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Tuesday, March 13, 2012

Introdução ao contra-ataque

As últimas semanas têm-nos inundado com exemplos de jogadas de contra-ataque. São apresentadas mais abaixo duas alternativas para chegar ao golo.

Exemplo n.º 1: A opção "Eu (e o meu colega) contra o mundo"

James Rodríguez, o extremo do FC Porto, ainda é um jogador jovem (20 anos), mas, ao longo do último ano, tem vindo a mostrar o que vale (e como poderá vir a valer ainda mais). No último clássico que opôs Benfica e FC Porto, James entrou em campo aos 58 minutos quando a sua equipa perdia por 2-1 e foi decisivo para a vitória dos portistas, marcando um golo e fazendo uma assistência para outro.

1º momento: Fernando, o pivô defensivo do FC Porto, recupera a bola a meias com James. Como é possível observar na imagem mais abaixo, ambos têm imenso espaço à sua frente.




2º momento: Na verdade, os dois jogadores foram capazes de recuperar a bola a 60 metros da baliza do Benfica e avançar sem obstáculos - o primeiro adversário com que se depararam foi Luisão (a vermelho), junto à grande área. Reparando no espaço que Luisão deixara atrás de si, James fez uma simples "tabela" com Fernando (que tinha acompanhado a subida de James). 




3º momento: Com esse simples movimento, James ultrapassou Luisão, recolheu a bola alguns metros mais à frente e rematou de forma imparável. A igualdade estava restabelecida. 




Exemplo n.º 2: Jogo em equipa 

O último encontro entre Arsenal e Tottenham teve um início frenético. O golo do Tottenham ao terceiro minuto foi uma jogada típica de contra-ataque - uma movimentação colectiva que deveria ser elogiada. 

1º momento: Kyle Walker (círculo azul), lateral-direito do Tottenham, recupera a bola, faz um passe para Gareth Bale (primeira linha amarela tracejada) e lança-se imediatamente num sprint. Quando a bola chega a Bale, Adebayor desloca-se para a esquerda para ir ao encontro do passe de Bale (segunda linha amarela tracejada), desposicionando o defesa. Repare-se como Saha (círculo verde), o jogador que viria a marcar o golo, está completamente sozinho. 




2º momento: Walker (círculo azul) continua o seu movimento e arrasta consigo o segundo defesa-central do Arsenal, abrindo uma enorme brecha para Saha (círculo verde).  




3º momento: Walker (círculo azul) termina a sua corrida ciente de que o seu trabalho está terminado: quando o segundo defesa-central do Arsenal repara no espaço nas suas costas, já é tarde de mais e Adebayor já fez o passe para Saha (círculo verde). Poucos segundos depois, o Tottenham estava na frente.



Estes dois casos constituem um exemplo perfeito de como tirar o máximo proveito de uma rápida transição entre defesa e ataque, mostrando como é importante ocupar racionalmente os espaços, mesmo - ou especialmente - quando a bola está na nossa posse.

Saturday, March 3, 2012

Volte-face no campeonato


Equipas e movimentações iniciais


O encontro de sexta-feira entre Benfica e FC Porto foi anunciado como potencialmente decisivo para a corrida do título. Com as equipas em igualdade pontual a 9 jornadas do fim, o resultado final não significaria necessariamente uma certeza matemática quanto ao futuro campeão, mas uma vitória causaria forçosamente estragos nas aspirações do adversário. Nenhum dos treinadores foi particularmente inspirador ao longo da semana nas suas comunicações públicas e, como tal, previa-se um jogo fechado.

  • 1. Os primeiros 20 minutos
O FC Porto surpreendeu o seu adversário ao não entrar em campo na expectativa, aguardando a oportunidade de tirar proveito do bloco alto do Benfica; pelo contrário, os dragões iniciaram o jogo pressionando em zonas avançadas do terreno, com Janko a vigiar Luisão, Lucho a marcar Javi García (ou Garay, dependendo de qual deles transportava a bola) e Moutinho com um olho em Witsel, caso este baixasse para receber a bola. Vítor Pereira pretendia claramente estrangular a primeira fase de construção do Benfica colocando o seu meio-campo entre as habituais duas zonas de cinco jogadores das águias.

Benfica com dificuldade em sair a jogar, devido à pressão alta do FC Porto

Foi evidente que o Benfica não estava à espera desta atitude por parte dos seus oponentes, errando inúmeros passes num momento do jogo em que costuma ser muito forte - a primeira fase de construção. No entanto, o facto que abriu efectivamente o jogo foi o golo madrugador de Hulk, ao fim de apenas 7 minutos. Os campeões nacionais ficaram ainda mais confiantes, ao passo que a turma da Luz parecia algo perdida. Durante os primeiros 20 minutos, os dragões roçaram a perfeição na tentativa de impedir que a bola chegasse a Aimar - e o facto de nenhum dos médios interiores do Benfica recuar para oferecer uma saída não ajudava em nada. 

Com Witsel com instruções para actuar ao lado de Javi García e sem o contributo defensivo de Aimar, o triângulo do meio-campo dos azuis e brancos não tinha dificuldades em contornar as suas duas linhas de quatro jogadores, oferecendo demasiado espaço entre sectores. 

As duas linhas de quatro do Benfica, abrindo demasiado espaço para Lucho e Moutinho

Para agravar a situação dos encarnados, Djalma foi extremamente útil não só ao arrastar Maxi Pereira para o centro do terreno (deixando o uruguaio sem saber se deveria acompanhar o seu adversário directo ou ocupar o seu espaço original), mas ao contribuir defensivamente, de modo a que o meio-campo dos visitantes não fosse atropelado.

  • 2. 20 - 63 minutos
Ao fim dos primeiros 20 minutos, a equipa da casa começou a equilibrar o jogo. Witsel avançou no terreno, o que permitiu que se assumisse finalmente como a ligação entre defesa e ataque, permitindo-lhe igualmente pressionar o FC Porto na sua própria fase de construção, recuperando a bola mais perto da baliza dos portistas. Por seu turno, os dragões recuaram, possivelmente com o intuito de tirar proveito da velocidade de Hulk nas costas da defesa das águias.

Durante mais de metade da primeira parte, Fernando marcou Nolito (o qual substituiu Bruno César no onze) de perto, tentando evitar que se virasse para a baliza e, com isso, criasse desequilíbrios. No entanto, após o período inicial, Nolito foi capaz de se virar para a baliza ou tirar a bola da sua zona em direcção a Aimar, o qual dispunha de bastante espaço de manobra, uma vez que Fernando não se encontrava na sua posição habitual.

Como tal, foi sem grande surpresa que o Benfica chegou à igualdade aos 41 minutos - particularmente porque o FC Porto tem demonstrado alguma falta de intensidade em lances de bola parada ao longo da época. Foi contudo mais surpreendente ver o segundo golo dos encarnados numa jogada que vêm repetindo ao longo da temporada - ao que parece, o gabinete de observação de adversários dos visitantes tem algum trabalho de casa a fazer. O plano dos nortenhos para a segunda parte (baixar o bloco e tentar lançar o contra-ataque, como se pode ver na imagem mais abaixo) tinha de ser revisto.

FC Porto em organização defensiva no início da segunda parte: um claro e expectante 4x1x4x1

Vítor Pereira não hesitou em lançar James Rodríguez, mas, numa decisão que teria tudo para lhe custar o lugar, substituiu Rolando pelo colombiano, significando que Maicon passaria para defesa-central pela esquerda e Djalma seria o lateral-direito de improviso. De acordo com a antevisão deste jogo, o Benfica não foi capaz de controlar o jogo e a equipa começou a partir-se em duas sub-equipas de cinco, abrindo brechas evidentes no meio-campo. Na verdade, só assim se explica que James e Fernando tenham sido capazes de recuperar a bola a 60 metros da baliza do Benfica e que o primeiro adversário que encontraram tenha sido Luisão, na cabeça da área. Estávamos no 63º minuto - o marcador registava nova igualdade.

  • 3. 63 - 90 minutos
O segundo golo portista foi claramente um soco no estômago da equipa de Jorge Jesus e a equipa começou a quebrar física e mentalmente. Foram-se abrindo cada vez mais espaços e, por conseguinte, não foi surpreendente ver, pouco depois, Hulk com imenso espaço nas costas de Emerson, dando lugar à sua expulsão. A opção de Jesus de colocar Gaitán a lateral-esquerdo significava que Hulk e Djalma tinham pela frente Gaitán e Nolito, os quais não são propriamente os melhores defesas do mundo. Como era previsível, os visitantes depararam-se subitamente com larguíssimas auto-estradas. 

Com um jogador a mais, o FC Porto foi inteligente ao circular a bola, tentando cansar o adversário. Quando o jogo se encaminhava já para o seu final, Vítor Pereira assumiu novo risco ao substituir João Moutinho por Kléber, transmitindo à equipa, em alto e bom som, que queria vencer o jogo. Os azuis e brancos viriam a marcar o golo da vitória poucos segundos depois, num livre de James para a cabeça de Maicon.

  • Conclusão
O FC Porto teve alguma felicidade na forma como chegou à vitória, mas a estratégia inicial de pressionar o Benfica deu bons resultados. As águias fizeram prova dos seus habituais pontos fortes, mas foram previsivelmente frágeis na questão que até a maioria dos adeptos já sabe: à medida que os minutos vão passando, a equipa tem tendência para se partir em dois e expor a sua linha defensiva em demasia (apenas com o contributo de Javi García).

Friday, March 2, 2012

Benfica - FC Porto - Antevisão

Equipas prováveis
Ignorando por momentos o risco que constitui fornecer qualquer tipo de antevisão, são apresentados mais abaixo alguns aspectos que poderão revelar-se importantes para o encontro desta noite entre FC Porto e Benfica. O clássico de hoje à noite poderá não ser decisivo em termos pontuais, como nos querem fazer crer os treinadores de ambas as equipas, mas poderá revelar-se decisivo em termos psicológicos.


  • 1. A ala esquerda
Dadas as características das equipas e (naturalmente) dos jogadores que as compõem, poder-se-á apostar que um dos principais campos de batalha será a zona do lateral-esquerdo de cada uma das equipas. Por um lado, Emerson é claramente o elo mais fraco desta equipa, tanto pelo seu rendimento ofensivo relativamente inócuo como, acima de tudo, por nem sempre tomar a melhor opção em termos de posicionamento defensivo. Por outro lado, Bruno César demonstra uma clara tendência para flectir para o centro e, como se não bastasse, o lado direito conta com Maxi Pereira e Nico Gaitán, o flanco ofensivo dos encarnados por excelência. Com Janko a titular, Hulk poderá regressar ao seu lugar de eleição e tirar proveito da fragilidade do lado esquerdo, sendo que Bruno César não tem por hábito ser um trabalhador nato na ajuda ao seu lateral.

Por seu turno, é conhecido o gosto de Álvaro Pereira em subir pela sua ala e presentear os seus colegas com centros (chegando mesmo a exagerar na opção), deixando inúmeras vezes o seu flanco desprotegido e obrigando frequentemente Otamendi a fazer compensações para as quais não está equipado. Com Gaitán nesse lado e Aimar a poder vir a ocupar esse espaço, não restarão muitas dúvidas sobre a mais do que provável inclinação do campo para as duas alas defensivas.

  • A batalha do meio-campo
É hoje senso comum que os vice-campeões nacionais são mais fortes a atacar pelo centro do terreno, tanto pela presença de Witsel, Aimar e Bruno César como pelo dispositivo táctico habitualmente preferido por Jorge Jesus. Como tal, as águias poderão sobrecarregar com frequência o trio do meio-campo portista, criando inúmeras dificuldades. Tomemos o caso de Aimar a título de exemplo. Se Fernando acompanhar Aimar para que os seus defesas-centrais não tenham de o fazer, o Benfica poderá tirar proveito das subidas de Witsel ou das inflexões de Bruno César nessa zona do terreno. Se Fernando não o fizer, o FC Porto correrá o risco de ver Aimar ditar o ritmo do jogo e, com isso, abrir linhas de passes para as rupturas de Gaitán e Maxi, por exemplo.

Ao invés, não obstante a contratação de Witsel (orientada especificamente para conferir maior controlo em jogos desta natureza), o onze de Jesus tem uma tendência para ficar partido e ficar particularmente vulnerável às transições ofensivas do adversário, o que corresponderia na perfeição às características de Hulk, Moutinho e Lucho. Se é verdade que Vítor Pereira terá de encontrar solução para não ser constantemente confrontado com uma inferioridade numérica a meio-campo, não é menos verdade que Jesus não poderá dar-se ao luxo de ver a sua equipa partir-se em duas facções de 5 - como demonstração disso mesmo, o Benfica apenas conseguiu manter a sua baliza inviolada em 6 ocasiões, ao passo que o FC Porto o conseguiu em 12.

  • 3. Lances de bola parada
Desde que Jesus chegou ao clube da Luz, os lances de bola parada têm constituído quase uma obsessão. Com efeito, os encarnados já lograram por diversas vezes desbloquear jogos mais complicados com lances estudados, com Luisão e Javi Garcia como ameaças mais directas, geralmente ao segundo poste. Por outro lado, Cardozo continua a assumir-se como um perigo em qualquer livre descaído para a direita a menos de 25 metros. 

Quanto ao FC Porto, trata-se de uma equipa com menor aproveitamento desses lances (algo que transitou da época passada, em que a ausência de Bruno Alves anulou a grande referência dos portistas para este tipo de lances). Maicon costuma representar a maior ameaça, mas não conta geralmente com companhia para distrair atenções. 

Em suma, este último aspecto poderá revelar-se decisivo, uma vez que será dos poucos pontos em que as equipas têm menor tendência a equivalerem-se.

  • Conclusão
É já um lugar-comum ouvirmos dizer que estes jogos se vencem nos detalhes, escamoteando o facto de esses mesmos detalhes serem regularmente fruto do trabalho diário invisível que não aparece nos jornais. Se considerarmos que o Benfica costuma ser fortíssimo em casa, que dispõe de diversas opções em termos de bolas paradas (muitas vezes fundamentais neste tipo de jogos) e que irá por certo pretender marcar cedo, poderemos ter uma boa noção do que poderá ser o jogo - ainda que o medo de perder de ambas as equipas possa suplantar a vontade de ganhar. Se juntarmos a isso o facto de o FC Porto não ter ganho esta época um único jogo com equipas de nível semelhante ou superior (o encontro contra o Sporting de Braga não foi aqui incluído, uma vez que nem os próprios bracarenses estão interessados em assumir o estatuto de iguais), poderemos inferir que aos portistas espera uma tarefa hercúlea.

Tuesday, November 29, 2011



































Numa tentativa de melhor demonstrar o que se vai dizendo neste pasquim, dou hoje início ao acompanhamento visual dos jogos analisados. Quaisquer comentários, sugestões ou críticas serão mais do que bem-vindos, naturalmente.

Monday, November 28, 2011

"Não há forma física"

Dou início a este artigo parafraseando um antigo treinador do FC Porto, alguém que, entretanto, foi coleccionado uma ou outra mão-cheia de títulos. Dizia esse líder que não entendia a forma física isoladamente, mas sim num contexto que integrava a forma física, técnica, táctica e psicológica. Se me debruço sobre este antes da análise do jogo propriamente dita, é pelo simples facto de muitos de nós terem colocado em causa desde há vários meses os métodos e resultados da preparação física ministrada pela equipa técnica. Aparentemente, o desgaste físico é irrisório mesmo quando se faz uma longa viagem de regresso e se joga um encontro importante para o campeonato - desde que se ganhe, claro está.

Aproveitando o embalo da partida de Donetsk, Vítor Pereira optou por manter exactamente o mesmo onze, incluindo Maicon a lateral-direito, mas desta feita com uma diferença: em vez de jogar a par de Fernando, como na Ucrânia, Moutinho jogava no seu lugar habitual, mais próximo de Defour. Por seu turno, o Sporting de Braga parecia querer mostrar desde logo que ia ao Dragão disputar o jogo olhos nos olhos, com Mérida atrás de Lima, com Alan e Paulo César nas alas.


Os primeiros minutos da partida confirmaram que a estratégia de Donetsk não tinha sido um caso isolado. Com efeito, o treinador portista parece ter aprendido a lição e a pressão alta - estouvada e aleatória - parece definitivamente afastada. Pelo contrário, os dragões jogavam num bloco mais baixo, preferindo aproveitar as costas do meio-campo bracarense. Com os seus movimentos interiores, Djalma e James causavam uma superioridade numérica no centro do terreno, uma vez que tanto Alan como Paulo César se mostravam renitentes em acompanharem os seus adversários directos. Com isso e com um Defour particularmente dinâmico na abertura de linhas de passe e movimentações sem bola, as alas ofensivas abriam-se repetidamente (em especial para Álvaro Pereira, como seria de esperar), fornecendo bons indícios.

O Sporting de Braga tentou opor a esta atitude portista um veneno semelhante, com Hugo Viana e particularmente Quim a não terem receio de dirigirem passes longos para Lima, com tendência para descair para as alas. No entanto, com a equipa menos subida, o timing da pressão azul e branca foi incomparavelmente melhor do que os últimos jogos e a defesa raramente foi apanhada em contrapé, uma vez que os médios estavam sempre mais próximos - Fernando, como sempre, foi inultrapassável.

Graças em boa parte a essa segurança defensiva, as transições ofensivas mostravam-se muito mais perigosas, uma vez que a equipa não corria o risco de se partir. Com Hulk no meio, notavam-se ainda algumas lacunas no brasileiro, resultantes da falta de rotina da posição, nomeadamente em lances de contra-ataque, em que o apoio frontal é tão fundamental como saber o momento certo para libertar a bola.

À medida que os minutos iam passando, a equipa minhota foi começando a perder alguma compostura defensiva, perdendo os momentos para introduzir a transição, dada a maior certeza no momento defensivo. Assim, ainda que não havendo grandes lances de perigo a demonstrá-lo, o FC Porto mantinha-se sempre por cima do encontro e foi sem surpresa que chegou ao primeiro golo - um belo movimento ofensivo, com Defour a arrancar para trás e a confundir marcações com a sua penetração, libertando para James para este cruzar para a cabeça de Hulk a régua e esquadro. Corria o minuto 36.

A segunda parte trouxe um dragão mais cauteloso e um Sporting de Braga algo perdido em relação ao que pretendia do jogo, proporcionando uma fase mais incaracterística até aos 63', altura em que Djalma e Defour deram lugar a Cristián Rodríguez e Souza, respectivamente. O público nas bancadas pareceu não gostar da intenção de Vítor Pereira de fechar o castelo a sete chaves e os minutos seguintes pareceram comprovar que os jogadores também não. Com a saída de Defour, os portistas dispuseram-se num 4x2x3x1, com Moutinho nas costas de Hulk, o que, na modesta opinião deste cronista, poderia ter sido um erro mais complicado do que acabou por vir a ser - Souza é consideravelmente mais lento do que Moutinho na pressão sobre a bola e na ocupação de espaços e Moutinho nunca será um 10. Dessa forma, a equipa não só passou a ter mais dificuldades a defender, como não conseguia encontrar a saída de pressão que Defour oferecia até então.


Pouco depois, o Braga demonstrava querer o empate, pelo menos. Hugo Viana viu o seu perigoso remate prensado aos 68' (depois de uma má transição ofensiva) e Alan permitiu uma bela defesa a Helton com um grande remate. Adivinhavam.se momentos enervantes, com as bancadas já inquietas. Contudo, Leonardo Jardim cometeu o pecado de retirar o equilibrador Djamal, deixando Hugo Viana sozinho na zona do meio-campo. Ora, foi precisamente essa área que viria a ser fundamental para o segundo golo portista, no minuto imediatamente a seguir. Na única vez que Moutinho conseguiu abrir espaços mais à frente, tabelou com Hulk, que beneficiou da ausência de pressão de Djamal (Viana ainda vinha em recuperação), flectiu para o meio e marcou um grande golo.

O jogo parecia resolvido quando Kléber, que tinha entrado para o lugar de James, encostou para o terceiro, depois de mais uma arrancada de Hulk pela direita. A equipa visitante estava absolutamente partida e o terceiro golo permitiu que a equipa entrasse em descompressão, aparentemente mais interessada em comungar da festa com o público. Assim, o penalty cometido por Hulk aos 87' parecia nada mais do que um fait-divers, mas a apatia colectiva permitiu ainda o bis de Lima aos 91', proporcionando dois minutos finais de algum nervosismo - sem necessidade alguma, note-se.


Friday, August 19, 2011

Começar com o pé esquerdo e terminar com o direito

No primeiro jogo no Dragão a contar para o campeonato, o FC Porto defrontou o Gil Vicente. Com as duas equipas a apresentarem os mesmos onzes da primeira jornada, foi sem surpresa que se assistiu à repetição de alguns defeitos e virtudes. Com efeito, os dragões entraram algo nervosos, especialmente na circulação de bola entre defesas e Souza: Foi precisamente num desses momentos, logo aos 2 minutos, que o Gil Vicente pressionou um mau domínio de Sapunaru, conquistando um penalty, cometido por um Otamendi já em desespero de causa.

Se os azuis e brancos já estavam nervosos, o golo adversário não ajudou em nada. Souza continua a demonstrar algumas dificuldades na construção (é raro o passe ao primeiro ou segundo toque) e os de Barcelos traziam a lição bem estudada, jogando em bloco baixo e apostando não só nas transições rápidas, mas também na pressão bem exercida aos alvos azuis identificados como menos fortes em posse de bola.

Ainda assim, o querer atirou o FC Porto para a frente e foi graças a um penalty sobre Hulk - convertido sobre o mesmo - que chegou à igualdade, ao minuto 10. Com a igualdade, os dragões foram-se assenhorando do jogo, afastando os nervos, e foi no seguimento de um desses lances que chegaram ao segundo golo, por intermédio de Sapunaru (num canto bem batido por Hulk), que assim se redimia do lance menos feliz do golo dos gilistas.

Os campeões nacionais pareciam querer acalmar o jogo e exercer finalmente o seu domínio, mas a equipa de Barcelos não se mostrou interessada e continuou a mostrar que vinha para jogar, ainda que com as suas armas. Assim, tiveram uma oportunidade de golo clamorosa, aos 23', que João Vilela falhou perante Helton.

A segunda parte trouxe um FC Porto mais afoito tanto a defender como a atacar e, com isso, conseguiu aumentar a vantagem para dois golos logo ao terceiro minuto, numa verdadeira bomba de Hulk. 3 minutos depois, Kléber e Hulk construíram uma bela jogada para a nova referência de área azul e branca cabecear ao lado do poste esquerdo.

As substituições serviram para atiçar um pouco um dragão mais interessado em controlar o jogo, após a vantagem. Belluschi e Djalma entraram para os lugares de Guarín e Varela, respectivamente, e essas alterações trouxeram uma maior mobilidade, em particular a de Belluschi, sempre predisposto a fazer passes de ruptura e explorar os espaços.

Até final, assistimos a uma tentativa de reacção da turma de Barcelos, potenciada pela continuação de alguma falta de agressividade defensiva por parte do FC Porto. Apesar de tudo, não houve grandes sustos, mas fica a nota para o próximo jogo, contra um adversário incomparavelmente mais difícil.

Positivo:

- Atitude do Gil Vicente. Se todas as equipas demonstrassem a mesma vontade de discutir o resultado (ainda que com as suas armas, como é óbvio), talvez o campeonato nacional fosse capaz de atrair mais adeptos.

Negativo:

- Momento defensivo do FC Porto. A equipa parece estar ainda algo confusa sobre quando deve ou não fazer pressão. Como tal, criam-se involuntariamente autênticos buracos, partindo a equipa e expondo-a às transições.


Wednesday, June 22, 2011

A queda de um mito

A notícia da contratação de André Villas-Boas pelo Chelsea foi o golpe final na esperança do comum adepto de que o futebol fosse algo mais do que apenas um negócio, destroçando qualquer resquício de romantismo que pudesse ter sobrado. Com efeito, a nação portista sentia-se um pouco mais protegida face a uma possível deserção do seu valioso técnico dadas as suas incontáveis manifestações de portismo, deixando cair sempre que necessário a sua paixão pelo clube, culminando na já célebre expressão da "cadeira de sonho", jurando que treinar a equipa do seu coração seria uma das suas máximas ambições.

Ao professar tantas vezes (aquilo que se sabe agora ser) uma mentira, ganhou não só o direito a que todos os adeptos portistas ficassem do seu lado, mas também a responsabilidade de cumprir o que tantas vezes prometeu ao longo da época (incluindo após vencer três das cinco competições desta época).

Se os adeptos azuis e brancos sofreram com a saída de Mourinho, a de Villas-Boas foi incomparavelmente mais dramática. Se, por um lado, Mourinho nunca propalou a sua dedicação incondicional ao clube, Villas-Boas vai mais longe ao deixar o clube desamparado, dado que não foi contratado nenhum dos treinadores desejados em virtude da sua permanência.

Não se trata aqui de atacar a oportunidade profissional do treinador do Chelsea, pois cabe única e exclusivamente a cada um decidir o que julga ser melhor para si. Trata-se sim de constatar que se nem um treinador da casa, ferrenho adepto confesso do clube, cede à tentação de atropelar a sua palavra, demonstrando um absoluto desrespeito pelo compromisso que celebrou de livre vontade, o que podemos esperar nós da legião de contratados que todos os anos chegam aos clubes portugueses, sem qualquer pejo em admitir logo nas primeiras entrevistas que estão em Portugal meramente para dar o salto para um local melhor? Numa empresa convencional, quem seria o patrão que contrataria um funcionário que admitisse na primeira conversa estar ali apenas enquanto não surge algo melhor?

Se tomarmos em consideração que nunca como hoje os clubes tiveram semelhantes condições económicas e que nunca como hoje o futebol foi um negócio tão rentável (através de sites, canais de televisão, jornais, entre outros) como resultado directo do investimento dos fãs, não deixa de ser irónico que essa sensação de pertença a um símbolo, a um espírito, a um clube seja estilhaçada por aqueles que dela vivem.

Resta aos adeptos continuarem a torcer pelas duas dúzias de jogadores e treinadores que, naquele momento, por feliz acaso, não tinham sítio melhor para estar.

Friday, April 1, 2011

Benfica v FC Porto: 3 motivos para a vitória do FC Porto

À medida que o grande clássico se aproxima, a tensão vai aumentando, conforme se pode ler aqui. Num encontro tão carregado de emoções como este, dada a actual classificação - simetricamente oposta em relação à época passada -, haverá com certeza motivos que farão pender a balança para um lado e para o outro. Analisemos o lado dos dragões.



  1. O momento. Se dúvidas havia sobre a capacidade de André Villas-Boas liderar um grupo do calibre da equipa azul e branca, têm vindo a ser reduzidas a pó pelo jovem treinador. Na verdade, os dragões têm vindo a quebrar recordes de invencibilidade (permanecem a única equipa imbatível nos campeonatos europeus) e aprestam-se não só para conquistar o título nacional, como para tentar chegar ao fim da competição sem derrotas. Se juntarmos a isso as repetidas passagens às eliminatórias seguintes da Liga Europa, poderemos facilmente constatar que estamos perante uma equipa plena de confiança.
  2. A melhoria táctica. Relativamente a outros anos (nomeadamente a época de Jesualdo Ferreira), o FC Porto está actualmente mais ciente da sua capacidade de reter a bola, sendo assim mais capaz de controlar a partida, em vez das costumeiras transições rápidas. Como tal, num jogo em que o adversário terá por certo a intenção de sufocar desde o primeiro minuto, a posse de bola de Moutinho, Belluschi e/ou Guarín poderá revelar-se fundamental para roubar tempo e espaço ao Benfica.
  3. A vontade. Para muitos dos jogadores do FC Porto, esta é a primeira oportunidade de conquistar um título. Para outros, trata-se da hipótese de reaver um título perdido no ano passado para os eternos rivais. Tanto uns como outros quererão por certo concretizar a conquista, ainda para mais em casa do actual campeão. Conforme se pode ler aqui, a rivalidade entre arqui-rivais parece ser algo que se sente mais no Porto, cidade e clube.

Benfica v FC Porto: 3 motivos para a vitória do Benfica

À medida que o grande clássico se aproxima, a tensão vai aumentando, conforme se pode ler aqui. Num encontro tão carregado de emoções como este, dada a actual classificação - simetricamente oposta em relação à época passada -, haverá com certeza motivos que farão pender a balança para um lado e para o outro. Comecemos pela equipa encarnada.


  1. O embalo. Não obstante um início titubeante, o Benfica tem vindo a melhorar tanto os seus resultados como as suas exibições a olhos vistos. Com efeito, a equipa de Jorge Jesus parece, hoje por hoje, absolutamente identificada com os princípios preconizados pelo seu treinador (uma pressão defensiva mais intensa e jogo carrilado pelos "asas" Gaitán e Sálvio). Se considerarmos que os encarnados continuam a atropelar tudo e todos no seu caminho (excepção feita aos dois últimos jogos no campeonato, onde alinharam quase todas as segundas e terceiras opções), poderemos imaginar que não se vislumbram facilidades para os portistas.
  2. A melhoria táctica. Jorge Jesus parece ter finalmente (re)encontrado a sua fórmula mágica. Substituir jogadores como Ramires ou Di María não é fácil, como já se disse e repetiu em muitos locais, mas o timoneiro do Benfica conseguiu não só moldar Gaitán e Sálvio (tanto ofensiva como, acima de tudo, defensivamente), como logrou também achar o melhor onze para conciliar as maiores virtudes desta equipa. Os 5-0 sofridos no Dragão são já uma miragem distante.
  3. O jogo mais importante da época. Embora a táctica seja um elemento fundamental do jogo, a parte psicológica é fulcral em qualquer partida futebolística, conforme se pôde ver no ano passado no FC Porto x Benfica, em que, apesar de os encarnados serem a melhor equipa do campeonato sem sombra de dúvida, os azuis e brancos não quiseram ceder o seu título de campeões aos rivais no seu reduto. O mesmo se passará no Domingo: ninguém quer ver a festa do maior rival em sua casa.

Thursday, August 13, 2009

Um sprint a três?



"Mais uma voltinha, mais uma viagem." Este não é o lema do campeonato nacional, mas bem que podia ser. Com efeito, a principal competição futebolística de clubes tem início já amanhã, perfilando-se como favoritos os três candidatros tradicionais - desta feita, com um equilíbrio de forças aparentemente diferente.

Na verdade, o Benfica reforçou-se muito e supostamente bem. O presidente encarnado tentou mais uma vez resolver a falta de títulos atirando dinheiro para cima do problema. Não está em causa o valor dos jogadores benfiquistas, bem pelo contrário, mas sim saber até que ponto este projecto representa algo mais a médio prazo ou apenas e só, como tem sido apanágio, a tentativa deste ano.

Creio que Jesus poderá obter resultados incomparavelmente melhores do que Quique Flores, por vários motivos. Antes de mais, o treinador português conhece o futebol nacional como Quique não conhecia. Além do mais, a equipa encarnada chega a esta fase da época com uma ideia clara sobre o que tem de fazer nos diversos momentos de jogo (independentemente de os fazer bem ou mal), coisa que nem na última jornada o Benfica de Quique conseguiu. No lado inverso, o lado irascível de Jesus e os seus dotes de comunicação poderão criar-lhe alguns anticorpos, tanto dentro como fora do Estádio da Luz. Como principal defeito deste Benfica - até ver -, o mesmo de que padecia o Sporting de Braga na época passada: uma certa falta de flexibilidade táctica, particularmente quando os adversários sabem defender atrás, expondo em demasia a falta de velocidade dos centrais benfiquistas.

No que diz respeito ao Sporting, a versão deste ano parece-me ligeiramente mais fraca. A falta de dinheiro não permitiu o investimento "devido" (nas palavras do próprio presidente leonino) na equipa, subsistindo ainda todas as dúvidas sobre Miguel Veloso, Vukcevic, Postiga, entre outros. Na minha opinião, creio que o valor e a ausência de Derlei não foram devidamente avaliadas. O seu papel no balneário e a sua presença física e anímica faziam deste Sporting uma equipa muito mais aguerrida. Neste momento, os próprios adeptos não parecem crer efectivamente que o clube vá lutar pelo título, especialmente tendo em conta as contratações dos eternos rivais da Segunda Circular.

Quanto ao FC Porto, permanece quanto a mim uma incógnita. Jesualdo Ferreira terá vincados os seus créditos de forma definitiva no ano transacto, ao conseguir reconstruir com sucesso uma equipa repleta de jogadores novos (no bilhete de identidade e/ou no clube). Saber até que ponto conseguirá fazê-lo sem dois dos principais intervenientes dos últimos quatro anos - Lucho e Lisandro - é uma das grandes questões deste campeonato. Hulk deverá explodir em definitivo, mas Belluschi não é Lucho (para o melhor e para o pior) e não há nenhum avançado como Lisandro, o que implicará uma alteração significativa do processo de jogo portista.

Classificação final: FC Porto, Benfica, Sporting. Pessoalmente, não sei se o Benfica tem ainda a estaleca necessária para suportar as vicissitudes do campeonato e até que ponto Jesus se dará bem com todos os holofotes virados para ele. O Sporting deste ano parece-me demasiado fragilizado animicamente, embora tenha condições para se intrometer nas contas do título, naturalmente.

Tuesday, January 13, 2009

Acertar em tudo


No passado Domingo, FC Porto e Trofense empataram a zero no Dragão. Mais uma vez, os pupilos de Jesualdo voltaram a falhar onde menos era costume. No entanto, ao contrário de muitos jogos desta época, em que os azuis e brancos não conseguiram simplesmente rubricar uma exibição convincente, os dragões foram capazes neste jogo de criar inúmeras oportunidades, tendo acertado em tudo o que mexia à frente da baliza, incluindo a linha de golo. Se quiserem ver pelos vossos próprios olhos o que a ansiedade é capaz de fazer, vejam a última jogada do jogo aqui.

No entanto, gostaria apenas de referir um ponto. Ouvi mais uma vez em pouco tempo os intervenientes do lado do FC Porto mencionarem que poderiam estar ali a noite toda, que a bola não entraria. Por mais que saiba que isso acontece num ou noutro jogo, não deixa de ser estranho quando começa a acontecer em vários seguidos. E os dragões já não marcam no seu estádio há 210 minutos. Todos nós temos azar, mais cedo ou mais tarde, mas, quando começamos a queixar-nos do azar repetidamente, começa a soar a desculpa de mau pagador...

Para quem quiser ver o chorrilho de oportunidades desperdiçadas:

Saturday, November 29, 2008

"Nem tão maus antes, nem tão bons agora"

Acabei agora mesmo de ler esta frase de Jesualdo Ferreira. Mesmo não sendo um dos maiores defensores do treinador do FC Porto, reconheço sem qualquer problema que era um homem com quem gostaria de ter uma conversa franca e aberta, sem os subterfúrgios de quem o quer apanhar num qualquer mal-entendido ou de quem não quer deixar entrever nada do que de menos bom se possa passar na sua casa. A sua frase de hoje serve-me de leitmotiv para escrever sobre o momento do FC Porto. Depois de um início de época algo tremido (as famosas três derrotas consecutivas com Dinamo de Kiev, Naval e Leixões, para além da copiosa derrota no terreno do Arsenal), a equipa azul e branca conseguiu por fim encontrar o seu rumo. Ainda longe de encantar os espectadores com o seu futebol (como aconteceu em alguns momentos da época passada), o plantel do Dragão já começa a dar sinais de outra atitude, acima de tudo.

Creio que uma justificação (forçosamente simplista) incluirá dois pontos fundamentais: o tempo e a estabilização. O primeiro ponto é algo que raramente existe no futebol, especialmente o português, pois esperamos sempre que o nosso clube, seja ele qual for, seja capaz de espezinhar todos os adversários - nacionais e europeus - em menos de um fósforo. Não queremos esperar por uma melhoria constante, pela integração de novos jogadores (muitas vezes, jovens), pela eventual alteração do modelo de jogo no caso da partida de um jogador fundamental na época anterior. Em contraponto, tenho de louvar os dirigentes das SAD dos três "grandes", pois todos eles foram capazes de resistir à tentação face a resultados extremamente pesados que todos eles sofreram ao longo dos últimos dois meses.

O segundo ponto terá necessariamente a ver, na minha opinião, com a estabilização do onze titular. Jesualdo conseguiu por fim reencontrar o seu caminho (parecendo estar muito tempo, talvez demasiado, transviado em relação aos seus princípios fundamentais), assentando cada vez mais numa equipa-tipo, com uma ou outra hesitação. Seja como for, a equipa parece agora muito mais identificada com o modelo de jogo que o treinador pretende implementar e já nem a saída de Lucho é capaz de impedir uma das melhores exibições da época do FC Porto, em pleno inferno turco.

Gostaria no entanto de alertar para algumas fragilidades dos dragões:
  • Rodríguez continua a não conseguir mostrar todos os argumentos que o notabilizaram na Luz. O jogador uruguaio, com efeito, continua a debater-se com enormes dificuldades para mostrar todo o seu potencial, em grande parte por jogar demasiado encostado à linha e por raramente ter liberdade de aparecer de frente para os seus opositores, dificultando em grande medida o seu arranque.
  • Hulk continua a ser o exemplo mais paradigmático de "besta/bestial". Tanto é capaz de reduzir os seus adversários a pó com a sua força e velocidade, como demonstra como é possível desperdiçar óptimas oportunidades de finalização ou de contra-ataque com o seu individualismo. Se o jogo na Turquia era à medida para as suas características, poucos jogos daqui para a frente contarão com um adversário tão voltado para a frente e tão desprotegido nas suas costas, o que nos leva ao terceiro ponto.
  • Sim, as famosas transições rápidas de Jesualdo têm funcionado melhor, sem dúvida. No entanto, o FC Porto raramente irá encontrar, ao longo do que resta da época, adversários tão adequados ao seu modelo de jogo. Na sua maioria, os azuis e brancos vão enfrentar equipas muito mais resguardadas, à espera do erro portista (que não tem sido raro, nesta temporada). As fragilidades do ataque continuado continuam à vista e por resolver. A ver vamos o que nos mostrará o jogo frente à Académica.
  • Lisandro. Creio que não faltará muito para podermos dar resposta a uma questão importante: custará mais dinheiro ao FC Porto aumentar o salário de Lisandro ou não o aumentar?

Thursday, November 6, 2008

Um balão de oxigénio

O FC Porto venceu nos derradeiros instantes do Dínamo de Kiev. A vitória em si, bem como todas as consequências que encerra, foi caída do céu. Em apenas vinte minutos, a equipa portista passou de uma hipotética quarta derrota consecutiva ao que já se apelida agora de "fim da crise". Pessoalmente, não creio que uma equipa possa de um momento para o outro passar de uma situação de crise para o patamar a que deveria pertencer.

Não obstante tudo isto, a vitória foi um alívio, não só pelo resultado em si, mas também pela forma como aconteceu - depois de mais uma bola no ferro enviada por Raúl Meireles, de o adversário marcar primeiro na primeira vez que foi à baliza de Helton (Jesualdo deixou finalmente a sua teimosia no banco), de o Dínamo ter enviado também uma bola ao mesmo poste, etc. Num ápice, os jogadores azuis e brancos passaram a estar convencidos de que a sorte voltara (Hulk até havia feito dois passes durante o jogo!). Esse alívio, essa remoção da frustação acumulada ao longo de uma semana e meia terrível, foi notório na expressão de Jesualdo na entrevista e dos jogadores quando ainda estavam em campo - abraçados, aos saltos, de braços apontados aos céus, como que a agradecer a divina mudança do vento.

Posto isto, continuo a não me desviar muito do que achava. A vitória de ontem foi extremamente importante, mas a crise não está (não poderá estar) ultrapassada - independentemente do resultado de Domingo, frente ao Sporting. O FC Porto continua com falta de soluções a vários níveis, apesar de ontem se ter aproximado bastante do onze que deverá ser titular nos próximos jogos, com a eventual alteração de Tarik por Tomás Costa. Pode ser que, deste modo, os dragões consigam fazer o que não conseguiram até aqui: estabilizar o seu modelo de jogo.

Gostaria por fim de destacar dois jogadores. O primeiro é Pedro Emanuel. Não tanto pelo que jogou, mas sim pela atitude e raça que emprestou à equipa, mostrando como jogar e explicando ao nível prático o que era a mística. Numa defesa tão volátil e necessitada de uma voz de comando, Pedro Emanuel fez aquilo que tão bem sabe fazer: entregou-se ao jogo, lutou, mesmo estando fora do seu habitat natural, e defendeu. O segundo jogador que gostaria de realçar é Pelé. Se Fernando tem cumprido muito razoavelmente com as suas obrigações, manifesta algumas limitações (o jogo de ontem evidenciou-as por demais) ao nível ofensivo e do controlo de bola. Após a entrada do ex-jogador do Inter, o FC Porto conseguiu ter alguém capaz de recuperar a bola e lançar contra-ataques através de passes longos, deixando de obrigar Raúl Meireles ou Lucho a recuarem para fazerem as chamadas transições rápidas. Da boa integração e desenvolvimento de Pelé (e de Tarik, já agora) poderá depender o futuro da equipa e do treinador a breve prazo.

Tuesday, October 28, 2008

Um Porto em lume brando

Desde a época de 2004/05 (a de del Neri, Fernandez e Couceiro, de má memória para os portistas) que o FC Porto não tinha tão poucos pontos para o campeonato. Estranhamente, tal não se deveu às deslocações que teve de fazer aos terrenos de Sporting e Benfica, onde por sinal até conseguiu empatar uma partida e vencer a outra. Pelo contrário, o resultado inclui um empate no terreno do Rio Ave e uma derrota em casa contra o Leixões. Pelo meio, vitória em Alvalade, empate na Luz, derrota estrondosa em Londres e em casa contra o Dínamo de Kiev. Em todos estes jogos, o FC Porto foi capaz de conciliar o melhor (a exibição na Luz foi muito bem conseguida, por exemplo) com o pior (a exibição de Londres é muito má e os sinais deixados nalguns outros campos não apontam para o melhor sentido).

É difícil, a tarefa de Jesualdo? Sem dúvida. Conseguir fazer uma equipa este ano terá sido das tarefas mais árduas da carreira do treinador portista. Ficar sem Bosingwa, Paulo Assunção e Quaresma no mesmo ano não é propriamente "pera doce", particularmente quando os substitutos são jogadores senão com menos valor, com um estatuto incomparavelmente menor.

Sapunaru está a atravessar um momento difícil, hesitando a atacar (logo, não dando profundidade a um sector já de si muito manco) e complicando a defender. A meio, quando se pensava que o substituto estava encontrado, e já depois de alguns elogios da praça pública e consequente renovação de contrato, eis que Fernando perde a titularidade. Paulo Assunção faz falta para dar ordem à equipa, algo que ninguém tem conseguido fazer melhor do que Fernando, para já. Na frente, alguns equívocos. Rodríguez virá ainda a dar frutos. É um jogador jovem, inteligente, mas a quem ainda falta alguma liberdade de movimentos e compreensão dos 4x3x3. Não obstante, tem sido por aí que o FC Porto tem canalizado o seu jogo, especialmente porque no lado direito não mora ninguém. Se, nos jogos grandes, Tomás Costa (uma excelente contratação) consegue fazer o lugar de extremo-direito para ajudar Sapunaru nas tarefas defensivas, nos jogos em que a iniciativa ofensiva pertence aos dragões, não há alternativas credíveis para o lado direito, um fenómeno tanto mais estranho quando essa foi a posição em que o FC Porto mais "despachou" jogadores.

Compreende-se mal que Farías nunca seja opção para Jesualdo, mas que Adriano, por exemplo, um jogador que já se relevou muito útil, não esteja sequer inscrito. Compreende-se mal que Tarik faça quase um jogo inteiro e desapareça da lista de convocados no seguinte. Compreende-se mal que se contrate Benítez, se mantenha Lino e se venda Cech, um jogador muito mais evoluído e inteligente. Por último, compreende-se mal que Hulk, ainda que dotado de uma força física notável, entre de supetão na equipa, quando é tão óbvio que está ainda muito longe de estar preparado, mental e tacticamente, para jogar no futebol europeu. Isto não significa que não possa vir a ser um bom jogador, num futuro próximo, mas, neste momento, contribui muito mais para a desorganização da equipa (ofensiva e defensiva) do que para bons resultados. Provas? Pense-se nos dois últimos jogos que o FC Porto efectuou, nos respectivos resultados e manobras ofensivas. Pessoalmente, vem-me um exemplo claro à memória. A partir do momento em que Jesualdo Ferreira tirou Rodríguez, não mais o FC Porto conseguiu criar espaços no lado esquerdo, lado pelo qual surgiram os dois últimos golos do Leixões (um dos quais mal anulado). Coincidência, porventura...?

Monday, September 8, 2008

Porque os grandes também se enganam...

...quanto mais eu. Sou razoavelmente conhecido no meu meio por não ser um dos maiores defensores de Jesualdo Ferreira, especialmente quando defronta equipas de valia igual ou superior, especialmente fora de casa, altura em que quase sempre opta por apresentar revoluções não só no onze titular como na forma de jogar da sua equipa. Não obstante, tenho de tirar o chapéu à estratégia que adoptou no último clássico entre FC Porto e Benfica. Mostrando conhecer de antemão o sistema táctico de Quique Flores (quanto a mim, estranhamente inflexível), o treinador portista foi inteligente ao colocar os seus jogadores em campo, comprovando perante milhares de (tele)espectadores que o Benfica tem ainda um longo caminho a percorrer.

Com efeito, o 4x3x3 foi colocado de lado em detrimento de um 4x4x2 extremamente moldável, consoante a equipa estivesse em posse de bola ou a defender. Com Fucile na esquerda para travar Di María ou Reyes, Fernando à frente da defesa para encurtar o espaço de acção de Aimar (tarefa que, neste momento parece impossível de executar por Guarín e que retiraria Raúl Meireles das transições rápidas que o treinador portista tanto aprecia), Tomás Costa imbuído de travar as subidas de Leo para que Sapunaru tivesse apenas de se preocupar com Reyes, o combate a meio-campo estava ganho, em termos práticos, uma vez que ainda sobrava Lucho e Meireles para a luta directa, tanto ofensiva como defensiva, com Carlos Martins e Yebda, ainda demasiado "verdes", na minha opinião, para conseguir dar seguimento ao sistema que Quique pretende impor.

É indiscutível que o penalty marcado aos 10 minutos deu ao FC Porto uma margem de manobra e um conforto que não teria tido, possivelmente, se não tivesse logrado colocar-se em vantagem tão cedo. Seja como for, tenho de admitir que Rodríguez foi quase sempre uma dor de cabeça para a defesa benfiquista, com as suas constantes diagonais para o centro do terreno e/ou subidas pelo flanco, sendo que Lisandro fez mais uma exibição muito bem conseguida, dando trabalho de sobra aos centrais benfiquistas e Lucho deambulou por todo o terreno, ofereceu boas combinações aos seus companheiros, deu uma ajuda a defender, sofreu e marcou o penalty e mostrou que qualquer dependência de Quaresma era mera fantasia. Confesso-me curiosíssimo por saber até que ponto a estratégia de Jesualdo frente ao Arsenal daqui por três semanas se revelará acertada. Todos nós acertamos uma vez. Os bons acertam mais do que erram.

Wednesday, August 20, 2008

3x3 - Parte II

Façamos agora uma viagem mais a Norte, rumo às paragens do Dragão.


Mais:

  1. Manutenção da estrutura. O FC Porto é campeão há três anos consecutivos e venceu a Liga dos Campeões e a Taça UEFA há muito pouco tempo. É um clube que tem um hábito e uma sede de vitória quase viciante. Os (poucos) jogadores da casa identificam-se quase por completo com o espírito guerreiro que reina no Dragão. O treinador ficou para o seu terceiro ano de reinado, situação muito rara para os lados das Antas, assim como uma boa parte do onze titular.
  2. Plantel. A equipa azul e branca continua a contar com jogadores muito acima da média, de Lucho a Lisandro, de Bruno Alves a Helton, incluindo naturalmente Rodríguez. Embora seja verdade que os bons jogadores por si só nada vencem, não há dúvida de que ajudam imenso.
  3. Apito Dourado. Por mais que a pena aplicada ao FC Porto não tenha tido resultados práticos na classificação das equipas (apenas a pontuação foi alterada), toda a controvérsia gerada em torno do mérito da equipa na conquista do campeonato e inerente lugar na Liga dos Campeões beliscou o brio do grupo, a avaliar pelas palavras de vários jogadores, especialmente o seu capitão, Pedro Emanuel. Arriscar-me-ia a dizer que o plantel do campeão vão ter algo a provar este ano, particularmente depois de mais uma derrota frente ao Sporting.

Menos:

  1. Campeões. Em todas as equipas habituadas a vencer, há sempre uma parte descendente do ciclo, um momento em que as diferentes vontades não se alinham. Parte dos jogadores quer rumar a outras paragens (falo especialmente de Lucho, Quaresma e Lisandro, por exemplo), parte sente-se menos motivada por já ter conquistado tudo o que havia para conquistar, dando origem a uma falsa sensação de superioridade face aos adversários, tendo em conta que os últimos três títulos foram parar ao mostruário do Dragão.
  2. Falta de alternativas. Se é verdade que o Benfica dispõe de poucas opções viáveis no banco, os suplentes do FC Porto ainda estão longe de mostrar que podem ser concorrentes à altura do onze titular. Bollatti, Fernando, Candeias, Tomás Costa, entre outros, ainda parecem estar uns furos abaixo do que é exigido ao campeão nacional, particularmente se tivermos em conta de que ainda terão de se adaptar à Liga dos Campeões, também. Vejo com alguma dificuldade a aposta quase exclusiva em jogadores estrangeiros, pouco ou nada identificados com o futebol nacional.
  3. Saídas. A partida de Paulo Assunção e Bosingwa, para além da saga de Quaresma sem fim à vista, deixaram o FC Porto órfão de muitos dos seus mecanismos. Creio que Jesualdo terá muitas dificuldades neste início de época, uma vez que Guarín defende bastante pior do que Paulo Assunção (apesar de conferir outra dinâmica ofensiva), o que obriga Lucho e Raúl Meireles a desdobrarem-se no apoio defensivo, desgastando-se e desposicionando-se para os movimentos ofensivos. Sapunaru ainda está longe de conseguir dar a profundidade ofensiva emprestada por Bosingwa - responsável por grande parte das saídas de bola da equipa, se nos recordarmos. Se Quaresma sair, efectivamente (o que me parece altamente improvável), as alas do FC Porto estarão substancialmente enfraquecidas.

Conclusão:

O FC Porto parece-me notoriamente enfraquecido, quando comparado com a época transacta. A equipa e o plantel estão mais desequilibrados e o onze titular afigura-se manifestamente superior às alternativas. Jesualdo continua a não conseguir apagar a imagem dos sucessivos falhanços nas alturas mais críticas e alguns jogadores querem sair. Pessoalmente, diria que este ano tem tudo para ser uma época difícil para o FC Porto, especialmente tendo em conta o calendário apertado logo ao início. Um mau princípio de ano poderá condicionar tudo, neste caso.

A história repete-se

O Sporting venceu mais uma vez uma Supertaça ao FC Porto. Nada poderia ser mais taxativo e repetitivo. Uma vez mais, a equipa de Jesualdo Ferreira perdeu uma competição a disputar num único jogo, demonstrando novamente enormes dificuldades contra adversários que saibam estudar bem os seus oponentes, como é o caso de Paulo Bento. Creio que se impõe que Jesualdo reflicta demoradamente nas suas estatísticas quando confrontado com o treinador leonino. Na verdade, os dragões parecem sempre deparar-se com inusitadas dificuldades sempre que jogam contra a equipa de Alvalade, especialmente ao nível táctico. Com efeito, o 4x4x2 do Sporting, com avançados móveis e defesas-laterais que sabem subir para apoiar o ataque, parece ser sempre demasiado complicado para o tradicional 4x3x3 do treinador portista, que parece sempre inventar quando não deveria, aparentemente.

Seja como for, tenho de admitir que o Sporting não fez o jogo fantástico que os seus adeptos querem fazer crer, muito pelo contrário. Na verdade, após os primeiros dez minutos, o onze verde e branco parecia completamente perdido em termos organizacionais - mais por seu demérito do que por mérito das investidas da turma das Antas. Rodríguez parecia ser o único com força e sentido de oportunidade para levar as suas intenções avante, sendo apenas parado pelas constantes faltas do meio-campo e defesa sportinguistas. Ao marcar o golo ao cair do pano da primeira parte, o Sporting ficou com uma mão na taça e não mais a largou.

Apesar da vitória, relembro que foi o próprio Paulo Bento quem referiu que o resultado não espelhava de forma justa a diferença entre as duas equipas, uma postura louvável e honesta, coisa rara nos treinadores de futebol. Na verdade, o Sporting pareceu-me ainda longe do seu esplendor organizacional e da sagacidade táctica que o seu treinador parece pedir sempre aos seus jogadores. Djaló marcou dois golos, é certo, é a coqueluche da nossa praça nos dias que correm, mas parece-me continuar a sofrer de longas ausências do jogo, deixando a equipa por vezes manca e recuperando o seu ânimo apenas quando as coisas lhe correm melhor.

Por seu turno, Farías continua a demorar a explodir de uma vez. Apesar das oportunidades que lhe têm sido dadas ao longo do tempo, o avançado argentino continua longe de impressionar treinador e adeptos. A opção de Jesualdo por colocá-lo a ponta-de-lança fez com que a equipa portista perdesse todas as referências e mecanismos, pois a rotina de jogar na frente com Lisandro, um jogador muito mais poderoso, móvel e rápido, perdeu-se por completo. Como tal, o FC Porto perdeu não só um extremo, mas também um ponta-de-lança, tendo sido possível ver os passes transviados de Lucho devido à manifesta falta de velocidade de Farías.

Pessoalmente, continuo a crer que o Sporting tem não só o melhor plantel, como o melhor treinador. Convém não esquecer que o orçamento leonino é manifestamente inferior ao orçamento azul e branco, o que atesta bem a capacidade de fazer mais e/ou melhores omoletes com menos ovos, com contratações acertadas e extremamente criteriosas. Pela minha parte, tenho enormes dúvidas quanto à adaptação de Guarín à posição 6 (foram notórias as suas dificuldades em grandes porções do jogo) e quanto aos laterais-esquerdos, todos eles com grandes debilidades num ou noutro nível, excepção feita ao adaptado Fucile. Creio que a recente aposta portista (quase exclusiva) no mercado sul-americano é muito arriscada, uma vez que a adaptação ao campeonato português é quase sempre demorada e, algumas vezes, nunca chega a acontecer efectivamente.

Wednesday, June 4, 2008

Um negócio da China

Nem sempre é fácil ter um blogue actualizado. Curiosamente, até há pouco tempo, debatia-me com a questão posta ao contrário, pois era da opinião que só uma pessoa muito pouco informada sobre o mundo da bola poderia criar um espaço sobre futebol em finais de Maio, quando a competição está prestes a esfriar (descontemos por instantes o fenómeno dos campeonatos europeu e mundial). E no entanto...

Hélder Postiga sempre foi um jogador diferente de muitos dos que vão enchendo plantéis de futebol. Sempre foi, confesso, um jogador cuja difereça tanto me atraía como me repugnava. Lembro-me perfeitamente do primeiro jogo que fez, no preciso dia em que fez 20 anos, a 2 de Agosto de 2002, contra o Atlético de Madrid (não me perguntem por que razão sei estas coisas, mas creio que deverá ter a ver com um desvio no cérebro para este tipo de questões). Ao vê-lo jogar, pareceu-me ver ali algo mais do que nas constantes promessas que vão surgindo nos inícios de época dos vários clubes. Pensei ver ali um jogador inteligente, um avançado no sentido mais lato do termo, e não apenas um ponta-de-lança. No fundo, uma espécie de versão actualizada e (bastante) melhorada de Domingos, o anterior ponta-de-lança "da casa". Nessa época, com o cargo de treinador ocupado por Octávio Machado (um dos insucessos da carreira de Pinto da Costa), o jovem jogador foi conseguindo impor-se paulatinamente, acumulando minutos e alguns golos, inclusivamente. Na época seguinte, já com Mourinho ao leme, Postiga mostrou muitas qualidades para um jovem de 21 anos, assumindo um papel importante na manobra ofensiva da equipa. No final desse ano, seria transferido por quase 9 milhões de euros para o Tottenham.

Esse momento parece ter prejudicado para sempre Hélder Postiga. A partir daí, apenas durante momentos mostrou ser o jogador que poderia ter sido, mau grado os seus constantes abaixamentos de forma. Num ano na liga inglesa, marcou um golo no campeonato e foi devolvido com carimbo de "reprovado" ao FC Porto, que fez questão de o ir buscar num negócio que rondou os cinco milhões de euros, incluindo a ida de Pedro Mendes, um dos jogadores mais subvalorizados da década no FC Porto, na minha modesta opinião. Postiga voltou, mas não voltou o mesmo. Com tiques e maneirismos de vedeta que sempre tinha demonstrado (mas que Mourinho sempre tinha conseguido controlar, fazendo mesmo referência no seu livro a alguns episódios), Postiga pareceu sempre querer mostrar que qualquer clube lhe devia agradecer tê-lo no seu plantel. Adriaanse, que tinha começado por apostar definitivamente nele, não o quis ver mais à frente e despromoveu-o à equipa B. Após um empréstimo ineficaz ao St. Etienne, voltou à equipa principal com a contratação de Jesualdo. Teve o seu oásis em meia época, marcando uma dezena de golos, e eclipsou-se para sempre, aparentemente.

Sempre reinvidicativo em campo (uma das melhores estórias de que me lembro sobre Hélder Postiga foi a escolha de Quaresma, pasme-se, de Postiga como o companheiro mais difícil em campo, por estar constantemente a reclamar com tudo e todos), o avançado de Vila do Conde foi perdendo espaço na equipa e nas opções do treinador, parecendo entrar sempre a contragosto e em velocidade reduzida. Resultado: empréstimo ao Panathinaikos, onde não foi propriamente feliz, tendo inclusivamente perdido o lugar para Manucho.

Todas estas incidências acabam por nos trazer à contratação de Postiga pelo Sporting, por 2,5 milhões de euros por 50% do passe. Neste momento, muitas das vozes portistas à minha volta que se fazem ouvir (incluindo a minha, tenho de admitir) mostram-se aliviadas. Com efeito, o FC Porto acaba por conseguir vender em condições vantajosas (numa futura transferência, o FC Porto recebe 50% da transferência; caso esta seja de pelo menos 6 milhões de euros, o Sporting terá de a aceitar ou pagar a parte correspondente) um jogador que prometia ficar "encalhado" durante muito tempo, permitindo também libertar-se de um dos salários mais chorudos e de uma má influência no balneário dada a sua atitude - nesse aspecto, um jogador nada "à Porto".

No entanto, creio que a história não acaba aqui. O negócio poderá ser bom para o FC Porto neste momento, mas eu esperaria até ao epílogo da questão. O Sporting contratou um bom avançado, com bons dotes técnicos, diferente de Liedson ou Derlei, que lhe tinha vindo a faltar há algum tempo. Postiga já demonstrou por diversas vezes ao longo do tempo que precisa de ser constantemente acarinhado, respondendo quando se sente protegido (Scolari é o melhor exemplo). Se Paulo Bento conseguir "apaparicá-lo" o suficiente nos momentos em que for ao banco, dando-lhe minutos de qualidade, Postiga é capaz de lhe retribuir. Por outro lado, o avançado sente que tem obrigatoriamente de arrepiar caminho, sob pena de ser votado ao esquecimento e a possibilidade Sporting aparece-lhe como uma excelente oportunidade de recuperar algum do prestígio perdido. Por último, o Sporting assum esta contratação antes de um Europeu onde Postiga poderá mostrar-se um pouco mais, podendo vir a oferecer-lhe um certo embalo para a próxima época.

Por estas e por outras, não creio que o balanço deste episódio possa ser feito de forma tão imediata. Esperemos pela época que se avizinha.

Thursday, May 29, 2008

O homem invisível

Paulo Assunção rescindiu unilateralmente o contrato com o FC Porto. A notícia surgiu hoje, quinta-feira, e promete aquecer alguns debates de café, blogs e fóruns. Acima de tudo, diria eu, discutir-se-á a questão da razoabilidade desta lei ou se a posição de Paulo Assunção é ou não justa, levando em consideração a questão interesses do jogador/lealdade ao clube. Pessoalmente, prefiro concentrar-me mais na vertente futebolística da questão.

O FC Porto conseguiu nos últimos anos uma hegemonia em tudo semelhante à que havia conseguido na decáda anterior. No entanto, esta hegemonia teve contornos bastante diferentes, não só porque teve episódios internacionais (destacando-se a conquista da Taça UEFA e da Liga dos Campeões), como também originou um maior êxodo de jogadores fundamentais para a estrutura. Basta relembrar que, nos últimos 5 anos, o FC Porto deixou de contar com Vitor Baía, Jorge Costa, Deco, Anderson, Pepe, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Maniche, Costinha, Derlei, McCarthy, Alenitchev, entre outros. No entanto, conseguiu sempre encontrar soluções para prolongar o seu domínio (a nível nacional, pelo menos).

É indiscutível que jogadores como Quaresma, Lisandro ou Bosingwa desequilibram muitas das vezes as contas a favor de um determinado clube. No entanto, e porque o mundo se rege sempre pela teoria dos opostos, é sempre necessário alguém que equilibre os pratos da balança. Durante os últimos três anos, esse alguém foi Paulo Assunção. Ao longo dos reinados de Adriaanse e Jesualdo, Paulo Assunção fez tudo o que havia para fazer na sua posição e conseguiu (com a ajuda da restante equipa, naturalmente) levar consigo uma estabilidade difícil de alcançar de outra forma. Quando o arrojado treinador holandês quis implementar o sistema de três defesas, obrigando Paulo Assunção a descer para segundo central ou a compensar as subidas de Bosingwa, Assunção não desmereceu, muito pelo contrário. Quando Jesualdo o quis devolver ao seu habitat natural e lhe pediu para ser o fiel da balança do seu 4x3x3, Assunção não hesitou. Na verdade, foi muitas vezes o seu papel que permitiu que Lucho e Raúl Meireles, respaldados por um homem que parecia sempre estar no sítio certo, fizessem uma pressão mais subida e, em situações de ataque, deambulassem por zonas mais avançadas, continuando também a compensar as subidas de Bosingwa.

Todas estas armas foram utilizadas por Jesualdo Ferreira de forma mais consciente e relaxada por saber que podia contar com Paulo Assunção, capaz de correr quilómetros e quilómetros, roubar inúmeras bolas e entregá-las "redondinhas" aos seus companheiros mais avançados.

Quanto a mim, por mais estranho que possa parecer à primeira vista, o desafio da substituição de Paulo Assunção será dos mais difíceis que se colocaram ao FC Porto nos últimos anos, superando em grande escala, na minha opinião, Anderson ou Pepe (apenas para referir as transferências da época transacta). Muito do êxito da campanha do FC Porto na época que se avizinha residirá na capacidade que o clube demonstrar em escolher um substituto à altura.