defensivo portista sem marcação - permitindo aos campeões nacionais desfrutarem de sucessivas situações de superioridade numérica.

Apesar de todas as críticas que tem recebido das bancadas, há que dar crédito a Vítor Pereira por fazer com que este FC Porto jogue um futebol mais fluido na abertura da presente temporada, com o correspondente adiantamento da linha defensiva. Ao recuperar inúmeras bolas logo na transição ofensiva sportinguista, o FC Porto pôde explorar a ausência de Schaars, desposicionado pela movimentação de Lucho. Por seu turno, essa movimentação abria espaços para James, o qual tentou alvejar a baliza precisamente dessa zona (à frente dos defesas-centrais, onde Schaars deveria estar) momentos antes de Danilo oferecer a assistência para o atrevido calcanhar de Jackson Martínez.

Os leões pareceram algo abalados durante alguns minutos, com o FC Porto a permanecer compacto, ainda que exercendo menor pressão em zonas mais adiantadas. Com Mangala no lugar do lesionado Maicon, era provável que os azuis e brancos se deparassem com alguns problemas, uma vez que o defesa-central francês não é tão rápido a reagir e denota maior tendência a fazer passes errados. Para além disso, os comandados de Vítor Pereira começaram a descomprimir após o golo, aparentemente confiantes de que poderiam criar perigo assim que quisessem acelerar o jogo.

Por volta da meia-hora de jogo, o Sporting começou a soltar-se das amarras que havia imposto a si mesmo, percebendo que a defesa subida do FC Porto estava agora vulnerável sem Maicon. Izmailov aproximou-se do seu meio-campo e começou a criar situações de perigo para os seus colegas (e não só), ficando a faltar uma finalização mais apurada. Talvez a intenção de Vítor Pereira tivesse sido sempre essa, pois os jogadores leoninos continuaram a cometer o mesmo erro que cometem há muito tempo, independentemente do nome do treinador: atacar com os dois laterais na perseguição do resultado, abrindo enormes crateras e, por conseguinte, criando situações de inferioridade numérica.

O Sporting ditou os primeiros 15 minutos do segundo tempo. Com Izmailov a assumir cada vez mais a sua presença (o momento da sua substituição foi infeliz, dado que estava a começar a ser o foco de que a equipa visitante necessitava), o meio-campo do FC Porto perdeu por vezes as suas coordenadas, nomeadamente após as más decisões de Varela no último terço do terreno, partindo a equipa em duas partes em circunstâncias críticas. Contudo, se o Sporting pretender efectivamente lutar por uma classificação mais de acordo com os pergaminhos do clube, Elias terá de se envolver mais e oferecer linhas de passe, em vez de se esconder do jogo, sendo igualmente necessário que haja movimentações ofensivas de maior qualidade. Neste momento, todos parecem estar à espera que Carrillo saque um coelho da cartola.

A expulsão de Rojo foi uma consequência natural do maior adiantamento do Sporting (e deveria ter sinalizado o fim do encontro ainda antes da segunda grande penalidade). Embora a abordagem do defesa-central leonino não seja propriamente a ideal, o próximo treinador do Sporting tem de assumir como prioridade a revisão do posicionamento dos laterais em posse, uma vez que deixa a equipa de Alvalada total e desnecessariamente desprotegida.

Em breves palavras, foi um jogo algo fragmentado. O Sporting mantém a sua evidente falta de opções atacantes e o próximo responsável técnico terá uma tarefa árdua pela frente. No que diz respeito ao FC Porto, embora não se possa apelidar a vitória de injusta, houve momentos de perda de controlo e de más tomadas de decisão (particularmente nas transições ofensivas) que poderiam ter tido consequências desastrosas para as ambições portistas. Não obstante, Vítor Pereira estará por certo feliz no seguimento de duas vitórias importantes sem qualquer golo sofrido.

Saturday, September 29, 2012

Vitória da equipa mais madura


Equipas e movimentações iniciais


Ao longo da história, os confrontos entre os dois rivais minhotos têm sido muito mais do que simples partidas de futebol - assemelhando-se muitas vezes a verdadeiras batalhas campais. Graças em parte ao carácter sereno de ambos os treinadores, o encontro da passada sexta-feira não se revelou conflituoso e ofereceu um bom espectáculo, ainda que não se tenha verificado um grande número de oportunidades de golo.

O Vitória de Guimarães entrou no jogo em força, assente no seu 4x3x3, pressionando o Sporting de Braga na sua saída de bola, de modo a evitar a construção de jogo a partir de trás. Beto, por exemplo, foi quase sempre forçado a bater bolas longas, contrariando a forma como o treinador do Sporting de Braga, José Peseiro, gosta de iniciar os ataques. (Por oposição, Doulgas, o guarda-redes vimaranense, procurava sempre enviar a bola para a frente assim que recolhia o esférico, tentando explorar os espaços livres deixados pelos jogadores bracarenses.) Para além disso, o posicionamento de Leonel Olímpio e André André tinha como objectivo impedir que Hugo Viana controlasse o ritmo de jogo e assumisse as rédeas da manobra da sua equipa com os seus tradicionais passes diagonais.

A estratégia do Vitória de Guimarães foi bem sucedida durante os primeiros 15 minutos, mas os forasteiros foram assentando o seu jogo e, aos poucos, conquistaram o controlo do meio-campo, aliviando a pressão sofrida por Viana e Custódio. Com Olímpio e André em zonas mais adiantadas, criavam-se espaços nas costas desses jogadores que eram forçosamente cobertas de forma quase exclusiva por El Adoua. Mossoró, igual a si próprio, foi magistral com os seus movimentos laterais, afastando-se do pivô marroquino, o qual se mostrava demasiado receoso em acompanhar Mossoró, sob risco de desproteger a sua zona exposta.

O bom jogo da equipa da casa ficou a dever-se em parte aos seus extremos pró-activos, os quais deixaram indícios promissores com as suas inteligentes movimentações. Ricardo é um jogador mais técnico que prefere duelos individuais, ao passo que João Ribeiro é melhor a ler o jogo e não tem pejo em ocupar outras áreas do terreno, de forma a dificultar a acção do adversário. Embora seja verdade que se revelaram úteis tanto em termos ofensivos como defensivos, convirá sublinhar que se foram alheando progressivamente das suas tarefas defensivas.

Por um lado, o Vitória de Guimarães, incentivado pelos seus adeptos, parecia deter uma vantagem emocional no jogo. Por outro, o Sporting de Braga estava aparentemente melhor equipado para as diferentes fases do jogo, ainda que tenha parecido algo descoordenado aqui e ali, especialmente no caso de Alan e Hélder Barbosa. A primeira parte, mais fechada, não tinha deixando antever grandes diferenças entre as duas equipas.

A segunda metade consistiu basicamente em tráfego de sentido único. Com uma ideia melhor sobre os seus processos ofensivos, os jogadores visitantes acabaram por marcar o primeiro golo numa transição rápida, no seguimento de um livre no meio-campo ofensivo do Vitória de Guimarães. A vantagem emocional de que os vimaranenses desfrutavam esfumou-se rapidamente após o golo, não obstante a tentativa imediata de fazer subir as suas linhas. Como tantas vezes acontece com as equipas portuguesas, os comandados de Rui Vitória mostravam-se algo desconhecedores sobre o que fazer ao verem-se em desvantagem - verdade seja dita, a falta de profundidade da equipa do Vitória de Guimarães foi hoje por demais evidente, com poucas opções atacantes.

Como se não chegasse, Peseiro optou por fazer descansar Mossóro e substituí-lo por Ruben Micael. O antigo jogador do FC Porto foi fundamental para que o Braga chamasse a si em definitivo o controlo do jogo, impedindo dessa forma uma possível resposta do seu adversário. Adicionalmente, Éder parece estar determinado em provar que poderá muito bem vir a ser o futuro ponta-de-lança da Selecção e do Sporting de Braga, assumindo-se como referência ofensiva capaz de segurar a bola e, com isso, permitir que a sua equipa. O segundo golo bracarense foi apenas um derradeiro fait-divers e um prémio para Hugo Viana.

Saturday, September 1, 2012

FC Porto conquista vitória suada

Equipas e movimentações iniciais


Após o encontro da passada semana frente à Académica, a partida de hoje era uma boa oportunidade para aferir a capacidade do Olhanense no seu terreno contra um adversário mais forte e, por outro lado, analisar o FC Porto em maior detalhe. Embora não tenha sido um jogo repleto de oportunidades de golo, tratou-se de uma partida bastante interessante, cuja vitória acabou por sorrir à equipa portuense de forma algo feliz.

  • Os primeiros 15 minutos

Os campeões nacionais entraram bem em campo e deram mostras de pretender dar seguimento à boa exibição frente ao Vitória de Guimarães. Na verdade, os comandados de Vítor Pereira patentearam um nível consideravelmente superior ao nível da pressão alta em relação à temporada transacta, com todos os jogadores no mesmo comprimento de onda no que diz respeito às zonas e momentos para exercer a pressão. Ofensivamente, os portistas tiravam claramente proveito do ponto fraco facilmente identificável do Olhanense: Babanco. Como tal, o FC Porto insistiu em jogar pelo flanco direito durante o primeiro quarto de hora, com Lucho, Danilo e Hulk a teimarem em capitalizar a fraqueza do seu oponente.

Ao invés, a equipa liderada por Sérgio Conceição pareceu algo confusa e perdida até ao momento em que lograram por fim executar uma transição ofensiva bem delineada e punir o mau momento da incursão de Alex Sandro (característica habitual nos defesas-laterais sul-americanos). A jogada em questão serviu igualmente para reforçar as insuficiências de Defour na posição de pivô defensivo e o papel fundamental de Fernando na movimentação colectiva da equipa.

  • 15-45 minutos

Após o tento inicial, os algarvios mostraram-se mais confortáveis em posse e, em simultâneo, o FC Porto ficou defensivamente mais desconjuntado e impaciente na construção das jogadas, com os jogadores a revelarem-se demasiado lentos e previsíveis, aparentemente receosos de se exporem a mais contra-ataques. Vítor Pereira não quis esperar mais e substituiu o ineficaz Atsu por James e o avançado colombiano provocou um impacto imediato ao assistir Moutinho para uma boa oportunidade e ao fazer um delicioso chapéu a Ricardo, o qual demonstrou mais uma vez a sua incapacidade para decidir os melhores momentos de saída a cruzamentos.

  • Segunda parte

Os dragões entraram ainda mais fortes na segunda parte e Jackson enviou uma bola ao posto e marcou o seu segundo golo do campeonato após uma excelente assistência de James. Era difícil antever de que forma os visitados iriam conseguir contornar a organização defensiva do FC Porto, apesar das evidentes brechas que importará abordar o mais rapidamente possível. O jogo desenrolou-se sem grandes motivos de interesse (para além da opção de Vítor Pereira de deslocar James para a posição de Lucho após a substituição deste último, fornecendo eventualmente uma pista sobre as preferências do treinador portista no que diz respeito à posição de James), até Hulk desferir um potente remate e apontar o terceiro golo azul e branco. O resultado parecia decidido, mas o golo de Targino após outra excelente assistência, desta feita de Rui Duarte, abriu novamente o encontro e os forasteiros acabam por sofrer desnecessariamente para conquistar a vitória.

Em suma, o FC Porto foi dominante após a entrada de James, mas convirá melhorar rapidamente a sua consistência defensiva. Quanto ao Olhanense, mostrou mais uma vez um bom posicionamento defensivo, mas continua a não dispor de saídas de bola e da capacidade de assumir o controlo do encontro. Adicionalmente, Rui Duarte pareceu novamente longe da sua posição ideal, jogando em zonas demasiado avançadas e de costas para a baliza. Um ligeiro ajuste por parte de Sérgio Conceição poderá dar lugar a uma equipa mais equilibrada e perigosa.

Saturday, August 25, 2012

Abrir o jogo

Equipas e movimentações iniciais

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, os campeonatos dos diferentes países não se limitam apenas às três ou quatro principais equipas. Como tal, este blog e o site Portugoal.net têm o maior em abrir o seu espectro e analisar mais de perto as restantes equipas do campeonato português. Na verdade, é no mínimo justo que valorizemos o trabalho dos jogadores e treinadores dessas equipas.

O primeiro encontro da segunda jornada da Liga Zon Sagres envolveu duas equipas com grande potencial, orientadas por dois jovens e aguerridos treinadores - Pedro Emanuel e Sérgio Conceição -, razões mais do que suficientes para aguçar o apetite à volta do resultado final. Com efeito, a partida não desiludiu e ofereceu inúmeros motivos de interesse - acima de tudo, a predisposição de duas equipas para jogarem de forma positiva é algo de que o principal campeonato português bem precisa.

A Académica começou melhor e, aos 10 minutos, registava já duas claras oportunidades de golo, ambas com origem no flanco direito. Os estudantes eram mais agressivos sobre a bola e quebraram inclusivamente o actual mandamento táctico seguido pela maioria das equipas: em vez do usual 4x2x3x1, Pedro Emanuel dispôs a sua equipa num 4x3x3. Adicionalmente, atreveu-se a ordenar a Flávio Ferreira (o pivô defensivo da Académica) que recuasse, à imagem do que Javi García tem feito no Benfica, e se assumisse como o ponto de partida dos ataques conimbricenses. Com essa organização, tanto Rodrigo Galo como Hélder Cabral puderam jogar em zonas mais avançadas, beneficiando das inteligentes movimentações de Cissé e Marinho.

Babanco (vermelho) não teve a melhor prestação defensiva.
Neste caso, nem sequer oferece a cobertura defensiva correcta.
Ao não se colocar entre o atacante e a sua baliza,
Babanco expõe a sua equipa ao resultado do duelo aéreo de Maurício.

Com Rui Duarte isolado mais adiante nas costas de Yontcha, Fernando Alexandre e Jander viam-se a braços com sucessivas ondas ofensivas do adversário. Os extremos da Académica flectiam recorrentemente para dentro e confundiam as marcações dos algarvios. Na verdade, os laterais não sabiam se deveriam acompanhá-los ou deixá-los para serem marcados noutras zonas do terreno, o que abriu caminho para as muitas incursões de Rodrigo Galo (na primeira parte) e Hélder Cabral (na segunda metade).

Ao moverem-se para dentro, os extremos da Académica sobrecarregavam o centro,
abrindo espaço para as investidas dos seus laterais.

Por seu turno, o Olhanense parecia algo perdido em campo, em parte porque o seu jogador mais cerebral, Rui Duarte, jogava demasiado longe do seu raio de acção preferencial e era obrigado a jogar de costas para a baliza. Para além disso, a sua presença em áreas tão avançadas significava que a Académica era capaz de recuperar as segundas bolas rechaçadas pelos defesas algarvios.

Por conseguinte, o golo da Académica não apanhou ninguém de surpresa, dada a corrente do jogo. Quanto muito, terá até chegado tarde, uma vez que, por essa altura, o Olhanense se mostrava mais próximo do seu real valor. Sérgio Conceição substituiu o ineficaz Abdi por David Silva, uma alteração que viria a dar grandes dividendos.

Não obstante as suas intenções ofensivas, a Académica necessita de melhorar ao nível das transições defensivas - os estudantes envolvem frequentemente demasiados homens no ataque, em zonas afastadas da bola, o que tende a deixá-los vulneráveis na defesa - e de aprender a controlar as partidas. Embora tenham tentado abrandar o ritmo do jogo, não foram bem sucedidos a esse nível e permitiram que o Olhanense, agora mais afoito, fosse atrás do resultado.

O golo de David Silva serviu para mostrar que o 4x2x3x1, a opção actual da maioria dos treinadores, exige uma grande mobilidade. Caso contrário, pode revelar-se demasiado previsível e estático. Ao arriscar mais nas suas desmarcações, Silva provocou maiores incómodos para a defesa academista, a qual não podia agora dar-se ao luxo de se preocupar exclusivamente com Yontcha. Quando o fizeram, o Olhanense chegou ao golo.

Os dois defesas-centrais (amarelo e azul) estão atentos a Yontcha.
Ao acompanhá-lo, abrem espaços nas costas para a diagonal de Silva. 

Em resumo, tratou-se de um encontro extremamente interessante que ajudou a demonstrar que a liga portuguesa tem muito para oferecer, caso haja predisposição para tal da parte de todos os intervenientes. Por outro lado, convém referir que as duas equipas em acção não se limitam a jogar exclusivamente em nome dos pontos (necessários) e que tentam efectivamente jogar um futebol atractivo.

Por fim, Marinho fez uma bela partida e poderá estar a aprontar-se para voos mais altos, Makelele é um trabalhador incansável e Cissé é claramente um jogador para acompanhar de perto. A sua recepção, movimento e leitura de jogo são evidentes à vista desarmada. Não é provável que a sua estadia na Briosa dure mais do que a presente época.

Saturday, August 18, 2012

Estamos de volta!

Equipas iniciais

O mais importante em primeiro lugar: que belo início do campeonato português. Um jogo interessante, duas equipas interessadas em vencer, incerteza no resultado, subtis nuances tácticas, uma grande penalidade e uma expulsão. Resta-nos esperar que o encontro de hoje seja apenas um aperitivo para o que aí vem.

Um dos aspectos mais relevantes reside na diferença de comportamento do Sporting de Braga. Há não muito tempo atrás, esperava-se que a maioria das equipas se apresentasse no Estádio da Luz de forma tímida, sem qualquer problema em ceder a iniciativa de jogo à equipa da casa. Como tal, foi extremamente positivo ver os homens de José Peseiro a recusarem essa abordagem e tentarem controlar a partida. Na verdade, esse poderá ser precisamente um dos motivos para a escolha de Beto em detrimento de Quim, dado o maior à-vontade do primeiro a jogar com os pés, o que permitiu ao Sporting de Braga jogar entre os defesas-centrais e o guarda-redes, tentando assim evitar qualquer potencial pressão que o Benfica pudesse tentar exercer mais à frente - por vezes, de forma algo exagerada.

Por outro lado, Jorge Jesus parece insistir em vincar as suas ideias e o seu onze soou quase a um testemunho da sua relutância em abdicar do seu poder de fogo. Em encontros tão equilibrados como este, a prudência aconselharia possivelmente uma equipa mais harmoniosa (como se pôde ver na época passada, por exemplo), mas Jesus optou por colocar Cardozo, Rodrigo, Bruno César e Salvio em zonas mais avançadas. Isto significava que o Benfica estava inclusivamente disposto a iniciar os seus ataques com o recuo de Javi García, transformando praticamente a equipa num 3x3x3x1.

Javi García recuava e ambos os centrais abriam,
com Maxi Pereira e Melgarejo a avançarem.

Por seu turno, o Sporting de Braga tinha bem definidas as suas zonas de pressão, permitindo geralmente que os três jogadores adversários mais recuados retivessem a posse de bola e apertando Witsel (ou qualquer outro jogador que pudesse recuar), frustrando com isso as tentativas do Benfica de sair a jogar a partir de trás. Peseiro parecia ter instruído os seus jogadores para explorarem o espaço nas costas de (e dos restantes quatro jogadores mais adiantados), o que funcionou algumas vezes até à meia-hora.

As qualidades

Uma das qualidades de Peseiro do conhecimento público reside na quantidade e qualidade de trabalho dedicado à posse de bola e movimentações. Não só a linha mais recuada do Sporting de Braga se mostrou extremamente cómoda com a bola, mas pudemos ver também a qualidade das movimentações dos jogadores com a bola e no espaço. Para além disso, com Viana, Mossoró e Lima, trata-se de uma equipa capaz de mudar rapidamente o centro de jogo (como poucas outras) e, com isso, cansar o seu oponente.

Mossoró deslocou-se com frequência para a direita, tentando criar situações de superioridade numérica para o estreante Melgarejo (um infeliz início com a camisola encarnada por parte da jovem esperança), o qual contava com pouco apoio por parte de Bruno César. Pior ainda, Lima afastava-se repetidas vezes dos seus (supostos) marcadores e criava confusão sobre quem deveria marcá-lo, impedindo Javi García de socorrer o mais recente lateral-esquerdo do Benfica.

Por outro lado, Jorge Jesus é conhecido pelo trabalho exaustivo ao nível das bolas paradas, as quais se têm revelado extremamente profícuas, especialmente neste tipo de encontros. O jogo de hoje ofereceu um exemplo perfeito de que até um livre indirecto tão simples quanto este pode proporcionar uma clara ocasião de golo, desde que todos saibam a sua função.

Bruno César (vermelho) faz um bloqueio, impedindo que qualquer arsenalista
se atravesse no caminho de Maxi Pereira (verde).
Com um movimento simples e coordenado,
Maxi corre sem oposição e quase oferece uma assistência.

Segunda parte

A segunda parte trouxe o que havia faltado na primeira - os golos. Tudo começou com o primeiro tento do Benfica, aos 49 minutos. Considerando que haviam estado por cima da partida até então, foi estranho ver os guerreiros do Minho algo alienados - ao mesmo tempo, foi possível constatar a importância da proximidade das linhas.

Rodrigo atrai dois adversários e Ismaily (azul) oferece a cobertura correcta.
Estranhamente, nenhum jogador bracarense pareceu preocupado com Salvio (amarelo).

Conforme seria de esperar, a segunda bola sobra para Salvio,
completamente sozinho, com Custódio recuando devagar.

O Benfica passava para a frente e os minhotos pareceram algo perdidos durante algum tempo. Apesar da exibição intermitente, talvez o golo fosse aquilo de que as águias necessitavam para elevarem a qualidade do seu jogo e assumirem de vez o encontro. Não obstante, o Benfica voltou a oferecer mais provas da enorme dificuldade em ditar o ritmo de jogo e subjugar o seu adversário, poucos minutos depois. Tal como aconteceu por diversas vezes na época passada, o centro do terreno permanece desprotegido e Javi García e Witsel são frequentemente atropelados. O primeiro tento do Braga foi disso um bom exemplo.

Paulo Vinicius faz um passe simples para Lima (azul), o qual recuara.
Com medo de perder Lima, Garay (vermelho) acompanha-o e abre espaço nas costas.
Maxi preocupa-se com Amorim (verde), o qual flecte para dentro,
abrindo caminho para Ismaily.

Ismaily tem caminho livre à sua frente.
Garay (vermelho) permanece desposicionado e abre um buraco no centro da defesa.

O encontro abrandou bastante pouco depois, excepção feita a Rodrigo e Mossoró. Os dois golos que se seguiriam tiveram origem em situações quase aleatórias, e não no seguimento de jogadas ou movimentações cuidadas. Ainda assim, convém notar que, apesar da boa resposta do Sporting de Braga à situação de inferioridade numérica, Custódio, Viana e Amorim pareceram exaustos à medida que o encontro se aproximava do fim, sem dúvida devido à sua presença no Euro.

Conclusão

Em resumo, foi um encontro extremamente interessante. Embora estejamos ainda no início da época, o Sporting de Braga deu mostras de estar bem orientado para os meses que se avizinham, com noções muito interessantes ao nível da posse de bola, as quais tenderão a melhorar à medida que a competição se for desenrolando. No que diz respeito ao Benfica, foi difícil não vislumbrar alguns dos erros da época passada, mas Jesus é um treinador inteligente que saberá com certeza retirar o melhor dos seus jogadores. Afinal de contas, este foi apenas o primeiro de muitos, muitos jogos.

Sunday, April 1, 2012

Num jogo surpreendentemente aberto, Benfica vence ao cair do pano


Equipas e movimentações iniciais

No passado sábado, Benfica e Sporting de Braga defrontaram-se no primeiro dos três jogos que se disputarão em pouco mais de uma semana que poderão decidir de uma vez por todas o vencedor do campeonato português. Cientes da vitória do FC Porto conquistada poucos minutos antes do apito inicial, ambas as equipas sabiam que vencer esta partida era absolutamente fundamental. Como tal, não se assistiu a um jogo fechado, mas sim a um encontro inacreditavelmente aberto que qualquer uma das equipas poderia ter ganho.

O confronto da noite passada constituiu o derradeiro exemplo do melhor que ambos os clubes tinham a oferecer. Por um lado, o Benfica manteve o proverbial pé no acelerador (talvez tentando compensar a performance menos exuberante da passada terça-feira contra o Chelsea) e jogou insistentemente ao ataque desde o começo. Por outro lado, o Sporting de Braga mostrou-se igual a si mesmo, defendendo de forma organizada e provando a sua mestria no contra-ataque.

Como habitualmente, a abordagem defensiva do Braga passou por um quase exemplar 4x4x2

Os encarnados tentaram abafar o seu adversário desde os primeiros segundos, com Rodrigo no lugar do suspenso Aimar. Na verdade, o avançado espanhol foi um dos motivos pelos quais as águias desfrutaram de um excelente início de jogo. Com efeito, não só jogou por trás de Cardozo, como insistiu também em descair para a ala esquerda, criando situações de superioridade numérica com a colaboração de Gaitán e Capdevila (o qual, jogando no lugar habitualmente ocupado por Emerson, ofereceu maior fluidez no jogo ofensivo da sua equipa). Por seu turno, o Sporting de Braga tinha claramente a lição bem estudada e, como tal, sabia por onde lançar os seus contra-ataques, particularmente pelo seu lado esquerdo, explorando o espaço que tanto Maxi Pereira como Witsel (o qual actuou em zonas mais avançadas do que o habitual, numa posição semelhante àquela em que actuou no jogo contra o Zenit em casa) deixavam nas suas costas.

Witsel (círculo vermelho) jogou mais à frente do que o habitual

O Benfica mostrou-se muito forte na recuperação da bola em pressão alta, tendo conseguido fazê-lo com frequência, particularmente durante a primeira parte. Contudo, quando os bracarenses conseguiam furtar-se à primeira zona de pressão e fazer chegar a bola a Hugo Viana, criavam situações ameaçadoras, encontrando imenso espaço e poucos defensores à sua frente. Estranhamente, um confronto tão aberto não dispôs de muitas oportunidades de golo durante a primeira parte.

Após sair da primeira zona de pressão do Benfica, os minhotos tinham muito espaço para explorar.
Note-se a quantidade de espaço e o número de adversários à frente de Mossoró.

A segunda parte trouxe consigo mais do mesmo, mas de forma ainda mais acentuada. Nenhuma das equipas podia dar-se ao luxo de perder mais pontos (nomeadamente a equipa da casa) e, como tal, foi sem surpresa que houve mais situações de golo nos primeiros 10 minutos da segunda parte do que em toda a primeira metade. Os encarnados mostravam-se ainda mais afoitos no ataque, abrindo espaços nas suas costas. Com Alan menos preso a amarras defensivas (durante os primeiros 45 minutos, foi apenas e só um médio-direito, em vez de um extremo), era impossível adivinhar quem marcaria o primeiro golo.

Aos 60 minutos, os comandados de Jorge Jesus começaram a acusar o cansaço, incentivando os forasteiros a tentarem a sua sorte e levarem mais do que o empate para o Minho, transformando o jogo num festim de situações de perigo. Ironicamente, o primeiro golo surgiria da marca da grande penalidade, imprudentemente cometida por Elderson ao cabecear Bruno César em vez da bola. Quatro minutos depois, o mesmo Elderson viria a redimir-se ao marcar na recarga a uma defesa de Artur, no seguimento de um livre marcado por Hugo Viana. O último golo apareceria de forma dramática no 92º minuto, numa altura em que o Sporting de Braga estava já defensivamente desequilibrado com as substituições de cariz ofensivo realizadas poucos minutos antes, na procura do empate.

Em resumo, foi algo estranho ver duas equipas com tão bons resultados recentes na Europa (as águias nos quartos de final na actual edição da Liga dos Campeões e os minhotos como finalistas vencidos da Liga Europa da época passada) - geralmente, um bom indicador da capacidade de controlar um jogo - a proporcionarem um jogo tão aberto. Em termos tácticos, foi interessante constatar que a partida de ontem foi um espelho fiel do desempenho das duas equipas ao longo da temporada - tanto nos aspectos positivos como negativos. Na verdade, este encontro não se assemelhou a um típico jogo do título português, mas sim aos jogos loucos entre os 5 primeiros classificados desta temporada na Premier League.

Saturday, March 3, 2012

Volte-face no campeonato


Equipas e movimentações iniciais


O encontro de sexta-feira entre Benfica e FC Porto foi anunciado como potencialmente decisivo para a corrida do título. Com as equipas em igualdade pontual a 9 jornadas do fim, o resultado final não significaria necessariamente uma certeza matemática quanto ao futuro campeão, mas uma vitória causaria forçosamente estragos nas aspirações do adversário. Nenhum dos treinadores foi particularmente inspirador ao longo da semana nas suas comunicações públicas e, como tal, previa-se um jogo fechado.

  • 1. Os primeiros 20 minutos
O FC Porto surpreendeu o seu adversário ao não entrar em campo na expectativa, aguardando a oportunidade de tirar proveito do bloco alto do Benfica; pelo contrário, os dragões iniciaram o jogo pressionando em zonas avançadas do terreno, com Janko a vigiar Luisão, Lucho a marcar Javi García (ou Garay, dependendo de qual deles transportava a bola) e Moutinho com um olho em Witsel, caso este baixasse para receber a bola. Vítor Pereira pretendia claramente estrangular a primeira fase de construção do Benfica colocando o seu meio-campo entre as habituais duas zonas de cinco jogadores das águias.

Benfica com dificuldade em sair a jogar, devido à pressão alta do FC Porto

Foi evidente que o Benfica não estava à espera desta atitude por parte dos seus oponentes, errando inúmeros passes num momento do jogo em que costuma ser muito forte - a primeira fase de construção. No entanto, o facto que abriu efectivamente o jogo foi o golo madrugador de Hulk, ao fim de apenas 7 minutos. Os campeões nacionais ficaram ainda mais confiantes, ao passo que a turma da Luz parecia algo perdida. Durante os primeiros 20 minutos, os dragões roçaram a perfeição na tentativa de impedir que a bola chegasse a Aimar - e o facto de nenhum dos médios interiores do Benfica recuar para oferecer uma saída não ajudava em nada. 

Com Witsel com instruções para actuar ao lado de Javi García e sem o contributo defensivo de Aimar, o triângulo do meio-campo dos azuis e brancos não tinha dificuldades em contornar as suas duas linhas de quatro jogadores, oferecendo demasiado espaço entre sectores. 

As duas linhas de quatro do Benfica, abrindo demasiado espaço para Lucho e Moutinho

Para agravar a situação dos encarnados, Djalma foi extremamente útil não só ao arrastar Maxi Pereira para o centro do terreno (deixando o uruguaio sem saber se deveria acompanhar o seu adversário directo ou ocupar o seu espaço original), mas ao contribuir defensivamente, de modo a que o meio-campo dos visitantes não fosse atropelado.

  • 2. 20 - 63 minutos
Ao fim dos primeiros 20 minutos, a equipa da casa começou a equilibrar o jogo. Witsel avançou no terreno, o que permitiu que se assumisse finalmente como a ligação entre defesa e ataque, permitindo-lhe igualmente pressionar o FC Porto na sua própria fase de construção, recuperando a bola mais perto da baliza dos portistas. Por seu turno, os dragões recuaram, possivelmente com o intuito de tirar proveito da velocidade de Hulk nas costas da defesa das águias.

Durante mais de metade da primeira parte, Fernando marcou Nolito (o qual substituiu Bruno César no onze) de perto, tentando evitar que se virasse para a baliza e, com isso, criasse desequilíbrios. No entanto, após o período inicial, Nolito foi capaz de se virar para a baliza ou tirar a bola da sua zona em direcção a Aimar, o qual dispunha de bastante espaço de manobra, uma vez que Fernando não se encontrava na sua posição habitual.

Como tal, foi sem grande surpresa que o Benfica chegou à igualdade aos 41 minutos - particularmente porque o FC Porto tem demonstrado alguma falta de intensidade em lances de bola parada ao longo da época. Foi contudo mais surpreendente ver o segundo golo dos encarnados numa jogada que vêm repetindo ao longo da temporada - ao que parece, o gabinete de observação de adversários dos visitantes tem algum trabalho de casa a fazer. O plano dos nortenhos para a segunda parte (baixar o bloco e tentar lançar o contra-ataque, como se pode ver na imagem mais abaixo) tinha de ser revisto.

FC Porto em organização defensiva no início da segunda parte: um claro e expectante 4x1x4x1

Vítor Pereira não hesitou em lançar James Rodríguez, mas, numa decisão que teria tudo para lhe custar o lugar, substituiu Rolando pelo colombiano, significando que Maicon passaria para defesa-central pela esquerda e Djalma seria o lateral-direito de improviso. De acordo com a antevisão deste jogo, o Benfica não foi capaz de controlar o jogo e a equipa começou a partir-se em duas sub-equipas de cinco, abrindo brechas evidentes no meio-campo. Na verdade, só assim se explica que James e Fernando tenham sido capazes de recuperar a bola a 60 metros da baliza do Benfica e que o primeiro adversário que encontraram tenha sido Luisão, na cabeça da área. Estávamos no 63º minuto - o marcador registava nova igualdade.

  • 3. 63 - 90 minutos
O segundo golo portista foi claramente um soco no estômago da equipa de Jorge Jesus e a equipa começou a quebrar física e mentalmente. Foram-se abrindo cada vez mais espaços e, por conseguinte, não foi surpreendente ver, pouco depois, Hulk com imenso espaço nas costas de Emerson, dando lugar à sua expulsão. A opção de Jesus de colocar Gaitán a lateral-esquerdo significava que Hulk e Djalma tinham pela frente Gaitán e Nolito, os quais não são propriamente os melhores defesas do mundo. Como era previsível, os visitantes depararam-se subitamente com larguíssimas auto-estradas. 

Com um jogador a mais, o FC Porto foi inteligente ao circular a bola, tentando cansar o adversário. Quando o jogo se encaminhava já para o seu final, Vítor Pereira assumiu novo risco ao substituir João Moutinho por Kléber, transmitindo à equipa, em alto e bom som, que queria vencer o jogo. Os azuis e brancos viriam a marcar o golo da vitória poucos segundos depois, num livre de James para a cabeça de Maicon.

  • Conclusão
O FC Porto teve alguma felicidade na forma como chegou à vitória, mas a estratégia inicial de pressionar o Benfica deu bons resultados. As águias fizeram prova dos seus habituais pontos fortes, mas foram previsivelmente frágeis na questão que até a maioria dos adeptos já sabe: à medida que os minutos vão passando, a equipa tem tendência para se partir em dois e expor a sua linha defensiva em demasia (apenas com o contributo de Javi García).

Friday, March 2, 2012

Benfica - FC Porto - Antevisão

Equipas prováveis
Ignorando por momentos o risco que constitui fornecer qualquer tipo de antevisão, são apresentados mais abaixo alguns aspectos que poderão revelar-se importantes para o encontro desta noite entre FC Porto e Benfica. O clássico de hoje à noite poderá não ser decisivo em termos pontuais, como nos querem fazer crer os treinadores de ambas as equipas, mas poderá revelar-se decisivo em termos psicológicos.


  • 1. A ala esquerda
Dadas as características das equipas e (naturalmente) dos jogadores que as compõem, poder-se-á apostar que um dos principais campos de batalha será a zona do lateral-esquerdo de cada uma das equipas. Por um lado, Emerson é claramente o elo mais fraco desta equipa, tanto pelo seu rendimento ofensivo relativamente inócuo como, acima de tudo, por nem sempre tomar a melhor opção em termos de posicionamento defensivo. Por outro lado, Bruno César demonstra uma clara tendência para flectir para o centro e, como se não bastasse, o lado direito conta com Maxi Pereira e Nico Gaitán, o flanco ofensivo dos encarnados por excelência. Com Janko a titular, Hulk poderá regressar ao seu lugar de eleição e tirar proveito da fragilidade do lado esquerdo, sendo que Bruno César não tem por hábito ser um trabalhador nato na ajuda ao seu lateral.

Por seu turno, é conhecido o gosto de Álvaro Pereira em subir pela sua ala e presentear os seus colegas com centros (chegando mesmo a exagerar na opção), deixando inúmeras vezes o seu flanco desprotegido e obrigando frequentemente Otamendi a fazer compensações para as quais não está equipado. Com Gaitán nesse lado e Aimar a poder vir a ocupar esse espaço, não restarão muitas dúvidas sobre a mais do que provável inclinação do campo para as duas alas defensivas.

  • A batalha do meio-campo
É hoje senso comum que os vice-campeões nacionais são mais fortes a atacar pelo centro do terreno, tanto pela presença de Witsel, Aimar e Bruno César como pelo dispositivo táctico habitualmente preferido por Jorge Jesus. Como tal, as águias poderão sobrecarregar com frequência o trio do meio-campo portista, criando inúmeras dificuldades. Tomemos o caso de Aimar a título de exemplo. Se Fernando acompanhar Aimar para que os seus defesas-centrais não tenham de o fazer, o Benfica poderá tirar proveito das subidas de Witsel ou das inflexões de Bruno César nessa zona do terreno. Se Fernando não o fizer, o FC Porto correrá o risco de ver Aimar ditar o ritmo do jogo e, com isso, abrir linhas de passes para as rupturas de Gaitán e Maxi, por exemplo.

Ao invés, não obstante a contratação de Witsel (orientada especificamente para conferir maior controlo em jogos desta natureza), o onze de Jesus tem uma tendência para ficar partido e ficar particularmente vulnerável às transições ofensivas do adversário, o que corresponderia na perfeição às características de Hulk, Moutinho e Lucho. Se é verdade que Vítor Pereira terá de encontrar solução para não ser constantemente confrontado com uma inferioridade numérica a meio-campo, não é menos verdade que Jesus não poderá dar-se ao luxo de ver a sua equipa partir-se em duas facções de 5 - como demonstração disso mesmo, o Benfica apenas conseguiu manter a sua baliza inviolada em 6 ocasiões, ao passo que o FC Porto o conseguiu em 12.

  • 3. Lances de bola parada
Desde que Jesus chegou ao clube da Luz, os lances de bola parada têm constituído quase uma obsessão. Com efeito, os encarnados já lograram por diversas vezes desbloquear jogos mais complicados com lances estudados, com Luisão e Javi Garcia como ameaças mais directas, geralmente ao segundo poste. Por outro lado, Cardozo continua a assumir-se como um perigo em qualquer livre descaído para a direita a menos de 25 metros. 

Quanto ao FC Porto, trata-se de uma equipa com menor aproveitamento desses lances (algo que transitou da época passada, em que a ausência de Bruno Alves anulou a grande referência dos portistas para este tipo de lances). Maicon costuma representar a maior ameaça, mas não conta geralmente com companhia para distrair atenções. 

Em suma, este último aspecto poderá revelar-se decisivo, uma vez que será dos poucos pontos em que as equipas têm menor tendência a equivalerem-se.

  • Conclusão
É já um lugar-comum ouvirmos dizer que estes jogos se vencem nos detalhes, escamoteando o facto de esses mesmos detalhes serem regularmente fruto do trabalho diário invisível que não aparece nos jornais. Se considerarmos que o Benfica costuma ser fortíssimo em casa, que dispõe de diversas opções em termos de bolas paradas (muitas vezes fundamentais neste tipo de jogos) e que irá por certo pretender marcar cedo, poderemos ter uma boa noção do que poderá ser o jogo - ainda que o medo de perder de ambas as equipas possa suplantar a vontade de ganhar. Se juntarmos a isso o facto de o FC Porto não ter ganho esta época um único jogo com equipas de nível semelhante ou superior (o encontro contra o Sporting de Braga não foi aqui incluído, uma vez que nem os próprios bracarenses estão interessados em assumir o estatuto de iguais), poderemos inferir que aos portistas espera uma tarefa hercúlea.

Tuesday, February 28, 2012

Um candidato em definitivo

Equipas e movimentações iniciais
Num dérbi minhoto extremamente apetecível que opunha duas equipas em excelente momento de forma, o Sporting de Braga foi mais forte e tornou impossível esconder a sua candidatura ao título, distando 3 pontos de FC Porto e Benfica, antes do clássico da próxima sexta-feira. Por seu turno, havia alguma expectativa face à prestação do Vitória de Guimarães no reduto do seu arqui-rival, tendo vencido o líder Benfica na jornada transacta.

Uma das expressões mais batidas no futebol afirma que os sistemas não ganham jogos, uma vez que não passam do papel. No entanto, sem contestar de forma alguma a validade de todos os sistemas e respectivas dinâmicas, há algumas disposições tácticas que oferecem uma ocupação mais racional do espaço em termos teóricos. Este encontro permitiu um confronto típico entre o 4x3x3 (em estreia quase absoluta) de Leonardo Jardim e o 4x2x3x1 de Rui Vitória, que rapidamente se percebeu ser um 4x4x1x1, na prática.

  • 1. O duelo táctico:
Em organização defensiva, o Vitória formava duas linhas de quatro homens. Em parte por ter certamente analisado o seu adversário e em parte por necessidade (Mossoró não tinha condições físicas para ser titular), o treinador do Sporting de Braga lançou Ruben Amorim no onze titular, invertendo o seu triângulo. Dessa forma, os visitados tinham uma enorme facilidade em criar triangulações nas alas entre o defesa-lateral, o médio e o extremo - especialmente no lado direito - e, com essa simples movimentação, contornar as duas linhas defensivas do adversário, conforme se pode ver mais abaixo.



Uma simples triangulação criou uma jogada que por pouco não deu golo

Como se esse pormenor táctico não bastasse, Rui Vitória surpreendeu ao dar todo o tempo do mundo a Hugo Viana quando este estava em posse da bola, particularmente tendo em consideração que a eliminação dos bracarenses às mãos do Besiktas mostrou à evidência quanto a marcação incisiva a Hugo Viana prejudica o jogo do resto da equipa.

  • 2. O duelo dos guarda-redes
Qualquer discussão em torno de sistemas tácticos, modelos de jogo ou dinâmicas dentro do próprio de jogo são temas vãos quando uma equipa se apanha a perder ao terceiro minuto através de um erro de um jogador seu. Quando esse mesmo jogador (particularmente numa posição tão sensível quanto a do guarda-redes) repete o mesmo erro passados 15 minutos, a equipa ressente-se da falta de confiança e tem tendência a jogar a medo. Do outro lado, Quim exibiu quanto evoluiu ao longo dos últimos tempos ao mostrar mais uma vez ter perdido a tendência que tinha também de sair com pouco a-propósito.



  • 3. A transição defensiva
Um dos aspectos em que este Sporting de Braga de Jardim se mostra mais forte reside precisamente na transição defensiva - ou seja, no momento imediatamente a seguir a perder a posse de bola. Com efeito, a reacção dos bracarenses à perda da bola mostra-se cada vez mais evoluída, conseguindo não só evitar que o adversário desfira os seus contra-ataques, mas logrando inclusivamente recuperar o esférico em zonas muito adiantadas. No exemplo, mais abaixo, note-se o número de jogadores do Sporting de Braga que se aproxima da bola, numa jogada em que esta havia sido perdida poucos metros e segundos antes. Este momento, tantas vezes desprezado pelos treinadores, é muitas vezes uma das principais diferenças entre equipas medianas e equipas maduras, capazes de outros voos.

Reacção rápida à perda da bola
O resultado final (4-0) será porventura o reflexo da expulsão de Freire ainda antes do fim da primeira parte, numa altura em que a sua equipa perdia já por dois golos de diferença, obrigando-a a expor-se a contra-ataques no processo. Ainda assim, estes três factores ajudam a mostrar que, mesmo que o defesa-central vitoriano não tivesse sido expulso, o Sporting de Braga continuaria mais próximo de vencer o jogo e - com isso - de se assumir como um verdadeiro candidato ao título.

Monday, January 23, 2012

Como encher estádios - Parte I

Em Portugal, construíram-se dez estádios para dar as boas-vindas ao Euro 2004. Pouco caso se fez na altura se o número fazia sentido, se os clubes (ou as autarquias, como se veio a provar mais tarde) teriam capacidade para os suportar ou se era possível encontrar formas de os rentabilizar. A decisão foi avante, com a dúbia justificação de que promoveria a actividade desportiva e aumentaria as assistências das partidas de futebol e, por conseguinte, as receitas. 8 anos volvidos, a falácia está infelizmente à vista de todos.

Na Alemanha, reconverteram-se oito estádios para o Mundial de 2006. Estranhamente, quase todos eles registam taxas de ocupação em dias de jogos superiores a 75%. Para além disso, verificou-se uma aposta vincada no contexto dos mesmos, integrando-os não em ermos longe de tudo e todos, mas num contexto que potencia levar a família algum tempo antes do jogo, seja para conhecer o estádio, a galeria comercial ou as inevitáveis áreas de diversão que os envolvem.

Para além disso, ao contrário do que a Liga gosta de pensar, o preço dos bilhetes conta - e muito. Este fim-de-semana, na partida que opunha as equipas do Hamburgo e Borussia de Dortmund (actual segundo classificado e campeão em título), os adeptos visitantes fizeram greve porque o preço dos bilhetes era considerado exorbitante. O preço? 19 €! O mais curioso foi que os simpatizantes da equipa adversária fizeram um protesto silencioso durante o jogo - contra a sua própria equipa, por praticarem preços que consideravam injustos.

Tudo isto nos parece estar a milhas de distância, mas continua a ser possível arrepiar caminho e potenciar os investimentos que todos nós realizámos. Resta-nos querer para poder.